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15 anos depois, Heller lembra ouro em Atenas: "Batalha contra nós mesmos"

Janaína Faustino

29/08/2019 06h00

André Heller integrou a seleção brasileira que dominou o vôlei mundial nos anos 2000 (Foto: Divulgação/FIVB)

Há exatos 15 anos, neste mesmo dia 29 de agosto, a seleção brasileira masculina de vôlei conquistou o segundo ouro de sua história na Olimpíada de Atenas, na Grécia. O ano era 2004 e aquela medalha representava o ápice para uma equipe, vista por muitos como a melhor de todos os tempos, que exerceu amplo domínio naquela década, se transformando em uma máquina de produção de títulos em série.

Neste aniversário de 15 anos, o Saída de Rede conversou com um dos "elos", como ele mesmo coloca, daquele time. André Heller, meio de rede que se sagrou campeão de tudo com aquela geração e hoje atua como embaixador/coordenador do Vôlei Renata, de Campinas, relembrou alguns momentos daquela final contra a Itália, vencida por 3 a 1 (15-25, 26-24, 20-25 e 22-25), e falou, entre outros assuntos, sobre a importância da filosofia de trabalho e excelência implantada entre os atletas para que os objetivos fossem alcançados.

Confira a entrevista abaixo:

Saída de Rede – André, se você entrasse em uma espécie de túnel do tempo e voltasse ao dia daquela final, do que você mais se lembraria? Como foram as horas que antecederam aquela decisão contra uma Itália que tinha jogadores, como os opostos Andrea Sartoretti e Alessandro Fei, e que já tinha dado muito trabalho ao Brasil na fase classificatória [os brasileiros haviam derrotado os italianos apenas no tie-break na fase preliminar]?

André – Naquele momento, a final olímpica significava para nós muito mais do que uma vitória contra a Itália. Porque nós estávamos em um processo desde 2001 de conquistas de todos os campeonatos possíveis. Por mais que tenha acontecido a derrota no Pan-Americano de 2003, a gente encarava a nossa jornada até aquele dia como uma etapa de preparação para a "cereja do bolo", o "grand finale", que é o que todos os atletas do mundo almejam: uma medalha de ouro olímpica. Então, na verdade, a nossa maior batalha foi contra nós mesmos porque sabíamos que não éramos melhores do que os italianos, mas estávamos em um momento melhor do que eles.

O nosso período de preparação foi muito intenso e a nossa entrega foi tão grande que acredito que nenhum de nós tinha experimentado algo semelhante até então. Mesmo hoje, acho que nenhum de nós teve uma entrega parecida com aquela até hoje, cada um em sua atividade profissional. Era uma grande batalha, mas a gente tinha noção de que, fazendo o nosso melhor, seria só uma questão de tempo mesmo. Sem qualquer soberba, nós estávamos em um momento melhor e nos considerávamos muito merecedores daquilo tudo.

SdR – Então o nível de confiança estava lá em cima, né?

André – Sim, mas isso não significa que a gente estava com uma crença limitante, pensando 'ok, nós vamos ganhar'. A confiança era na vitória e no que a gente tinha feito até então. Não era possível fazer melhor do que aquilo. Sendo assim, era só a gente colocar em prática que a gente iria ganhar. O foco total era nisso, na apresentação do nosso melhor e assim aconteceu.

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SdR – Não existia algum tipo de fantasma internamente? Por exemplo, a própria Itália teve grandes seleções nos anos 1990 e nunca chegou ao ouro olímpico. A seleção masculina de Cuba também não chegou quando teve grandes equipes. Não existia esse fantasma de que a Olimpíada, sendo um torneio de tiro curto, se vocês acordassem mal poderia acabar tudo?

André – Nós entramos em um processo – todos nós, atletas e comissão técnica – de alta performance e excelência, mas não em relação aos resultados. Era uma excelência em relação ao que a gente fazia repetidamente todos os dias. E nessa atmosfera que nós construímos não havia espaço para fantasma. Claro que tudo poderia acontecer, mas só considerávamos uma possibilidade que dependia apenas de nós para se tornar realidade. E foi assim que aconteceu.

SdR – E quando você lembra daquele jogo, o que vem à cabeça? Algum lance específico, a preparação? Qual a primeira coisa que vem à sua mente sobre aquele dia?

André – Eu só tenho lembranças gostosas e fico até emocionado. Um jogo com muita alegria, muita confiança. Estávamos todos mais sincronizados do que nunca, a nossa comunicação ia muito além das palavras, os nossos olhares estavam conectados. Acho que essa é a palavra: conectados. Estávamos todos na mesma frequência e com a energia lá em cima, sabendo que tínhamos vivido uma jornada de quatro anos de muita entrega mesmo. Não vou falar de sacrifício porque eu não gosto dessa palavra, mas fizemos muitas escolhas importantes. Era uma corrente muito forte em que cada um de nós representava um elo. A probabilidade de dar errado, por mais que existisse, era muito pequena e a gente sabia disso.

SdR – E essa corrente não quebrou nem quando a Itália ganhou o segundo set, que foi o mais equilibrado daquela final, né?

André – Não, porque a gente tinha conhecimento de que a dificuldade fazia parte do caminho. E estávamos totalmente preparados, pois havíamos treinado quatro anos, enfrentando todo tipo de adversidade.

SdR – Então você poderia dizer que aquele 29 de agosto de 2004 foi o melhor dia da sua vida?

André – Em termos esportivos, sim, sem dúvida nenhuma. É difícil comparar com o nascimento dos filhos e outros eventos pessoais. É complicado comparar e separar. Não tem como me desconectar dessa questão. É muito profundo para mim porque a seleção e o voleibol transformaram a minha vida. E um componente bastante importante dessa transformação foi a medalha olímpica porque ela representa muito mais do que simplesmente uma medalha, um título ou uma conquista.

Ela representa um processo de excelência, doação, dedicação, engajamento. Representa tudo o que eu posso reproduzir e aplicar em outros contextos da minha vida. É como se a gente tivesse uma receitinha nas mãos, sabe? É uma coisa que a gente guarda de entrega, compromisso, saber trabalhar junto, entender como a gente se complementava e se completava. Para mim, isso é muito profundo. Essa medalha olímpica vai muito além.

Parece que eu estou romântico, mas, de alguma maneira, do nosso jeito, nós sentimos amor uns pelos outros lá dentro. Isso não nos impedia de brigar, discutir, ficar bravo um com o outro. Mas, dentro da quadra, com a sincronia, a comunicação… Isso não tem preço e é muito difícil explicar. Eu podia não estar no melhor dos meus dias, mas tinha certeza de que todos os meus outros companheiros me levariam junto. E isso acontecia com todos nós. A gente sabia que a força da equipe era bem maior do que os indivíduos. Era muito especial.

SdR – E isso não foi só um torneio, foi algo que durou muitos anos, né? Abrangeu Olimpíada, Liga Mundial, Campeonato Mundial, Copa do Mundo. Não foi esporádico, foi duradouro.

André – A nossa jornada durou dois ciclos olímpicos, né? E a gente nunca perdeu essa vontade de entregar todos os dias. As pessoas não tinham acesso aos bastidores e o que elas viam pela TV da nossa entrega e preparação, fazíamos em um nível muito superior no dia a dia. Isso permitia que a gente entrasse nos jogos com adversários, torcida e arbitragem, totalmente preparados e confortáveis. Porque a gente tinha se preparado para isso. Esses oito anos foram realmente muito especiais e eu não tenho dúvida de que foi para todos. A maioria não joga mais, mas tenho certeza de que, cada um na sua atividade, tem essa memória muito viva.

O ex-atleta hoje atua como embaixador/coordenador do Vôlei Renata (Foto: Divulgação/André Heller)

SdR – O vôlei é um esporte coletivo onde um depende fundamentalmente do outro para que aconteça uma jogada. Mas, individualmente falando, que conselho você dá para os jovens atletas que te procuram hoje?

André – Vou responder contando o meu caso. Desde o início da minha carreira, eu sabia que não era um talento do voleibol. Não estou brincando. Se você conversar com os meus técnicos vai comprovar isso. Só que em determinado momento da minha carreira eu pensei: 'ok, eu posso não ter um talento nato, mas eu tenho a capacidade de construir o meu talento através das minhas escolhas'. Então escolhi treinar muito, me capacitar, me preparar, ser bastante disciplinado.

Eu sempre escolhi seguir à risca o que os professores e treinadores me falavam. E isso foi me condicionando, elevando o meu nível até que consegui chegar à seleção brasileira e aconteceu tudo. Então a primeira mensagem que eu gostaria de deixar para todo mundo é que nós somos humanos e não é a maioria de nós que nasce com super talentos. Mas isso não impede que a gente construa o nosso talento e uma caminhada de excelência. E, de novo, excelência não é só um resultado, uma conquista. É o que a gente faz todos os dias repetidamente.

Isso é muito evidente no esporte. Frequentemente jogadores talentosos se perdem pelo caminho. Enquanto que outros, não tão talentosos, mas conscientes do nível de entrega, preparação, disciplina e estudo necessários, seguem em frente. Não tenho dúvida de que esses atletas que possuem esses conceitos bem claros, se sobressaem e até ultrapassam aqueles com talento nato. Tenho certeza porque sou um exemplo disso.

SdR – O Bernardo costuma falar sobre isso.

André – Sim, ele era um talento nato, foi medalhista olímpico e depois se tornou um dos maiores técnicos do mundo, se não for o maior. Então ele também é um caso de construção de talento. Eu acredito muito nisso porque já vi centenas de casos de profissionais que, através das suas escolhas, alcançaram sucesso, excelência e realização. Ao contrário de pessoas de talento que, por uma concepção equivocada de que aquilo é suficiente, acabam ficando para trás.

Colaborou Carolina Canossa

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Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.

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