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Fabi: "Ser comentarista se assemelha com ser atleta, é preciso treinar"

Carolina Canossa

08/11/2019 10h00

Apesar de algumas experiências quando ainda jogava, Fabi se tornou comentarista em 2018, quando deixou as quadras (Foto: João Cotta/TV Globo)

Jogadora de qualidade e dedicação reconhecidos nas mais de duas décadas em que foi atleta, Fabi tenta repetir estes atributos como comentarista de vôlei. Presença constante nas transmissões de vôlei do Grupo Globo/SporTv, e já devidamente escalada para diversos jogos da Superliga 2019/2020, que começa neste sábado (9), a ex-líbero diz não ter "pensado duas vezes antes de topar esse desafio". Vê, inclusive, semelhanças com a antiga profissão.

"A forma de ser comentarista se assemelha a de ser atleta. Você precisa treinar, se dedicar, tentar se superar e fazer sempre mais e mais", comentou Fabi, em entrevista ao Saída de Rede. "Espero ter um caminho longo para percorrer desse lado das câmeras e, de alguma forma, poder contribuir com o vôlei brasileiro", afirmou.

Na conversa, dedicada justamente ao novo momento de sua vida profissional, Fabi, 39 anos, conta um pouco de sua rotina, que há quatro meses inclui os cuidados com a filha, Maria Luiza, a responsabilidade de falar o que está, de fato, acontecendo em um jogo sem ofender um atleta que eventualmente jogue mal, as lições de Marco Freitas, técnico e parceiro nas análises, além de, claro, do Sesc-RJ, time que defendeu a maior parte da carreira e busca, depois de um resultado inesperado na temporada passada, a recuperação na Superliga 2019/2020.

Confira abaixo:

Saída de Rede – Ser comentarista era algo que passava pela sua cabeça quando você ainda jogava? Como surgiu a oportunidade?

Fabi – Enquanto eu ainda jogava, muitas coisas passaram pela minha cabeça sobre como seria minha vida longe das quadras. Recebi o convite para ser comentarista quando ainda estava jogando. Quando saí da seleção, eu tinha uma agenda que me permitia comentar jogos da seleção brasileira, o que permitiu viver essa experiência antes mesmo de se tornar minha nova profissão. Logo no início vi que aquilo poderia ser legal, mesmo com todos os desafios que uma nova carreira oferece. Não pensava que isso seria minha vida, mas imaginava que poderia ser uma hipótese, porque é algo que gosto. O vôlei é a minha vida, vivi durante 20 anos dentro das quadras, então falar de vôlei é algo que me dá muito prazer. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade enorme estar ali analisando. É preciso estudar muito, estar sempre atenta às notícias, analisar atletas que estiveram ao meu lado em muitas batalhas e adversários contra quem disputei grandes jogos. É uma experiência muito interessante. Assim que pintou o convite, quando parei de jogar, não precisei pensar duas vezes para topar esse desafio. Estou curtindo bastante.

 

Fabi conquistou dois ouros olímpicos com a seleção brasileira, em 2008 e 2012 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

SdR – Conte sobre a transição de "analisada", como jogadora em quadra, para "analista", em que você fica do lado de fora comentando o que está passando. O que foi mais difícil? Houve algum tipo de treinamento ou foi aprendendo com os jogos, quem mais te ensinou, etc?

Fabi – Sempre tive o costume de assistir aos jogos, às reprises das partidas e ficava sempre antenada com o que estava acontecendo, até para rever alguns lances e utilizar como forma de aprendizado. Era bacana escutar os comentaristas, sempre dando toques interessantes, e essa mecânica sempre me chamou atenção. Quando tive essa primeira experiência, vi o quanto era difícil estar ali, a necessidade de se preparar, ter sempre alguma coisa para falar e não ser repetitivo. Porque o vôlei é repetitivo, as coisas se repetem ao longo da transmissão e a gente precisa entender o timing certo para falar. Eu tenho a sorte de trabalhar com o Marco Freitas, que é um cara que sempre me ajudou nessa jornada. É um cara que está há mais de dez anos fazendo transmissões e é uma referência para todo mundo. Tive o privilégio de tê-lo como mentor e aprender, não só com ele, mas com toda a equipe nessa nova fase. A forma de ser comentarista se assemelha a de ser atleta. Você precisa treinar, se dedicar, tentar se superar e fazer sempre mais e mais. Espero ter um caminho longo para percorrer desse lado das câmeras e, de alguma forma, poder contribuir com o vôlei brasileiro.

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SdR – Como é sua rotina em dia de transmissão? Fica estudando em casa? Como conciliar o foco na nova profissão, em que você precisa estar sempre atualizada, com as necessidades de sua filha, que, como qualquer bebê, certamente demanda muito?

Fabi – É uma rotina muito interessante, porque cada dia eu tiro um tempo para ler as notícias, saber como estão os times e as seleções, acompanhar as competições nacionais e internacionais. É importante criar essa rotina para observar e ficar atenta. Criei uma pasta com arquivos sobre o esporte e vou atualizando a cada temporada. Isso me ajuda a ter dados relevantes para falar e é uma forma de acompanhar a evolução dos atletas e das seleções. Essa rotina teve que mudar com o nascimento da minha filha, que agora está com quatro meses. Tive o desafio gostoso de conciliar a maternidade e o meu trabalho.

 

Ex-líbero acredita na recuperação do Sesc-RJ nesta temporada Fabi conquistou dois ouros olímpicos com a seleção brasileira, em 2008 e 2012 (Foto: Divulgação/FIVB)

 

SdR – Como lidar com o compromisso com o público, em que você precisa falar que o jogador X ou Y está atuando mal, e as amizades que você estabeleceu ao longo de tantos anos no vôlei e nas quais uma crítica eventualmente pode ser mal interpretada pelos atletas?

Fabi – Fiquei 20 anos dentro das quadras e sempre tive o comportamento de alguém que é comprometido, de quem treina para dar o melhor. Hoje tenho o compromisso de ter uma opinião e falar aquilo que estou vendo. Tenho que interpretar, em cima da minha experiência, o que estou vendo naquele momento. Vou errar e acertar, isso faz parte da vida. Tenho muitos amigos no esporte, que vou levar para a vida. Tento ter senso de justiça. Sei que nem sempre vou acertar, mas vou fazer com a maior lisura possível, com a consciência tranquila. Temos que ter a certeza de que estamos desempenhando aquele papel da forma mais justa possível, esse é o compromisso que temos com o público. O vôlei tem um público fiel, que entende, que acompanha as competições e quer mesmo saber o que temos a dizer. Nem sempre será fácil falar certas coisas, mas tento sempre humanizar as minhas questões e ser justa, mesmo em um momento difícil. Tento fazer minhas análises e meus comentários com sinceridade e o máximo respeito.

SdR – O Sesc-RJ, equipe que você mais defendeu ao longo de sua carreira, vem de uma temporada ruim, onde pela primeira vez na história não chegou à semifinal. Como você analisa o time carioca e o equilíbrio de forças na edição 2019/2020 da Superliga?

Fabi – O Rio de Janeiro é um time extremamente vitorioso, que tem uma bonita história dentro do vôlei. Tive o prazer de participar durante 13 anos e contribuir para essa história incrível. É um time que mudou muito a minha vida, me deu a oportunidade de trabalhar sob o comando do Bernardinho e de sua comissão técnica. Tive a sorte de ser carioca e ter a oportunidade de defender o time da minha cidade durante tanto tempo. No ano passado, todo mundo ficou surpreso com essa ausência do time entre os quatro semifinalistas. É um time que se reforçou bastante para essa temporada, trouxe jogadoras experientes como a Fabiola e a Tandara, além da Amanda, que é uma atleta que passou mais de 10 anos no clube e retorna com status de jogadora de seleção brasileira. Certamente é uma equipe que vai brigar.

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Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.

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