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Wallace diz se arrepender de “17” no Mundial, mas critica detratores

Carolina Canossa

12/09/2019 06h00

Wallace atendeu o Saída de Rede durante um evento da Under Armour, seu patrocinador pessoal (Foto: Divulgação)

Que Wallace é um jogador de talento, ninguém duvida. Porém, a condição de ídolo do atleta, um dos principais destaques da campanha que culminou na conquista do ouro na Olimpíada do Rio, em 2016, foi abalada nos últimos anos por conta da forte polarização política no Brasil. Eleitor assumido de Jair Bolsonaro, o oposto virou alvo de torcedores que fazem oposição ao presidente por conta de suas opiniões, que são compartilhadas por outros atletas da modalidade.

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Em entrevista exclusiva ao Saída de Rede concedida durante o evento de um patrocinador pessoal, a marca de materiais esportivos Under Armour, Wallace diz não se arrepender de quase todas as atitudes que tomou fora das quadras nos últimos meses. A exceção fica por conta do gesto de apoio ao então candidato do PSL durante o Campeonato Mundial do ano passado: após a vitória sobre a França ainda na primeira fase da competição, ele aparece em uma foto fazendo o número 7 com as mãos, acompanhado pelo central Maurício Souza – outro bolsonarista assumido –, que fez o 1. O 17 foi interpretado como uma manifestação política por muitos fãs e rendeu uma bronca da comissão técnica, temerosa com polêmicas que pudessem abalar a equipe.

"Eu me arrependo de ter feito com a camisa da seleção, mas mesmo assim ali não ficou totalmente claro, pois todo mundo estava colocando um número, não tinha nada a ver com nada", afirmou o jogador, que se mostrou chateado com as pessoas que deixaram de admirá-lo por conta de suas opiniões pessoais. "Quem gostou, gostou, quem não gostou, eu vou fazer o que? Só não consigo entender como a pessoa não consegue diferenciar: 'Nossa, você era um ótimo jogador,  mas agora você não joga nada'. Só mostra o quão pequeno, a pessoa não consegue separar as coisas", declarou.

Gestos de Wallace e Maurício Souza no Mundial causaram polêmica entre torcedores (Foto: Reprodução/Instagram CBV)O bate-papo, claro, não se resumiu a isso. Fora do restante da temporada de seleções para que possa chegar descansado à Olimpíada de Tóquio, no ano que vem, Wallace também admitiu que teve uma queda de rendimento em quadra nos últimos meses por conta do cansaço decorrente do intenso calendário do vôlei, há anos alvo de intensas reclamações de técnicos e atletas.  "Não é uma desculpa, mas uma hora o corpo cobra", admitiu o jogador, que também falou da dramática conquista da vaga olímpica contra a Bulgária, no começo de agosto, do que o Brasil precisa melhorar se quiser levar, no Japão, o quarto título olímpico da história e da divisão de responsabilidade no ataque com a chegada do cubano naturalizado brasileiro Yoandy Leal e da volta de Ricardo Lucarelli, que não jogou o Mundial 2018 devido a uma lesão no tendão de Aquiles.

Confira o bate-papo completo abaixo:

Saída de Rede – Você se arrepende de ter aberto sua posição política tão explicitamente em um momento de polarização do país?
Wallace – Não acho que foi ruim o que eu fiz ou deixei de fazer. Isso cabe a mim. Agora, se a pessoa não tem o discernimento de separar uma coisa da outra, não posso fazer nada…

SdR – Mas você se arrepende?
Wallace – Não. Eu me arrependo de ter feito com a camisa da seleção, mas mesmo assim ali não ficou totalmente claro, pois todo mundo estava colocando um número, não tinha nada a ver com nada, mas foi só isso, nessa questão da seleção só.

SdR – O Renan (Dal Zotto, técnico da seleção) chegou a conversar com vocês?
Wallace – Foi só pra não fazer essas coisas, por conta da questão do banco e tal… (Wallace se refere ao Banco do Brasil, patrocinador da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei)

SdR – Você acha que o país está muito polarizado?
Wallace – Está. Eu evito ficar falando sobre isso porque uma vírgula errada, um "a" a mais e nego já quer ficar te batendo. Mas, sinceramente, não ligo. Quem gostou, gostou, quem não gostou, eu vou fazer o que? Só não consigo entender como a pessoa não consegue diferenciar: 'Nossa, você era um ótimo jogador,  mas agora você não joga nada'. Só mostra o quão pequeno, a pessoa não consegue separar as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

SdR – Como tem sido este momento de descanso, algo raro para um atleta de alto rendimento como você?
Wallace – Eu precisava deste momento não só de descanso, mas também um pouco mais de tempo com a família. Não lembro da última vez que eu tive um período tão longo de folga como o que eu estou tendo agora. Calhou também que a minha filha vai nascer no final de outubro ou começo de novembro, então tudo pesou na minha decisão sobre a seleção. Eu já tinha pré-definido isso com a Renan antes mesmo de começar a temporada de seleções e ele disse que "beleza", pois o principal objetivo era mesmo a classificação para a Olimpíada, o que nós conseguimos.

SdR – Você tem falado desta questão do cansaço com frequência no seu Instagram. Diria que chegou ao seu limite físico e mental?
Wallace – Eu acho. Não sei como os caras aguentam tanto tempo nessa batida: o Bruno, por exemplo, está aí na seleção desde 2008 e nunca o vi pedir pra parar. É um cara que tem que ser estudado. Com certeza, isso pesa, até na questão do rendimento. Muito se cobra: "O que está acontecendo com o Wallace?". Não é uma desculpa, mas uma hora o corpo cobra. Em nenhum momento eu me machuquei, mas é fato que o meu rendimento caiu. Não preciso esconder de ninguém. Mas, com esse período de folga, tenho certeza que vou dar uma revigorada para a próxima temporada, já no Sesc, e no que vem para a Olimpíada.

SdR – É uma questão interessante, porque você mesmo se cobra e percebe que o rendimento caiu…
Wallace – Isso é o que me arrebenta, pois sei que não estou rendendo o que tenho que render. E, às vezes, essa cobrança é capaz até de me atrapalhar. Eu tenho que botar na cabeça que é um processo natural, que todo mundo cansa uma hora, ainda mais na minha posição, que recebe tantas bolas. Só que eu não consigo botar na minha cabeça que é normal. Então, tenho que conversar muito com meu procurador, ele fala muito isso, que eu não sou uma máquina que vai estar sempre lá em cima. É só não acontecer em um momento como Olimpíada que está tudo certo (risos)

SdR – O próprio Bruno, que você citou, já se manifestou publicamente contra a intensidade do calendário do vôlei. Você concorda que alguma coisa tem que ser feita?
Wallace – Não tem espaço, né? Acaba a temporada de clubes e, se você chega numa final de Superliga, tem uma semana antes de se apresentar à seleção. O que você vai fazer com uma semana? Não faz nada! Neste quesito, tem que mudar. Você começa uma Superliga em novembro, faz um jogo por semana até janeiro. Aí chega em fevereiro, março, os caras querem atropelar as coisas colocando Copa Brasil, Supercopa, isso, aquilo… Chegando nas quartas de final, já são dois jogos por semana. Qual é o nexo? Cansa muito! Depois, na seleção, ainda tem muita viagem. Aí, quando acaba a temporada de seleções é uma semana ou duas e já volta pro clube.

Após período de descanso, Wallace espera voltar com tudo para a seleção (Foto: Divulgação/FIVB)

SdR – Falando em seleção, por pouco você não precisam disputar mais um torneio em janeiro, já que o Brasil teve um jogo tenso contra a Bulgária no Pré-Olímpico.
Wallace – Imagina parar as disputas de clubes para ir para a seleção jogar um Pré-Olímpico sul-americano? Ainda bem que conseguimos voltar pro jogo, porque os caras atropelaram a gente no primeiro e segundo set. Depois, no terceiro, os caras ganhando e eu tenso… Conseguimos "pegar o rabo da vaca" e puxá-la de volta, mas sabíamos que, se ganhássemos o terceiro set, eles não conseguiriam manter a mesma pegada. E foi batata, tanto que o quarto set foi 25-16! No tie-break, eles ainda abriram dois pontos no começo, o que pesa, mas conseguimos reverter no saque.

SdR – Foi um jogo mais psicológico do que tático?
Wallace – Foi. Eu acho que eles sentiram (a pressão), principalmente no quarto set. Quem joga contra o Brasil é meio que um franco-atirador, pois a obrigação de ganhar é nossa.

SdR – O que a seleção brasileira precisa mais trabalhar até a Olimpíada?
Wallace – Eu não sei o que será definido na questão de ponteiros, mas, se for mesmo a dupla de ataque (Yoandy Leal e Ricardo Lucarelli), teremos que trabalhar bastante o passe, senão perderemos muito jogo pelo meio, o que nos complicará bastante. Mas eu acho que o passe já melhorou bastante entre a Liga das Nações e o Pré-Olímpico, pois o Renan enfatizou muito isso (nos treinos)

 

Wallace defende o Sesc-RJ desde 2018 (Foto: Divulgação/SESC-RJ)

 SdR – Ao mesmo tempo em que a chegada do Leal e a volta do Lucarelli prejudica o passe pela característica técnica de ambos, é bom que você, que ganha mais dois companheiros para dividir a responsabilidade no ataque.
Wallace – É isso mesmo. Fica muito mais tranquilo mesmo, mas, por outro lado, o meio joga menos. Não que eles sejam ruins no passe, mas não são especialistas nisso e sim no ataque. É uma dor de cabeça pro Renan, eu não quero saber (risos)

SdR – Qual é a principal dica você queria ter ouvido dez anos atrás?
Wallace – Eu ouvi de tudo, mas acho que a questão da dedicação, de você se doar ao máximo. É o que falaria para quem está com vontade de chegar lá. Tem que se doar. Aí, a chance de você conquistar o que quer é alta

SdR – O que implica, inclusive, em abrir mão da vida pessoal muitas vezes…
Wallace – A vida no vôlei é curta, então você vai abrir mão de algumas coisas no começo, mas depois você será compensado. Dói ficar longe da família, mas são frutos bons que você vai colher lá na frente

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Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.