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Destaque do Mundial luta contra o racismo e busca afirmação como jogadora

Carolina Canossa

21/10/2018 10h00

Grande destaque do Campeonato Mundial feminino de vôlei, Paola Egonu, aos 19 anos, luta contra o racismo e busca se firmar como uma grande jogadora (Fotos: Divulgação/FIVB)

Por Janaina Faustino

Com apenas 19 anos de idade, ela viveu – e ainda vive – experiências pessoais e profissionais tão marcantes que, certamente, foram e serão decisivas na sua trajetória. Tão jovem, ela se tornou a maior pontuadora de todos os tempos em uma partida de Campeonato Mundial, ao colocar 45 bolas no chão na fantástica semifinal contra a seleção chinesa. Com este feito histórico, ultrapassou o recorde de 40 acertos de Yelena Pavlova na derrota da equipe cazaque por 3 sets a 2 para os EUA, em 2006. Como se não bastasse, também foi o grande destaque de sua seleção na conquista da medalha de prata, neste sábado (20), marcando 33 vezes e levando o prêmio de melhor oposta da competição. Sem falar que ainda terminou o Mundial como aquela com o maior número de acertos (324 ao total). No entanto, se engana quem pensa que os incríveis números da oposta italiana Paola Ogechi Egonu falam totalmente por si.

A história de vida marcada pela convivência extremamente dolorosa com o racismo, desde a infância, e pela tentativa de superação desta barreira através do esporte, parece dizer um pouco mais sobre esta oposta que hoje também desfruta do status de maior estrela do vôlei italiano e uma das maiores revelações mundiais recentes. Filha de mãe enfermeira e pai caminhoneiro, ambos imigrantes nigerianos que chegaram à Itália em 1992 e lá construíram a família – ela ainda tem dois irmãos –, Egonu cresceu ouvindo ofensas racistas e percebendo, por onde passava, olhares de condenação por causa da sua pele negra. Conta que já se acostumou com as vezes em que foi observada com ojeriza ou xingada enquanto fazia suas atividades mais cotidianas como, por exemplo, uma ida ao supermercado, uma caminhada pela rua ou no transporte público. Um dos piores momentos, no entanto, aconteceu aos 16 anos, na quadra do Treviso, um dos mais importantes clubes do voleibol italiano: os berros de ódio e a imitação do som de macacos vieram das arquibancadas, fazendo a atleta desabar. As "feridas", como ela certa vez colocou, mostraram que não há como (e nem por que, vale ressaltar) se acostumar com tamanha violência. Contudo, todo o choro e o sofrimento causados pela discriminação não a fizeram desistir.

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Egonu começou a jogar vôlei na equipe de Galliera, cidade próxima à Cittadella, província de Pádua onde nasceu, no norte do país. Promissora, logo foi parar no Club Italia, projeto desenvolvido pela Federação local com o objetivo de revelar novas joias. Nas competições de base, chegou a ser MVP no Campeonato Mundial Sub-18, vencido pela Azzurra, em 2015. Jogando pelo Club Italia, foi a maior pontuadora em uma partida (46) e também foi a atleta que mais colocou bolas no chão em uma temporada (553). Na última temporada de clubes, já atuando pelo Novara, foi a segunda melhor pontuadora do Campeonato Italiano e ganhou tanto a Supercopa quanto a Copa da Itália. E, na seleção principal já vem mostrando a sua capacidade, conforme o desempenho e os números comprovam.

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Apesar de já ter revelado que não se sente esperançosa de que a situação de discriminação racial vá melhorar por estar na seleção principal – sobretudo neste momento de avanço da extrema direita em várias partes do mundo, em que a intolerância cresce de forma retumbante, colocando a Itália no centro de uma das maiores crises imigratórias da História –, Egonu encara com prazer e responsabilidade o fato de vestir a camisa italiana. Demonstrando maturidade, ao mesmo tempo em que faz questão de salientar o orgulho de suas origens africanas e de sua negritude, a oposta também destaca a alegria por defender a Azzurra, e busca se firmar como uma grande jogadora. Reconhece a necessidade de evoluir como atacante, ganhar rodagem e mais experiência.

Para tanto, procura o máximo aperfeiçoamento técnico, contando com a ajuda do treinador Davide Mazzanti, que substituiu Marco Bonitta, no ano passado, aproveitando muito bem o legado deixado por seu antecedente. Com um jovem time nas mãos, Mazzanti vem realizando um importante trabalho tanto nos treinamentos quanto na motivação de todo o plantel. Visto pela imprensa italiana como um técnico conciliador que estimula suas atletas e que se permite envolver emocionalmente com a equipe, ele tenta extrair o melhor de suas comandadas, solicitando feedback sobre os treinamentos e sempre repassando instruções ao grupo. O sucesso deste método já pôde ser perceptível no desempenho e no vice-campeonato mundial da seleção, que não figurava entre as favoritas antes da competição e cujo trabalho ainda se encontra em processo, podendo render frutos ainda melhores nos jogos de Tóquio.

Assim, Paola Egonu é o símbolo maior de uma multiétnica e multicultural seleção italiana que, além dela, ainda conta com a ponteira passadora Miriam Sylla, descendente de imigrantes marfinenses, Sylvia Nwakalor, que também possui origens nigerianas, e a levantadora Ofelia Malinov, que tem raízes búlgaras. Uma equipe jovem que, "remando contra a maré", vem propor o caminho do respeito, da valorização à diversidade e da integração. Espera-se que Egonu permaneça resistindo ao ódio, como uma brava combatente, denunciando o racismo e outras formas de violência a fim de demarcar seu lugar no mundo e se consolidar como uma das maiores jogadoras de todos os tempos, que ela tem potencial para se tornar. Com apenas 19 anos, tanto talento e personalidade, alguém duvida?

 

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Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.