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Ricardinho exalta seleção campeã de 2006: “Ganhava já no aquecimento”

Sidrônio Henrique

2004-12-20T16:06:00

04/12/2016 06h00

No topo do mundo: Ricardinho celebra o bicampeonato mundial, conquistado no Japão (fotos: FIVB)

Naquela constelação brasileira que encantou o mundo na década passada, e que provavelmente chegou a seu ápice em 2006, sobravam estrelas. São poucos os que se arriscam a dizer quem era o melhor ali – sempre que era perguntado a respeito, o técnico Bernardinho insistia que havia 12 titulares. Mas para Doug Beal, treinador americano que revolucionou o vôlei ao introduzir a especialização nos anos 1980 e que desde 2005 comanda a USA Volleyball, organização que administra a modalidade nos EUA, alguém brilhava mais forte numa equipe com pesos-pesados como Giba e Dante, entre outros: era o levantador Ricardo Garcia. "O Brasil tem um time excepcional, mas Ricardo faz a diferença. Ele consegue sempre, mais do que qualquer outro levantador no mundo, deixar o time em condição de matar a jogada, distribui a bola como ninguém, numa velocidade incrível", afirmava o americano há dez anos.

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Para diversos técnicos ao redor do mundo, Ricardinho foi o maior levantador de todos os tempos. Sorte a do Brasil, que contou ainda com virtuoses na posição como William Carvalho e Maurício Lima, ter tido alguém como ele. Dez anos depois da conquista do bicampeonato mundial pela seleção brasileira, o capitão da equipe lembra-se de detalhes e exalta o conjunto: "Aquela geração estava voando realmente no Mundial 2006, parecia uma máquina", diz Ricardo ao Saída de Rede.

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O nível de excelência do time realmente impressionava. "Os jogadores já não precisavam mais se olhar em quadra para saber o que fazer", conta Ricardinho. Ele destaca que o Brasil fazia os adversários tremerem, sentirem o peso da camisa verde-amarela. "A gente se impunha, ganhava já no aquecimento", afirma o veterano, hoje com 41 anos, acumulando funções na quadra e nos bastidores do esporte. Atualmente, ele é capitão e também presidente do Copel Telecom Maringá Vôlei.

Neste sábado (3), o SdR relembrou os dez anos da conquista. Agora é a vez de trazer uma entrevista com Ricardinho sobre a seleção naquele torneio. Confira:

O capitão do Brasil ergue o troféu de campeão mundial

Saída de Rede – Você considera que, pelo nível de entrosamento dos atletas no final daquela temporada e pelo grau de sofisticação do jogo apresentado, a seleção brasileira que venceu o Mundial 2006 foi a melhor equipe que você viu?
Ricardo Garcia – Sem dúvida alguma, em 2006 a minha geração chegou a um nível de excelência absurdo. Os jogadores já não precisavam mais se olhar em quadra para saber o que fazer. Mesmo se viesse um passe ruim, eu já sabia onde estariam os caras, onde cada um se posicionava em diferentes situações. Acredito que naquele ano o time estava no seu melhor momento. Teve Atenas 2004 obviamente, a gente continuou crescendo até 2006, quando o time chegou a um nível em que a gente brincava em quadra. Claro que não vou comparar com outras gerações, isso aí fica a critério de quem acompanhou todas elas. Mas aquela geração estava voando realmente no Mundial 2006, parecia uma máquina.

Saída de Rede – Quais eram as principais características daquele time?
Ricardo Garcia – Muita velocidade. Não jogava tanto para pontuar no bloqueio ou no saque, mas sim numa virada de bola muito rápida e em contra-ataques também rapidíssimos. Nós contra-atacávamos praticamente na mesma velocidade do sideout.

Saída de Rede – De 0 a 10, que nota você daria para aquela seleção brasileira?
Ricardo Garcia – Sem dúvida alguma, nota 10. Se pudesse, dava 11. (risos)

O levantador no massacre sobre a seleção polonesa na final

Saída de Rede – Dando ao time a nota máxima, ainda é possível apontar alguma deficiência naquela equipe?
Ricardo Garcia – Havia uma luta constante por causa da nossa altura. Não éramos um time alto, tínhamos dificuldade contra algumas equipes no nosso bloqueio. E o Gustavo (Endres), que na época era quem comandava o time nesse aspecto dentro de quadra, às vezes me escondia. Havia tática diferente para cada jogo, para cada situação. Havia um responsável pelo treinamento da parte de bloqueio, na época era o Chico dos Santos, que comandava e articulava tudo isso aí, para a gente tentar brigar de igual para igual contra os gigantes. Era uma deficiência que nós tínhamos e que conseguimos suprir graças a um trabalho duríssimo do nosso treinador de bloqueio, o Chico dos Santos.

Saída de Rede – Quando o Brasil perdeu para a França na primeira fase por 1-3, você temeu que a conquista do torneio não fosse mais possível?
Ricardo Garcia – Esse jogo ficou marcado na minha memória porque era 19 de novembro, dia do meu aniversário. Lembro que antes do jogo eu havia chamado todo mundo para ir comemorar a data em um restaurante. A galera inteira foi para lá, a gente celebrou. Era como se tivesse sido uma vitória, mas era o meu aniversário. Aquilo ficou marcado, é até engraçado. Mas a equipe estava confiante. Em momento algum a gente achou que estava mal, tanto é que todos os jogadores foram ao restaurante. Em nenhum momento a gente sentiu que poderia perder o campeonato. Aquela foi uma daquelas derrotas que o grupo sabia assimilar muito bem, a gente acreditava muito no nosso potencial. Não era arrogância, não, tá. Tínhamos os pés no chão. Sabíamos que havia times que ofereciam perigo, sim, enfrentávamos isso com muita naturalidade, mas também com uma determinação muito grande.

Ricardo e o oposto André Nascimento celebram um ponto

Saída de Rede – A final contra a Polônia (um rápido 3-0) foi a partida mais perfeita que você viu a seleção fazer?
Ricardo Garcia – Aquele Mundial a gente jogava com os olhos fechados. A Polônia entrou para a final já derrotada… Tem uma situação que me lembro muito bem, antes do aquecimento o Serginho fazendo aquelas palhaçadas dele com a bola, jogando futebol. Nosso grupo estava bem tranquilo. Aliás, era característica daquele time, todo mundo era muito brincalhão. Cada um tinha um jeito de reagir, não havia um padrão e tudo isso era muito respeitado pela comissão técnica. Então a gente entrou para a quadra de aquecimento, antes da final, todo mundo chutando bola, brincando… Foi quando entrou a seleção polonesa já sentindo que não dava para eles, todos tensos, de cabeça baixa, enfileirados, um atrás do outro, em silêncio. A gente aproveitava esse momento, antes do jogo, e entrava forte contra os adversários, fazendo barulho para eles sentirem o peso da nossa camisa. A gente se impunha até mesmo antes, ganhava já no aquecimento. Você vai me perguntando as coisas e eu vou me lembrando de algumas situações… Mas foi realmente uma partida perfeita, uma das melhores que fizemos, assim como a final olímpica em 2004 contra a Itália, a semifinal olímpica diante dos Estados Unidos. A final do Mundial 2006 foi um momento em que a equipe estava muito tranquila, nem parecia uma final. Jogamos de uma forma muito sólida e conquistamos mais um título.

Saída de Rede – Aquele levantamento em velocidade para o oposto André Nascimento, feito após a linha de fundo, no quarto set da partida semifinal contra a Sérvia, foi o lance mais ousado que você já executou entre tantos na sua carreira?
Ricardo Garcia – Desde que eu comecei sempre tive essa característica de ousar, isso vem dos tempos de infantojuvenil. Agora brincam, dizem "ah, é gênio", mas antes eu era considerado maluco. Quando eu tinha 14 anos ninguém falava que eu era gênio, todo mundo dizia que era maluquice o que eu fazia. Eu sempre gostei de forçar o jogo. Aquela bola já havia sido treinada e ocorreram vários erros durante os treinos. A diferença foi fazer num jogo como aquele, numa semifinal do Campeonato Mundial. O André Nascimento já esperava aquela bola, sabia que ia receber o levantamento. Fiz coisas assim depois, por exemplo, quando joguei pelo Vôlei Futuro… Quem gosta de mim fala que é genialidade, quem não gosta diz que é loucura, pois é uma bola forçada demais. (risos) É gostoso fazer aquilo, é uma característica minha, não vou mudar. Sem dúvida foi um dos lances mais impressionantes da minha carreira.

Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.