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Mundial 2006: dez anos do título de um Brasil que encantou o mundo

João Batista Junior

03/12/2016 06h00

Seleção brasileira comemora durante a final do Mundial 2006 (fotos: FIVB)

Seleção brasileira comemora durante a final do Mundial 2006 (fotos: FIVB)

O ano de 2006 não trouxe muitos motivos para o torcedor brasileiro comemorar. No futebol, carro-chefe do esporte nacional, a decepcionante atuação do Brasil na Copa do Mundo culminou com a eliminação para a França ainda nas quartas de final. No basquete masculino, com apenas uma vitória em cinco jogos, a seleção sequer avançou à segunda fase do mundial. No vôlei feminino, o vice-campeonato no mundial do Japão tem a recordação amarga de mais uma frustração diante da Rússia de Gamova.

Serviram de alento, àquele ano, o honroso quarto lugar no mundial feminino de basquete no Ibirapuera, a prata de Diego Hypolito no Campeonato Mundial de Ginástica Artística e a boa primeira temporada de Felipe Massa na Ferrari – que deixou a esperança (jamais correspondida) de que um brasileiro conquistaria, em breve, um título na Fórmula 1. Mas a grande exceção naquele ano pálido foi a seleção brasileira masculina de vôlei.

Há dez anos, em 3 de dezembro de 2006, o Brasil conquistou o bicampeonato mundial de vôlei. Uma das raras seleções brasileiras em qualquer modalidade que souberam responder com títulos às expectativas de vitória do exigente (e, muitas vezes, injusto) torcedor nacional.

Vamos lembrar como foi a epopeia brasileira no Campeonato Mundial masculino de Vôlei do Japão 2006:

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Da esquerda para a direita: Ricardinho, Marcelinho, André Heller, Giba, Murilo, André Nascimento, Serginho, Samuel, Anderson, Gustavo, Rodrigão e Dante

Da esquerda para a direita: Ricardinho, Marcelinho, André Heller, Giba, Murilo, André Nascimento, Serginho, Samuel, Anderson, Gustavo, Rodrigão e Dante

OS 12 CAMPEÕES
Desde que assumira a seleção masculina, em 2001, Bernardinho contabilizava,
antes de subir a bola no mundial do Japão 2006, cinco títulos da Liga Mundial, uma Copa do Mundo, um título Mundial na Argentina e o ouro olímpico em Atenas. Da glória alcançada dois anos antes, três jogadores deixaram o elenco: os ponteiros Nalbert e Giovane, substituídos por Murilo e Samuel (promessa que nunca vingou, por conta de sucessivas lesões – o blog já falou sobre ele), além do levantador Maurício, que deu lugar ao veterano Marcelinho.

No mais, o levantador Ricardinho, os opostos André Nascimento e Anderson, os centrais Gustavo, André Heller e Rodrigão, os ponteiros Giba e Dante e o líbero Serginho estavam no time de 2004 e também em 2006.

(Aliás, neste domingo, o Saída de Rede traz uma entrevista exclusiva com um dos titulares desta conquista de uma década atrás.)

QUATRO VITÓRIAS E UM "TAPA NA CARA"
O Brasil estreou na sexta-feira, 17 de novembro de 2006, contra Cuba. O duelo valeu pelo grupo B do certame, que também tinha Grécia, Austrália, Alemanha e França. A equipe cubana era bastante jovem, tinha o central Simón (atualmente no Sada Cruzeiro), o oposto Yadier Sánchez (de curta passagem recente pela Funvic Taubaté), além do oposto Michael Sánchez e do atacante Pimienta, um dos dois únicos jogadores no elenco com idade acima dos 29 anos. O time caribenho deu algum trabalho, ganhou o primeiro set, mas tomou a virada e perdeu por 3 a 1.

Gustavo ataca contra o bloqueio do francês Vadeleux: única derrota brasileira

Gustavo ataca contra o bloqueio do francês Vadeleux: única derrota brasileira

A partida seguinte, uma fácil vitória por 3 a 0 sobre a Grécia, trouxe uma modificação em relação ao time escalado na estreia, com André Heller no lugar de Rodrigão. Os dois ainda se revezaram por mais alguns jogos como companheiros de Gustavo no meio de rede, mas esta formação acabou sendo a principal do Brasil no campeonato: Ricardinho, André Nascimento, Gustavo, André Heller, Giba, Dante e Serginho.

No terceiro jogo da primeira fase, um chacoalhão. Ou melhor, um "tapa na cara", como Giba definiria mais tarde. Meses antes, em Moscou, a França abriu 2 a 0 sobre o Brasil na final da Liga Mundial, mas foi incapaz de aproveitar a vantagem e evitar a vitória brasileira (o que adiou por nove anos seu primeiro título no torneio). Mas, no mundial do Japão, a virada foi francesa.

Contra um time que tinha como capitão o ponteiro Stéphane Antiga (técnico campeão mundial com a Polônia, em 2014), o Brasil fez 25-20 no primeiro set, mas sofreu com o saque adversário e perdeu por 3-1.

Mesmo com as vitórias por 3 a 0 sobre Austrália e Alemanha, a derrota para França indicava que a seleção brasileira entraria, de alguma forma, pressionada na segunda fase, já que esse revés acompanhou a contabilidade dos brasileiros no estágio seguinte. E isso, tendo pela frente as quatro equipes qualificadas no forte grupo C (Itália, Bulgária, EUA e Rep. Tcheca). A luta por uma das duas vagas nas semifinais prometia ser dura – e acabou não sendo.

NEM STANLEY, NEM KAZIYSKI, NEM ITÁLIA
Tendo os ponteiros William Priddy e Riley Salmon, além do oposto Clayton Stanley, os EUA conquistaram a medalha de ouro em Pequim 2008 batendo o Brasil na final. Mas, em 2006, com esses mesmos atacantes na equipe titular, o time foi pulverizado pela seleção brasileira (3 a 0).

(A diferença, talvez, é que o levantador norte-americano Lloy Ball estava em Pequim, mas não no Japão, e o armado brasileiro Ricardinho estava no Japão, mas não em Pequim.)

Sem muita cerimônia, Giba marcou 23 pontos e teve 63% de aproveitamento no ataque. Stanley, por outro lado, obteve cinco parcas anotações e, nas cortadas, pôs na quadra brasileira apenas um de cada três bolas que atacou.

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Depois de nova vitória em sets diretos – dessa vez, sobre a Rep. Tcheca –, o Brasil teria italianos e búlgaros pela frente.

Kaziyski em ação contra EUA, durante o mundial 2006

Kaziyski em ação contra EUA, durante o mundial 2006

A Itália era atual vice-campeã olímpica, era adversária de respeito, tricampeã nos anos 1990, contra quem o Brasil havia disputado partidas de mata-mata em três dos quatro mundiais anteriores – vitória italiana nas semifinais de 1990 e de 1998, troco brasileiro nas quartas de final de 2002.

Já a Bulgária havia sido pedra no sapato brasileiro nas duas Ligas Mundiais anteriores: abusando no saque, o time do ponteiro Matey Kaziyski e do oposto Vladimir Nikolov havia vencido a seleção na fase decisiva da Liga de 2005 e de 2006.

Derrotada pela Bulgária na primeira fase, o jogo contra o Brasil tinha caráter decisivo para a Azzurra. Quando a bola subiu, os italianos ofereceram alguma resistência, mas só no primeiro set. Em mais um dia iluminado de Giba no ataque, pontuando em duas de três tentativas nesse fundamento, e com Gustavo dominante no bloqueio, a seleção brasileira venceu por 3 a 0, garantiu vaga antecipada às semifinais e tirou a Itália do caminho.

O confronto diante da Bulgária, na última rodada da fase, serviria para definir quem enfrentaria a Polônia e quem pegaria Sérvia e Montenegro nas semis. Os búlgaros entraram com time misto, Kaziyski – melhor sacador da competição – pouco atuou e o Brasil, numa jornada meio preguiçosa, ganhou por 3 a 1, também descansando vários titulares nos últimos dois sets.

Derrota para a Sérvia de Vlad Grbic (10) complicou a Rússia já na estreia

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SEMIFINAIS
Das grandes seleções masculinas, faltou ao Brasil, apenas, enfrentar a Rússia naquele mundial de 2006. A explicação é que os sérvio-montenegrinos e os poloneses deram conta de evitar o avanço dos vice-campeões de 2002 às semifinais.

Logo na estreia do campeonato, o time de Sérvia e Montenegro aplicou um sonoro 3 a 0 sobre a Rússia, para não deixar dúvida de que os ex-soviéticos não teriam vida fácil no Japão. E na segunda fase do campeonato, num jogo de vida ou morte, a Rússia chegou a fazer 2-0 na Polônia mas tomou a virada e foi alijada da luta pelo título – teve de se contentar com uma modesta sétima posição.

Os sérvios fecharam a segunda fase com derrota para a Polônia e isso colocou os campeões olímpicos de 2000 no caminho do time de Bernardinho nas semifinais – o que foi péssimo negócio para a equipe dos Bálcãs.

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O Brasil venceu por 3 sets a 1, mesmo placar da vitória nas semifinais de 2002, contra a então Iugoslávia. O time dos irmãos Nikola e Vladimir Grbic contou com 17 pontos de Ivan Miljkovic, mas os atacantes brasileiros das pontas estavam com tudo: somados, o oposto André Nascimento e os ponteiros Giba e Dante marcaram 43 pontos de ataque, com 65% de aproveitamento para o trio nesse quesito. A vaga para a final veio num set definido em 25-12.

Na outra partida, a invicta Polônia, que também lutava pelo bicampeonato, venceu a Bulgária por 3 a 1 e chegou, pela primeira vez na história, a uma final de campeonato mundial – quando fora campeã anteriormente, em 1974, a fase final havia sido disputada por seis equipes em pontos corridos, passando a haver um jogo decisivo apenas a partir do Mundial da Itália, em 1978.

André Nascimento em ação contra Polônia

André Nascimento em ação contra Polônia

BICAMPEONATO
Pelo horário de verão de Brasília, eram 9h20 da manhã de domingo, 3 de dezembro de 2006, quando brasileiros e poloneses entraram em quadra, e 9h40 quando terminou o primeiro set. O Brasil só precisou de 20 minutos para fazer 1 a 0 sobre a Polônia, repetindo a parcial de 25-12 do último set da semifinal.

Para piorar a então melindrosa situação polonesa, perto do fim do primeiro set, o líbero Piotr Gacek, lesionado desde as semis, foi substituído pelo ponteiro reserva Bakiewicz, deslocado para a função.

Herói no mundial conquistado em casa, em 2014, o oposto Mariusz Wlazly foi o único polonês com dois dígitos na pontuação daquela partida de dez anos atrás – 12 pontos. Para a seleção brasileira, no entanto, tudo foi bem diferente.

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No passeio que virou a final do campeonato, o Brasil dominou com folga todos os fundamentos de pontuação: 41 a 29 em pontos de ataque, 9 a 4 no bloqueio, 4 a 0 em aces, e ainda ganhou 21 pontos em erros poloneses – concedeu 18.

Eleito o melhor do campeonato, Giba posa com troféu do Mundial 2006

Eleito o melhor do campeonato, Giba posa com troféu do Mundial 2006

Dante, melhor atacante da competição, marcou 11 pontos no jogo e obteve aproveitamento de 71% no ataque. Giba, MVP do campeonato, foi o passador mais visado pelo saque polonês e ainda assim assinalou 12 vezes no placar. E o canhoto André Nascimento, o atacante ideal na saída de rede para o levantamento acelerado de Ricardinho, foi o principal anotador da final, com 14 acertos.

O Brasil venceu o segundo set por 25-22 e fechou a partida com um 25-17 na terceira parcial.

Foi o último título mundial conquistado por aquela geração, uma das equipes mais brilhantes que o esporte brasileiro conseguiu reunir.

Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.