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“Tem sido difícil, mas era o certo”, diz Bernardinho sobre saída da seleção
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Sidrônio Henrique

Colocar um ponto final na sua história com a seleção masculina após 16 temporadas não foi fácil para Bernardinho. Dois meses depois de deixar o cargo, o técnico bicampeão olímpico e tri mundial, que hoje segue no comando do time feminino Rexona-Sesc, reflete sobre o peso da decisão. “Tem sido difícil, mas era o certo. É duro, mas era o correto”, afirmou ao Saída de Rede.

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Na segunda parte da entrevista ao SdR (veja aqui a primeira), Bernardinho fala ainda sobre seu papel na Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) de agora em diante (“não tenho cargo, sou um colaborador”), a relação entre clubes e seleção, a possibilidade de criação de uma liga independente no país, transmissões online e admite que, entre as inúmeras propostas que recebe do exterior, duas mexeram com ele.

Confira nossa conversa com Bernardo Rezende:

Saída de Rede – Qual a importância das transmissões online para a exposição dos patrocinadores?
Bernardinho – Todo tipo de visibilidade para os patrocinadores, desde que se respeitem as normas, é importante. Então as transmissões são fundamentais. Claro que é preciso se organizar, pois é um movimento conjunto. Não pode ser feito um contra o outro. Os clubes têm que ser beneficiados. Vivemos uma crise, ter patrocinadores é uma coisa cada vez mais difícil, então temos que pensar efetivamente nisso. Caso contrário, teremos um decréscimo de investimentos e, com isso, um empobrecimento dos clubes e do voleibol brasileiro, o que não é bom. E a seleção se alimenta dos clubes.

Bernardinho orienta suas atletas durante pedido de tempo (Alexandre Arruda/Rexona-Sesc)

Saída de Rede – Oito dos doze clubes da primeira divisão da Superliga masculina integram a Associação de Clubes de Vôlei (ACV)*. O que você acha da possibilidade de criação de uma liga no país?
Bernardinho – Tem que haver um sentido de liga efetivamente. Muitas vezes cada clube tem seus interesses próprios. Acho que se uma liga surgir atendendo o interesse de todos será bem-vinda, válida. Agora, tem que ter interlocução com a CBV, tem que conversar. Pode até ser que os clubes cheguem a um acordo e administrem a liga, né. Porém, autonomia para negociar não é tão simples. Se alguns dos clubes que estão de fora são importantes, como é o caso do Campinas (Brasil Kirin), então você vai ter que entender o porquê disso. Se é algo tão positivo, por que alguns times estão de fora?

Saída de Rede – Quais os empecilhos para a implantação de uma liga no Brasil?
Bernardinho – O que é uma liga? Uma liga é onde todos lutam, onde todos se beneficiam do bolo. Você briga na quadra, onde você tenta ganhar, só ali. O sentido tem que ser esse, não o de “ah, eu vou querer me beneficiar, eu vou querer prejudicar o outro”. E às vezes o que sinto que é uns clubes não têm interesse no benefício dos outros, olham somente para o interesse próprio. Então temos que fazer uma autoanálise, se realmente a intenção é nobre no sentido de criar uma liga onde todos de alguma forma se beneficiarão. Outra coisa são clubes que apenas chegaram, surgiram quererem também… Ah, calma! Vamos primeiro provar que nós temos condições de estar aí. Há uns com tradição, com história e têm todo o direito de pleitear uma posição de um comando maior, uma autonomia maior para traçar as diretrizes para o seu clube, para os times como um todo, para o campeonato, que já disputam há muito tempo, que é o caso de várias estruturas que estão aí há muitos anos, alguns há décadas. No caso do Rexona são 20 anos.

Técnico se irrita durante partida na Rio 2016 (FIVB)

Saída de Rede – De que maneira esse processo deveria se dar, caso a ideia seja levada adiante?
Bernardinho – Eu acho que, de alguma forma, é preciso pensar numa integração maior num primeiro momento e depois de muitos anos se tornaria isso, uma liga independente… Acho que os passos precisam ser dados. Tem que se pensar na forma de se fazer, se criar responsabilidades claras, punições também, para aquilo que não for cumprido dentro daquelas que seriam as normas. Não é somente criar e depois vem aquilo que é um pouco do sentimento do brasileiro, aquele paternalismo… “Ah, mas a Confederação (Brasileira de Vôlei) não tutela os nossos interesses”. Se é autonomia, então os clubes têm que ter autonomia e a capacidade de gerir a sua própria liga. Aí, acredito eu, a Confederação teria apenas a responsabilidade sobre questões técnicas, como a arbitragem, o regulamento. Mas todas as questões de patrocínio, de marketing seriam tuteladas por essa liga independente. Acho que tudo é uma questão de negociar, ninguém pode se furtar a debater o assunto, buscar soluções, o que for melhor para o voleibol.

Saída de Rede – Como é a relação entre clube e seleção?
Bernardinho – Muitas vezes vejo alguns clubes que têm certa dificuldade em colaborar com a seleção… Eu tenho até dificuldade de falar aqui, minha intenção é colaborar…  É que os clubes são muito importantes, mas a seleção é o carro-chefe do momento, as seleções… Por quê? As seleções formam os ídolos nacionais que os clubes vão querer contratar. “Ah, mas o jogador fica muito tempo na seleção, isso e aquilo”. Mas se o jogador não ficar muito tempo, e o tempo que ele fica lá é necessário para ter um grande resultado, o clube não vai se beneficiar. E sem os ídolos, os clubes não vão ter patrocínios. Isso é um fato. Então às vezes, sabe, há uma forma de se justificar totalmente equivocada. Seleção é o carro-chefe e os clubes são muito necessários e importantes. Eu digo isso porque eu estou à frente de um clube e não é há pouco tempo. A gente tem que entender que sem os ídolos da seleção os clubes não terão condições de se sustentar, pois os patrocinadores querem os grandes ídolos aqui no Brasil.

Saída de Rede – Quando você diz que alguns clubes têm dificuldade em colaborar, vê isso ocorrer mais no masculino ou no feminino?
Bernardinho – Um pouco mais no masculino.

Segundo o treinador, Taubaté não liberou Lipe para uma excursão com a seleção em 2015 (FIVB)

Saída de Rede – Por exemplo…
Bernardinho – Taubaté é um caso especial, com um dirigente bastante peculiar, que é o Ricardo Navajas, que eu não tenho nada contra. Muito pelo contrário, ele faz o trabalho dele, respeito o trabalho dele lá, mas ele nunca teve uma posição de colaboração. Prejudicar nunca prejudicou, agora nunca foi um cara que veio “ah, vamos apoiar”. Ele tem que entender que os ídolos do Taubaté são ídolos que foram feitos na seleção. Veja o Lucarelli… Ele não surgiu lá. Surgiu no Minas (Tênis Clube), depois foi pro Sesi, aí na seleção começou a ter mais maturidade e depois foi pra Taubaté. O Lipe (atualmente no voleibol turco, no Halkbank Ankara) longe de ter começado lá, como tantos outros, o Wallace, o Éder… Há de haver um entendimento sobre essas coisas, é preciso ter um equilíbrio. E a seleção… Eles falam “ah, a seleção quer ter mais tempo”. Mais tempo para se preparar. Em 2015, por exemplo, teve jogador que ficou de fora de uma excursão importante (aos EUA e à Europa), caso do Lipe, porque Taubaté não liberou. A excursão era importante porque fomos impedidos pela Federação Internacional de Vôlei de participar da Copa do Mundo e aquela era a última chance da gente avaliar a equipe na temporada. Eles (Taubaté) pressionaram para não participar, tanto é que o Lipe não viajou.

Saída de Rede – Essa resistência de alguns clubes é pelo desgaste do atleta, risco de lesão? O que eles argumentam?
Bernardinho – O argumento é sempre alguma coisa desse tipo, que os clubes têm mais competições, que é preciso… Digo os clubes de uma forma geral. Claro que no final há o bom senso, você tem o equilíbrio da temporada como um todo… Eu falei desse exemplo (do Taubaté), mas você tem isso nos clubes de uma forma geral, eles têm essa questão da disputa por espaço. As seleções têm que ter um espaço importante para as competições. Contusão acontece na seleção e acontece no clube. Nós todos temos que ter o bom senso de fazer aquilo que deve ser feito. Quando os jogadores se machucam nos clubes, o que acontece eventualmente, a seleção não fica “ah, olha os caras…”. Não, no alto rendimento isso pode acontecer, não é verdade? Terminou a Olimpíada do Rio, apesar de um sentir algo aqui e outro ali, todos estavam aptos a jogar, como jogaram até a final. Numa competição intensa, dura, dia sim, dia não, logo depois de uma Liga Mundial, onde nós chegamos a final também.

“Seleção é o carro-chefe, é fato” (FIVB)

Saída de Rede – Qual a saída para esse impasse?
Bernardinho – Que haja um entendimento que todos são profissionais competentes nos clubes e nas seleções. A intenção da seleção é ganhar títulos. Ao ganhar títulos e formar ídolos, a partir dessas conquistas, com a visibilidade que a seleção tem, os clubes se beneficiam disso, obviamente. Os clubes têm o papel de desenvolver esses jogadores. Sem os clubes as seleções não terão seu processo de alimentação realizado. As seleções precisam dos clubes. É importante que haja entendimento e que um colabore com o outro. Quanto mais as seleções forem vitoriosas e mais os clubes brasileiros desenvolverem grandes atletas e com isso atraírem patrocinadores, melhor para todo o movimento, nós vivemos disso. O problema às vezes é querer olhar apenas para o próprio umbigo. A gente tem que ter uma visão mais do todo, da importância de todos nesse processo. Somos todos peças de um grande mecanismo, mas o mesmo mecanismo, o voleibol brasileiro. Eu não tô agora mais na seleção, mas não adianta, é o carro-chefe, é fato.

Saída de Rede – Como foi deixar o cargo de técnico da seleção masculina depois do ouro na Rio 2016?
Bernardinho – Foi difícil… Mas aquilo nunca foi meu, eu era parte daquilo. Não era um feudo meu, estive lá por um tempo, os resultados foram satisfatórios, afinal fui mantido por um tempo até bastante longo, mas terminou. Agora eu vou colaborar naquilo que for pedido. Se quiserem a minha colaboração, jamais deixarei de colaborar com a seleção e principalmente com o Renan, que no caso está lá hoje e que é um irmão que a vida me deu. Ele é um cara excepcional, uma figura humana de primeiríssima qualidade. Eu tenho certeza que o trabalho dele vai ter um êxito incrível, numa nova forma de fazer. Claro que há um alinhamento, ele conhece muito, estava ali bem perto de todos nós, mas são coisas novas, situações novas.

Sobre Renan: “Figura humana de primeiríssima qualidade” (arquivo pessoal/Renan Dal Zotto)

Saída de Rede – Agora como coordenador técnico, até onde irá sua participação na seleção masculina?
Bernardinho – Na verdade eu não sou nada, sou um colaborador.

Saída de Rede – A CBV anunciou seu nome nesse cargo de coordenador técnico quando o Renan foi apresentado como novo treinador.
Bernardinho – Não, eu não tenho cargo, sou um colaborador. Fui chamado para uma reunião com todos os treinadores, fui lá na CBV, dei os meus pitacos, opiniões, falei, participei… Sempre que eu for chamado e tiver a possibilidade de ir, estarei lá. Agora, não é simples sair, tem sido difícil, mas era o certo. É duro, mas era o correto.

Saída de Rede – Você continua recebendo propostas do exterior?
Bernardinho – Muitas.

Saída de Rede – Alguma te balançou?
Bernardinho – Só as dos Estados Unidos me balançaram. Não pela proposta financeira, mas as possibilidades que elas abrem. Tive também da Europa e da Ásia, mas essas dos Estados Unidos mexeram comigo, vindas de duas universidades.

Saída de Rede – De quais universidades?
Bernardinho – Não quero dizer até porque há treinadores trabalhando lá. Mas me interessa porque envolve a questão da educação, combina área acadêmica e esporte. Isso é algo que eu não tive quando estudante. Eu me formei em economia (em 1984, na PUC-Rio) e queria fazer uma pós-graduação fora. Então poderia ter essa possibilidade agora. E também pelas meninas, minhas filhas (Júlia e Vitória), para elas também seria uma oportunidade interessante. Não tem sentido eu largar a seleção brasileira, uma seleção como essa, para dirigir um grande time na Europa. Que sentido isso tem, não é verdade? Se fosse para treinar um desses times, eu continuaria na seleção.
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*Sada Cruzeiro, JF Vôlei, Montes Claros, Funvic/Taubaté, Copel Telecom Maringá, Lebes Gedore Canoas, Sesi e Bento Vôlei integram a Associação de Clubes de Vôlei (ACV)


Mari: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”
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Sidrônio Henrique

A oposta do Bauru diz que está super tranquila (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

A silhueta esguia surge no corredor que dá acesso à quadra e os fãs que aguardam a loira de 1,90m se agitam ao vê-la de longe, chegando para o treino. Quase cinco anos depois de ter vestido a camisa da seleção brasileira pela última vez, a ponta/oposta Marianne Steinbrecher, 33 anos, ainda causa frisson entre os aficionados por voleibol. É quase impossível ignorá-la, seja por sua simples presença, seja por sua história representando o Brasil.

Foi do céu ao inferno mais de uma vez. Muito jovem, 21 anos recém-completados, marcou 37 pontos na tragédia de Atenas, em 2004, a semifinal olímpica em que o Brasil desperdiçou sete match points e viu a Rússia avançar à final. Começava ali um calvário que acabaria quatro anos depois, na sua maior conquista, o ouro olímpico em Pequim. Calou seus detratores como titular absoluta em uma equipe esférica, beirando à perfeição. Contusões, cirurgias, o corte antes de Londres 2012… Uma carreira atribulada, mas Mari sempre ressurge.

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A forma atual, ela admite, não é a ideal, mas segue se esforçando, lutando contra as limitações físicas. “Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande”, disse ao Saída de Rede.

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O modo como o voleibol feminino é jogado atualmente não a agrada muito. “Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo”. Sobre a renovação na seleção, Mari torce pelo sucesso do time, mas foi taxativa: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”.

Atualmente revezando-se com Bruna Honório na saída de rede, ela tenta ajudar o Genter Vôlei Bauru, clube que passou a integrar em novembro do ano passado, a chegar à semifinal da Superliga, na segunda temporada da equipe na primeira divisão. Logo mais, às 20h30, em Belo Horizonte, o Bauru entra em quadra como visitante contra o Camponesa/Minas para a primeira partida da série melhor de três das quartas de final.

Veja a entrevista que Marianne Steinbrecher concedeu ao SdR:

Saída de Rede – Os fãs ficam muito agitados quando te veem. Faz tempo que você não joga pela seleção, mas segue sendo assunto nas redes sociais e chama muita atenção nos ginásios. A que você atribui isso?
Mari – Acho que simpatizam comigo porque sou uma jogadora diferente. Mas sou mais séria na quadra, fora dela sou completamente diferente do que quando estou jogando. As pessoas não sabem, acham que sou assim o tempo todo e não é verdade, sou brincalhona. Quem me conhece, sabe. Então eu acho que esse jeito diferente, aparentemente mais frio, causa essa curiosidade, né. Também o fato de eu não ser uma brasileira típica. Essas coisas me deixam bem diferente da maioria das jogadoras.

Mari na semifinal de Atenas 2004: bloqueando Gamova e no chão após a derrota (fotos: FIVB)

Saída de Rede – Como avalia seu atual momento na carreira? Está jogando do jeito que gostaria? Como vê sua participação no Bauru?
Mari – Tô voltando numa situação atípica, fiquei muito tempo parada depois da morte do meu pai (1º de abril de 2016). Eu vim num esquema diferente delas (aponta para as colegas de time, na quadra). Eu tenho alguns, não digo privilégios, mas algumas coisas que eu resolvo com o Marcos (Kwiek, treinador do Bauru). Eu tenho que ver minha mãe, que agora é uma senhora paraplégica que mora sozinha (vive em Rolândia-PR, cidade onde a paulistana Mari foi criada), eu tenho todo um esquema um pouco diferente. Mas eu não deixo de treinar, eu treino igual a todo mundo. Eu vim depois, né. Cheguei ao time em novembro, então até eu entrar em ritmo de novo… Até hoje eu não peguei ritmo de jogo. Eu vinha jogando, mas aí eu machuquei o abdome, fiquei um bom tempo parada. Agora tô voltando a treinar. Ainda não estou como eu gostaria, por não ter ritmo de jogo e ter tido também essa lesão no abdome, que me deixou um tempo afastada.

Redenção em Pequim 2008: ouro (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você teve muitas lesões ao longo da carreira. O quanto elas te atrapalharam? Te fizeram mudar a forma de jogar?
Mari – Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Eu tive uma lesão na perna esquerda (joelho esquerdo, em 2013) que eu nunca mais pude cair me apoiando nela como fazia antes, isso me deixou muito travada. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, pensar muito mais para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande. Então foi toda uma adaptação, levou pelo menos dois anos para hoje estar um movimento mais natural. Eu tive vários problemas que a maioria das jogadoras não teve. Tive uma cirurgia no ombro direito ainda muito nova, depois demorou a recuperar. Em 2008 eu já estava OK, mas você tem que ficar sempre cuidando. Teve a cirurgia no joelho direito em 2010, que me tirou do Mundial. Leva sempre um ano (de recuperação) para você estar bem. E nunca mais você fica 100%, você volta bem, mas nunca mais é o joelho como a gente nasceu. Foram várias coisas… Eu aprendi muito a ter superação diante desses problemas. Isso me fez crescer muito como atleta, como pessoa.

Saída de Rede – A temporada anterior, parte na Itália, depois na Indonésia, onde o nível é mais baixo, te atrapalhou de alguma forma?
Mari – Não, foi ótima. O nível delas (jogadoras indonésias) não é o nosso nível, mas o das estrangeiras que vão para lá é muito bom. Tinha as chinesas, jogadoras da seleção delas, que disputaram duas Olimpíadas, e jogaram lá também. A Logan Tom (ponta americana), que estava no meu time, ela estava muito bem. As estrangeiras são diferenciadas, a cobrança em cima da gente na Indonésia era muito grande. Lá a gente atacava 80, 90 bolas por jogo. Se fizéssemos menos de 30 pontos, eles achavam que a gente jogou mal. É um outro tipo de pressão, então fisicamente você tem que estar o tempo inteiro bem. Treinava e jogava sexta, sábado e domingo, não tinha folga… Eles são assim, um pouco fora do normal. (Risos)

No ataque: lesões mudaram sua forma de jogar (fotos: Neide Carlos/Genter Vôlei Bauru)

Saída de Rede – Você ficou decepcionada por não ter sido lembrada na convocação da seleção no ano passado?
Mari – Não chegou a ser decepção porque não esperava nada, não espero nada, mas eu acho que poderia ter sido lembrada pela fase em que eu estava. Eu vinha bem, fisicamente muito bem. Fui pra Indonésia por falta de pagamento (na Itália), não por opção minha. Naquele período não tinha um time pra eu poder me encaixar. Até havia outros times, mas financeiramente não estava valendo a pena em comparação com o que a Indonésia me ofereceu. E eu estava vindo de uma situação sem receber, então não podia pensar só onde jogar, mas na parte financeira também. Eu fiquei mais de cinco meses sem salário na Itália, tendo despesas em euro, e o euro estava quatro e pouco em relação ao real… Tive que optar pela situação financeira que a Indonésia estava oferecendo.

Saída de Rede – O Bolzano (clube italiano pelo qual ela jogou metade da temporada passada) pagou tudo o que te devia?
Mari – Não, não…

Saída de Rede – Eles propuseram algum acordo?
Mari – Eles tão pagando muito picado, sabe. Já tem mais de um ano e até hoje eles me ligam e falam “vamos pagar um pouquinho aqui”. Eu já entendi que eu nunca vou ver a cor do dinheiro realmente.

(Nesse momento, Paula Pequeno, do Terracap/BRB/Brasília Vôlei, que havia treinado e se alongava noutro canto do ginásio do Sesi, em Taguatinga (DF), chega e dá um abraço e um beijo na ex-colega de seleção. As duas foram as ponteiras titulares em Pequim 2008, quando o Brasil conquistou seu primeiro ouro olímpico no vôlei feminino, numa campanha invicta, com oito vitórias e apenas um set perdido.)

Batendo papo com as colegas de time durante intervalo do treino

Saída de Rede – Você já pensou em parar ou faz planos de jogar até uma determinada idade?
Mari – Hoje em dia não tô mais pensando muito nisso, não. Eu acho que fisicamente, apesar dos contratempos, ainda tô super tranquila pra jogar. Tudo depende mais da cabeça hoje em dia, né… Eu vou fazer 34 anos e o que pesa mais não é a parte física, mas sim a cabeça. Sabe, você estar querendo fazer outras coisas, estar descobrindo outras coisas e o vôlei passa a não ser mais o principal foco… Mas eu ainda não cheguei nesse ponto. Quando chegar nesse ponto, vai ser o momento em que vou falar “não quero mais”.

Saída de Rede – Seu contrato com o Bauru vai até o final desta temporada. Onde você se vê na próxima? Pensa em renovação com o clube?
Mari – Eu espero continuar.

Saída de Rede – O que acha da renovação na seleção feminina, das novas jogadoras que substituirão a sua geração?
Mari – Eu acho que o vôlei, comparando a nossa geração com essa de hoje, virou um voleibol masculino: só força, porrada, você não vê mais jogada, você não vê mais jogadoras habilidosas, não vê levantadoras como Fofão e Fernanda Venturini. Pra mim, o vôlei feminino virou um vôlei, digamos, um pouco mais feio. Mais forte, porém mais feio. Modo de dizer, não que seja um vôlei feio. (Risos)

Durante aquecimento na Superliga, ela aguarda sua vez de atacar

Saída de Rede – Com mais potência, com ênfase na parte física?
Mari – Exatamente. Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo. Então nossa renovação está… No mundo, né, no geral tá sendo muito isso.

Saída de Rede – Você acha que as jogadoras jovens cotadas para a seleção podem ajudar a manter o Brasil em alta?
Mari – Ai, prefiro não opinar porque a gente não sabe o que pode acontecer… Assim como minha geração foi um pouco desacreditada, de 2005 até ganhar o ouro olímpico em 2008… Depois na Olimpíada seguinte elas ganharam outro ouro, sabe, esse grupo em que ninguém acreditava, que era chamado de geração amarelona e tal. Isso pode acontecer com essa geração nova. Eu torço pra que isso aconteça, que vençam. Porém, acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração. É pouco provável ter tantas atletas naquele nível nessa geração que está chegando.


Moreno: primeiro ídolo surgiu antes do boom do vôlei no Brasil
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Sidrônio Henrique

Antes de amistoso contra a China, em Santo André (SP), em 1978, Moreno recebe homenagem pela partida de número 300 pela seleção. Chegaria a 366 jogos (fotos: arquivo pessoal)

Antes de Giba, Marcelo Negrão, Wallace, Renan Dal Zotto, entre tantos outros ídolos numa lista bem extensa, o vôlei brasileiro teve Antônio Carlos Moreno. Você não o conhece? Pois saiba que, apesar da falta de memória do brasileiro ser cruel com ídolos do passado, ele é respeitado no mundo inteiro, a ponto do americano Doug Beal, referência internacional, dizer que ele merece um lugar no Hall da Fama e do japonês Yasutaka Matsudaira, melhor técnico do século XX, levá-lo duas vezes para o Japão e apresentá-lo como “meu filho brasileiro”.

Moreno era conhecido no Brasil nos anos 1970, muito antes do voleibol conquistar o status que tem atualmente. Era 1979 e o comercial da marca de artigos esportivos Topper anunciava o nome dos craques de quatro modalidades que apareciam no vídeo. Entre eles lá estava Moreno, então a cara do voleibol no país, dando um peixinho e depois atacando.

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Ainda faltavam três anos para o boom do vôlei no Brasil, elevado à condição de segundo esporte nacional pela geração de prata, da qual muitos atletas tiveram Antônio Carlos Moreno como modelo. Mas antes mesmo da explosão da modalidade, comerciais em rede nacional, convites de equipes do exterior, o respeito dos adversários e o carinho dos fãs faziam parte da vida dele. Isso numa época em que o voleibol quase não era visto na TV, longe de rivalizar com o basquete.

Versatilidade
Num período em que o vôlei era bem diferente daquele praticado hoje, Moreno fez de tudo: entrada, saída, meio. “Até levantador eu fui”, disse ao Saída de Rede o ex-jogador de 68 anos. Foi ponteiro a maior parte do tempo. Destro, aprendeu a atacar também com a esquerda, depois de uma lesão na mão direita que quase o tirou do Mundial 1974. Com 1,92m, era alto para os padrões da época.

Qualquer garoto que jogasse ou pensasse em jogar vôlei no Brasil nos anos 1970 queria ser o Moreno”, contou ao SdR Marcos Kwiek, técnico do Genter Vôlei Bauru, da seleção feminina da República Dominicana e ex-atleta do antigo ponta no clube Hebraica, em São Paulo. Antônio Carlos Moreno começou na seleção brasileira adulta com apenas 17 anos, em 1965, e se despediu dela aos 32, em 1980, sempre como titular – foi capitão de 1972 a 1980. Participou de 366 partidas internacionais, incluindo quatro Jogos Olímpicos, quatro Campeonatos Mundiais e quatro Jogos Pan-Americanos.

Moreno (camisa 5) antes de amistoso da seleção em São Paulo como preparação para o Pan 1971, em Cali, Colômbia

Filho único, nascido em Santo André (SP), em 11 de junho de 1948, Moreno descobriu a modalidade aos 11 anos, em 1959, no Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, na sua cidade. No ano seguinte, começou a praticar o voleibol de forma competitiva no Clube Atlético Aramaçan, também em Santo André, onde vive até hoje.

Após chegar à seleção e se firmar como titular, com o aval dos veteranos, o garoto Antônio Carlos Moreno foi para o seu primeiro Mundial já ano seguinte, em 1966, na antiga Tchecoslováquia. Dois anos depois, aos 20, a maior emoção da sua carreira, a primeira Olimpíada. O Brasil ficou em um modesto nono lugar entre dez participantes na Cidade do México 1968. A qualidade técnica da nova geração alimentava o sonho de dias melhores para a modalidade no país, mas a falta de estrutura, em meio a uma gestão amadora, atrasou o desenvolvimento do voleibol brasileiro em uma década. “Íamos para torneios no exterior sem saber, por exemplo, o que era saque flutuante ou bloqueio ofensivo e aprendíamos durante as competições. Quase não havia intercâmbio”, comentou o craque.

Oportunidade no Japão
Mesmo muito jovem, Moreno chamava a atenção dos adversários. Na Copa do Mundo 1969, disputada na extinta Alemanha Oriental, caiu nas graças do treinador japonês Yasutaka Matsudaira, que estruturava a seleção que encantaria o mundo três anos mais tarde com seu jogo rápido, na Olimpíada de Munique, em 1972. Matsudaira foi escolhido pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB), em 2000, como o melhor técnico de equipes masculinas do século XX. No final dos anos 1960, nasceu entre ele e Moreno uma amizade que duraria até o falecimento do japonês em 2011.

Foto de uma revista especializada japonesa em nota sobre a chegada de Moreno ao país, em 1972. Ao lado dele, o técnico Nobuhiro Imai, que treinou a seleção feminina do Japão

O lendário treinador levaria o brasileiro para jogar na liga do Japão, uma potência na época, em 1972 e em 1977. Os atletas japoneses atuavam sob regime profissional, dedicando-se exclusivamente ao voleibol. Enquanto isso, no Brasil, os clubes treinavam duas horas por dia, quando era possível. A situação mais comum era que os jogadores tivessem empregos tradicionais pela manhã e à tarde, indo para o treino à noite. Os períodos de concentração da seleção brasileira raramente ultrapassavam dois meses e eram interrompidos para que os atletas pudessem atender compromissos nos seus empregos. Alguns acabavam pedindo dispensa para não ficar sem trabalho.

Treinos insuficientes
Moreno recorda que o time que foi a Munique 1972 era tecnicamente muito bom, mas a carga incompleta de treinos e a má sorte no sorteio das chaves (seis times divididos em dois grupos) atrapalharam os brasileiros. A equipe comandada pelo técnico Valderbi Romani caiu no mesmo lado do Japão e da Alemanha Oriental, que seriam ouro e prata, respectivamente. Naquele tempo, os dois primeiros avançavam à semifinal, terceiro e quarto disputavam do quinto ao oitavo lugares, e os dois últimos do nono ao décimo segundo lugar.

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O Brasil terminaria em oitavo em Munique, abatido após uma fase inicial em que jogou de igual para igual com os alemães orientais (veja vídeo no final deste texto) e engrossou dois sets contra o Japão de Matsudaira e do genial Katsutoshi Nekoda, o pai dos levantadores modernos, com seu estilo arrojado. Moreno ficaria amigo também de Nekoda, de quem havia se aproximado em 1969, durante a Copa do Mundo. O armador japonês faleceria em 1983, aos 39 anos, devido a um câncer no estômago.

Moreno (5), aos 17 anos, em 1965, na equipe juvenil do Randi, clube de Santo André (SP)

Ambidestro
Faltavam 37 dias para o Mundial 1974, no México, quando Moreno se acidentou numa porta de vidro e rompeu o tendão do dedo indicador da mão direita. Parecia o sinal vermelho para suas pretensões de ir a seu terceiro Campeonato Mundial, após as edições de 1966 e 1970. O atacante ficou desesperado, mas apostou na recuperação e, para compensar a impossibilidade de utilizar a mão direita, aprendeu a atacar com a esquerda. Foi ao torneio no México. “Era um ataque forte com a esquerda. Não tanto quanto com a direita, mas havia potência”, conta Luiz Eymard, colega de seleção de Moreno e um dos grandes nomes do voleibol brasileiro nos anos 1970.

Nas quadras mexicanas, Antônio Carlos Moreno ficava receoso de machucar ainda mais o dedo lesionado, principalmente na hora de bloquear. “Os cubanos sabiam da lesão e atacavam com força na minha mão direita. Doía uma barbaridade”, mencionou.

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Veio a Olimpíada de Montreal 1976 e o Brasil subiu mais um posto, terminando em sétimo, mas seria a partir do ciclo seguinte que o país daria um salto de qualidade no voleibol masculino. Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), havia assumido a presidência da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em 1975. Sob sua gestão, a modalidade cresceu.

Futuro promissor para o vôlei
A seleção masculina, no período 1977-1980, deu seus primeiros passos rumo às medalhas que conquistaria no ciclo 1981-1984. Revelações do início dos anos 1970, como William Carvalho e Bernard Rajzman, somavam-se aos talentos revelados no Mundial Juvenil 1977, como Renan Dal Zotto, Mário Xandó e José Montanaro, entre outros. “Aqueles meninos eram craques, como ficaria evidente mais tarde”, relembrou.

Em peça publicitária da Topper, de 1979, que circulava em revistas. Havia também um comercial na TV

Moreno se mantinha em evidência. Nos Jogos Pan-Americanos 1979 ele foi incluído pela terceira vez consecutiva na seleção do torneio. Conquistou medalha em todas as quatro edições de que participou: três pratas (1967, 1975 e 1979) e um bronze (1971).

Se os Jogos Olímpicos da Cidade do México 1968 ocupam lugar especial na sua memória por terem sido os primeiros, os de Moscou 1980 marcam sua melhor participação numa Olimpíada e também são lembrados com carinho. O quinto lugar, na sua despedida da seleção brasileira, demonstrou que a equipe tinha potencial para um futuro brilhante.

O momento mais marcante foi a virada por 3-2 sobre a Polônia, que chegou à capital russa para defender o título olímpico, comandada pelo atacante Tomasz Wojtowicz, o homem que quatro anos antes havia criado o ataque da linha dos três metros. A Polônia terminaria em quarto lugar em Moscou 1980, mas ainda era um dos melhores times do mundo. Foi a primeira vez que o Brasil derrotou uma potência numa Olimpíada, na sua melhor colocação até ali.

Técnico da seleção
Antônio Carlos Moreno já havia decidido que era hora de deixar a seleção. Queria sair ainda jogando bom voleibol e partir para uma experiência que vinha adiando havia alguns anos: uma temporada na liga italiana. Antes, atendeu a um convite de Nuzman e assumiu interinamente, de agosto a novembro de 1980, o cargo de técnico da seleção, em substituição a Paulo Russo, numa série de partidas contra a França e na Canadian Cup, torneio amistoso em que a seleção brasileira foi vice-campeã, perdendo a final para os Estados Unidos.

“A estrela de Moreno brilha no Palalido”, informa o título do jornal italiano, numa referência ao brasileiro e ao ginásio da partida, em Milão

Cumprido o compromisso com Nuzman, foi para o Gonzaga Milano, uma das principais equipes da Itália, e jogou, com destaque (veja imagem ao lado), por uma temporada, para depois voltar ao Brasil. Despediu-se das quadras em casa, Santo André, pela excepcional equipe da Pirelli, em 1982. Conquistou diversos títulos estaduais, brasileiros e sul-americanos. O amadorismo do voleibol no país o impediu de alçar voos mais altos com a seleção.

Seguiu a carreira de técnico, com a qual vinha flertando desde 1975, nas categorias inferiores. Comandou times grandes, como Pirelli e Banespa, ao longo dos anos 1980, depois de se aposentar como jogador. Suas atividades no ramo empresarial o afastavam às vezes do esporte, mas sempre que podia voltava à beira da quadra. Treinou sua última equipe em 2004, na Hebraica.

Formação profissional
Graduado em administração de empresas, fez mestrado em educação física na Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em gestão esportiva pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Participou da formação de mais de mil treinadores de diversas modalidades. Fala quatro idiomas além do português: espanhol, italiano, inglês e alemão. Quando o repórter diz que soube que ele falava também francês e japonês (servia como intérprete de Matsudaira nas suas viagens ao Brasil), Moreno retruca: “Esses aí eu esqueci, já não falo direito”.

Atualmente, ele trabalha no Instituto Olímpico Brasileiro, departamento do COB voltado à educação de atletas, treinadores e outros profissionais vinculados ao esporte. Na Rio 2016, por exemplo, ele atuou junto a equipes e atletas que conquistaram sete das 19 medalhas obtidas pelo Brasil.

Moreno, a esposa e os seis filhos

Prazer em ajudar
Criado pela mãe – o pai os deixou quando ainda era pequeno –, Moreno diz que aprendeu desde cedo com ela, que trabalhava como telefonista na Prefeitura Municipal de Santo André, a valorizar o aprendizado. “Tenho enorme prazer em auxiliar, contribuir, encorajar pessoas para que se desenvolvam cada dia mais, vencendo barreiras. Ser lembrado nunca foi meu objetivo, mas o reconhecimento de alunos, atletas, profissionais de diversas áreas e níveis é a minha grande recompensa”.

Moreno é casado com Selma e tem seis filhos – dois deles são técnicos de vôlei em universidades americanas. Até o final do ano nascerá seu oitavo neto.

Mesmo não tendo nenhuma medalha como atleta pelo Brasil numa competição global e sendo de um país de memória curta, Antônio Carlos Moreno tem lugar entre os grandes da história do vôlei. Estava à frente do seu tempo e foi peça essencial na evolução de uma modalidade que hoje coleciona títulos para o Brasil. Um exemplo para quem teve a chance de conviver com ele. Nas palavras do atacante José Montanaro, expoente da geração de prata, “Moreno foi um mestre dentro e fora das quadras”.

(Veja abaixo trecho de uma partida em Munique 1972 entre Brasil e Alemanha Oriental, equipe campeã mundial e que ficaria com a prata naqueles Jogos Olímpicos. Moreno é o camisa 5.)

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HISTÓRIAS DE ANTÔNIO CARLOS MORENO

Vendedor de café
Era 1966, ele tinha 18 anos e embarcava para o seu primeiro Campeonato Mundial, na extinta Tchecoslováquia. Começava a trabalhar e estudar, não tinha grana. Queria comprar presentes, material esportivo e teve uma ideia ao descobrir que o café brasileiro era artigo raro, cobiçado e obviamente caro no leste europeu. Avisou aos colegas. Levou 20 quilos na mala. Os demais levaram o que podiam. O jovem Moreno ficou encarregado de intermediar a venda. Quando chegaram a Pardubice, cidade onde o Brasil jogou a primeira fase do torneio, ele pediu que os colegas lhe entregassem todo o café que tinham. Ficou com 180 quilos em seu quarto. Procurou um funcionário do hotel, que demonstrou interesse no produto. Cobrou 10 vezes o preço que havia pagado no Brasil, o que ainda era metade do valor cobrado na Tchecoslováquia. Vendeu tudo rapidamente, em apenas dois dias. Ele e os companheiros de time compraram presentes para a família, os amigos, além de material esportivo, claro.

Cadê o ginásio?
No curto período de treinamento para a Olimpíada da Cidade do México, em 1968, uma das preocupações da comissão técnica era a altitude da capital mexicana (2.250m). Resolveram que, para se adaptar, a seleção deveria passar um período em Campos do Jordão (1.628m). Chegaram lá, se hospedaram e no dia seguinte iam treinar no ginásio. Que ginásio? A seleção brasileira ficou concentrada em uma cidade que não tinha espaço apropriado para treinamento e ninguém da delegação sabia disso. A solução foi procurar um. Depois de horas e diversos telefonemas, encontraram um local adequado a 30 quilômetros dali.

Imagem icônica do terrorista na varanda do prédio onde estava a delegação israelense em Munique 1972

Testemunha do terror em Munique
Em Munique 1972 houve o ataque de oito terroristas palestinos, da organização Setembro Negro, que resultou na morte de 11 integrantes da delegação israelense. O bloco em que estavam os brasileiros era vizinho ao de Israel. “Ninguém saía da vila olímpica. Sabe aquela imagem famosa em que aparece o terrorista encapuzado? Eu via esse sujeito da nossa janela. E vi também quando houve aquela fila, dos terroristas e dos israelenses, se dirigindo para o ônibus para irem ao aeroporto. Foi o momento mais tenso e mais triste da minha vida esportiva”, contou Moreno.

Almoço com a rainha da Inglaterra
Os Jogos de Montreal 1976 tiveram a visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II – o Canadá faz parte da Comunidade Britânica de Nações. Foi programado um almoço para ela na vila olímpica. Ao saber disso, Moreno decidiu que ia “almoçar com a rainha”. Tratou de descobrir na véspera em que parte do refeitório ela ficaria e chegou uma hora antes na data marcada (não havia jogo nem treino naquele momento), para ficar o mais perto possível. “Havia todo um aparato de segurança, então fiquei um pouquinho longe, mas mesmo assim fiquei de olho nela, almocei olhando para a rainha da Inglaterra. Não é algo comum”, divertiu-se o ex-atleta.

Certificado de participação em Moscou 1980: quinto lugar era a melhor colocação do Brasil

Amizade com Zaytsev e câmbio na vila olímpica
Um das amizades que Moreno fez no mundo do vôlei foi com o levantador soviético Vyacheslav Zaytsev, pai do craque italiano Ivan Zaytsev. Prata em Montreal 1976, conquistaria seu cobiçado ouro em Moscou 1980 (ganharia outra prata em Seul 1988). Sempre que havia tempo, se encontrava com o brasileiro na vila olímpica moscovita. “Éramos muito amigos. Ele queria sempre saber coisas do Brasil e eu da União Soviética. Como era difícil comprar rublos (moeda local), rolava uma ajuda mútua. Eles cobiçavam dólares e a compra lá era restrita. Nós brasileiros precisávamos de rublos. Então nós dois fazíamos essa ponte entre nossas seleções. Eu dava ao Zaytsev dólares e ele vinha com os rublos”.

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O QUE DIZEM SOBRE MORENO

Doug Beal

“Moreno foi um dos maiores atletas que enfrentei. Ele e o Luiz Eymard foram os melhores brasileiros contra quem joguei. Moreno era extremamente inteligente. Se o Brasil tivesse ganhado alguma medalha nos anos 1970, certamente ele estaria no Hall da Fama, ali é o lugar dele. Um jogador completo”. Doug Beal, ex-atleta, ex-técnico dos EUA (ganhou o ouro em Los Angeles 1984) e ex-diretor executivo da USA Volleyball

José Roberto Guimarães

“Antônio Carlos Moreno foi um espelho fantástico, eu procurava fazer o que ele fazia, até no modo de me comportar. Muito jovem, o Moreno já era fluente em inglês e em alemão, uma cabeça extraordinária. Eu tinha 13 anos, morava em Santo André, quando fui jogar nas categorias de base do Randi (clube da cidade que antecedeu a Pirelli). Embora o Moreno tivesse só 19 anos, já era uma referência, era da seleção. Dominava todos os fundamentos, tinha facilidade de jogar, era diferenciado, atacava com os dois braços. Ele teve uma influência muito grande sobre mim”. José Roberto Guimarães, técnico tricampeão olímpico, colega de clube de Moreno e companheiro de seleção de 1973 a 1977

Bernardinho em Moscou 1980

“O Moreno foi uma referência muito importante no voleibol, foi um ícone. Eu comecei a ser convocado para a seleção brasileira em 1978, 1979 e tive minha primeira participação efetiva na Olimpíada de Moscou, em 1980. Ele era o capitão e transmitia pra gente toda a seriedade do trabalho, sua rigidez de valores, a importância de fazer a coisa certa. Ele foi muito importante para aquela geração de jovens talentosos que chegava para transformar o voleibol no Brasil. Tínhamos Renan, Xandó, Amauri, Montanaro e outros. O Moreno era um líder. Inclusive ele foi nosso técnico antes do Bebeto (de Freitas) assumir, nos treinou num torneio amistoso no Canadá, após a Olimpíada de Moscou”. Bernardinho, técnico bicampeão olímpico e tricampeão mundial, integrante da geração de prata e companheiro de seleção de 1978 a 1980

José Montanaro

“Ele era uma referência não só pra gente no Brasil, mas no mundo, numa época em que o voleibol não tinha repercussão aqui no país. Quando fui para a seleção adulta, a partir de 1978, ele era o capitão. Olha, o Moreno era um mestre dentro e fora das quadras, ajudou muito na formação da geração de prata. Foi meu técnico mais tarde no Banespa. É uma pessoa de muito valor. O cara era a eficiência em carne e osso, tinha muito conteúdo, inteligente demais, abria nossos horizontes, excelente em todos os fundamentos e ainda atacava com os dois braços”. José Montanaro, colega de Moreno na seleção de 1978 a 1980, foi prata no Mundial 1982 e na Olimpíada 1984

Carlos Arthur Nuzman

“Antônio Carlos Moreno é um dos grandes nomes da história do voleibol brasileiro. Seu equilíbrio e liderança, dentro e fora das quadras, o fizeram um grande capitão da seleção. Respeitado por todos, foi um dos atletas que deixou importante legado para a geração de prata. Moreno só fez amigos no voleibol, sempre conduziu sua carreira com elegância, dignidade e competência. Essas mesmas características ele trouxe para sua vida profissional e hoje realiza extraordinário trabalho no COB, ajudando a formar novos gestores para o esporte brasileiro no Instituto Olímpico Brasileiro”. Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, ex-presidente da CBV, ex-atleta da modalidade

Luiz Eymard

“Imagine um cara diferenciado. Era o Moreno. Ele foi minha primeira referência como atleta. Ainda me lembro da primeira competição ao lado dele, o Campeonato Sul-Americano 1967, em Santos. O Moreno é só um ano mais velho do que eu, mas era o modelo a ser seguido. Tinha um jogo refinado, atacava com os dois braços, se antecipava. O Moreno estimulava todo mundo a tentar ser melhor”. Luiz Eymard Zech Coelho, ex-jogador do Minas Tênis Clube e da seleção brasileira

Marcos Kwiek

“Qualquer garoto que jogasse ou pensasse em jogar vôlei no Brasil nos anos 1970 queria ser o Moreno. Ele é um dos maiores ídolos de todos os tempos do voleibol brasileiro. Infelizmente, quase não há material sobre ele, um atleta que foi reconhecido pelo seu jogo no mundo todo. Moreno foi minha inspiração para entrar no esporte, fazer educação física. Uma pessoa do bem. Ele é o cara”. Marcos Kwiek, técnico do Genter Vôlei Bauru, da seleção feminina da República Dominicana e ex-atleta de Moreno no clube Hebraica, em São Paulo


Seleção masculina perde mais uma peça-chave após saída de Bernardinho
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Sidrônio Henrique

Bernardinho e Roberta: parceria de 20 anos com títulos no clube e na seleção (fotos: arquivo pessoal)

Ela é a voz na cabeça de Bernardinho há 20 anos. Sabe aquele fone de ouvido que você cansou de ver o técnico arrancar quando tem raiva? Ela está do outro lado – e não é por sua causa que ele se irrita, longe disso. Suas análises, tanto dos jogos da seleção brasileira quanto dos adversários, foram fundamentais em todas as grandes conquistas de um time com um cartel impressionante. Formada em educação física, porém atuando na área de estatística, Roberta Giglio segue ao lado do chefe no Rexona-Sesc, mas decidiu colocar um ponto final na sua história com a seleção masculina. “Era uma rotina muito desgastante, eu queria sair há algum tempo e o Bernardinho me segurava. Aproveitei a saída dele e agora vou cuidar da minha vida. Mas saio com a sensação de que fiz tudo o que poderia fazer”, disse Roberta, 45 anos, ao Saída de Rede. Ela é mais uma peça-chave da antiga comissão técnica que deixa a seleção, após Rubinho abrir mão, em janeiro, do cargo de assistente do novo treinador.

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Foi Renan Dal Zotto, o substituto de Bernardinho, quem a apresentou ao multicampeão em 1997. Roberta Giglio estava com Renan pela segunda temporada na Superliga masculina, na extinta equipe da Olympikus, quando conheceu Bernardo Rezende, que a levou para o Rexona, então com sede em Curitiba. Naquele mesmo ano ela começou a trabalhar para a seleção feminina, também treinada por ele. A dobradinha Rexona/seleção começou ali e não parou mais. Em 2001, quando Bernardinho assumiu o comando do masculino, Robertinha, como é chamada, foi junto.

Robertinha analisava o desempenho do Brasil e do adversário

Zé Roberto
Graduou-se em educação física em 1993, na FMU, em São Paulo, mas antes mesmo de formada já dava seus primeiros passos no voleibol. Não dentro das quadras, afinal a altura de 1,63m não ajudava muito e não havia líbero naquela época. Começou fazendo anotações em torneios infantojuvenis, até que em 1992 foi trabalhar com o técnico José Roberto Guimarães, no antigo time feminino Colgate São Caetano.

Ricardo Trade, o Baka, hoje diretor executivo da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), foi contemporâneo dela na faculdade, era preparador físico na Colgate e a chamou para fazer estatística. Pouco tempo depois, Sérgio Negrão assumiu a equipe e ela foi mantida. Ficou em São Caetano de 1992 a 1995, depois foi trabalhar no vôlei masculino, com Renan Dal Zotto, de 1995 a 1997, até engatar a parceria definitiva com Bernardinho.

Satisfeita, CBV busca patrocinadores para expandir transmissões online
Assistente de Zé Roberto fala em renovação drástica e pede paciência

Não faltam episódios curiosos dessa relação profissional de 20 anos. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ela não pôde acompanhar a delegação da seleção feminina, devido ao número limitado de profissionais que poderiam ser credenciados então. A solução foi preparar vídeos e análises dos adversários a toque de caixa e se manter em contato com o assistente Chico dos Santos, que fez as vezes de estatístico.

Comissão técnica da seleção masculina após a conquista da Liga Mundial 2006, em Moscou, Rússia

Choro
Atenas 2004, já com a seleção masculina, foi um título marcante, mas também um pesadelo em termos de trabalho. “Era uma loucura, pois eu ainda fazia as análises sozinha. Eram seis jogos por rodada na fase inicial. Nos últimos dias eu chorava para aquilo acabar, não aguentava mais. Como a primeira partida era às 8h30, lá pelas 7h30 eu estava no ginásio. Saía depois da meia-noite, às vezes chegava às 2h na vila olímpica e o Bernardinho estava me esperando. Eu virava a noite para entregar tudo, quase não dormia. Nos dias em que o masculino não jogava, fazia análises”, relembrou Roberta Giglio.

Desde que passou a integrar a comissão técnica da seleção brasileira, há 20 anos, ficava pelo menos seis meses fora de casa. “Às vezes emendava cinco semanas no exterior, uma loucura”, completou. De todos os continentes, só não foi à África. Esteve em 40 países. Somente ao Japão foram 18 viagens, sempre na classe econômica. “Muitas vezes na poltrona do meio”, afirmou rindo.

“Robeeertaaaa”
Na seleção, dividia os ouvidos de Bernardinho com o assistente técnico Rubinho. “Ali era o Rubinho quem falava mais. Mas no Rexona só sou eu mesma”. No clube, ela enfatizou, as cobranças não diminuem. “É o mesmo trabalho, a mesma exigência”.

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Liga profissional nos EUA ainda é um sonho distante

Às vezes há momentos engraçados. Na semifinal da Copa Brasil 2017, diante do Dentil/Praia Clube, uma cena hilária. “De repente ouvi gritos vindos lá de perto do banco, o Bernardinho berrando ‘Robeeertaaaa’, mas eu achava que era com a levantadora (Roberta Ratzke). Aí olho pra quadra, a Roberta estava me olhando e disse ‘é contigo’. Ele esqueceu de apertar o botão pra falar no fone, por isso eu nunca ia achar que era comigo. As jogadoras reservas se acabando de rir e ele cada vez mais bravo com a demora”, contou Robertinha, que nutre grande admiração pelo chefe.

Com a ajuda do pai, ela desenvolveu software que representa diferencial para a seleção e o Rexona

Software
Foi com a ajuda do pai, o aposentado Cláudio Giglio, que durante 30 anos trabalhou para a multinacional Philips e era autodidata em computação, que ela deu uma das maiores contribuições ao voleibol brasileiro. Tendo como referência o software Data Volley, desenvolvido pelos italianos para análises estatísticas e largamente utilizado ao redor do mundo, ela criou uma versão tão perfeita que os estrangeiros ficavam curiosos a respeito.

Nunca deu nome ao software, que fez pensando em seu trabalho na seleção. Os upgrades no programa são constantes e somente ela o utiliza. “Isso sempre despertou muita curiosidade. Eu, uma mulher, fazendo tudo diferente no meio de um monte de homem, e meu trabalho era referência. Sempre tinha gente de olho, até porque ganhamos muitos títulos”. O mais recente foi o ouro olímpico na Rio 2016. “Minha função não envolve apenas estatística, mas estratégia também. Esse software me ajuda a acelerar as análises”, ressaltou.

Robertinha ainda não sabe o que vai fazer após a temporada de clubes, mas pensa em sossegar um pouco. “Preciso curtir minha casa em São Paulo, pois quase não vou lá. Quando não estou viajando com o time do Rexona, acabo ficando no Rio”.


Liga profissional nos EUA seria fantástica, mas ainda é sonho distante
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Sidrônio Henrique

A exemplo dos homens, jogadoras americanas, bronze na Rio 2016, jogam no exterior (fotos: FIVB)

Quando o novo diretor executivo da USA Volleyball (USAV), Jamie Davis, anunciou há um mês a criação de uma liga profissional nos Estados Unidos até o final deste ciclo olímpico, em 2020, profissionais, imprensa e fãs comemoraram. Afinal, a implantação de um campeonato no maior mercado do mundo, seguindo os moldes de outras modalidades, impulsionaria o voleibol internacionalmente. Mas há realmente essa possibilidade no curto prazo? Não tão cedo. O Saída de Rede explica para você a razão pela qual uma liga nos EUA ainda é algo distante.

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As declarações de Davis, que é o primeiro a comandar a USAV sem ter qualquer experiência prévia na modalidade, não apontaram o caminho para essa liga, baseando-se apenas em alguns dados. A USAV é a organização que administra o vôlei nos EUA e nos últimos 12 anos teve como diretor executivo o ex-técnico e ex-jogador Doug Beal. O atual tem em seu currículo experiência como executivo em vendas online e na TV por assinatura.

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“Temos 375 atletas de alto nível jogando profissionalmente no exterior, espalhados em aproximadamente 40 países, por sete, oito meses ao ano. Se os trouxermos de volta e mantivermos em casa aqueles que concluem a universidade, nós poderemos criar astros e estrelas, promover atletas-modelo, ídolos para as próximas gerações. Com o sucesso das nossas seleções, os altos índices de audiência durante a Olimpíada do Rio e o aumento da adesão à USAV, estamos confiantes que uma liga doméstica será possível agora, quando tentativas anteriores falharam. Quero lançá-la dentro deste ciclo olímpico”, disse Jamie Davis ao Sports Business Journal, veículo especializado, com sede na Carolina do Norte.

Jamie Davis é o novo diretor executivo da USAV (foto: USAV)

Senso comum
A lógica do novo CEO da USAV se apoia em algo simples: atletas em abundância, seja no nível profissional no exterior ou os novos talentos da NCAA (entidade que organiza competições nacionais em mais de 30 esportes nos EUA em nível universitário), e os bons índices de audiência que a modalidade alcança no país durante os Jogos Olímpicos. Não resta dúvida sobre a qualidade do material humano à disposição, mas o interesse do público não é tão grande assim.

Há várias edições das Olimpíadas o torcedor americano acompanha o voleibol e também outras modalidades que fora do período olímpico recebem pouca atenção. Esportes com audiência moderada, como futebol (o nosso, não o deles) ou hóquei, atraem muito mais público do que o voleibol. Some-se a isso a necessidade de captação de grandes patrocinadores e o alto investimento em aspectos como logística, espaço na concorrida grade televisiva e o marketing para fazer do vôlei algo mais palatável para o espectador, que desconhece o esporte, como admite a própria USAV. Raramente uma partida da Liga Mundial consegue bom público nos EUA. As finais do Grand Prix 2015 foram realizadas em Omaha, Nebraska, com ginásio praticamente vazio na maioria dos jogos.

Há quatro anos e meio, escrevi para uma publicação norte-americana sobre os planos da USA Volleyball de implantar uma liga profissional. Era setembro de 2012 e o então diretor executivo Doug Beal dizia que em 2016 o campeonato estaria consolidado. Já estamos em 2017 e…

Doug Beal (à direita) ao lado do técnico John Speraw

Prioridade
O SdR procurou o novo homem à frente da USAV, mas Jamie Davis, que por meio da sua assessoria de imprensa enfatizou que a liga profissional “é uma prioridade”, afirmou que não queria voltar a discutir o tema com a mídia até que pudesse apresentar algum progresso. Compreensível. Aquelas suas declarações a um jornal americano especializado em esportes foram copiadas por sites europeus e dali por um sem número de sites e blogs, inclusive aqui no Brasil. O tom era de festa, mas faltou refletir sobre o tema e suas dificuldades.

Sem as ponderações de Davis, cujas metas, se concretizadas, mudariam o rumo da modalidade não apenas nos EUA, o Saída de Rede falou com seu antecessor. Doug Beal foi político, mas sabe bem o quão difícil é transformar esse sonho em realidade na terra do beisebol, do outro futebol e do basquete. “É difícil, é complicado, mas com paciência e trabalho podemos chegar a ter uma liga profissional de voleibol competitiva. Há uma série de questões a serem resolvidas, como logística, espaço na TV e massificação entre os jovens, mas temos um excelente ponto de partida que são as escolas do ensino médio e a NCAA“, comentou Beal com o blog.

Pouco interesse entre os homens
A USAV comemora o crescimento do número de praticantes do esporte desde o infantojuvenil, mas esbarra em outro obstáculo: a modalidade avança consideravelmente entre as mulheres, mas desperta pouco interesse entre os homens. É um problema e tanto. As duas ligas femininas de maior sucesso nos EUA, a de futebol e a de basquete, mantêm suas cifras, em todos os aspectos, muito abaixo das versões masculinas. O vôlei de praia, melhor sucedido do que o indoor, ainda ocupa pouco espaço na TV americana e está restrito a alguns estados em termos de popularidade.

Ginásio quase vazio nas finais do GP 2015, em Omaha, Nebraska

Das quatro tentativas de implantação de ligas nos Estados Unidos, três delas foram no feminino e outra no formato misto. Esta ocorreu nos anos 1970 e chegou a contar com a presença de brasileiros, como Luiz Eymard, Bebeto de Freitas e Fernandão, todos com participação olímpica – o terceiro fez parte da geração de prata, da qual Bebeto foi treinador. Não passou da sétima temporada, sem jamais empolgar. Uma curiosidade: não havia rotação nos times mistos, as equipes tinham que ter duas mulheres, que estavam sempre no fundo de quadra com o levantador.

Surpresa com a seleção
Um episódio ocorrido em 2015, no aeroporto internacional de Houston, Texas, ilustra bem a distância entre o americano e o voleibol. Um antigo funcionário da USAV aguardava uma conexão com a seleção masculina rumo ao Brasil, para as finais da Liga Mundial. Ele contou que, ao verem aqueles homens altos com agasalhos onde estava escrito USA, algumas pessoas se aproximavam e perguntavam qual modalidade praticavam. Diante da resposta, a reação era quase sempre de surpresa. Um senhor de meia-idade comentou: “Jamais imaginei que homens jogassem voleibol sem ser por recreação”. Ao seu lado, outro da mesma faixa etária concordou. Os dois eram americanos. Exceto por alguns dos brasileiros que embarcavam, ninguém reconheceu Matt Anderson e cia.

A USAV tem uma missão e tanto pela frente, com diversos entraves. Boa sorte a eles. Se vingar, uma liga nos EUA terá tremendo impacto na modalidade ao redor do mundo. Mas quatro anos é pouco tempo para que algo aconteça.


Fabiana diz que Zé Roberto insiste, mas ela garante que não volta à seleção
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Sidrônio Henrique

Fabiana Claudino diz que Zé Roberto a procurou, mas seleção para ela “acabou” (fotos: FIVB)

“Acabou”. A central bicampeã olímpica Fabiana Claudino respondeu ao Saída de Rede com firmeza quando perguntada sobre a possibilidade de continuar jogando pela seleção. “Já tomei minha decisão. Quero fazer outras coisas, algo fora do voleibol, um momento meu e preciso que isso seja respeitado”, completou a veterana de 32 anos, 1,93m, que atualmente joga no Dentil/Praia Clube, de Uberlândia (MG). Indagada se o técnico da seleção, José Roberto Guimarães, tem insistido em seu retorno, ela disse sorrindo: “Com certeza. Ele manda mensagem, estou até devendo um jantar para ele”.

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Russos rebatem: “Giba deveria lembrar que foi punido por usar maconha”
Londres 2012: Brasil não pode reivindicar ouro antes da Rússia ser punida

Zé Roberto observa Fabiana marcar o último ponto na histórica vitória sobre as russas em Londres 2012

Quando teve seu contrato renovado por mais quatro anos pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), em setembro passado, Zé Roberto enfatizou a necessidade de renovação, mas deu também uma declaração que contradisse seu discurso: “Não estou convencido de que algumas jogadoras não possam vir a jogar pela seleção. São jovens e privilegiadas no aspecto físico, a tentativa de fazê-las jogar sempre vai existir. A Sheilla e a Fabiana têm bola para continuar jogando”.

Luizomar: ”Aceitei o convite da seleção peruana pelo sonho da Olimpíada”

Se Zé Roberto está certo ou errado nessa insistência, só o tempo e os resultados poderiam dizer. Mas, independentemente da vontade do treinador, Fabiana garantiu que não volta atrás na sua decisão. “Olha, eu sei do meu papel ali dentro, sei que fisicamente ainda posso ajudar muito a equipe, mas agora eu preciso desse tempo para mim”, afirmou.

Memória: cinco jogos inesquecíveis no sessentão Ibirapuera

Logo após a derrota para a China e a eliminação nas quartas de final da Rio 2016, ela declarou, a exemplo da oposta Sheilla Castro, que encerrava ali seu ciclo. A história de Fabiana Claudino na seleção adulta teve início quando ainda era uma juvenil, em 2003, e durou 14 temporadas, incluindo quatro Olimpíadas e três Campeonatos Mundiais. Em 2020 ela completará 35 anos.


Russos rebatem: “Giba deveria lembrar que foi punido por usar maconha”
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Sidrônio Henrique

Alekno e Giba se cumprimentam após a final da Liga Mundial 2011 (fotos: FIVB)

“Antes de acusar os jogadores russos de fazerem uso de doping, Giba deveria lembrar que já foi punido por usar maconha”. Foi assim, de forma belicosa, referindo-se a um episódio ocorrido em 2003, que Vladimir Alekno, ex-treinador da seleção masculina da Rússia, reagiu às acusações do ex-craque brasileiro. Giba afirmou durante uma homenagem ao técnico Bernardinho no Esporte Espetacular, da Rede Globo, que atletas do time russo fizeram uso de doping durante a Olimpíada de Londres, em 2012. No programa da TV foi mencionado que sete russos estariam envolvidos. O Brasil perdeu a final para a equipe comandada por Alekno, numa virada por 3-2. O treinador russo deu esta declaração ao rsport.ru, o principal site dedicado ao esporte naquele país.

Até o ministro do Esporte, Pavel Kolobkov, entrou na polêmica. “As acusações são ridículas e indignas de um atleta excepcional. Se Giba tem qualquer prova, que apresente então”, afirmou ao rsport.ru.

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Londres 2012: Brasil não pode reivindicar ouro antes de Rússia ser punida

O craque russo Sergey Tetyukhin, dono de quatro medalhas olímpicas, inclusive a de ouro em Londres 2012, contemporizou. “Giba é um homem respeitável, jogou aqui na Rússia. Pode ser que tenha havido alguma inconsistência na tradução das declarações dele ou que tenha sido mal interpretado pelos jornalistas”. O ex-ponteiro brasileiro jogou duas temporadas no voleibol russo, de 2007 a 2009, pelo Iskra Odintisovo.

Tetyukhin: “Giba é um homem respeitável”

“Não temos a menor preocupação sobre esse tema. Os jogadores foram testados e não houve amostras com resultado positivo. A própria FIVB (Federação Internacional de Voleibol) já informou que desconhece tal fato”, disse o secretário-geral da Federação Russa de Vôlei, Alexander Yaremenko.

Para Gennady Shipulin, vice-presidente da Federação Russa de Vôlei, “é tudo bobagem, nonsense”. Ele ressaltou que os atletas russos foram testados. “Não devemos prestar atenção a essas acusações. Devemos é treinar para voltar a ganhar medalhas”.

Capitão da seleção em Londres 2012, o ponta Taras Khtey classificou a declaração de Giba como “infeliz” e também destacou que os jogadores da Rússia passaram por vários testes. “Não temos nada a esconder”. Para Khtey, o brasileiro ainda está “assombrado” pela virada russa na final olímpica. “Ganhamos com dignidade e honestidade, não houve truque sujo”. O ex-capitão russo lembrou do período em que foi colega de Giba no Iskra Odintisovo. “Joguei com ele, era um cara maravilhoso. Anteriormente ele não notou problema nenhum aqui, qualquer sujeira. Não sei por qual motivo ele agora quer difamar os jogadores russos. Certamente ele quer se aproveitar e ir na esteira de outros escândalos”, comentou Khtey, referindo-se ao Relatório McLaren. Ele fez ainda um apelo: “Gostaria que Giba tomasse conhecimento dessas palavras e tivesse bom senso, em vez de fazer tempestade em copo d’água”.

Khtey: “Ganhamos com dignidade e honestidade, não houve truque sujo”

O também ponteiro Dmitriy Ilinykh, outro campeão em Londres, chamou de “delírio” as acusações feitas por Giba. “Isso tudo é um disparate e a justiça prevalecerá”.

Embora uma investigação encomendada pela Agência Mundial Antidoping (Wada), englobando o período 2011-2015, aponte a presença de jogadores de voleibol entre mais de mil atletas de 30 modalidades na Rússia, ainda não há confirmação em quais competições teria ocorrido o uso de doping.

O carrasco do Brasil nos Jogos de Londres, o central Dmitriy Muserskiy, que foi deslocado para a saída de rede na final e terminou a partida com 31 pontos, foi flagrado utilizando substâncias proibidas em pelo menos duas oportunidades, mas as datas não foram especificadas, ou seja, por enquanto não se sabe se alguma delas correspondia a Londres 2012. Há outros nomes ligados ao vôlei russo no relatório, mas o número total de jogadores e as demais identidades ainda são mantidos sob sigilo, no relatório produzido pelo jurista canadense Richard McLaren, que chefiou a investigação a serviço da Wada. Foi ele que confirmou à imprensa russa, em dezembro do ano passado, que o nome de Muserskiy estava na lista, mas sem especificar datas.


Holandesa do Rexona quer aproveitar Superliga para ser “jogadora completa”
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Sidrônio Henrique

Anne Buijs: “Substituir a Natália é uma honra para mim” (foto: Alexandre Loureiro/CBV)

A ponteira holandesa Anne Buijs queria muito jogar no Brasil, ser treinada por Bernardinho, como o Saída de Rede contou para você em maio do ano passado, semanas antes que o Rexona-Sesc anunciasse a contratação da jogadora. O sonho se realizou e agora a atacante de 25 anos, 1,91m, que tem oscilado na Superliga, quer se aperfeiçoar. “O vôlei brasileiro é mais técnico do que o europeu, com mais defesas, ralis mais longos. Está sendo muito interessante jogar aqui, é diferente. Quero aprender cada vez mais e me tornar uma jogadora completa”, disse Buijs ao SdR, ela que aponta o passe e a defesa como suas maiores deficiências.

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“Fiquei muito orgulhosa quando soube que o Rexona me queria. Substituir uma jogadora do nível da Natália é uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo uma honra para mim”, afirmou. Antes mesmo de chegar ao Brasil, ela tratou de conhecer a história do clube, onze vezes campeão da Superliga. “Eu quero evoluir, mas isso não basta, pretendo ganhar a Superliga também”, avisou Buijs.

Ela queria ser treinada por Bernardinho (foto: Marcelo Piu/Sesc)

Conhecendo Bernardinho
Para a ponteira holandesa, que em maio de 2016 apontava Bernardinho como um dos melhores técnicos do mundo ao dizer que gostaria de trabalhar com ele, as expectativas quanto ao treinamento têm sido atendidas. “Bernardinho é exigente e isso é importante para mim, pois só assim posso melhorar”. O curioso é que, apesar de toda a vontade de ser treinada pelo técnico multicampeão, ela só veio a conhecê-lo no dia do seu primeiro treino com a equipe, no início de outubro.

A adaptação ao ritmo carioca não tem sido problema. “Fui muito bem recebida pelas colegas de time. Nem todo mundo fala inglês, mas mesmo quem não fala, tenta. Eu também tenho tentado aprender português. O estilo de vida que tenho aqui no Brasil é muito bom, a atmosfera do Rio é relaxada, algo muito gostoso”, comentou.

Colega de Sheilla na Europa e destaque na seleção
No período 2015/2016 ela foi campeã da liga turca e vice da Champions League (Liga dos Campeões da Europa) com o VakifBank, era colega de time da oposta brasileira Sheilla Castro. A ponteira acabou dispensada ao final da temporada. Antes de jogar na Turquia, havia passado pelo Lokomotiv Baku, do Azerbaijão, e o Busto Arsizio, da Itália, entre outros clubes europeus.

Anne Buijs é titular da seleção holandesa (fotos: FIVB)

Anne Buijs fez sua estreia na seleção holandesa adulta muito jovem, com apenas 16 anos, mas ficou de fora em várias temporadas desde então por causa de contusões. Foi titular no Mundial 2014, embora tenha ficado a maior parte do tempo entre as reservas na derrota por 3-1 para o Brasil. Em 2015, foi escolhida a melhor ponteira do Montreux Volley Masters e também do Campeonato Europeu. Na Rio 2016, a ponta destacou-se na honrosa campanha da Holanda, que ficou na quarta colocação. Ela terminou a competição no Maracanãzinho como a quinta maior pontuadora, a oitava mais eficiente no ataque e ainda como terceira melhor sacadora.

Surpresa em dose dupla com a Holanda em 2016
Buijs se disse surpresa não apenas com o quarto lugar na Rio 2016, mas até mesmo com a classificação para os Jogos Olímpicos. “Foi demais para a gente, pois fazia 20 anos que a Holanda não participava do torneio de vôlei feminino numa Olimpíada. Isso foi surpreendente, uma conquista. Depois tivemos outra surpresa quando ficamos em quarto no Brasil”.

Buijs consola Schoot após a derrota para os EUA na disputa do bronze na Rio 2016

A derrota na semifinal para a China e depois outra para os Estados Unidos na disputa da medalha de bronze já foram superadas. “Inicialmente nós ficamos devastadas em não conquistar uma medalha, porém mais tarde vimos como foi importante a quarta colocação e temos orgulho da nossa campanha no Rio”, afirmou.

Apesar de destacar o resultado da equipe, Anne Buijs acredita que poderiam ter ido mais longe. “Havíamos ganhado das chinesas e perdido numa partida de cinco sets contra os EUA na primeira fase. Na semifinal, contra a China, fomos derrotadas por 3-1, mas o jogo foi equilibrado”.

Guidetti e a jornada interrompida
Ela definiu a recente saída de Giovanni Guidetti do cargo de técnico da seleção holandesa (ele assinou logo em seguida com a Turquia) como “uma jornada interrompida”, mas ponderou que isso não vai atrapalhar o time. “Foi um choque, eu não imaginava que ele fosse sair. Fiquei triste porque tínhamos um relacionamento muito bom com o Guidetti, crescemos como conjunto, melhoramos, demos passos importantes. Agora a federação tem que encontrar um novo treinador e nós vamos seguir em frente”, disse Anne Buijs.


Genial como jogador, Renan deve ter começo difícil como técnico da seleção
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Sidrônio Henrique

Renan e Bernardinho juntos durante treino na década passada (fotos: arquivo pessoal/Renan Dal Zotto)

Oito anos longe da função de técnico, o gaúcho Renan Dal Zotto terá a dura missão de substituir ninguém menos que Bernardinho no comando da seleção brasileira masculina de vôlei. O que esperar do novo treinador depois de 16 anos vitoriosos de seu antecessor? Antes de responder essa pergunta, o Saída de Rede ressalta dois aspectos fundamentais: a mudança no comando após quatro ciclos olímpicos implica numa ruptura que precisa ser levada em consideração e ainda a renovação da equipe. A tarefa do ex-craque Renan não será fácil e deverá também ser considerada a extensão do papel de Bernardo Rezende como coordenador técnico da seleção masculina.

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Depois do domínio brasileiro na década passada, o cenário internacional no vôlei masculino vem apresentando um equilíbrio diante do qual Bernardinho, um estudioso da modalidade, conseguia se destacar com soluções táticas que, muitas vezes, suplantavam as limitações da equipe como vimos na Rio 2016.

Renan foi técnico da Cimed, de Florianópolis, de 2005 a 2007

Currículo
Renan Dal Zotto tem em seu currículo os títulos de campeão da Superliga masculina 2005/2006 com a antiga equipe da Cimed, de Florianópolis, e da Supercoppa italiana 2007 com o Sisley Treviso. Abriu espaço para nomes que teriam destaque no cenário internacional, como o levantador Bruno e o central Sidão, quando estava à frente do time catarinense.

O começo na seleção certamente não será fácil. Times de primeira linha como Estados Unidos, Itália e Sérvia já vêm realizando uma renovação há alguns anos. Mesmo nossa vizinha Argentina, mais modesta, avançou nesse aspecto. Se Renan terá o toque de gênio que o caracterizou dentro da quadra para fazer a diferença em situações de equilíbrio, só o tempo dirá. Entre as quatro linhas, esse ex-ponteiro que mais tarde se revelou universal (chegou a jogar até como levantador na Itália) foi um dos maiores de todos os tempos.

Recebendo o prêmio de “Jogador Mais Espetacular” da Copa do Mundo 1985 (o MVP foi para o americano Karch Kiraly)

Reforço
Embora tenha experiência como treinador, estava há bastante tempo longe da função. Um ano pós-olímpico, em que a competição mais importante é a desgastada Liga Mundial, que nos outros anos do ciclo assume papel secundário diante do Mundial, da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, é um bom período para o começo. Eventuais tropeços no caminho até Tóquio 2020 deverão ser relevados. A partir de 2018, o novo técnico terá um reforço de peso: simplesmente o ponteiro cubano naturalizado brasileiro Yoandry Leal, um dos melhores do mundo na posição, que seria titular em qualquer seleção.

Resta saber se Renan será capaz de agregar talentos e fazer da equipe uma vencedora, como vinha ocorrendo. Chegou o dia da saída de Bernardinho, o fim de uma era, a mais vitoriosa da história da modalidade. O novo treinador, como disse o diretor de seleções da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), Radamés Lattari, “se for muito vitorioso, vai conseguir empatar (com Bernardinho), superar é quase impossível”. A expectativa do SdR é que Renan Dal Zotto saia em desvantagem nas primeiras temporadas, mas terá material humano e apoio (inclusive do próprio Bernardo, amigo dele desde o final dos anos 1970) para superar eventuais dificuldades.


Fofão dá risada sobre boato da sua volta às quadras
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Sidrônio Henrique

Fofão deixou as quadras em 2015: vôlei agora somente com os familiares (foto: Alexandre Arruda/CBV)

Parecia uma brincadeira desde o início e afinal era mesmo: Fofão continua longe das quadras e não vai retornar para jogar pelo Olímpico Las Palmas, da liga espanhola. O boato nasceu a partir de uma brincadeira feita pelo próprio clube em suas contas nas redes sociais no dia 28 de dezembro. A data representa na Espanha o Dia dos Santos Inocentes, que é marcado por pegadinhas, assim como o Dia da Mentira (1º de abril) no Brasil. O que nasceu como uma data de celebração religiosa acabou virando um dia de pregar peças. Foi o que o Las Palmas fez e, ainda que desmentisse a brincadeira naquela tarde (o SdR reproduziu o esclarecimento), muita gente ao redor do mundo levou a sério. Fofão, como ela mesma contou ao Saída de Rede, riu com a notícia.

“Uma amiga ligou pra mim e me contou, me deu os parabéns. Eu não entendi nada. Até perguntei ao João Márcio (marido) se ele tinha algo a ver com aquilo”, comentou conosco a ex-levantadora, 46 anos, rindo bastante. “Isso foi ontem (quarta-feira). De repente, um monte de gente telefonando pra me parabenizar, saber se eu ia mesmo”, completou.

O erro do site World of Volley, que foi copiado mundo afora (Reprodução/Internet)

Erro replicado
A demora entre a divulgação da piada e a repercussão teve uma razão. É que somente no dia 4 de janeiro a “notícia” chegou ao site de origem sérvia World of Volley, que tem colaboradores espalhados pela Europa. O WofV levou a sério a broma espanhola e cravou que Fofão voltaria à ativa. Foi o estopim para que sites e blogs ao redor do mundo copiassem a informação, sem o menor critério. O que era para ser uma brincadeira foi tomado como verdade até mesmo no Brasil, causando furor nas redes sociais.

SdR falou também com o clube Olímpico Las Palmas. A assessoria de imprensa do time enfatizou que o Dia dos Santos Inocentes é uma tradição e que as piadas feitas no país naquela data são coisas que ninguém acreditaria, como dizer que o astro do Barcelona Lionel Messi vai jogar no arquirrival Real Madrid. “Nós pensamos em dizer que Fofão jogaria em nosso clube, uma brincadeira clara, pois ela está aposentada há algum tempo e nosso clube não poderia pagar uma atleta do nível dela”, informou a assessoria.

Clube no Brasil
“Tinha gente triste ao telefone porque a Fofão iria embora para a Espanha, até apareceram uns querendo arranjar um time pra ela aqui mesmo no Brasil”, divertiu-se o marido da ex-atleta, João Márcio Pinto.

Vôlei, para ela, somente com os familiares. “Quando os sobrinhos aparecem e dizem ‘vem, tia, joga com a gente’, aí eu jogo”, contou Fofão. Atualmente, ela estuda marketing numa universidade paulista. O casal mora na cidade de São Paulo.

Fofão se despediu das quadras em 2015, aos 45 anos, jogando pelo Rexona, do Rio de Janeiro. Atuou pela seleção brasileira de 1991 a 2008. Conquistou um ouro e dois bronzes nos Jogos Olímpicos. Foi uma das principais jogadoras na campanha vitoriosa de Pequim 2008. Acumulou ainda seis títulos do Grand Prix, além de dois vice-campeonatos mundiais, entre outras medalhas.

Torneios da categoria master? “Olha, me convidam bastante, talvez no futuro eu jogue, agora não, estou concentrada nos meus estudos”, respondeu a campeã olímpica.

Quem viu Fofão em ação pôde testemunhar uma das melhores da posição em todos os tempos. Quem não viu… Bom, o YouTube está aí.

Colaborou Carolina Canossa