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Saída de Rede

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Fome, exploração infantil e assassinato marcam vida de promessa do vôlei

Carolina Canossa

30/08/2018 06h00

Jogadora diz ter visto no vôlei sua única oportunidade de vida (Foto: Arquivo Pessoal)

Dificuldades e sacrifício são termos normalmente associados a atletas, pessoas muitas vezes de origem humilde que vencem obstáculos longe dos holofotes para brilhar no esporte. Mas, no caso de jovem talento recém-chegado ao Vôlei Osasco-Audax, Domingas Soares de Araújo, a superação chega a outro nível: criada em uma fazenda no interior do Tocantins, a ponteira/oposta passou fome e foi vítima de humilhações e trabalho infantil travestidos de "ajuda" antes de se livrar de um destino de miséria ao qual julgava já estar condenada.

Os infortúnios não acabaram nem quando ela conseguiu, contra todas as possibilidades, se tornar jogadora profissional de vôlei: no final de janeiro de 2016, quando defendia o Brasília Vôlei, Domingas recebeu a notícia que o pequeno sítio onde a mãe e o padrasto viviam em Paranã (TO) fora completamente destruído por uma forte chuva que atingiu a região. Desabrigado, o casal passou dias vivendo em um depósito sem qualquer estrutura.

Domingas jogará a próxima temporada pelo Vôlei Osasco-Audax, um dos mais tradicionais times do Brasil (Foto: Divulgação Osasco-Audax)

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Uma campanha de arrecadação de fundos organizada pelo site "Melhor do Vôlei" ganhou força extra quadra e, com a ajuda da comunidade do vôlei, inclusive atletas da seleção brasileira que doaram dinheiro sob a condição de anonimato, Domingas não só pôde reconstruir a casa para a família como a deixou do jeito que a mãe sempre sonhou. Foi então que, em agosto de 2017, outra tragédia aconteceu: o padrasto de Domingas foi assassinado no imóvel – de acordo com a polícia local, que diz ter havido confissão, o crime foi cometido pelo próprio filho de João, Carlito Arcanjo da Conceição, fruto de um relacionamento anterior dele, em uma briga banal por conta de um frango. A sonhada casa está, desde então, fechada e a mãe de Domingas escondida por medo do acusado, que não só se encontra foragido como, desde janeiro, é considerado desaparecido com direito a queixa formal de suas irmãs de sangue. O acusado não tem defesa constituída.

Sítio onde a mãe e o padrasto de Domingas viviam ficou destruído após uma forte chuva em janeiro de 2016 (Foto: Arquivo pessoal)

Neste depoimento dado ao Saída de Rede, Domingas fala de sua trajetória repleta de percalços, e como, apesar de tudo, ainda é grata à vida. Prestes a completar 24 anos, ela diz que pretende transformar esta história de tristeza em algo positivo para outras garotas que ainda vivem em condição de extrema pobreza:

A cada dia da minha vida eu penso: como é possível? Às vezes eu passo pelo metrô e vejo as pessoas indo trabalhar cedo, subindo as escadas naquela correria e agradeço a Deus por ver isso, por estar aqui, porque esse era um mundo inexistente para mim. Eu não sabia o que eram essas coisas. Poder ajudar minha família hoje em dia, ver o mundo de uma outra maneira… às vezes eu acho que estou até sonhando, sabe? É meio inexplicável.

Sou a pessoa que mais creio em milagres e realmente acho que foi uma força sobrenatural, que foi Deus quem me abriu as portas. Você vê jogadoras de talento, jogadoras que já fizeram história que às vezes não tem mercado no Brasil e eu, uma menina de um lugar surreal, estou aqui… como? Isso não acontece todo dia! Ainda busco o meu espaço e estou longe do que quero atingir, mas eu era uma pessoa cuja expectativa era ser uma empregada doméstica para o resto da vida.

INFÂNCIA DE MISÉRIA E EXPLORAÇÃO

A pobreza, insuficiente para sustentar dez filhos, fez com a mãe, dona Badia, autorizasse Domingas aos seis anos a ir morar em uma "casa de família" na zona urbana de Paranã sob a justificativa de ter mais oportunidades para estudar em troca de ajuda nas tarefas domésticas. O problema é que a prática muitas vezes serve apenas para mascarar uma espécie de escravidão moderna, em que as meninas são abusadas física e psicologicamente e acabam virando empregadas sem qualquer tipo de direito, recebendo apenas comida e abrigo em troca do serviço prestado quando deveriam estar brincando.

Naquela época isso era tão comum que, na nossa mente, era algo maravilhoso, a única chance que a gente tinha ali de ter algum estudo e crescer. Mas eu fui maltratada, tenho marcas de agressões físicas no meu corpo até hoje, sem contar o mental. Como eu não tinha o cabelo bom como o dos filhos deles, ele era raspado como de menino porque diziam que dava piolho. E olha que tem muita coisa que eu acho que o meu cérebro apagou. Éramos como escravos, mas isso nos era mostrado como se fosse bom e, naquele tempo, era a única saída de não passarmos fome em casa ou de nossos pais não serem presos pelo Conselho Tutelar. Só que muitas famílias eram más e nos exploravam, batiam… Tenho uma irmã que sofreu agressões muito piores que as minhas, ela apanhou feio.

(Desde que eu virei atleta profissional) Nunca mais encontrei essas famílias que me bateram, me espancaram. Ouvi falar que elas me assistem pela TV, me acompanham e sempre mentem que torceram pelo meu bem. Hoje, creio que essa situação talvez tenha melhorado, mas infelizmente ainda existe: em toda casa de um rico lá você vai encontrar uma menininha negra toda tímida que mal olha nos seus olhos e que eles falam que estão ajudando.

Eu perdoei essas pessoas porque, se Deus me deu a oportunidade de ter passado por tudo isso e agora estar aqui, é porque eu posso ajudar. Guardar rancor e raiva não leva a nada porque eu creio que as pessoas mudam. Acho que essas pessoas, quando me veem e veem a minha família, repensam. Falam "como pode?". Nem eles acreditam. É uma lição para não fazerem isso de novo com meninas como eu, pois futuramente eles não sabem o que vai ser delas. Assim como eu, essas garotas podem lutar e vencer. Um dia eu fui uma escravinha, mas hoje sou livre para ter minhas escolhas, comer um McDonalds, tomar um refri, coisas que eu nem sabia que existiam.

Irmã mais velha de Domingas, Silvânia (à direita) foi quem a apresentou ao vôlei (Foto: Arquivo pessoal)

INÍCIO NO VÔLEI

Para poupar a mãe, que já tinha a consciência suficientemente pesada com a saída precoce da filha de casa, Domingas escondeu o sofrimento até os 14 anos. Foi então que, ao saber das agressões, dona Badia a trouxe de volta para a fazenda. Uma das irmãs mais velhas, Silvânia, decidiu então levá-la para Palmas, onde tentava a vida e jogava vôlei de areia. Alta, mas desajeitada, Domingas teve dificuldades com o esporte no início. Era, porém, a chance da vida dela, como prova uma carreira que hoje já acumula passagens por São Cristóvão Saúde/São Caetano, Camponesa/Minas e Sesi, além de categorias de base da seleção brasileira.

O vôlei, pra mim, era uma coisa surreal. Era como alguém chegar e te dizer: "Você vai para Hollywood ser uma grande cantora, uma grande atriz". Mas, quando eu conheci o vôlei, vi uma oportunidade, a única que caiu diante de mim.

Ainda assim, os primeiros anos da atacante no esporte foram repletos de dificuldades pelas quais a maioria dos jogadores sequer sonham que existem.

No meu começo no voleibol, depois de já estar em São Paulo, eu passei fome. O dinheiro que uma atleta juvenil ganha, mesmo servindo a seleção, não é nada. Você ganha 100, 150 reais… o que você faz com isso? Você não tem dinheiro para comprar um desodorante, é chamada de fedida. Chegou uma época em que eu já estava disputando a Superliga, mas comia fubá com água e ainda agradecia a Deus por ter algo. As pessoas te julgam, falam que é vitimismo, mas a vida não é assim. Eu não sou e nem quero ser coitada, mas, às vezes, nossa vida é tão corrida que a gente não repara as pessoas do lado. As pessoas veem na TV um atleta milionário e acham que todos tem uma vida boa, mas essa não é a realidade de quem está começando. Só que, pelo o que eu tinha antes, mesmo isso era muito. Já vi minha mãe chorando à noite, ficar dias sem comer direito porque ela dava o arroz branco dela pra mim e para meus irmãos.

Após campanha que mobilizou pessoas ligadas ao vôlei, sítio da família de Domingas foi reconstruído. Meses depois, imóvel foi palco do assassinato do padrasto da atleta (Foto: Arquivo pessoal)

 

CASA NOVA E ASSASSINATO

Já mais estabilizada financeiramente, Domingas teve que lidar com a perda da casa da mãe. A ajuda de colegas do vôlei transformou uma tragédia em algo positivo até que o assassinato a facadas do padrasto, João Teles da Conceição, em 17 de agosto de 2017, jogasse uma nova bomba na vida do jovem talento.

Joguei minha vida, minha imagem e superei a vergonha por algo maior, que era dar a casa pra minha mãe. Conseguimos fazer uma casa linda, com coisas que ela sempre quis, como um quarto para quando a gente fosse pra lá. Só que aí uma das minhas irmãs que morava no Mato Grosso teve uma gravidez nas trompas e precisou passar por cirurgia. Como todas trabalhamos, minha mãe era a única pessoa que podia acompanhá-la e meu padrasto ficou lá na fazenda. Eu estava para me apresentar na equipe de Rio do Sul quando recebo uma ligação falando que ele tinha sido assassinado pelo próprio filho dentro da nossa casa, que foi o mundo do vôlei quem construiu. O corpo foi colocado em cima de uma mula em frente ao imóvel.

Por conta do ocorrido e de disputas em torno da herança com a família de João Teles, o sonhado imóvel atualmente está fechado.

Ninguém no vôlei sabe disso, só Deus sabe o que temos passado nesses meses. Chegaram a falar que a casa foi construída pela prefeitura para tentar tirar a casa da minha mãe. Agora, estamos brigando na Justiça. Minha mãe e o padrasto mal tiveram tempo de aproveitar a casa.

Jogadora tem passagens pelas seleções brasileiras de base (Foto: Arquivo pessoal)

 

FUTURO

Enquanto Domingas e as irmãs batalham por justiça, a jogadora também sonha com o dia em que finalmente terá tranquilidade para ajudar a tirar outras crianças da miséria.

Estou construindo minha carreira agora, mas quando eu tiver um dinheirinho, eu quero começar por algo simples como uma quadra, para incentivar meninos e meninas, dar uma expectativa de vida. Não é só o rico e o branco que podem jogar vôlei, futebol… o meu sonho é poder resgatar essas meninas que não se sentem humanas, da mesma forma que eu não me sentia gente. Quero ter projeto social através do esporte, pois o esporte muda vidas e te ensina a acreditar em algo maior.

*Colaborou Vanderlei Lima

*Atualizada às 14h12

Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.