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Saída de Rede

Fronckowiak vê acomodação nos atletas brasileiros

Sidrônio Henrique

23/03/2018 06h00

Atualmente na Itália, Marcelo Fronckowiak já trabalhou na França e na Rússia (foto: Divulgação/Vibo Valentia)

Aos 50 anos, Marcelo Fronckowiak tenta construir um novo capítulo na sua já rica história no voleibol. Dono de três títulos da Superliga como jogador e dois como treinador – foi o último a derrotar o Sada Cruzeiro numa final do campeonato nacional, com o extinto RJX na temporada 2012/2013 –, no ano passado foi convidado a integrar a comissão técnica na seleção brasileira masculina, como assistente de Renan Dal Zotto. Dispensado do Canoas antes do início da atual temporada, assumiu em janeiro passado o modesto Vibo Valentia, tendo assim a chance de vivenciar aquela que é, em suas palavras, a liga mais forte do mundo: a italiana.

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Trabalhar na Europa não é novidade para o gaúcho Fronckowiak, que na carreira de treinador atuou por seis anos na França e meia temporada na Rússia. "Sempre mantive contato com a Europa após a minha passagem na França e na Rússia. Recebi outras sondagens, mas acreditei que trabalhar na Itália, nesse que é o melhor campeonato de clubes do mundo, iria acrescentar muito na minha carreira", disse ao Saída de Rede.

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Ele considera que a experiência no exterior é essencial para o desenvolvimento dos atletas brasileiros, mas crê que nem todos pensam em atuar fora por questões relacionadas a uma cultura de trabalho diferente, à necessidade de apresentar resultados rapidamente e a barreira da língua. "Acaba sendo cômodo ficar no Brasil, principalmente para atletas que possuem um bom nome", afirmou.

Confira a entrevista que o técnico concedeu ao SdR:

O treinador orienta o time durante um pedido de tempo (Divulgação/Vibo Valentia)

Saída de Rede – Como surgiu a proposta para treinar o Vibo Valentia? Você teve outras sondagens?
Marcelo Fronckowiak –
Sempre mantive contato com a Europa após a minha passagem na França e na Rússia. Já havia recebido contatos em outros anos para trabalhar novamente por aqui. Com uma situação delicada na classificação, o Vibo Valentia me procurou por intermédio de um agente europeu e tudo aconteceu muito rapidamente. O período de final de ano acaba promovendo mudanças em muitas equipes e recebi também outras sondagens, mas acreditei que trabalhar na Itália, nesse que é o melhor campeonato de clubes do mundo, iria acrescentar muito na minha carreira. Creio que o fato de estar trabalhando na seleção brasileira também ajudou muito nesta transferência.

Saída de Rede – Por que teve de deixar o Brasil? Tendo sido campeão da Superliga como treinador e sendo assistente na seleção, não havia espaço para você no mercado?
Marcelo Fronckowiak –
Eu acreditei, confiei e trabalhei durante a pré-temporada por um projeto onde estava inserido (no Canoas) e que havia produzido um grande resultado com poucas condições financeiras. Existia um novo modelo sendo construído onde 13 de 16 atletas e eu estudávamos em cursos superiores. A produção científica, por meio do Guilherme Berriel (preparador físico), era de reconhecimento internacional, com artigos publicados em revistas de alto nível. Um trabalho com uma comissão técnica de altíssimo gabarito, que colocou vários jogadores coadjuvantes como protagonistas no voleibol brasileiro. Rejeitei propostas no Brasil e, quando o mercado estava fechado, fui informado da decisão do clube.

Queria continuar na região Sul também por questões familiares e pela situação de saúde do meu pai. Tenho uma forte identificação com o voleibol gaúcho, sou o único a ter participado de todas as quatro conquistas de Superliga deste estado. Nosso mercado no Brasil não é grande, alguns clubes preferem contar com treinadores que estejam livres desde o início do trabalho. Neste sentido, estar na seleção pode ter sido um pequeno entrave, embora eu não acredite nisso, pois contava com uma excelente comissão que tranquilamente poderia levar adiante o trabalho.

Temos excelentes profissionais no Brasil. Tem também uma questão relacionada ao sucesso do excelente trabalho do Marcelo Mendez (técnico do Sada Cruzeiro) e da promoção da escola argentina. Hoje, temos três treinadores argentinos entre as seis melhores equipes do país, duas delas com os maiores orçamentos. Mas creio, sim, que tenho mercado no Brasil.

Sobre a seleção: "Tivemos um primeiro ano bastante correto" (FIVB)

Saída de Rede – Que avaliação você faz da presença dos técnicos argentinos na Superliga? Por que o país vizinho, sem tanta tradição no voleibol, tem mais treinadores nos principais mercados do que o Brasil?
Marcelo Fronckowiak –
Em relação aos argentinos, eu conheço o trabalho do Mendez e do (Horacio) Dileo (técnico do Vôlei Renata), que considero muito bons. Não conheço o trabalho do (Daniel) Castellani (técnico do Funvic Taubaté), mas ouvi falar bem dele na Europa. Creio que os resultados dos anos 1980 (bronze no Mundial 1982 e na Olimpíada 1988) foram determinantes para formar uma geração de treinadores. O (Julio) Velasco (técnico da seleção masculina da Argentina) abriu muitas portas na Europa para seus conterrâneos. Além disso, a escola argentina produz uma formação muito boa. Também creio que os treinadores argentinos, por terem menos mercado no país de origem, acabam se aventurando mais.

Saída de Rede – Quais as principais diferenças na estrutura da liga italiana e da Superliga?
Marcelo Fronckowiak –
O profissionalismo, a tradição dos clubes e das cidades que fazem o voleibol. O campeonato italiano volta a ser o mais competitivo do mundo sem sombra de dúvida. O nível dos confrontos é muito alto e não é incomum que os times menos fortes e com investimento menor consigam resultados importantes e vitórias contra os favoritos. Há anos a estrutura se profissionaliza mais e mais a cada temporada. Em 2018/2019, por exemplo, haverá quatro divisões profissionais na Itália. Várias equipes da A2 têm orçamentos até maiores do que alguns times da A1.

Comissão técnica da seleção durante execução do hino nacional na Liga Mundial 2017 (FIVB)

Saída de Rede – Você chegou à Itália com o campeonato em andamento, numa equipe que estava na parte de baixo da tabela. Que tipo de cobrança os dirigentes fizeram?
Marcelo Fronckowiak –
A situação este ano é difícil, ficamos de fora dos playoffs (12º lugar entre 14 equipes) e continuamos agora na luta por uma vaga na Challenge Cup (terceira divisão do torneio continental), uma disputa que envolve do quinto ao décimo quarto colocado na liga italiana. A cobrança foi no sentido de fazer o time mostrar uma nova cara e preparar algo para o próximo ano. Com certeza, as condições oferecidas por aqui pressupõem um resultado melhor no futuro.

Saída de Rede – Quais os seus compromissos na Itália agora, além de tentar uma vaga na Challenge Cup?
Marcelo Fronckowiak –
Espero que a gente continue na briga pela vaga na Challenge, uma disputa eliminatória que pode durar até o final de abril. Se sairmos antes, pretendo observar os playoffs pelo título, definir meu futuro profissional e prestar serviços de informação ao Renan e à seleção brasileira.

Saída de Rede – Você vai permanecer no Vibo Valentia na próxima temporada?
Marcelo Fronckowiak –
Existe essa possibilidade, mas ainda não defini nada.

Fronckowiak conversa com seus atletas durante treino (Divulgação/Vibo Valentia)

Saída de Rede – Que avaliação você faz do seu primeiro ano na comissão técnica da seleção brasileira?
Marcelo Fronckowiak –
Sou muito grato ao Renan e a CBV pela oportunidade. Temos uma responsabilidade muito grande pela dimensão da seleção brasileira na história esportiva recente, e pelo comando e liderança inquestionáveis que o Bernardinho exerceu na modalidade. Imagina, que herança temos… O grupo comandado pelo Renan está muito imbuído de fazer bem e buscar o melhor possível. Tivemos um primeiro ano bastante correto, com três pódios em três competições, sendo dois ouros. Eu espero ajudar, estudar, participar como fiel escudeiro daquilo que sempre foi para mim um sonho, representar meu país.

Saída de Rede – Há algum aspecto em que a seleção brasileira esteja em desvantagem em relação aos principais adversários?
Marcelo Fronckowiak –
Creio que na temporada nacional os europeus estão em vantagem pelo nível de paridade dos principais campeonatos no continente. Uma característica da seleção mais espetacular de todos os tempos, a do ouro olímpico em Atenas 2004, era a participação de todos aqueles ícones brasileiros no campeonato italiano. Temos um excelente nível na Superliga brasileira, mas existe um abismo de investimento e de performance entre as equipes de cima da tabela e da parte de baixo. Veja os americanos. Da atual equipe dos Estados Unidos, apenas o oposto (Matt) Anderson não está na Itália, mas joga um campeonato também muito duro na Rússia. Claro que eles ainda não têm a chance de atuar no país deles, mas escolhem com cuidado aonde vão jogar.

Saída de Rede – O atleta brasileiro é mal assessorado ou simplesmente se contenta em disputar apenas a Superliga?
Marcelo Fronckowiak –
Temos um excelente mercado para os brasileiros fora do país, temos bons procuradores que inclusive trabalham em sociedade com procuradores europeus, mas acredito que nem todos os atletas brasileiros pensam em jogar fora em função de questões relacionadas à pressão, a uma cultura de trabalho diferente, à necessidade de apresentar resultados rapidamente e a barreira da língua. O estrangeiro sempre terá a obrigação de apresentar resultados imediatos. Acaba sendo cômodo ficar no Brasil, principalmente para atletas que possuem um bom nome.

Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.

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