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Arquivo : Confederação Brasileira de Vôlei

De volta ao vôlei, Cimed faz investimento de R$ 10 mi e parceria com a CBV
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Carolina Canossa

Hoje técnico da seleção masculina, Renan comandou o projeto da Cimed em Florianópolis (Foto: Luiz Pires/Vipcomm/Divulgação)

Numa época em que as vacas emagreceram bastante no esporte olímpico brasileiro, e que atletas e entidades se queixam da queda brusca de investimentos, o voleibol nacional encontrou um parceiro de peso na iniciativa privada. Ou melhor, reencontrou.

Trata-se do Grupo Cimed, que até as Olimpíadas de Tóquio, em 2020, pretende investir R$ 10 milhões na modalidade. O montante inclui também o valor que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) receberá da empresa do ramo farmacêutico em uma parceria que substitui a recém-encerrada união com a Nivea.

Bruno e Lucão: a caminho da Itália ou do Sesc

Jogadora a jogadora, quem leva a melhor na final da Superliga: Rexona ou Vôlei Nestlé?

“A Cimed é um parceiro que vai fornecer toda a parte de suplementos e remédios para todas as seleções em Saquarema, da base ao adulto”, afirma o diretor comercial e de marketing da CBV, Douglas Jorge. “A gente está fechado com eles para todos os eventos de quadra e acertando para a praia. Assim, eles vão pegar o guarda-chuva completo”, explicou o dirigente.

Entre as temporadas 2005/2006 e 2011/2012, a Cimed patrocinou a equipe mais premiada do vôlei masculino do Brasil naquele período. O time de Florianópolis, que na primeira metade do projeto teve como técnico e dirigente Renan Dal Zotto (treinador da seleção masculina desde janeiro), conquistou quatro Superligas e o Sul-Americano de Clubes de 2009. Dentre os atletas que passaram por aquela equipe estão os campeões olímpicos Bruno e Lucão, além dos medalhistas de prata Sidão e Thiago Alves.

Afastada da modalidade desde então, a empresa já havia dado sinais de que estaria novamente interessada no vôlei em fevereiro, quando fechou um acordo para estampar sua marca nas camisas de líbero, backdrops e placas de quadra do Sada Cruzeiro, atual campeão brasileiro e tricampeão mundial. Para a CBV, o retorno ajuda a minimizar parte da perda do aporte financeiro oriundo de seu maior patrocinador, o Banco do Brasil.

Levantador Bruno engrenou na carreira jogando pela Cimed (Foto: Divulgação/CBV)

“Com relação aos nossos patrocínios, apesar de sofrermos uma redução de valores com nosso principal apoiador (o Banco do Brasil), conseguimos manter um plano até Tóquio 2020. Não diria que estamos em uma posição confortável, mas realmente vamos conseguir ter um projeto para brigar por medalhas”, garantiu Douglas Jorge, obedecendo à política da CBV, não diz o valor injetado na confederação pelos patrocinadores.

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Além da Cimed, a CBV terá como parceiros, até 2020, Gatorade, Mikasa, Asics e, apesar da redução dos valores, o Banco do Brasil. A Gol tem contrato com a entidade até 2018. Já a Delta e a Sky, cujos contratos vencem neste ano, podem renová-los com a confederação até 2019. E o rol dos patrocinadores não deve parar por aí.

“Ainda temos uma cota livre, que são os ‘naming rights’ da Superliga, algo que conseguimos retomar agora e que antes não podíamos usar devido a contratos com TV”, afirmou Douglas Jorge. “Assim que vendermos, vamos fazer várias benfeitorias na Superliga”, prometeu o dirigente.

* Colaborou João Batista Jr.


Dani Lins fala sobre briga com a CBV: “Só recebemos apoio até agora”
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Carolina Canossa

Dani Lins diz que jogadoras estão indo “passo a passo” na luta contra o ranking (Foto: João Neto/Fotojump)

Preocupadas em buscar o que julgam melhor para si, as principais jogadoras de vôlei do Brasil decidiram tomar uma atitude drástica: há pouco mais de uma semana, entraram com um mandado de segurança contra a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) pedindo o fim do ranking que estabelece regras para as contratações da Superliga.

No caso da edição feminina de 2017/2018, haverá, na verdade, uma única regra: cada time só poderá contar com duas atletas classificadas como nível sete, o máximo possível. São elas: a levantadora Dani Lins, as centrais Thaisa e Fabiana, as ponteiras Natália, Gabi, Jaqueline e Fernanda Garay, e a oposta Sheilla, além da ponteira/oposta Tandara – esta última, a única a não participar da ação judicial, apesar de publicamente apoiar o movimento.

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Em conversa exclusiva com o Saída de Rede, Dani Lins garantiu que o grupo tem recebido um enorme apoio.

“Até agora, pelo menos entre as pessoas que a gente encontra, não houve crítica. Foi só apoio mesmo. Acho que todos entenderam o nosso lado, da liberdade de jogar onde quisermos. Todo mundo quer que as atletas que estão no exterior e sempre defenderam o Brasil voltem a jogar aqui. Querem uma Superliga mais unida com os ídolos”, destacou a atleta. Segundo ela, que defende o Vôlei Nestlé (único time a ter votado a favor da extinção total do ranking), o suporte acontece, inclusive, por parte de gente diretamente envolvida com o vôlei. “(Vem) Principalmente daí. As pessoas de fora do vôlei são mais leigas, mas viram a nossa nota de repúdio e costumam comentar ‘que absurdo isso, por que só com vocês? Tem que acabar com isso'”, contou.

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Para Dani, disputa pelo ranking pode atrapalhar jogadoras envolvidas nas fases decisivas da Superliga

Nada de boicote por enquanto

Questionada se ela e as colegas cogitam atitudes mais radicais caso não obtenham o que querem, como um boicote à seleção ou à próxima Superliga, Dani garantiu que esta é uma possibilidade que não passou pela cabeça delas por enquanto.

“A gente não pensou em nada disso ainda. Estamos indo passo por passo. O primeiro foi tentar conversar (com a CBV), mas ninguém nos deu ouvidos. O segundo foi ir à Justiça. Estamos com fé que tudo vai dar certo o mais rápido possível, ainda mais nessa fase de semis e final (de Superliga), pois, querendo ou não, atrapalha quem está jogando”, afirmou.

Segundo o advogado das atletas, Carlos Heitor Pioli Filho, o mandado de segurança deve demorar, no máximo, um mês para gerar uma resposta. A pressa das jogadoras é justificável, visto que, com o fim da temporada de clubes, entre abril e maio, abre-se a principal janela do mercado do vôlei. “E todo mundo tem que estar com a vida já meio decidida”, lembrou Dani Lins.


Para advogado, briga judicial entre atletas e CBV terá definição em um mês
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Carolina Canossa

Principais jogadoras de vôlei do Brasil estão em confronto aberto contra a CBV (Fotos: Divulgação/FIVB)

Iniciada na última segunda-feira (27), a ação judicial de oito atletas classificadas como “sete pontos” no ranking da edição 2017/2018 da Superliga feminina de vôlei não deve demorar para ter uma definição. Ao menos é o que espera o advogado das jogadoras, Carlos Heitor Pioli Filho.

Em entrevista exclusiva ao Saída de Rede, Pioli Filho explicou quais são os próximos passos do caso. “A juíza recebeu essa ação de mandado de segurança e mandou notificar, através de um oficial de Justiça, a CBV e o presidente da instituição (Walter Pitombo Laranjeiras). A partir da ciência deles, há um prazo de dez dias úteis para eles apresentarem informações à juíza. Com essas informações, que é o exercício do contraditório, pois a outra parte tem que se manifestar, ela decidirá (se o ranking será extinto ou não)“, afirmou.

Atletas da Superliga masculina também cogitam ir à Justiça

Ricardinho vai contra a corrente: “O Brasil ainda necessita do ranking”

Por correr em caráter de urgência, uma vez que o mercado de transferências do vôlei já começa a se aquecer com a proximidade do encerramento da Superliga, essa disputa específica não deve demorar a ter uma resolução. “A gente acredita que, no máximo em um mês, isso aí esteja resolvido. É preciso que isso aconteça o quanto antes para que não haja prejuízo de ambas as partes”, destacou o advogado.

Evidentemente, em um segundo momento tanto as atletas como a CBV podem se utilizar de outros recursos judiciais para defender seus interesses. Porém, segundo Pioli Filho, as melhores jogadoras do Brasil não possuem um “plano B” neste momento. “Quando nos reunimos com as atletas, optamos por um caminho só e ir até o fim dele, acreditando que é o que vai dar certo”, justificou.

Questionado se o fato de os clubes participantes da Superliga serem os responsáveis por decidir pela manutenção do ranking não pode dificultar a ação judicial, que é somente contra a entidade que rege o vôlei brasileiro, o profissional isentou os times de culpa.

Estrelas do vôlei lamentam não poder jogar onde querem por conta do regulamento da Superliga

“Quando o ranking foi criado, na temporada 1992/1993, quem o criou foi a CBV. Essa divisão de responsabilidades que a entidade tenta fazer acontece porque quem vota no ranking são os clubes e a comissão de atletas. A ação visa extinguir o ranking, então não tem nada a ver com os clubes, que, no nosso sentir, não têm absolutamente nada com isso. O problema é entre as atletas e a CBV. Há uma nítida relação de trabalho entre eles e o ranking as está prejudicando. Se a CBV criou o ranking, também tem o “poder” de extingui-lo”, comentou.

Especialista em direito desportivo concorda, mas usaria outro caminho

Procurado pelo SdR para opiniar sobre a briga judicial, o especialista e professor de direito desportivo André Sica concorda que a CBV deve responder sozinha pela decisão da manutenção do ranking da Superliga.

“Os clubes são entes filiados à CBV que, por sua vez, é a entidade de administração do desporto responsável e competente para publicação do regulamento da competição. Portanto, a CBV claramente tem legitimidade para integrar o polo passivo da demanda ajuizada pelas atletas”, afirmou.

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Em um primeiro momento, atletas haviam usado as redes sociais para reclamar (Foto: Reprodução)

Sica também concorda que o caminho a ser traçado pelas jogadoras insatisfeitas é mesmo a judicialização do assunto, mas diz que conduziria o caso de outra maneira. “Não me parece que o mandado de segurança seja o caminho mais seguro para essa discussão, uma vez que não é completamente pacificado o entendimento de que o presidente de uma confederação poderia ser classificado como uma “autoridade coatora”, o que é um requisito para o cabimento do mandado de segurança. Particularmente, entendo que o caminho mais seguro seria o ajuizamento de uma ação declaratória de obrigação de não fazer, com pedido liminar para suspensão imediata do sistema de ranking das atletas”, explicou.

Por fim, ele não acredita que a briga possa prejudicar a realização da próxima Superliga, ocasionando atrasos ou até mesmo a suspensão do torneio. “Em qualquer cenário analisado, seja via mandado de segurança ou ação declaratória, haverá os requisitos para o pedido de liminar para a suspensão do sistema de ranking, e a tendência é que essa liminar seja apreciada de forma bastante célere”, declarou.

Oito das nove atletas classificadas como sete pontos foram à Justiça contra a CBV: Thaisa, Sheilla, Dani Lins, Jaqueline, Natália, Fabiana, Gabi e Fernanda Garay. Apenas Tandara ficou de fora da ação por julgar que era uma medida extrema para o momento, mas a ponteira do Vôlei Nestlé já manifestou publicamente seu apoio às colegas.


Literatura sobre vôlei: a fraca difusão do conhecimento
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Sidrônio Henrique

Com uma metodologia particular, a escola brasileira de vôlei coleciona títulos (foto: FIVB)

Apesar de ter suas seleções de vôlei entre as mais respeitadas do mundo, sendo o país com o maior número de conquistas neste século, a literatura sobre a modalidade ainda é pobre no Brasil. O cenário não é muito diferente lá fora, com exceção da produção acadêmica nos Estados Unidos. O lançamento de um livro em inglês, Volleyball Coaching Wizards (“Magos dos Treinos de Vôlei”, numa tradução livre), contendo entrevistas sobre o trabalho desenvolvido por oito técnicos de renome internacional, motivou o Saída de Rede a abrir espaço para um debate: qual o nível do conhecimento difundido no país ou no exterior relacionado ao voleibol? Há uma literatura consistente relacionada a aspectos técnicos desse esporte? O SdR procurou diversos treinadores consagrados e discutiu essas questões.

Lebedew é técnico do clube Jastrzebski Wegiel (foto: arquivo pessoal)

Falta de intercâmbio
“A modalidade como um todo é afetada no longo prazo quando não compartilhamos conhecimento”, disse ao blog o australiano Mark Lebedew, que em parceria com o americano John Forman escreveu Volleyball Coaching Wizards e pensa em lançar um segundo volume. “Eu acho que a literatura dedicada ao vôlei é muito pobre em todas as áreas. Quando se pensa na metodologia e na filosofia de treino não há muito, especialmente devido à falta de intercâmbio. Eu diria que praticamente nenhum treinador dos países de língua inglesa conhece o trabalho do Bernardo Rezende ou do Julio Velasco, sabem mais sobre a fama deles. O mesmo ocorre na maior parte do mundo em relação a técnicos americanos como Doug Beal e Carl McGown”, completa Lebedew, que é treinador do clube polonês Jastrzebski Wegiel, atualmente quarto colocado na liga daquele país. Ele já foi assistente técnico das seleções da Austrália e da Alemanha, além de ter conquistado três vezes consecutivas a liga alemã com o Berlin Recycling Volleys.

Bernardinho aposta no jogo coletivo para ganhar o 12º título da Superliga

Técnico Bernardo Rezende (foto: CBV)

Pouca coisa no Brasil
Com a palavra, o multicampeão Bernardo Rezende, autor de Transformando Suor em Ouro, best seller brasileiro, com mais de 400 mil exemplares vendidos. “Há pouca coisa escrita sobre voleibol. No Brasil, muito pouco. Nos EUA há uma bibliografia mais ampla e interessante, em alguns países da Europa também encontramos alguns títulos com bom material. Creio que essa ausência de uma literatura mais ampla no Brasil se deva ao fato de se escrever pouco, se dar pouca importância a relatos muito ricos e interessantes. Há alguns livros técnicos, mas ainda pobres diante de tanta história e conteúdo que o voleibol brasileiro construiu. Tenho uma farta biblioteca de livros de esportes, mas praticamente todos no idioma inglês e referentes a temas ligados ao esporte e personagens norte-americanos”, contou ao Saída de Rede. O próprio livro de Bernardinho fala sobre métodos de gestão, mesclando ainda passagens de sua história como jogador e treinador, além do aspecto motivacional.

Marcelo Fronckowiak, treinador do Canoas (foto: arquivo pessoal)

Escola brasileira de vôlei
“Eu me sinto responsável por não produzir. Há que se falar de algo: a escola brasileira de vôlei. Nós temos um voleibol que é admirado e estudado no mundo inteiro, mas não difundimos o conhecimento entre nós mesmos. Temos uma metodologia muito particular, que vem evoluindo e que dá frutos desde os anos 1980. Antes, éramos uma cópia. Até meados dos anos 1970 copiávamos os japoneses, os soviéticos, os tchecos. Víamos algo legal e pensávamos: ‘Vamos copiar’. Depois passamos a criar, com o trabalho de gente como Bebeto de Freitas, Josenildo Carvalho, Jorge de Barros e Célio Cordeiro, entre outros”, relembrou o técnico do Lebes Gedore Canoas, Marcelo Fronckowiak, que tem três títulos da Superliga como jogador e dois no comando de outros clubes – foi o último a derrotar o Sada Cruzeiro numa final de Superliga, com o extinto RJX na temporada 2012/2013. Reconhecido na Europa, Fronckowiak trabalhou seis anos como treinador na França e por seis meses na Rússia.

CBV
A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) admite que poderia haver mais registros, mas vê um cenário positivo. “A literatura sobre o vôlei é muito extensa, só menor do que a do futebol. E a produção acadêmica é a mais significativa entre todos os esportes, o que contribui para o desenvolvimento do voleibol. Mas ainda temos espaço para mais relatos, descrições, análises táticas e técnicas das grandes estrelas do voleibol e seus resultados”, afirmou Marcia Albergaria, doutora em Educação Física e consultora da Universidade Corporativa do Voleibol, da CBV.

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É evidente que numa pesquisa rápida na internet você vai encontrar diversos títulos dedicados à modalidade no Brasil, mas a maioria foi lançada no século passado e não teve novas edições, caindo no velho problema da defasagem de conhecimentos. Há um grande número de biografias, mas essas cumprem um outro papel importante: aproximam o fã do ídolo, ao contar a trajetória deste, ajudando a popularizar o vôlei. Também relevante na divulgação do esporte é o nicho dos relatos de grandes conquistas, que obviamente não alcançam a parte técnica nem se propõem a isso.

Marcelo Mendez é o grande nome do vôlei de clubes brasileiro (Foto: Vipcomm)

Marcelo Mendez é o técnico do Sada Cruzeiro (foto: Vipcomm)

Aspecto psicológico
O argentino Marcelo Mendez, técnico tricampeão mundial e tetracampeão da Superliga com o Sada Cruzeiro, vai pelo caminho dos seus colegas. “A literatura (do vôlei) é muito pobre, especialmente quando se pensa sob o prisma da técnica e da tática. O voleibol é muito diferente de outras modalidades, tem um componente psicológico relevante, é um esporte coletivo sem contato com o adversário. Uma literatura mais rica acrescentaria muito, seria importante para desenvolver o esporte. Englobando também preparação física, aspectos psicológicos e pedagógicos”.

Tempo escasso
Seu compatriota Guillermo Orduna, que levou a seleção feminina da Argentina à primeira participação nos Jogos Olímpicos na Rio 2016, fez uma reflexão importante ao SdR: “Entre os treinadores que chegam ao alto nível e acumulam experiência são poucos os que colocam seu conhecimento em livros, no máximo escrevem um artigo ou ministram clínicas. No meu caso, eu gostaria em algum momento de escrever um livro voltado para o vôlei feminino, mas o tempo é escasso”.

Por que a Superliga ainda não empolgou na TV aberta?

A frase de Orduna logo acima é uma deixa para uma declaração do técnico sueco Anders Kristiansson, citando Julio Velasco. O europeu destaca uma observação feita pelo argentino, responsável por transformar a Itália em potência nos anos 1990, segundo a qual “técnicos de verdade não escrevem livros porque eles estão muito ocupados pensando no treino”. Kristiansson, à frente do clube japonês Toyoda Gosei desde 2013, foi quem fez da sua Suécia natal uma seleção emergente no masculino no final dos anos 1980 e início da década seguinte – quarto lugar no Europeu 1987, prata no de 1989 e participações honrosas na Olimpíada de Seul 1988 e Mundial 1990.

Kiraly treina a seleção feminina dos EUA (foto: FIVB)

Cenário bom nos EUA
Nos EUA, como informamos no início do post, a situação muda. “Aqui temos o conhecimento técnico difundido nas escolas e universidades, além das publicações da Associação Americana de Treinadores de Vôlei (AVCA, na sigla em inglês). Fora do país não vejo muita coisa”, disse ao Saída de Rede o técnico da seleção feminina dos EUA, Karch Kiraly, campeão mundial em 2014, bronze na Copa do Mundo 2015 e na Rio 2016. Ele ressaltou ainda ter como referência publicações de outros esportes, que tenta adaptar ao voleibol.

Diálogo
O treinador da seleção masculina americana, John Speraw, campeão da Liga Mundial 2014 e da Copa do Mundo 2015, bronze na Rio 2016, nos contou que jamais leu livro algum sobre a modalidade, mas que gosta de consultar artigos, blogs, além de ouvir podcasts. “Temos sorte nos Estados Unidos porque a AVCA e a USA Volleyball (organização que administra o esporte no país) fazem um bom trabalho tentando disseminar informação. Eu diria que é importante para o vôlei que haja sempre diálogo a respeito do jogo e da metodologia de treino, isso é fundamental”.

Laurent Tillie coach of France

Tillie é técnico do time masculino da França (foto: FIVB)

Preparação física
Laurent Tillie, técnico da seleção masculina da França, campeão europeu e da Liga Mundial em 2015, enfatizou ao blog a importância da preparação física e que deve haver publicações com foco também nesse aspecto. “A técnica acompanha a evolução física do atleta. Sem isso, não há desenvolvimento. Voleibol é um esporte que demanda muita técnica e surpreendentemente não temos tantos livros que contemplem aspectos físicos e técnicos voltados à modalidade”.

Baixo grau de profissionalismo
Há quem bata mais forte e enxergue outra razão para o problema. “A literatura do vôlei é pobre e isso é um espelho do baixo grau de profissionalismo do nosso esporte. Se você pensar, por exemplo, no número de ligas de clubes que tenham alto nível ao redor do mundo, isso fica claro. Se compararmos com o futebol e com o basquete, puxa vida, será um massacre. Há muita gente jogando vôlei no mundo todo, mas não existe muita estrutura profissional e isso, claro, se reflete na difusão do conhecimento”, ponderou o italiano Roberto Santilli, que no ciclo olímpico passado treinou a seleção masculina da Austrália, depois de construir sua carreira dirigindo clubes da Itália, da Polônia e da Rússia.

Nikola Grbic, atual campeão da Liga Mundial (foto: FIVB)

Transformar teoria em prática
Independentemente da profusão ou não de publicações enfocando aspectos táticos e técnicos, o sérvio Nikola Grbic apontou para a necessidade de preparar os novos treinadores para o uso dessas ferramentas. “Temos que nos preocupar com a formação de quem assume as equipes, para que sejam capazes de transformar esse conhecimento em algo prático”, comentou Grbic ao SdR. Este ano o treinador levou a Sérvia ao inédito título da Liga Mundial, depois do vice-campeonato em 2015.

Volleypedia
“O conhecimento deveria ser mais acessível, de fato não há muita coisa publicada sobre voleibol em termos técnicos e táticos. Seria formidável seguir a direção que o mundo vem tomando e ter uma plataforma com informações armazenadas por gente de todas as partes, com critérios de edição, alguém capacitado que administrasse, para que o conteúdo pudesse ajudar na formação de um modo amplo, uma espécie de wikipedia do vôlei, a volleypedia”, sugeriu ao blog Mauro Berruto, que no período 2006-2010 colocou a seleção masculina da Finlândia no mapa do vôlei e no 2011-2015 comandou a equipe italiana, tendo conquistado bronze em Londres 2012, além de duas pratas nos Europeus 2011 e 2013. A ideia dele soa utópica.

Impacto
“A literatura em qualquer esporte deve nos mostrar o que foi feito, desenvolvido, o que podemos alcançar trilhando certos caminhos. Por isso é tão importante criar uma literatura forte, que possa ter impacto no voleibol”, disse John Forman, parceiro de Mark Lebedew no projeto Volleyball Coaching Wizards e técnico no concorrido mercado universitário americano – ele treina a equipe masculina da Midwestern State University, no Texas.

Coverofthebook

O próprio Lebedew, há dois anos, com a ajuda de seu irmão e de seu pai, fez a primeira tradução do russo para o inglês do livro sobre tática e técnica do lendário treinador soviético Viatcheslav Platonov (My Profession – The Game). Porém, a publicação acaba sendo mais curiosa do que útil, uma vez que as informações refletem o jogo praticado pelos soviéticos nos anos 1970 e 1980. Platonov foi treinador da URSS no período 1977-1985, quando conquistou um ouro olímpico, dois títulos mundiais e duas Copas do Mundo. Mais tarde, nos anos 1990, ele treinaria a Rússia outras duas vezes, mas sem o mesmo sucesso.

Excelência brasileira
“O Brasil certamente tem muito a contribuir na expansão do conhecimento relacionado ao voleibol. Vocês têm técnicos como Bernardinho, Zé Roberto, Bebeto de Freitas e vários outros, que tiveram impacto na modalidade ao redor do mundo, em alto nível. Infelizmente, seus métodos de trabalho são desconhecidos pela maioria da comunidade internacional do vôlei”, concluiu Mark Lebedew.


Saque e bloqueio do Brasília equilibram jogo, mas Rexona segue invicto
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Sidrônio Henrique

A ponteira Gabi recebeu o troféu Viva Vôlei (fotos: Alexandre Loureiro/Inovafoto/CBV)

O Terracap/BRB/Brasília Vôlei resistiu, foi o adversário mais difícil para o invicto Rexona-Sesc até aqui, mas no final vitória carioca sobre a equipe brasiliense por 3-1 (25-22, 14-25, 25-21, 25-23), na melhor partida da Superliga 2016/2017, com quase duas horas de duração. O jogo, realizado no ginásio do Tijuca Tênis Clube, no Rio de Janeiro, abriu a oitava rodada do primeiro turno, que será concluída nesta sexta-feira (9) com cinco confrontos.

O Rexona segue líder isolado, agora com 24 pontos, enquanto o Brasília, com 18, pode terminar a rodada como terceiro ou quarto, dependendo do resultado de Dentil/Praia Clube vs. Vôlei Nestlé, que se enfrentam logo mais, às 21h30, em Uberlândia, com transmissão do SporTV. Foi a segunda derrota no torneio do time brasiliense, que era o vice-líder e vinha de uma sequência de quatro vitórias por 3-0, inclusive sobre Praia Clube (desfalcado de duas titulares, diga-se) e Vôlei Nestlé. O Rexona-Sesc perdeu apenas dois sets nesta edição (o outro foi para o Genter Vôlei Bauru).

A eficiência na relação saque-bloqueio permitiu que o Brasília Vôlei, mesmo jogando como visitante, equilibrasse o duelo desta quinta-feira (8) diante de um oponente tecnicamente superior, undecacampeão da Superliga.

O serviço do Brasília dificultou a vida da levantadora do Rexona, Roberta Ratzke, que jogou a maior parte do tempo sem o passe na mão. Foram 14 pontos de bloqueio do time da veterana Paula Pequeno contra oito do Rexona – a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) não disponibiliza informações sobre ataques amortecidos nas suas estatísticas.

A ponta Amanda marcou 18 pontos e destacou-se contra seu ex-clube

Já o saque das cariocas teve pouco efeito sobre a linha de recepção do time da capital federal, com exceção de Paula, que sempre teve dificuldade no fundamento ao longo de sua carreira. Mas mesmo quando não havia passe A, impedindo que a levantadora Macris Carneiro pudesse imprimir velocidade, as atacantes evitavam enfrentar o bloqueio do Rexona. Destaque ainda para a defesa brasiliense, que atuou bem tanto na cobertura do seu ataque quanto no posicionamento diante das atacantes rivais.

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Alvo preferencial do saque das visitantes e sem corresponder na recepção, a ponta holandesa Anne Buijs foi substituída pelo técnico Bernardinho por Drussyla nos dois primeiros sets, sequer jogou no terceiro e voltou somente no quarto, quando o adversário liderava por 9-5. Uma das principais atacantes europeias, Buijs tem oscilado até mesmo no seu principal fundamento, tentando se adaptar ao ritmo do vôlei brasileiro.

Rússia adia anúncio do sucessor de Marichev na seleção feminina

A única parcial em que não houve equilíbrio foi a segunda, justamente aquela vencida pelo Brasília Vôlei, quando o desempenho da linha de passe carioca caiu ainda mais, para desespero do seu treinador.

No final do quarto set, quando o placar marcava 23-23, dois erros cometidos pela equipe comandada por Anderson Rodrigues deram a vitória ao Rexona – primeiro, dois toques cometidos pela líbero Silvana, depois foi a vez de um levantamento baixo de Macris, que a central Roberta não conseguiu corrigir e atacou para fora.

Mundial 2006: dez anos de um Brasil que encantou o mundo

As ponteiras Gabi (Rexona-Sesc), que recebeu o troféu Viva Vôlei, e Amanda (Brasília Vôlei) foram as maiores pontuadoras, ambas com 18. No entanto, a ponta do time brasiliense teve melhor rendimento no ataque, com 46,9% (15/32), ante 39,5% (17/43) da atacante da seleção brasileira. Transferida para o Brasília na temporada passada, Amanda havia jogado desde adolescente na equipe carioca, permanecendo por 10 temporadas, entrando quase sempre apenas para sacar. Na noite passada, ela destacou-se contra seu ex-clube no serviço, no bloqueio e no passe, além do ataque.

Rexona-Sesc e Terracap/BRB/Brasília Vôlei voltam à quadra na terça-feira (13), quando será disputada a nona rodada. As cariocas enfrentam o arquirrival Vôlei Nestlé, às 21h30, em Osasco, com transmissão pelo SporTV, enquanto o Brasília joga em casa, às 20h, contra o lanterna Renata Valinhos/Country, que ainda não marcou ponto na tabela de classificação da Superliga 2016/2017.


Bernardinho recusa convite para dirigir a seleção do Irã
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Sidrônio Henrique

Técnico Bernardo Rezende está no comando da seleção brasileira masculina desde 2001 (fotos: FIVB)

O técnico Bernardinho continua sendo o sonho de consumo de diversas seleções mundo afora. Desta vez foi o Irã quem tentou levar o treinador para comandar sua ascendente seleção masculina, mas ouviu não como resposta. “Jamais deixaria a seleção brasileira por outra”, disse ao Saída de Rede o bicampeão olímpico e tricampeão mundial. Bernardinho confirmou que a Federação Iraniana de Vôlei procurou pessoas ligadas a ele para sondá-lo, mas negou qualquer interesse em sair do Brasil.

Técnico argentino diz que “ganhar do Brasil é um sonho”

O blog recebeu a informação de que Mohammad Reza Davarzani, presidente da Federação Iraniana, tinha interesse em contratar Bernardinho. Não é a primeira vez. Em 2011, antes de assinar com o argentino Julio Velasco, os iranianos procuraram o brasileiro, que não se interessou pela proposta. Na Rio 2016, o Irã, eliminado nas quartas de final, foi treinado pelo argentino Raul Lozano, cujo contrato terminou no final de agosto.

“Amigos indo lá para fora”
Em setembro deste ano, após a partida de despedida do líbero Serginho da seleção, em Brasília, Bernardinho havia afirmado: “Eu vejo amigos indo lá para fora e isso me incomoda muito. Muitas pessoas bacanas e do bem que podem contribuir estão indo embora. Se todos começarem a ir embora, vão entregar as chaves para pessoas que não deveriam tomar conta da nossa casa”.

Seleção iraniana chegou às quartas de final da Rio 2016

Antes da Rio 2016, o treinador carioca havia sido sondado pela Federação Japonesa para dirigir sua seleção masculina. Mais tarde, ele confirmou que havia recebido uma proposta do Japão e também de outros países, sem revelar quais, mas enfatizou que não quer sair do Brasil. “Houve uma sondagem e algumas propostas formais, me querem no exterior, mas não tenho nenhuma vontade de sair daqui”.

CBV aguarda
A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) aguarda resposta de Bernardinho sobre sua continuidade ou não à frente da seleção masculina, que dirige desde 2001. Nesse período, ele levou o time ao pódio 39 vezes em 42 competições, a maioria delas no primeiro lugar. Sob o comando dele, o Brasil foi finalista nas últimas quatro Olimpíadas e quatro Mundiais, conseguindo cinco ouros e três pratas. Conquistou ainda oito títulos da Liga Mundial, dois da Copa do Mundo e três da Copa dos Campeões.

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Bernardinho enfrenta oposição da família para seguir no cargo, segundo ele mesmo conta. A mulher, a ex-levantadora Fernanda Venturini, e as duas filhas gostariam que ele passasse mais tempo com elas. Além da seleção, Bernardinho é também o treinador do time feminino Rexona-Sesc, do Rio de Janeiro, 11 vezes campeão da Superliga e líder da atual temporada.

Na seleção feminina já foi feita a renovação do contrato de José Roberto Guimarães, que está no cargo desde 2003 e comandará o time rumo a Tóquio 2020.


Situação financeira da CBV se deteriora e preocupa, aponta especialista
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Carolina Canossa

CBV logoA poucos dias do início das competições de vôlei na Olimpíada, todas as atenções se voltam ao que está prestes a acontecer na quadra do Maracanãzinho. Porém, para que uma seleção tenha chances de lutar pela medalha de ouro, é preciso haver uma administração saudável dos recursos recebidos pela Confederação que ela representa. No Brasil, por exemplo, a CBV é tida como um exemplo de “ótima gestão”, mas infelizmente esse panorama está começando a mudar para pior. Como você poderá ver abaixo, o balanço de 2015 da entidade foi gentilmente analisado pelo professor Jorge Eduardo Scarpin, docente do curso de Ciências Contábeis da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Cerca de dois anos após as denúncias de corrupção que abalaram a modalidade, o panorama agora é preocupante por outro aspecto, o financeira, com as dívidas crescendo muito, enquanto as receitas mantiveram-se no mesmo patamar.

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Para quem não está acostumado com os números, tal notícia pode não significar muita coisa, mas não se engane: se a situação continuar assim, a longo prazo ter seleções constantemente no pódio será apenas uma lembrança. E, acredite: a culpa nem de longe será de técnicos e atletas. Separe alguns minutos para ler o texto escrito pelo especialista que, a propósito, há anos faz um brilhante trabalho de análise das contas no basquete no blog do Bala Na Cesta. É dever nosso, como amantes do esporte, ficar de olho no que acontece nos bastidores das confederações.

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O ano de 2015 foi um ano de virada na CBV. A situação, que era de constante melhora desde 2010, parou e teve uma grande queda em 2015, fazendo com que diversos indicadores voltassem aos anos de 2012 ou 2013. Para a análise ficar mais completa, vamos separá-la em grandes pontos, considerando o ano de 2015 e comparando com os anos imediatamente anteriores.

1. Endividamentodividas cbv

Apesar do bom nível de contabilidade da entidade, os balanços ficam um pouco confusos, pela própria característica da CBV e de outras confederações esportivas que é trabalhar com convênios. Um ajuste então precisou ser feito para fins de análise. Tal procedimento é relativamente comum, pois a visão de um analista é diferente da visão interna de uma empresa.

O ajuste refere-se ao recebimento antecipado de verba com convênios. É o caso de uma empresa injetar R$ 20 milhões para um projeto específico em 2015, mas o gasto será apenas em 2016. Isso faz com que a CBV tenha dinheiro, mas que não possa gastá-lo, pois o dinheiro é exclusivamente para tal projeto. E, enquanto este projeto não é executado, se considera uma dívida (passivo), visto que, se a CBV não gasta o dinheiro no projeto específico, este dinheiro precisa ser devolvido. É o que chamamos, normalmente, de “dinheiro carimbado”. Para efeitos de análise, é altamente recomendável que este “dinheiro carimbado” seja excluído, pois dá uma falsa sensação de haver muito dinheiro em caixa e também uma quantia enorme de dívidas.

Para chegarmos ao valor total das dívidas da CBV, deve-se somar o Passivo Circulante (dívidas já vencidas ou que vencem no ano de 2016) e o Passivo não Circulante (dívidas que vencem após 31/12/2016). Considerando os valores reclassificados, observa-se um montante de dívidas no valor de R$ 7.166.171 – trata-se de um valor alto, porém abaixo de outras confederações (a CBB (Confederação Brasileira de Basquete), por exemplo, tem uma dívida total de R$ 17.206.453).

Esse volume de dívidas traz uma informação relevante, pois houve uma virada para menos no seu número e este foi o aspecto mais positivo da CBV neste ano de 2015. O gráfico abaixo dá uma boa dimensão desta virada.

Grafico CBV
Depois de quedas crescentes em 2011 e 2012, o nível de dívidas da CBV voltou a subir em 2013 e 2014. Porém, em 2015 o volume total de dívidas voltou a diminuir, mas ainda assim acima do nível do ano de 2013.

Entretanto, isto é apenas ilusório. Sempre que olhamos o endividamento, temos que comparar o volume de dívidas com os bens que uma entidade possui para pagá-las. Em balanços de empresas normais, como Vale do Rio Doce, Embraer, Pão de Açúcar, BRFoods, etc, veremos um volume de dívidas muito alto. Porém, como os bens que possuem são maiores ainda, tal fato passa a ser relativizado.

No caso da CBV, houve uma piora nos números do ano de 2015. Em uma empresa saudável, o volume de dívidas (endividamento) não deve superar 66% (2/3) do seu volume de bens e direitos (ativos). A CBV, depois de péssimos números em 2009 e 2010, viu sua situação começar a ficar sob controle a partir de 2011 até 2013. Em 2014, o número teve uma leve piora e em 2015 a piora foi significativa, fazendo o quadro ficar com uma forma de parábola, como pode ser visto a seguir:

Grafico CBV 2

Temos aqui um paradoxo: como o indicador piorou se o volume de dívidas em 2015 é menor do que em 2014? Como o indicador é dívida/total de bens e direitos, pode-se concluir que o total de bens e direitos caiu mais do que as dívidas, passando de pouco mais de R$ 36 milhões em 2014 para R$ 8,5 milhões em 2015. E o que significa este indicador estar em 84,24%? Significa que o volume de dívidas representa 84,24% do volume de ativos, ou seja, a CBV precisa vender 84% de tudo o que tem se quisesse quitar todas as suas dívidas

Além disto, se olharmos o que a CBV tem de bens e direitos de curto prazo, ou seja, que são mais fáceis de transformar em dinheiro, vemos que a situação é bem ruim, com uma sensível piora em 2015 graças, principalmente, à diminuição dos bens e direitos de curto prazo (R$ 31,8 milhões em 2014 para R$ 3,9 milhões em 2015). Assim, ao calcularmos a sobra (ou perda) de recursos de curto prazo em relação às dívidas de curto prazo (indicador chamado de capital circulante líquido), que é o quanto sobraria ou faltaria de recursos para quitação das dívidas de curto prazo, o número está negativo em R$ 2,3 milhões, voltando pela primeira vez ao negativo desde o ano de 2011, como podemos ver no gráfico a seguir:

Grafico CBV 3

O que assusta neste gráfico não é o número em si, mas o comportamento do gráfico. Depois de melhora sucessiva e contínua desde 2011, a piora em 2015 foi muito grande, voltando ao patamar negativo de quatro anos antes.

2. Superávit ou Déficit

Aqui temos a pior notícia sobre o balanço: pela primeira vez desde 2010 a CBV apresenta déficit em suas contas, num número muito maior do que os déficits de 2009 e 2010, chegando a quase R$ 24 milhões (R$ 23,8 milhões). O gráfico a seguir mostra melhor este comportamento:

Grafico CBV 4
Aqui temos um problema de tendência. O maior lucro registrado pela CBV foi em 2012 e, a partir de 2013, houve uma tendência de queda, que se acentuou em 2014 e se aumentou mais ainda em 2015. Para explicar este prejuízo, principalmente comparado com o ano de 2014 (25 milhões a menos), ou houve aumento de despesas ou redução de receitas ou ainda uma combinação dos dois.

3. Despesas

As despesas totais aumentaram muito em 2015 comparado ao ano de 2014. Assim, será que 2015 foi um ano atípico ou 2014 é que foi um ano atípico? Creio que o gráfico a seguir ajuda a compreender melhor o ocorrido.

Grafico CBV 5

O número de 2015 foi o mais alto da história. Entretanto, com exceção de 2014, os valores estão em trajetória crescente desde 2009 e, numa análise fria dos números, o ponto fora da curva é o de 2014, que foi baixo, e não o de 2015, que foi alto. Assim, se a tendência continuar, teremos problemas maiores nos próximos anos.

As despesas da CBV estão divididas em dois grandes grupos: Operacionais (gasto com a atividade de vôlei propriamente dita – torneios, seleção, etc) e Administrativas (gastos com a máquina da CBV, principalmente folha de pagamento). O gráfico a seguir mostra o comportamento das duas despesas.

Grafico CBV 6

Analisando as despesas, temos a maior como sendo as Operacionais e a menor como sendo as Administrativas. Assim como nas despesas totais, o que aparenta é que houve, em 2014 um ponto fora da curva e não um aumento brutal em 2015. Mas, vamos ver o que a CBV disse sobre isso no seu balanço.

Seleções não podem ser culpadas pelo aumento das despesas

Seleções não podem ser culpadas pelo aumento das despesas

3.1 Despesas Operacionais

Passou de 69,4 em 2014 para 85,4 em 2015, um aumento de R$ 16 milhões. É composta de seis grandes itens, a saber:

a) Despesas com pessoal de apoio, atletas e comissão técnica: valor praticamente inalterado nos dois anos, passando de R$ 23,2 milhões em 2014 para R$ 24 milhões em 2015. Assim, o pessoal de apoio, atletas e comissão técnica não podem ser responsabilizados pelo aumento da despesa.

b) Transportes: neste item são registrados o custo com transporte de pessoas e materiais para competições nacionais e internacionais, passando de R$ 14 milhões em 2014 para R$ 16,3 milhões em 2015, um aumento de R$ 2,3 milhões. Considerando a desvalorização cambial no período, este aumento seria esperado.

c) Premiação de Atletas: passou de R$ 14,4 para R$ 11,4 milhões, uma redução de R$ 3 milhões de 2014 para 2015. De novo, os atletas não podem ser responsabilizados pelo aumento na despesa da CBV, uma vez que a despesa com pessoal subiu R$ 1 milhão e a premiação caiu em R$ 3 milhões.

d) Locação: neste item são registradas todas as despesas com locação de bens móveis necessários para realização dos eventos de vôlei de quadra e praia organizados pela CBV. Comparando os números, vemos um aumento considerável, passando de R$ 9,2 milhões para R$ 13,8 milhões, uma variação de R$ 4,6 milhões. Na abertura que a CBV fez deste item, há um item de locação de equipamentos cujo valor foi de R$ 3,7 milhões em 2014 para R$ 6,8 milhões em 2015, um aumento R$ 3,1 milhões que, aliado com o aumento na locação de quadras (R$ 100 mil em 2014 e R$ 982 mil em 2015) e de móveis (R$ 343 mil em 2014 para R$ 921 mil em 2015) representa quase todo o aumento. Infelizmente, a CBV não trouxe maiores explicações sobre isso.

e) Federações: o repasse para as federações estaduais ficou praticamente estável, com uma leve queda, indo de R$ 2,1 milhões em 2014 para R$ 1,9 milhões em 2015.

f) Outros custos: particularmente não gosto quando vejo itens com nome de outros, mas é normalmente usado para itens de pequeno valor. Entretanto, na CBV o valor é expressivo e crescente, indo de R$ 6,3 milhões em 2014 para R$ 17,4 milhões em 2015, um aumento de R$ 11 milhões de reais. Basicamente o valor se refere a despesas com eventos, que foram realizados em número superior em relação a 2014, como por exemplo as Finais da Liga Mundial, Sul-Americano, World Tour e amistosos. Neste item, alguns valores me chamaram atenção: montagens e desmontagens de quadras (aumento de R$ 550 mil – R$ 489 mil em 2014 para R$ 1.058 mil em 2015), equipamentos e materiais esportivos (aumento de R$ 700 mil – R$ 353 mil em 2014 para R$ 1,025 mil em 2015), vídeo/som/imagem/comunicação (aumento de R$ 3,3 milhões – R$ 1,1 milhão em 2014 para R$ 4,4 milhões em 2015), taxas gerais para participação nos torneios (aumento de R$ 5,4 milhões – R$ 1 milhão em 2014 para R$ 6,4 milhões em 2015) e outros custos, tais como água e gelo para os eventos, energia elétrica, decoração de ginásio, material de informática e apoio financeiro para os clubes da Superliga no valor de R$ 600 mil (aumento de R$ 1 milhão – R$ 627 mil em 2014 para R$ 1,6 milhões em 2015).

Segundo a CBV, o grande problema dessas despesas foi a realização do Grand Prix e da Liga Mundial no Brasil. Talvez explique em parte, mas creio que não o todo.

Além disso, a CBV afirma que deu R$ 1,8 milhão para os clubes da Superliga. Porém, apenas R$ 600 mil figuraram como despesa em 2015 e os R$ 1,2 milhão restantes serão registrados como despesa em 2016. Assim, o valor pago aos clubes da Superliga não foram responsáveis por esse aumento de gastos.

Realização da Liga Mundial e do GP no Brasil em 2015 explica parte do aumento dos gastos, mas não tudo

Realização da Liga Mundial e do GP no Brasil em 2015 explica parte do aumento das despesas, mas não tudo

3.2 Despesas Administrativas

Neste item, basicamente são contabilizados as despesas com a máquina da CBV, principalmente gastos com pessoal e encargos trabalhistas, além de gastos com aluguel e propaganda. Neste item, houve um aumento também grande (R$ 13 milhões), passando de R$ 35,9 para R$ 48,9 milhões.

a) Aluguel: passou de R$ 5,2 milhões em 2014 para R$ 7,3 milhões em 2015, um aumento de R$ 2 milhões.

b) Propaganda e publicidade: passou de R$ 1,6 milhão em 2014 para R$ 3,2 milhões em 2015, um aumento de R$ 1,6 milhão, o que, em termos monetários não é muito, mas foi o dobro de um ano para o outro.

c) Há um item de outras despesas, que se refere principalmente a manutenção, impostos e taxas, etc, que, apesar de ser um valor alto, R$ 10 milhões de reais, ficou praticamente estável em relação a 2014.

d) Despesa com Pessoal e Encargos: aqui está o grande problema da CBV. A folha de pagamento e os encargos sobre ela (FGTS e INSS) passaram de R$ 11 milhões em 2014 para R$ 18,8 milhões em 2015, um aumento de R$ 7,7 milhões. Segundo explicação dada pela CBV, isto se deveu ao fato de que “em 2015, a entidade passou a contar com um diretor executivo (CEO), que assumiu o cargo com a missão de adotar práticas responsáveis de governança e alcançar a excelência nos eventos promovidos pela entidade. E com uma gestão cada vez mais atenta e preocupada com os colaboradores, a confederação adotou um plano de cargos e salários, e melhoria nos benefícios (cartão de alimentação, plano de saúde e mental)”. A explicação da CBV me deixou muito mais preocupado, pois mostra que o aumento será permanente e que não foi apenas algo pontual no ano de 2015. Assim, é muito pouco provável que esse valor diminua em 2016.

4. Receitas

As receitas em 2015 tiveram uma leve melhora (R$ 3 milhões) comparando com o ano de 2014. Porém, uma análise gráfica deixa um sinal de preocupação, como pode ser visto a seguir:

Grafico CBV 7

Assim como nas despesas, havia uma forte alta até 2013 e uma queda em 2015. Porém, as despesas em 2015 voltaram a repetir a tendência até 2013, mas as receitas não, cresceram num ritmo muito menor, o que explica o desequilíbrio nas contas. Ao analisarmos os componentes das receitas, podemos concluir o seguinte:

a) Patrocínio: queda de quase R$ 3 milhões, indo de R$ 75,4 milhões em 2014 para R$ 72,7 em 2015. Sendo a principal receita da entidade (2/3 do total), essa queda praticamente fez com que a linha de receita não conseguisse ser alavancada para cobrir as despesas.

b) Demais receitas: praticamente constantes, com exceção de convênios, que subiu de R$ 9,1 milhões em 2014 para R$ 15,4 milhões em 2015. Porém, como o valor em relação ao total não é expressivo, não foi capaz de fazer com que a receita total tivesse ganhos significativos.

5. Conclusões

Fechando esta análise, podemos ver que a CBV apresentou um forte desequilíbrio em suas contas ao compararmos 2015 com 2014, principalmente pelo aumento de despesas (operacional e administrativa) sem a contrapartida de aumento na receita. Um último gráfico ajuda a entender o desequilíbrio:

Grafico CBV 8
Até 2014 havia mais ou menos o mesmo comportamento entre receitas e despesas. No ano de 2015, porém, tal comportamento foi alterado, com a despesa subindo muito mais do que a receita. Considerando os números e as explicações dadas pela CBV, bem como o encerramento do ciclo olímpico, se a tendência se mantiver, provavelmente teremos em 2016 outro ano deficitário para a CBV.

Ressalte-se que toda esta análise foi feita com os dados fornecidos pela própria CBV em seus balanços, sem nenhuma montagem minha quanto a números, bem como nenhum acesso a informação privilegiada.

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