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Olimpíada 2020: cancelamento de etapas gera insegurança no vôlei de praia

Carolina Canossa

24/01/2019 06h00

Vôlei de praia foi um dos esportes com mais sucesso de público na Rio 2016 (Foto: Divulgação/FIVB)

Reunidas atualmente em São Luís (MA) para a disputa da primeira etapa do Circuito Brasileiro em 2019, as principais duplas nacionais de vôlei de praia contam com uma preocupação em comum neste início de ano: as dificuldades de classificação para a Olimpíada de Tóquio 2020. Não bastasse o grande número de candidatos para apenas duas vagas no feminino e duas no masculino, o cancelamento de duas etapas que serviriam para a soma dos pontos que definirão os contemplados tem causado insegurança aos atletas.

Em comunicado divulgado em dezembro, a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) definiu que os representantes do país na próxima Olimpíada serão as duplas que tiverem os dez melhores resultados em três tipos de torneios organizados pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei) entre 1 de fevereiro de 2019 e 28 de fevereiro de 2020: o Campeonato Mundial, as etapas "cinco estrelas" e as etapas "quatro estrelas" do Circuito Mundial. Dependendo da colocação obtida em cada um desses torneios, as parcerias podem somar de 100 a 1.000 pontos na corrida olímpica.

O problema é que, na mesma semana em que esses critérios foram anunciados, duas etapas que serviriam para a soma de pontos foram canceladas por questões financeiras: Fort Lauderdale e Los Angeles, ambas nos Estados Unidos. Assim, sobram confirmados até o momento apenas 12 torneios femininos e 13 masculinos, sendo que há uma enorme dificuldade logística em se disputar as competições "quatro estrelas" de maio, Itapema (Brasil) e Jinjiang (China), uma vez que eles acontecem consecutivamente, na segunda quinzena do mês. Quem chegar à final em Santa Catarina jogará em um domingo (19), enquanto a disputa chinesa começa na quarta-feira (22), do outro lado do mundo.

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"O cancelamento das etapas foi muito ruim, péssimo. O torneio de Fort Lauderdale era um cinco estrelas, um dos mais importantes, em um lugar fantástico e infelizmente foi cancelado. Isso fará com que façamos viagens mais longas, cansativas, mas faz parte. Já aconteceu e temos que pensar para frente", lamentou Evandro, campeão mundial e do Circuito Mundial em 2017. Seu parceiro, Vitor Felipe, também lamentou a saída de Fort Lauderdale do calendário: "Fiquei muito triste com o cancelamento. Fort Lauderdale é uma etapa muito boa de se jogar, um cinco estrelas logo no início do ano".

Treinador da dupla, Ednilson Costa destacou que a alteração no calendário provocará um maior desgaste e colocará todos contra a parede: uma lesão e a consequente ausência em uma ou mais etapas, por exemplo, podem significar a perda de pontos essenciais na disputa com os compatriotas: "Sem dúvida ficou mais apertado e não podemos errar. Para nós, a maior mudança causada pelo cancelamento de Fort Lauderdale e Los Angeles, é que teremos que jogar no Catar e em Xiamen (China), etapas que não estavam na nossa programação".

Maria Elisa: "É ruim se programar para estar de um jeito e reaver a programação" (Foto: Divulgação)

IMPACTO NA CORRIDA

Campeãs em Fort Lauderdale em 2018, Bárbara Seixas e Fernanda Berti possuem um motivo extra para lamentar: com o cancelamento da etapa, que ocorreria agora em fevereiro na Flórida, elas também não defenderão os pontos conquistados, perdendo algumas posições no ranking de entradas, o que poderia permitir à dupla largar na frente na corrida olímpica.

"Avaliaríamos após os torneios americanos a necessidade de participação no torneio na China, uma viagem extremamente desgastante que, dependendo dos resultados, poderia ser evitada. Agora, somos 'obrigados' a participar da etapa em Xiamen", afirmou Rico de Freitas, treinador das atletas.

Vice-campeã olímpica na Rio 2016, Bárbara Seixas lamentou também o impacto negativo que a não realização das etapas americanas terão para o esporte. "Os EUA são um mercado de muita tradição no vôlei de praia e, logo numa temporada tão importante, não termos torneios lá?! Confesso que isso me assustou um pouco.  Precisamos urgentemente pensar como que o vôlei de praia nos Jogos Olímpicos faz sempre tanto sucesso, com um dos ingressos mais concorridos, e durante as temporadas regulares não consegue repetir isso", comentou.

Campeão mundial em 2017, Evandro lamenta ter que fazer viagens mais longas (Foto: Divulgação/FIVB)

PROGRAMAÇÃO REFEITA

Outra consequência das mudanças no calendário é que as duplas foram obrigadas a rever seus planejamentos em termos físicos, já que, depois das férias de fim ano, elas teriam que entrar o mês de fevereiro com tudo para a disputa em Fort Lauderdale. Agora, com a mudança, a soma de pontos começa apenas no fim de abril, em Xiamen.

"É muito ruim se programar para estar de um jeito, começar o ano apressando algumas coisas, reavendo a programação. Trabalhamos com objetivos e, cada vez que algum deixa de existir, temos que fazer algum tipo de mudança", afirmou Maria Elisa, campeã do Circuito Mundial em 2014. Sua atual parceira, Carol Solberg lembrou que a disputa na Flórida era uma das que melhor recebia os atletas: "Era uma etapa muito legal, com uma super estrutura".

Tabela divulgada pela CBV mostra distribuição dos pontos na corrida olímpica do vôlei de praia brasileiro

LADO BOM

Mas nem tudo é má notícia em relação à turbulência na corrida olímpica. Luciano Kioday, técnico de Maria Elisa e Carol, pretende usar o adiamento do início da corrida olímpica para fazer uma preparação mais completa. "Teremos mais tempo para se preparar, pois antes jogaríamos uma etapa cinco estrelas, valendo muito ponto, sem estar preparado na melhor forma. Mas só nessa parte foi bom. O ideal mesmo é que Fort Lauderdale fosse jogado no fim de fevereiro, início de março", analisou.

Com três pratas olímpicas como treinadora no currículo (Adriana Behar/Shelda em 2000 e 2004 e Alison/Emanuel em 2012), Letícia Pessoa tem pensamento semelhante, apesar de a corrida olímpica masculina começar mais cedo, em março. "Esse tempo maior de preparação está sendo importante para minha dupla em especial", declarou a técnica, que, por outro lado, está atenta com o atual calendário. "Todas as etapas jogadas passaram a ter uma importância absurda pela incerteza das outras", apontou.

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CBV DIZ QUE HÁ EXPECTATIVA POR NOVAS ETAPAS

Procurada pelo Saída de Rede, a CBV destacou que está acompanhando de perto as mudanças junto às comissões técnicas, mas, a princípio, tudo permanece como está:

"A Confederação Brasileira de Voleibol está alerta e acompanha, junto às comissões técnicas, possíveis alterações no calendário do Circuito Mundial de vôlei de praia. Até o presente momento, porém, não existe a intenção de realizar alterações nos critérios de classificação aos Jogos de Tóquio. Tal sistema foi desenvolvido junto aos atletas e comissões técnicas. Em caso de novos cancelamentos, o critério poderá ser rediscutido junto aos mesmos"

Isso porque, segundo a entidade, existe a possibilidade de que a FIVB anuncie mais etapas quatro e cinco estrelas no último trimestre do ano, ampliando o número de torneios que valerão pontos para a classificação para a Olimpíada de Tóquio no vôlei de praia:

"As confirmações das etapas precisam ser oficializadas pela Federação Internacional de Voleibol, porém, em conversas informais, existe a expectativa de que sejam anunciadas etapas entre outubro e dezembro, bem como a manutenção de torneios realizados no início de 2020 (Haia e o retorno de Fort Lauderdale), aumentando o número de etapas dentro dos critérios de classificação aos Jogos Olímpicos".

Confira abaixo as etapas que, até o momento, valerão pontos para a corrida olímpica brasileira do vôlei de praia:

Doha (só masculino)
Data: 12 a 16 de março
País: Catar
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Xiamen
Data: 24 a 28 de abril
País: China
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Itapema
Data: 15 a 19 de maio
País: Brasil
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Jinjiang
Data: 22 a 26 de maio
País: China
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Ostrava
Data: 29 de maio a 2 de junho
País: República Tcheca
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Varsóvia
Data: 12 a 16 de junho
País: Polônia
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Hamburgo
Data: 28 de junho a 7 de julho
País: Alemanha
Nível: Campeonato Mundial

Gstaad
Data: 9 a 14 de julho
País: Suíça
Nível: etapa cinco estrelas do Circuito Mundial

Espinho
Data: 17 a 21 de julho
País: Portugal
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Tóquio
Data: 24 a 28 de julho
País: Japão
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Viena
Data: 31 de julho a 4 de agosto
País: Áustria
Nível: etapa cinco estrelas do Circuito Mundial

Moscou
Data: 14 a 18 de agosto
País: Rússia
Nível: etapa quatro estrelas do Circuito Mundial

Roma
Data: 4 a 8 de setembro
País: Itália
Nível: etapa cinco estrelas do Circuito Mundial

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Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.

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