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Arquivo : Fernanda Venturini

No dia 1º de abril, seis fatos do vôlei que parecem mentira, mas não são
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Sidrônio Henrique

No Dia da Mentira, o Saída de Rede relembra seis fatos ligados ao voleibol que parecem difíceis de acreditar, mas que são incontestáveis. De uma cubana voadora a um francês marrento, passando por partidas que ainda mexem com a torcida brasileira, além de um Mundial esvaziado, dá uma conferida na lista abaixo.

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A baixinha Mireya assombrou o mundo (foto: Tasso Marcelo/Ag. Estado)

Salta, chica!
Suponha que você, fã de vôlei, nunca ouviu falar sobre Mireya Luis. De repente, alguém te diz que uma ponteira com mero 1,75m teve o maior alcance da história, chegando a 3,36m, e que foi a maior atacante de todos os tempos. Dá para acreditar? Parece mentira, mas não é.

De 1983 a 2000, essa ponta cubana brilhou nas quadras mundo afora. Sua impulsão era de 1,10m. Lá do alto, distribuía petardos que assombravam as adversárias. Na tentativa de contê-la, os bloqueios atrasavam um tempo na hora de subir, na esperança de amortecer a bola. Bloqueá-la, só se ela atacasse para baixo, e às vezes nem assim. Em mais de uma oportunidade, sepultou o sonho do ouro das brasileiras. O duelo mais notório foi a semifinal da Olimpíada de Atlanta, em 1996, quando Mireya, depois de um começo opaco, foi crescendo até destruir o Brasil no tie break. Deixou sua seleção como tricampeã olímpica e bi mundial, entre outros títulos, à frente de um timaço apontado por muitos como o maior de todos os tempos.

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A tristeza de Mari, Virna e Zé Roberto após a derrota para as russas (FIVB)

24 a 19 na semifinal de Atenas
Olimpíada de Atenas, 26 de agosto de 2004. Faltava um, apenas um ponto para a seleção brasileira feminina de vôlei chegar a uma inédita final olímpica, após ter parado na semifinal nas três edições anteriores. O time comandado pelo técnico José Roberto Guimarães vencia a Rússia na semifinal do vôlei feminino por dois sets a um e liderava o quarto set por 24-19 quando a levantadora Fernanda Venturini foi para o saque. A virada de bola russa na sequência, com a ponta Lioubov Sokolova, parecia normal, afinal ainda restariam outros quatro match points, com o Brasil recebendo o serviço e tendo três atacantes na rede.

O que parecia mera formalidade virou um pesadelo. Uma a uma, a seleção brasileira foi desperdiçando suas chances, até que as russas fecharam a parcial em 28-26, levando a decisão para o tie break. No quinto set, o Brasil voltou a liderar, mas sucumbiu no final e perdeu por 16-14. Foram sete match points jogados fora (seis na quarta parcial e um na última). A oposta Marianne Steinbrecher, 21 anos recém-completados, marcou impressionantes 37 pontos na partida, recorde mantido até hoje em Jogos Olímpicos. No entanto, foi injustamente rotulada por alguns como símbolo da derrota, que ocorreu como fruto do desequilíbrio coletivo. Um desastre, que mesmo depois de dois ouros olímpicos (Pequim 2008 e Londres 2012) ainda vive na memória do torcedor.

Zé Roberto dá um peixinho: seis match points salvos diante da Rússia (Lalo de Almeira/Folhapress)

Quartas de final de Londres
Mais uma vez a Rússia, de Lioubov Sokolova e Ekaterina Gamova, aparecia no caminho da seleção brasileira feminina. O retrospecto era péssimo em jogos decisivos. Além da semifinal de Atenas 2004, as adversárias haviam sido algozes do Brasil nas decisões dos Mundiais 2006 e 2010 – a oposta Gamova marcou, nessas duas partidas, 28 e 35 pontos, respectivamente. É verdade que em Pequim 2008 as brasileiras massacraram as russas, mas como o próprio Zé Roberto ressaltou, a superioridade do Brasil afastava qualquer equilíbrio e o jogo foi na primeira fase.

Thaisa decide jogar com joelho machucado e piora lesão: “Bomba relógio”

Para aumentar o drama em Londres 2012, a seleção brasileira avançou às quartas de final após ficar em um modesto quarto lugar em seu grupo, tendo perdido por 0-3 para a Coreia do Sul. As russas estavam invictas. Fim da linha para o Brasil? Que nada! O jogo foi ao tie break e, para apimentar ainda mais a rivalidade entre brasileiras e russas, estas últimas tiveram seis match points. Poderiam ter fechado a partida num contra-ataque pela entrada com Nataliya Goncharova, mas Jaqueline Carvalho defendeu e entregou na mão da levantadora Dani Lins. Era dia de Sheilla Castro. A oposta brasileira salvou cinco dos seis match points – o outro foi num ataque pelo meio com Thaisa Menezes.

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No final, dois saques certeiros da ponta Fernanda Garay sobre Sokolova, sobrecarregada no passe. No primeiro, ace. No seguinte, uma bola de graça, convertida em ponto numa china com Fabiana Claudino. Brasil 21-19. A semifinal de Atenas pode não ter sido esquecida, mas foi vingada.

Giba consola Bruno após a derrota na final de Londres 2012 (AP)

Final masculina de Londres
A seleção brasileira masculina esteve muito perto do seu terceiro ouro olímpico antes de conquistá-lo na Rio 2016. Chegou a ter dois match points na final de Londres 2012 diante da Rússia. O Brasil começou atropelando e, com relativa facilidade, abriu 2-0.

A partir do terceiro set, dois fatores mudaram o jogo. Do lado russo, o único oposto de ofício da equipe, Maxim Mikhaylov, devidamente marcado pelo time de Bernardinho, foi deslocado para a entrada. Em seu lugar na saída de rede, o técnico Vladimir Alekno colocou o central Dmitriy Muserskiy, um gigante de 2,18m que às vezes desempenhava essa função em seu clube, o Belogorie Belgorod, mas nunca havia sido testado nela em jogos da seleção. Pelo Brasil, o ponta Dante Amaral começou a sentir fortes dores em seu joelho direito, o que prejudicou sua mobilidade e comprometeu o esquema tático da equipe.

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Estava traçada ali uma das viradas mais espetaculares da história. Some à queda no desempenho do Brasil uma atuação de gala de Muserskiy e o resultado foi Rússia 3-2. O central transformado em oposto saiu da condição de coadjuvante para protagonista na final. Nos dois primeiros sets, como meio de rede, havia marcado apenas quatro pontos. Marcaria outros 27 a partir da terceira parcial para se consagrar. Parecia mentira, mas infelizmente foi verdade.

A imprevisibilidade de N’gapeth
Há os que o amam e aqueles que não o suportam. Só não há um fã desse esporte que seja indiferente ao marrento ponta francês Earvin N’gapeth. Também não se pode negar o talento daquele que é um dos maiores jogadores da década. À sua irreverência e jeito provocativo, acrescente uma dose de imprevisibilidade que garantem lances incríveis, como que tirados da cartola por esse atacante que desde 2014 joga pelo Modena, da Itália.

Parece mentira que o craque de 1,94m, atualmente com 26 anos, tenha decidido arriscar, enquanto girava, uma bola de gancho no match point da decisão do Campeonato Europeu 2015, diante da valente Eslovênia, quando o placar dava apenas um ponto de vantagem para a França. A cada rodada da liga italiana, surgem nas redes sociais clipes com jogadas geniais (como as do vídeo acima) de um cara que desde os tempos de juvenil era apontado como detentor de um talento que lhe garantiria projeção internacional. Momentos que só vendo para crer.

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Mundial com quatro equipes
Onde já se viu isso? Culpa da Guerra Fria. O Saída de Rede já te contou essa história, em janeiro deste ano, quando o evento completou 50 anos. Por causa de diferenças políticas, o Mundial feminino 1967 teve apenas quatro países participantes: Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Peru.

O torneio deveria ter tido a presença de 11 seleções, mas o país-sede, o Japão, capitalista, advertiu que não hastearia a bandeira nem executaria o hino nacional da Coreia do Norte e da Alemanha Oriental, duas novas nações surgidas depois da II Guerra Mundial, integrantes do bloco comunista. Como outros cinco participantes eram alinhados com aqueles dois, o boicote dos sete fez o evento virar um simples quadrangular, vencido com facilidade pelo anfitrião. Um fiasco que parece história inventada, mas que de fato aconteceu.


Mari: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”
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Sidrônio Henrique

A oposta do Bauru diz que está super tranquila (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

A silhueta esguia surge no corredor que dá acesso à quadra e os fãs que aguardam a loira de 1,90m se agitam ao vê-la de longe, chegando para o treino. Quase cinco anos depois de ter vestido a camisa da seleção brasileira pela última vez, a ponta/oposta Marianne Steinbrecher, 33 anos, ainda causa frisson entre os aficionados por voleibol. É quase impossível ignorá-la, seja por sua simples presença, seja por sua história representando o Brasil.

Foi do céu ao inferno mais de uma vez. Muito jovem, 21 anos recém-completados, marcou 37 pontos na tragédia de Atenas, em 2004, a semifinal olímpica em que o Brasil desperdiçou sete match points e viu a Rússia avançar à final. Começava ali um calvário que acabaria quatro anos depois, na sua maior conquista, o ouro olímpico em Pequim. Calou seus detratores como titular absoluta em uma equipe esférica, beirando à perfeição. Contusões, cirurgias, o corte antes de Londres 2012… Uma carreira atribulada, mas Mari sempre ressurge.

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A forma atual, ela admite, não é a ideal, mas segue se esforçando, lutando contra as limitações físicas. “Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande”, disse ao Saída de Rede.

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O modo como o voleibol feminino é jogado atualmente não a agrada muito. “Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo”. Sobre a renovação na seleção, Mari torce pelo sucesso do time, mas foi taxativa: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”.

Atualmente revezando-se com Bruna Honório na saída de rede, ela tenta ajudar o Genter Vôlei Bauru, clube que passou a integrar em novembro do ano passado, a chegar à semifinal da Superliga, na segunda temporada da equipe na primeira divisão. Logo mais, às 20h30, em Belo Horizonte, o Bauru entra em quadra como visitante contra o Camponesa/Minas para a primeira partida da série melhor de três das quartas de final.

Veja a entrevista que Marianne Steinbrecher concedeu ao SdR:

Saída de Rede – Os fãs ficam muito agitados quando te veem. Faz tempo que você não joga pela seleção, mas segue sendo assunto nas redes sociais e chama muita atenção nos ginásios. A que você atribui isso?
Mari – Acho que simpatizam comigo porque sou uma jogadora diferente. Mas sou mais séria na quadra, fora dela sou completamente diferente do que quando estou jogando. As pessoas não sabem, acham que sou assim o tempo todo e não é verdade, sou brincalhona. Quem me conhece, sabe. Então eu acho que esse jeito diferente, aparentemente mais frio, causa essa curiosidade, né. Também o fato de eu não ser uma brasileira típica. Essas coisas me deixam bem diferente da maioria das jogadoras.

Mari na semifinal de Atenas 2004: bloqueando Gamova e no chão após a derrota (fotos: FIVB)

Saída de Rede – Como avalia seu atual momento na carreira? Está jogando do jeito que gostaria? Como vê sua participação no Bauru?
Mari – Tô voltando numa situação atípica, fiquei muito tempo parada depois da morte do meu pai (1º de abril de 2016). Eu vim num esquema diferente delas (aponta para as colegas de time, na quadra). Eu tenho alguns, não digo privilégios, mas algumas coisas que eu resolvo com o Marcos (Kwiek, treinador do Bauru). Eu tenho que ver minha mãe, que agora é uma senhora paraplégica que mora sozinha (vive em Rolândia-PR, cidade onde a paulistana Mari foi criada), eu tenho todo um esquema um pouco diferente. Mas eu não deixo de treinar, eu treino igual a todo mundo. Eu vim depois, né. Cheguei ao time em novembro, então até eu entrar em ritmo de novo… Até hoje eu não peguei ritmo de jogo. Eu vinha jogando, mas aí eu machuquei o abdome, fiquei um bom tempo parada. Agora tô voltando a treinar. Ainda não estou como eu gostaria, por não ter ritmo de jogo e ter tido também essa lesão no abdome, que me deixou um tempo afastada.

Redenção em Pequim 2008: ouro (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você teve muitas lesões ao longo da carreira. O quanto elas te atrapalharam? Te fizeram mudar a forma de jogar?
Mari – Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Eu tive uma lesão na perna esquerda (joelho esquerdo, em 2013) que eu nunca mais pude cair me apoiando nela como fazia antes, isso me deixou muito travada. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, pensar muito mais para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande. Então foi toda uma adaptação, levou pelo menos dois anos para hoje estar um movimento mais natural. Eu tive vários problemas que a maioria das jogadoras não teve. Tive uma cirurgia no ombro direito ainda muito nova, depois demorou a recuperar. Em 2008 eu já estava OK, mas você tem que ficar sempre cuidando. Teve a cirurgia no joelho direito em 2010, que me tirou do Mundial. Leva sempre um ano (de recuperação) para você estar bem. E nunca mais você fica 100%, você volta bem, mas nunca mais é o joelho como a gente nasceu. Foram várias coisas… Eu aprendi muito a ter superação diante desses problemas. Isso me fez crescer muito como atleta, como pessoa.

Saída de Rede – A temporada anterior, parte na Itália, depois na Indonésia, onde o nível é mais baixo, te atrapalhou de alguma forma?
Mari – Não, foi ótima. O nível delas (jogadoras indonésias) não é o nosso nível, mas o das estrangeiras que vão para lá é muito bom. Tinha as chinesas, jogadoras da seleção delas, que disputaram duas Olimpíadas, e jogaram lá também. A Logan Tom (ponta americana), que estava no meu time, ela estava muito bem. As estrangeiras são diferenciadas, a cobrança em cima da gente na Indonésia era muito grande. Lá a gente atacava 80, 90 bolas por jogo. Se fizéssemos menos de 30 pontos, eles achavam que a gente jogou mal. É um outro tipo de pressão, então fisicamente você tem que estar o tempo inteiro bem. Treinava e jogava sexta, sábado e domingo, não tinha folga… Eles são assim, um pouco fora do normal. (Risos)

No ataque: lesões mudaram sua forma de jogar (fotos: Neide Carlos/Genter Vôlei Bauru)

Saída de Rede – Você ficou decepcionada por não ter sido lembrada na convocação da seleção no ano passado?
Mari – Não chegou a ser decepção porque não esperava nada, não espero nada, mas eu acho que poderia ter sido lembrada pela fase em que eu estava. Eu vinha bem, fisicamente muito bem. Fui pra Indonésia por falta de pagamento (na Itália), não por opção minha. Naquele período não tinha um time pra eu poder me encaixar. Até havia outros times, mas financeiramente não estava valendo a pena em comparação com o que a Indonésia me ofereceu. E eu estava vindo de uma situação sem receber, então não podia pensar só onde jogar, mas na parte financeira também. Eu fiquei mais de cinco meses sem salário na Itália, tendo despesas em euro, e o euro estava quatro e pouco em relação ao real… Tive que optar pela situação financeira que a Indonésia estava oferecendo.

Saída de Rede – O Bolzano (clube italiano pelo qual ela jogou metade da temporada passada) pagou tudo o que te devia?
Mari – Não, não…

Saída de Rede – Eles propuseram algum acordo?
Mari – Eles tão pagando muito picado, sabe. Já tem mais de um ano e até hoje eles me ligam e falam “vamos pagar um pouquinho aqui”. Eu já entendi que eu nunca vou ver a cor do dinheiro realmente.

(Nesse momento, Paula Pequeno, do Terracap/BRB/Brasília Vôlei, que havia treinado e se alongava noutro canto do ginásio do Sesi, em Taguatinga (DF), chega e dá um abraço e um beijo na ex-colega de seleção. As duas foram as ponteiras titulares em Pequim 2008, quando o Brasil conquistou seu primeiro ouro olímpico no vôlei feminino, numa campanha invicta, com oito vitórias e apenas um set perdido.)

Batendo papo com as colegas de time durante intervalo do treino

Saída de Rede – Você já pensou em parar ou faz planos de jogar até uma determinada idade?
Mari – Hoje em dia não tô mais pensando muito nisso, não. Eu acho que fisicamente, apesar dos contratempos, ainda tô super tranquila pra jogar. Tudo depende mais da cabeça hoje em dia, né… Eu vou fazer 34 anos e o que pesa mais não é a parte física, mas sim a cabeça. Sabe, você estar querendo fazer outras coisas, estar descobrindo outras coisas e o vôlei passa a não ser mais o principal foco… Mas eu ainda não cheguei nesse ponto. Quando chegar nesse ponto, vai ser o momento em que vou falar “não quero mais”.

Saída de Rede – Seu contrato com o Bauru vai até o final desta temporada. Onde você se vê na próxima? Pensa em renovação com o clube?
Mari – Eu espero continuar.

Saída de Rede – O que acha da renovação na seleção feminina, das novas jogadoras que substituirão a sua geração?
Mari – Eu acho que o vôlei, comparando a nossa geração com essa de hoje, virou um voleibol masculino: só força, porrada, você não vê mais jogada, você não vê mais jogadoras habilidosas, não vê levantadoras como Fofão e Fernanda Venturini. Pra mim, o vôlei feminino virou um vôlei, digamos, um pouco mais feio. Mais forte, porém mais feio. Modo de dizer, não que seja um vôlei feio. (Risos)

Durante aquecimento na Superliga, ela aguarda sua vez de atacar

Saída de Rede – Com mais potência, com ênfase na parte física?
Mari – Exatamente. Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo. Então nossa renovação está… No mundo, né, no geral tá sendo muito isso.

Saída de Rede – Você acha que as jogadoras jovens cotadas para a seleção podem ajudar a manter o Brasil em alta?
Mari – Ai, prefiro não opinar porque a gente não sabe o que pode acontecer… Assim como minha geração foi um pouco desacreditada, de 2005 até ganhar o ouro olímpico em 2008… Depois na Olimpíada seguinte elas ganharam outro ouro, sabe, esse grupo em que ninguém acreditava, que era chamado de geração amarelona e tal. Isso pode acontecer com essa geração nova. Eu torço pra que isso aconteça, que vençam. Porém, acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração. É pouco provável ter tantas atletas naquele nível nessa geração que está chegando.


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Carolina Canossa

Apoio do Rexona será encerrado com o Mundial de clubes, em maio (Foto: Marcio Rodrigues/MPIX)

A bomba solta por Fernanda Venturini na segunda (13) teve sua confirmação oficial no fim da tarde desta quarta (14): depois de 20 anos, a Unilever decidiu sair do vitorioso projeto iniciado em Curitiba e amadurecido no Rio de Janeiro. O ponto final da parceria será dado no Mundial de Clubes, programado para maio, no Japão.

Claro que a chegada de uma notícia como esta jamais será boa. Diante das dificuldades cada vez maiores neste período de ressaca olímpica, perder um apoiador de tal porte pode significar a saída de atletas de alto nível do país, sem contar com o menor incentivo na formação de jogadoras. Porém, não deve ser tratado como o fim do mundo. Explico as razões:

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– A saída não foi repentina. Boatos de uma possível mudança de estratégia no marketing da Unilever já estavam ocorrendo há pelo menos um ano e meio. A empresa, por exemplo, teve a sensibilidade de fazer uma transição adequada com o Sesc para não deixar profissionais sem trabalho de uma hora para outra, diferente do que já aconteceu em outras rupturas. Para quem não se lembra, em 2014 a Amil chegou a anunciar a substituição do técnico José Roberto Guimarães por Paulo Coco apenas uma semana antes de retirar o investimento, pegando as próprias atletas de surpresa;

– Apesar de ainda não estar claro qual será o nível de investimento do Sesc na próxima temporada, o time continuará na ativa. Mesmo que o orçamento seja menor, há a esperança de ao menos jovens atletas terem uma oportunidade de despontar em alto nível. Vale destacar que o Sesc já apoia um time masculino no Rio, comandado por Giovane Gávio, com um dinheiro razoável para a disputa da Superliga B;

Projeto começou no Paraná, onde ficou até 2003 (Fotos: Divulgação)

– O Rexona não é o primeiro e, infelizmente, não será a última equipe a passar por isso no vôlei nacional. Mas, ainda assim, o esporte continua. Pouco após a conquista do primeiro ouro olímpico no feminino, em Pequim 2008, o Bradesco decidiu romper o apoio dado a Osasco através da Finasa. Houve um certo pânico da época, mas o time está na ativa até hoje ao lado de um novo patrocinador, a Nestlé, que em 2011/2012 praticamente repetiu a escalação da seleção brasileira na equipe.

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A situação do vôlei brasileiro de clubes é perfeita? Longe disto. Há muita coisa a ser feita ainda. Aumentar a visibilidade dos patrocinadores, inclusive com a menção dos nomes deles pela Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão, é essencial. Mas, culpar apenas isso e a crise econômica vivida pelo Brasil pela saída da Unilever do vôlei, é analisar a situação de forma rasa.

Amil encerrou o projeto no vôlei uma semana após anunciar troca de técnicos

Isso porque crises econômicas não são exatamente uma novidade no país, que já viveu outros momentos de finanças em baixa desde 1997, data do início do apoio da Unilever ao time de Bernardinho. Além disso, nunca a Globo se dispôs a falar os nomes reais das equipes em quadra, sempre apelando para denominação de clubes ou das cidades nas quais são sediados. Ainda assim, a empresa permaneceu no jogo durante 20 anos e, quem conhece um mínimo de marketing e ambiente corporativo, sabe que isso não aconteceu por solidariedade. Se não desse retorno, eles certamente não teriam ficado tanto tempo no projeto. O mesmo acontece com outros times e grandes empresas que investem no esporte: ninguém colocaria dinheiro (que não é pouco) no vôlei se o produto não fosse bom.

Ciclos acabam e estratégias mudam. É da vida. Ao invés de se lamentar e promover uma “caça às bruxas”, quem gosta de vôlei precisa trabalhar (ou cobrar) mudanças no que não está bom. Só assim o Brasil continuará a crescer na modalidade.


Fernanda Venturini revela: Unilever vai deixar o vôlei
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João Batista Junior

Venturini lamenta o fim do apoio de 20 anos: “No Brasil, o esporte não é muito estimulado” (Foto: Reprodução/Facebook)

Em entrevista transmitida online pela Revista Veja, no final da tarde desta segunda-feira (13), a ex-levantadora Fernanda Venturini trouxe uma bomba para o mundo do voleibol: esta será a última Superliga da Unilever. “Depois de 20 anos, a Unilever, Rexona-Sesc este ano, está saindo, é uma pena. Foram 20 anos sensacionais, uma empresa fantástica”, acentuou.

Esposa do técnico Bernardinho, treinador do Rexona, Venturini ressaltou que “no Brasil, o esporte não é muito estimulado”, e comparou a situação daqui com a da maior potência esportiva do mundo, os Estados Unidos.

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Moreno: conheça o primeiro ídolo do voleibol brasileiro

Você vê: nos EUA, são 300 universidades onde jogam vôlei. É surreal olhar lá fora e querer comparar aqui. Então, a gente não tem nenhum incentivo. Lá, você bota uma menina pra jogar vôlei numa escolinha, você paga uma grana, mas sabe que ela vai pra uma universidade de graça. Então, o vôlei lá vale ouro. Como futebol americano, beisebol e basquete pegam muita bolsa masculina, no feminino, sobra muito para o vôlei”, explicou Venturini. “Hoje, no Brasil, não tem incentivo do governo, da prefeitura. A gente incentiva quando? Quando vai ter uma Olimpíada, um Mundial, coisa assim pontual”, comparou.

Time de Bernardinho é o maior campeão brasileiro, com 11 títulos (Foto: Alexandre Arruda)

Participando da Superliga desde 1997, quando a sede do projeto ainda era em Curitiba, a Unilever conquistou 11 títulos nacionais e quatro sul-americanos. A equipe, que joga nesta temporada como Rexona-Sesc, venceu a Copa Brasil e a Supercopa, foi quinta colocada no Mundial de Clubes e terminou a fase classificatória do nacional na liderança – pega o Pinheiros nas quartas de final.

Entre os dias 8 e 14 de maio, o time sediado no Rio de Janeiro ainda joga o Mundial de Clubes de Kobe, no Japão. A competição terá a participação também do Vôlei Nestlé, que jogará como uma das quatro equipes convidadas pela FIVB.


Memória: o vôlei feminino do Brasil e seus primeiros sinais de grandeza
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Sidrônio Henrique

Isabel ataca contra os EUA, Jacqueline observa: partida histórica em Los Angeles 1984 (fotos: Reprodução/Internet/YouTube)

Certas derrotas são marcantes. Algumas são revestidas de uma aura e revividas na memória do torcedor e dos personagens envolvidos. Tem sido assim com a da seleção brasileira feminina de vôlei por 3-2 para Cuba na semifinal da Olimpíada de Atlanta, em 1996, motivo para dezenas de reportagens e até um documentário. Mas outro revés 12 anos antes, coincidentemente na mesma data, 1º de agosto, também tem lugar especial na memória do voleibol nacional. Naquela noite de 1984, diante de 14 mil torcedores na Arena de Long Beach, o vôlei feminino brasileiro dava seus primeiros sinais de grandeza nos Jogos Olímpicos. Longe de ser potência, o time de Isabel, Vera Mossa e Jacqueline quase surpreendeu as donas da casa. Os Estados Unidos suaram para vencer por 3-2, de virada, um confronto tido como fácil. Para o Brasil, aquela partida na Olimpíada de Los Angeles, em 1984, mostrou que apesar do resultado adverso o time era grande. E o mundo do vôlei reconheceu isso.

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Para entender o porquê da importância desse jogo e o que havia de tão especial em ganhar dois sets das americanas é preciso voltar no tempo e dar uma olhada no cenário da época. O voleibol feminino tinha uma superpotência: a seleção chinesa, liderada pelas ponteiras Lang Ping e Zhang Rongfang. Campeã da Copa do Mundo 1981 e do Mundial 1982, a China era a principal favorita ao ouro em Los Angeles 1984. Com um time moldado a partir de meados dos anos 1970 e que não pôde ir a Moscou 1980 por causa de um boicote promovido por seu próprio governo, os EUA queriam, desta vez em casa, provar que mereciam o topo do pódio.

EUA em ascensão
As americanas eram, sem dúvida, as principais adversárias das chinesas naquelas Olimpíadas. Quarto colocado na Copa do Mundo 1981 (perdendo a prata e o bronze no saldo de sets para japonesas e soviéticas, respectivamente) e terceiro no Mundial 1982, os EUA estavam em ascensão e ainda teriam a torcida a seu favor. Mesmo antes de 1984, já mostravam seu poderio. No Campeonato Mundial 1982, disputado no Peru, as americanas foram as únicas a derrotar a eventual campeã China e por um contundente 3-0. Acabaram surpreendidas na semifinal pelas anfitriãs, que com o apoio dos seus barulhentos torcedores chegaram a um inesperado vice-campeonato. No restante do ciclo, incluindo Los Angeles 1984, as peruanas não ganhariam mais um set sequer dos EUA – passada a surpresa caseira de 1982, o Peru alcançaria seu auge no período 1986-1988.

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As demais forças da época eram Cuba, União Soviética e Japão. As seleções da Coreia do Sul e da Alemanha Oriental integravam o segundo escalão, mas em um nível acima das brasileiras.

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Oito equipes participavam do torneio olímpico de vôlei feminino então, divididas em dois grupos de quatro. As duas primeiras de cada chave avançavam à semifinal, enquanto os terceiros e quartos colocados disputavam do 5º ao 8º lugares.

Brasileiras comemoram ponto na Arena de Long Beach

Boicote soviético
Antes que os soviéticos e seus aliados anunciassem o boicote aos Jogos de Los Angeles, em represália à medida tomada pelos EUA e seguida por diversos países capitalistas de não comparecerem a Moscou, as chaves estavam assim divididas: o grupo A com China, EUA, Alemanha Oriental e Brasil, e o B com URSS, Cuba, Japão e Peru.

Se em Moscou 1980, na sua primeira participação nos Jogos Olímpicos, o vôlei feminino do Brasil contou com a ajuda do boicote para ganhar a vaga, em LA 1984 essa veio graças ao Peru. É que o sistema de classificação vigente garantia a presença nas Olimpíadas para o campeão da Copa do Mundo e do Mundial. Como a China ganhou ambos, as vice-campeãs mundiais, as peruanas, também se classificaram. Assim, o Brasil garantiu seu lugar mesmo perdendo a final do Sul-Americano 1983 para seu arquirrival. Os campeonatos continentais, exceto o da África no caso do vôlei feminino, eram qualificatórios para as Olimpíadas.

Dois meses e meio antes da abertura de Los Angeles 1984, a URSS anunciou o boicote, contando com a adesão da maioria dos países do bloco comunista. Alguns poucos, como Iugoslávia, Romênia e China, decidiram ir aos Jogos em solo americano.

Vera Mossa se prepara para receber uma bola na entrada: segunda participação olímpica aos 19 anos

A ausência da URSS e de grande parte dos seus aliados obrigou os organizadores a recompor as chaves em diversas modalidades. No grupo A do voleibol feminino saiu apenas a Alemanha Oriental, substituída pela vizinha Alemanha Ocidental, mais fraca. O Brasil continuava assim a encarar uma parada indigesta, tendo que enfrentar chinesas e americanas. Do outro lado, japonesas e peruanas, que dificilmente passariam por cubanas e soviéticas, ganharam a companhia da Coreia do Sul e do inofensivo Canadá. Os três países convidados foram pinçados entre os eliminados no pré-olímpico mundial, disputado no início do ano.

Estreia contra a China
O torneio de vôlei feminino de Los Angeles 1984 começou no dia 30 de julho. A estreia brasileira foi diante da todo-poderosa China. Mas quem esperava um passeio das orientais, se enganou. Nunca uma seleção feminina do Brasil tinha treinado tanto. As brasileiras haviam ficado concentradas por quatro meses no Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP). O resultado se viu em quadra (confira o vídeo abaixo). Apesar da vitória chinesa por 3-0 (15-13, 15-10, 15-11), o Brasil ofereceu uma resistência que ninguém esperava, arrancando elogios do técnico chinês, Yuan Weimin.

Era a vez da partida crucial para as pretensões do Brasil, desacreditado pela mídia, de chegar à semifinal. O ceticismo da imprensa era compreensível. A seleção feminina vinha de um 7º lugar em Moscou 1980, 8º na Copa do Mundo 1981 (perdeu todos os sete jogos, ganhando apenas um set), 8º no Mundial 1982. Um ano antes, no Pan 1983, havia enfrentado duas vezes aquele mesmo time dos EUA (foi a última vez que as americanas foram com a equipe A aos Jogos Pan-Americanos) e perdido ambas por 3-0, sem despertar preocupação nas oponentes.

O plano em LA 1984 era ganhar dos Estados Unidos. Na sequência, fechando a fase preliminar, teriam que bater as alemãs ocidentais, adversárias com as quais as brasileiras haviam jogado cinco vezes naquele ano e vencido todas, quatro delas por 3-0. Essas duas vitórias seriam a passagem para a semifinal.

Eliani Oliveira, a Lica, que mais tarde se tornaria atriz, era uma reserva bastante acionada

Escalação
O time titular do Brasil tinha Isabel Salgado e Vera Mossa nas pontas, Jacqueline Silva era a levantadora, Regina Uchoa e Sandra Suruagy (seria a primeira líbero da seleção brasileira em 1998) pelo meio e Heloísa Roese jogava na saída, posição que na época tinha um perfil técnico, com forte presença no passe, diferente da composição atual. Completavam a equipe as ponteiras Fernanda Emerick e Luiza Machado (revelação ainda juvenil, que desistiria da seleção no ciclo seguinte), as centrais Eliani Oliveira (décadas depois se tornaria atriz, utilizando o nome Lica Oliveira), Ana Margarida Álvares (juvenil promissora que mais tarde seria conhecida simplesmente como Ida) e Mônica Caetano, além da levantadora Ana Richa, a mais nova do grupo com 17 anos. O técnico era Ênio Figueiredo, que faleceria em 2014. Ele comandou a seleção feminina de 1978 a 1984, período que incluiu dois Mundiais e duas Olimpíadas.

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Aquele time brasileiro era bastante jovem. Cinco das doze atletas ainda eram juvenis: Vera, Eliani, Luiza, Ida e Ana Richa. No caso de Vera Mossa, 19 anos, já era sua segunda participação olímpica, ela havia ido a Moscou 1980 com apenas 15 anos. A mais velha da equipe era Heloísa, 27 anos, jogadora universal, que no ano seguinte seria chamada para a seleção do mundo, enfrentando as chinesas em duas partidas amistosas promovidas pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Isabel completaria 24 anos no dia seguinte ao jogo contra as americanas. Jacqueline tinha 22 anos. Assim como Vera, ela e Isabel haviam participado da Olimpíada quatro anos antes. A quarta remanescente de Moscou era Fernanda Emerick.

Isabel ganha tempo amarrando o tênis em meio a uma boa sequência das americanas

Diferença de altura
A atleta mais alta do Brasil era a ponta Vera Mossa, com 1,83m. Os EUA tinham várias acima disso. A maior delas era a ponteira Flo Hyman, uma gigante para os padrões dos anos 1980 com seu 1,97m – parecia ainda mais alta atacando contra bloqueios que muitas vezes contavam com jogadoras de menos de 1,80m.

O Brasil era visto como um time eficiente no ataque, apesar do estilo ortodoxo, com pouca variação. Seu bloqueio, se não era excepcional, podia ser considerado bom para a época. Aí começavam os problemas. O saque era irregular e, na maioria das vezes, exigia pouco da linha de recepção adversária. Já o passe ruim obrigava Jacqueline a se deslocar constantemente, dando pouca oportunidade para combinações em velocidade. A defesa chegou a ser comparada a um táxi numa corrida de fórmula um. Em LA 1984, é bom que se diga, o Brasil chegou defendendo melhor. Nada que lembrasse a eficiência de hoje, mas bem acima do seu habitual naquele tempo.

Flo Hyman marca e comemora de frente para as brasileiras: a americana era uma das atacantes mais temidas da época

Gamova dos anos 1980
Os EUA tinham em Flo Hyman sua principal arma. Para que o leitor que não a viu jogar entenda, ela era uma espécie de Gamova do período, seja pela altura (a russa é cinco centímetros mais alta, mas os bloqueios também cresceram), pela potência ou pela falta de habilidade na defesa, o que parecia natural em razão do seu tamanho. Hyman faleceria em janeiro de 1986, por causa do rompimento de um aneurisma da aorta abdominal, provocado pela síndrome de Marfan, da qual era portadora. Morreu durante uma partida da liga japonesa, que então atraía grandes estrelas. O técnico cubano Eugenio George, tricampeão olímpico com Cuba em 1992, 1996 e 2000, falecido em 2014, afirmou certa vez que Flo Hyman foi uma das melhores jogadoras que ele teve a chance de ver em sua longa carreira.

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Além da ponteira de 1,97m, os EUA tinham como destaque duas centrais: Rose Magers, 1,90m, e Paula Weishoff, 1,85m. O leitor acostumado às grandes meios de rede deste século talvez ache que as primeiras donas da posição foram as centrais cubanas dos anos 1990 ou ainda a peruana Gabriela Perez na segunda metade dos anos 1980. Todas essas foram espetaculares, sem dúvida. Antes delas, porém, o mundo do vôlei se impressionava com Rose Magers. Já Paula Weishoff era mais rápida, extremamente habilidosa. Versátil, migraria para a posição de oposta quando essa função foi introduzida no vôlei feminino – seria a MVP de Barcelona 1992, Olimpíada em que as americanas ficaram com o bronze. Weishoff passou pelo extinto Leites Nestlé, de Sorocaba (SP), em 1994, mas ficou a maior parte do tempo no banco por causa de lesões. Vale menção ainda à levantadora Debbie Green, que se não fintava bem era precisa e variava as jogadas, e também à ponta Rita Crockett, que com apenas 1,75m compensava a pouca altura com impulsão – ela seria parceira de Jacqueline Silva no circuito americano de vôlei de praia.

Eliani, Vera e Heloísa observam as americanas enquanto aguardam o saque do Brasil

Altos e baixos
O Brasil surpreendeu as americanas nos dois primeiros sets, com uma eficiência acima do seu padrão habitual no bloqueio e na defesa. Ao vencer a parcial inicial, as brasileiras comemoraram como se tivessem vencido a partida. Após abrir 2-0 (15-12 e 15-10), esperava-se combatividade do time sul-americano para fechar o jogo, mas o que se viu foi muita desorganização. Os EUA levaram os dois sets seguintes com facilidade (15-5 e 15-5), aproveitando-se do nervosismo brasileiro. Veio o quinto set, ainda disputado com o sistema de vantagem – o tie break só seria introduzido em 1989 –, e as americanas abriram 6-2. Começou então a reação brasileira. O bloqueio voltou a tocar na bola, dando à defesa a chance de produzir contra-ataques. O Brasil chegou a ter 12-9 a seu favor, mas aí veio outro apagão. Flo Hyman foi impiedosa na reta final da partida, com direito a provocação em um dos pontos. O bloqueio brasileiro não conseguiu mais contê-la. Com duas horas e meia de duração, o jogo terminou com um ataque pelo meio de Paula Weishoff, após um longo rali: 15-12. Festa americana, desolação do lado brasileiro.

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Isabel, símbolo maior daquela geração, falou várias vezes sobre essa partida histórica. Numa entrevista concedida há seis meses à revista Trip, relembrou o quanto foi dolorosa a derrota. “Foi tão barra-pesada. Era como se eu nunca tivesse perdido na vida, parecia que eu tinha morrido. Foi total despreparo nosso, em todos os aspectos, não só o emocional. Mas ao mesmo tempo foi emocionante: não se imaginava que a gente pudesse ganhar um set sequer das americanas”. Isabel foi um ícone do esporte naquela década, chegando a estampar a capa da revista semanal Veja em 1982, num reflexo do boom do voleibol no país. Confira após o post o vídeo que ela gravou para o Canal Brasil, no qual aponta a derrota para os EUA em 1984 como o momento de maior tristeza da sua carreira.

Regina Uchoa aguarda autorização do árbitro para sacar

Outro expoente daquela época, Vera Mossa, que iria ainda a Seul 1988, volta e meia se via tendo que falar sobre a partida épica. “Aquele jogo mudaria nossa história. O momento ficou meio que emblemático”, comentou, numa entrevista concedida à TV há cinco anos.

Quase…
Vera tem razão. Se tivessem avançado a uma improvável semifinal, o esporte feminino brasileiro poderia ter quebrado antes uma barreira que só seria rompida em Atlanta 1996, quando as mulheres conquistaram quatro medalhas para o país – as primeiras delas na história nacional nos Jogos Olímpicos. A brasileira que mais próximo havia chegado do pódio era Aída dos Santos, mãe da central/ponteira campeã olímpica Valeskinha. Em Tóquio 1964, Aída ficou em quarto lugar no salto em altura, apesar de competir sem técnico ou material para treinamento.

Claro que não haveria garantia de medalha caso a seleção de vôlei feminino avançasse às semifinais em Los Angeles 1984, mas mesmo o quarto lugar seria um feito e tanto para um grupo de jogadoras que nem de longe tinha o apoio dado ao time masculino, que ficaria com a prata. Apesar do longo período de concentração no CTA de São José dos Campos para aquela competição, a equipe treinada por Ênio Figueiredo quase não jogava, tendo pouco intercâmbio, enquanto os homens tinham bastante rodagem. Os métodos de treinamento aplicados à seleção masculina também eram mais sofisticados, para a época, do que os do feminino.

A levantadora Jacqueline Silva seria cortada da seleção no ano seguinte, já sob o comando do técnico Jorge de Barros, após reivindicar equiparação das condições de treino entre as equipes masculina e feminina. Ela tomou atitudes consideradas indisciplinadas pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), como vestir o uniforme de treinamento pelo avesso e fazer críticas à comissão técnica para a imprensa.

As brasileiras reagiram no quinto set, tiveram três pontos de vantagem, mas acabaram perdendo

Abatimento
O restante da participação do vôlei feminino do Brasil em Los Angeles 1984 foi melancólico. Abatidas, só ganhariam do fraco Canadá na disputa de 7º e 8º lugares, jogo decidido em sets diretos, repetindo a colocação de Moscou 1980. Ainda na fase de grupos, perderam para as freguesas da Alemanha Ocidental pelo absurdo placar de 3-0 – uma equipe que sequer havia feito cócegas na China e que só tinha oferecido alguma resistência aos EUA no primeiro set, sendo atropelada depois. Antes de enfrentar as canadenses, as brasileiras cruzaram com a Coreia do Sul, vencendo o primeiro set por 15-13 depois de estarem perdendo por 11-3, mas acabariam tomando a virada nas parciais seguintes, caindo por 3-1, exibindo um jogo opaco, diferente daquele apresentado contra chinesas e americanas.

Dois momentos
Aquela Olimpíada pode ser dividida para o time brasileiro em antes e depois do jogo contra os Estados Unidos. Quando a partida começou, ninguém esperava muito do Brasil. A equipe foi do céu ao inferno em duas horas e meia. Mas a dor da derrota não seria em vão. Viu-se ali o potencial de um grupo de mulheres que desbravavam um esporte que só havia despontado para o grande público do país dois anos antes. Algumas conciliavam a modalidade com os estudos ou carreiras tradicionais, numa indicação de resquícios de amadorismo, contra a estrutura profissional ou de regime full time das potências.

Fim de uma partida épica e a alegria das americanas, que terminariam aqueles Jogos Olímpicos com a prata

Embora o voleibol não despertasse atenção nos EUA, o jogo foi exibido ao vivo e em horário nobre por lá. Por aqui, um pool de seis emissoras (Globo, Bandeirantes, Record, SBT, Gazeta e a extinta Manchete) transmitiam quase todas as partidas de vôlei daquela Olimpíada, mesmo as que não eram das seleções brasileiras. Febre a partir de 1982, o vôlei tinha espaço constante na grade de programação – a TV por assinatura chegaria aqui apenas na década seguinte. Assim, o país inteiro teve a chance de ver o time de Isabel, Vera Mossa e Jacqueline quase derrotar as donas da casa. As projeções se mostraram acertadas: China e EUA conquistaram suas primeiras medalhas no vôlei. As chinesas ficaram com o ouro, deixando as americanas com a prata. O Japão faturou o bronze ao superar o Peru. Os Estados Unidos ainda sentiram o gosto de derrotar a China por 3-1 na última rodada da fase preliminar, mas ambas já estavam classificadas para a semifinal e os adversários da outra chave eram inferiores. Na decisão, as chinesas venceram as anfitriãs em sets diretos.

Isabel na capa da revista Veja em 1982

Destaques
Jacqueline foi escolhida a melhor levantadora de LA 1984, num tempo em que as estatísticas para o fundamento eram acertadamente deixadas de lado na hora de escolher quem se destacava, tendo como foco aspectos técnicos. Vejam duas pinturas dela contra as americanas no vídeo do início deste post, aos 5’25’’ e aos 22’16’’. Jackie Silva, como ficaria conhecida no vôlei de praia (conquistaria o ouro ao lado de Sandra Pires em Atlanta 1996), foi a melhor no levantamento em Los Angeles numa competição em que estavam presentes a genial chinesa Yang Xilan, além das talentosas Kumi Nakada (Japão) e Rosa Garcia (Peru). A atacante Isabel Salgado foi quem mais colocou bolas no chão no torneio. Com 1,80m, a ponteira chegava a 3,08m no ataque, um alcance que impressionava. Para efeito de comparação, Ana Moser, ídolo dos anos 1990, com 1,85m atacava a 3,09m. Ainda na Olimpíada de 1984, Vera Mossa recebeu o prêmio fair play, por seu espírito esportivo.

O duelo de cinco sets entre Brasil e EUA na Arena de Long Beach chamou a atenção para o potencial das brasileiras, que passaram a ser mais respeitadas. Cortes e pedidos de dispensa atrapalhariam o time adulto no ciclo olímpico seguinte, que até teve bons momentos como o honroso quinto lugar no Mundial 1986 e as primeiras vitórias em jogos oficiais contra a URSS e o Japão. Havia evolução. Em 1987, uma nova geração se sagraria campeã mundial juvenil, feito repetido em 1989 – aqueles foram os primeiros títulos globais do voleibol brasileiro, seja entre homens ou mulheres. Veio outra década e a seleção feminina de vôlei adulta do Brasil virou potência pelas mãos de Ana Moser, Márcia Fu, Fernanda Venturini, Hilma e Virna, entre outras. As jogadoras viviam outra realidade, com a contribuição daquelas que trilharam o caminho anteriormente.

Heloísa e Regina Uchoa cumprimentam as adversárias após a derrota por 3-2

Grandiosas
A edição especial sobre a primeira semana de LA 1984 da revista americana Time destacou a partida entre brasileiras e americanas. Um dos especialistas consultados pela publicação referiu-se à seleção do Brasil dizendo “they are great” (“elas são grandiosas”). Disso não havia dúvida. Embora distante do pódio, a equipe deu claros sinais de grandeza. Pela primeira vez, sob os olhos do mundo, o vôlei feminino brasileiro mostrou sua cara. Elas foram grandes de fato.


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