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Formação de jogadores: um problema do vôlei brasileiro

João Batista Junior

26/09/2017 06h00

Pela primeira vez, Brasil passou zerado a temporada de mundiais de base no vôlei (fotos: FIVB)

Tido como referência internacional na modalidade e exemplo para o deporto olímpico do país, o vôlei brasileiro tem encontrado, na busca por jovens atletas, um motivo de preocupação nos últimos anos. Pensando na medalha de ouro da equipe masculina na Rio 2016 e nos resultados obtidos esta temporada pelos times comandados por Renan Dal Zotto e José Roberto Guimarães, não parece que torcedores e dirigentes devam ficar sisudos quando o assunto é o futuro a médio e longo prazo das seleções nacionais. Contudo, não é isso o que as últimas temporadas têm demonstrado.

Não bastasse as seleções olímpicas do Brasil em ambos os naipes disputarem a Rio 2016 com uma elevada média de 30 anos de idade cada uma, os resultados nas categorias de base, que antes prenunciavam longos períodos de vacas gordas para as equipes adultas, foram minguando até o ponto em que a fartura de títulos globais se converteu num 2017 sem nenhuma medalha obtida nos mundiais infanto-juvenil, juvenil e sub-23 – inédita marca negativa para a modalidade no país.

É evidente que qualquer cobrança por resultados na base pode passar, facilmente, por exagerada ou imediatista, já que revelar jogadores é mais importante do que os troféus que se levantem nessas categorias. Mas é bem possível que o envelhecimento das equipes que representaram o voleibol nacional nas olimpíadas passadas e os maus resultados nos mundiais tenham correlação ou encontrem a mesma causa.

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Sem pódio
Visto no todo, os resultados do Brasil nos campeonatos mundiais de base este ano não foram satisfatórios, mas não é justo afirmar que nenhuma das participações foi boa. Por exemplo, o time juvenil masculino (sub-21) passou a primeira fase do torneio sem perder nenhum set, venceu os cinco primeiros jogos que disputou e caiu nas semifinais, num tie break, diante da seleção polonesa, que venceria o torneio. Na visão do técnico Nery Tambeiro, que dirigiu a equipe, o time "se apresentou dignamente".

Nery Tambeiro, técnico da seleção masculina sub-21

"A decisão de terceiro (lugar), contra a Rússia, foi o único jogo que jogamos mal, que não conseguimos tirar o melhor dos jogadores. Perdemos de 3 a 0, terminando a competição em quarto lugar", disse o treinador. Ele ressaltou, porém, que "essa geração nunca tinha vencido a Argentina em jogos oficiais" – e lhe aplicou um 3-0 – e foi campeã da Copa Pan-Americana.

Outra seleção que parecia ter um destino diferente do que teve foi o time sub-23 feminino do Brasil. Comandado por Wagão, o sexteto, que tinha nomes como Drussyla, Edinara e Lorenne, largou com três vitórias consecutivas e parecia no caminho das semifinais. Contudo, uma derrota por 4-0 para a Bulgária (não estranhe o placar, isso foi parte das regras que a FIVB testou no torneio) e outra por 4-1 para Cuba levaram o time à disputa do quinto lugar, posição em que a equipe terminou.

"A colocação não foi a ideal, a que esperávamos. Trabalhamos muito para conquistar mais um título, mas, infelizmente uma derrota inesperada para a Bulgária desencadeou uma insegurança na equipe, e isso refletiu no jogo seguinte, contra Cuba, que conseguiu uma atuação acima da que vinha tendo na competição, (enquanto) nós fizemos um jogo abaixo", lamentou Wagão, que não atribuiu o resultado a uma possível falta de adaptação às regras do campeonato. "Foram as mesmas para todas as seleções, todos sabiam que teriam dificuldade em jogar daquela forma. Talvez, em um set de 25 pontos, houvesse uma chance maior de recuperação e talvez fosse possível, mas não acho que isso tenha influenciado no resultado", frisou.

No naipe masculino do sub-23, o Brasil terminou invicto a primeira fase, mas perdeu para a Rússia nas semis (4-3) e para Cuba na decisão do bronze (4-1). Os outros resultados este ano foram o oitavo lugar no sub-19 (infanto-juvenil) masculino, décimo no sub-18 feminino e quinto entre as meninas do sub-21.

Resultados vs. Formação
A FIVB promove campeonatos de seleções de base desde 1977. Na soma de todos os naipes e faixas etárias, o Brasil é o maior vencedor, com 21 títulos – Rússia/URSS, com 19 conquistas, é quem mais se aproxima. Vale ressaltar, entretanto, que os dois últimos troféus foram obtidos pelo vôlei brasileiro na recém-criada categoria até 23 anos (vitória em 2013, no torneio masculino, e em 2015, no feminino). Nas categorias juvenil masculina, sagrou-se campeão pela última vez em 2009 e, no feminino, em 2007. Já os últimos triunfos no infanto-juvenil foram, com as meninas, em 2009 e, com os meninos, em 2003.

Na visão de Nery Tambeiro, o histórico recente dos mundiais masculinos de base mostra que a concorrência para o time adulto tende a ficar ainda mais acirrada do que já é. "O Brasil está se renovando e formando novos talentos, mas as principais potências do mundo também estão formando", disse o treinador.

"O Brasil, hoje, tem jogadores e trabalho pra ser considerado uma das forças do mundo na base. O Irã tem vindo muito forte na base, logo, logo isso vai refletir na seleção adulta do país. Polônia, Rússia, Argentina e Cuba (também) merecem destaque na base, tendo conquistado resultados expressivos", analisou.

Campeão olímpico, Douglas Souza atuou no mundial sub-23 deste ano

Já para Wagão, o rendimento das seleções de formação no feminino não tem reflexo direto nos times nacionais adultos. "Se nós avaliarmos assim, vamos ver seleções femininas que estão sempre à frente no adulto e não têm resultados expressivos na base. Os resultados em si, não servem como indicativo disso."

Exemplificando o que disse o assistente técnico do Hinode/Barueri, a seleção feminina dos EUA raramente obtém boas performances nas categorias de base, embora o modelo de esporte escolar e universitário do país seja o melhor do mundo e a seleção adulta sempre esteja na luta por medalhas.

Mais importante do que analisar o trabalho de formação de jogadores a partir da classificação dos campeonatos, segundo o treinador, é perceber a diminuição das verbas destinadas ao esporte de base. "É reflexo do que vem ocorrendo no país todo. O investimento diminuiu nos clubes, alguns até deixaram de investir na base, e isso pode refletir na seleção", alertou.

Os dois lados da rede
Se os resultados, por si sós, são menos importantes do que a formação de jogadores na base, é preciso lembrar também que tem sido cada vez mais raro observar atletas brasileiros que deixaram as categorias menores para se firmar nas seleções adultas. Nas últimas olimpíadas, apenas Gabi, Douglas Souza e Lucarelli tinham menos de 25 anos de idade entre os selecionados dos dois naipes – apenas Lucarelli era titular.

Nesta temporada, para citar jogadoras com idade até 25, Drussyla, Rosamaria, Naiane, Bia e Gabi Souza foram testadas pelo técnico Zé Roberto, e algumas foram titulares, como Rosamaria e Gabi Souza. Já Renan Dal Zotto observou Rodriguinho em alguns jogos, mas o deixou apenas no banco na última competição do ano, a Copa dos Campeões, junto com Douglas Souza, que, vindo de uma lesão na reta final da temporada de clubes, ganhou ainda menos espaço na seleção do que teve ano passado (os dois chegaram, até, a disputar o mundial sub-23).

Nesse ponto, a comparação com os adversários mostra que o trabalho do vôlei brasileiro na base parece defasado, já que, mundo afora, tem sido comum ver jogadores de pouca idade se destacando nas seleções adultas – como a chinesa Ting Zhu, a italiana Paola Egonu, a sérvia Tijana Boskovic, o francês Stephen Boyer, o canadense Sharone Vernon-Evans.

Ting Zhu (2): melhor do mundo aos 22 anos

Para Josenildo Carvalho, ex-técnico da seleção masculina do Brasil (1990-1991), a problemática tem duas vertentes: de um lado, na mesma esteira da fala de Wagão, menos dinheiro tem sido investido na formação de atletas e, do outro, a metodologia de trabalho com essas categorias não tem sido a ideal. "A estagnação é causada pela falta de treinamento desejável para categorias intermediárias (infantil, infanto-juvenil)", completando que recebem preparação "semelhante às categorias de sub-15".

"Os novos talentos sempre surgem, dependendo da procura e da metodologia empregada. Creio que o que há é a escassez de desenvolvimento de talentos. Faltam clubes ou clubes-escola para receber novos jogadores", enfatizou Josenildo, hoje diretor de cursos da CBV.

Outro empecilho na formação de jogadores no Brasil, para Nery Tambeiro, está no pequeno número de partidas de alto nive que esses atletas disputam em sua fase de transição para a categoria adulta. "Hoje, na minha opinião, esse é o principal problema dos jogadores que estão em formação", disse o treinador.

"Talentos vão aparecer. Agora, se eles terão a formação adequada pra se desenvolver, isso é outra questão a ser discutida. Hoje estamos lutando pra resolver este problema. Esses jogadores têm que jogar liga B, Superliga, todas essas competições vão ajudar o Brasil a diminuir essa defasagem de número de jogos de nível que os jogadores precisam ter pra se desenvolverem adequadamente", indicou.

Papel dos clubes
O método de trabalho para observação de jovens jogadores não é uniforme, varia de acordo com o estilo e a logística de cada treinador. Enquanto Nery Tambeiro, da seleção juvenil masculina e do Minas, mantém contato com vários treinadores e preparadores espalhados pelo país para monitorar novos atletas, Wagão, técnico da seleção feminina cadete (sub-23) e assistente do Barueri, acompanha os torneios paulistas das categorias de base, a Superliga B, e lembra que a seleção que ele treina "tem como base as seleções anteriores, sub-20, sub-18, então já existe um filtro um pouco maior para chegar a nossa categoria."

A partir deste ano, os técnicos ganharão mais subsídio acompanhar os atletas em formação, pois, no próximo mês de outubro, a CBV vai promover os primeiros campeonatos nacionais interclubes de base – veja o calendário dos torneios.

"Os principais jogadores juvenis estão filiados aos clubes, como Minas, Sada, Sesi e Campinas. Esses clubes têm equipes de base e boa estrutura pra receber esses atletas, além de jogarem a Superliga. São clubes importantes na formação desses jogadores, que têm gastos e realmente investem no processo desses meninos", enfatizou Nery.

Uma preocupação, no entanto, com a participação dos clubes na transição da base para o adulto é que, muitas vezes, a necessidade de vitória faz com que atletas mais experientes  tenham predileção das comissões técnicas, deixando os recém-chegados ao time de cima no banco de reservas.

Wagão, técnico da seleção feminina sub-23

"O importante em um clube, principalmente os que tem as equipes adultas, é preparar as atletas para essa categoria, mas nem sempre isso é possível. Em momentos, é necessário priorizar resultados e às vezes acaba não dando atenção a outros talentos. Esse mix de necessidade de resultados com necessidade de revelar atletas se confunde e por vezes retarda um pouco o surgimento de novos talentos", explicou Wagão.

Para Nery Tambeiro, a solução desse problema passa por deixar rivalidades de lado, com um intercâmbio entre os clubes – algo como a parceria entre o Sada Cruzeiro e o Juiz de Fora. "No caso de algum jogador não ter muita oportunidade de jogar (no clube em que esteja treinando), que ele seja direcionado pra algum projeto onde ele possa se desenvolver", afirmou o técnico do Minas.

E o amanhã?
A receita para que o vôlei brasileiro se renove dentro de quadra não requer, necessariamente, a conquista de troféus nas categorias menores. Como bem lembra Josenildo de Carvalho, não existe uma relação direta entre o sucesso nos torneios de base e nas seleções adultas.

"O cenário internacional mostra uma outra realidade. Seleções que não estão entre as dez mais em algumas oportunidades, como Jogos Olímpicos, Mundiais, Liga Mundial, conseguem boas colocações na base e vice-versa". Para contextualizar: no sub-19, as seleções masculinas da Grécia, em 1997, e da Índia, em 2003, já foram vice-campeãs mundiais, mas quantos passos conseguiram caminhar nas competições adultas?

Vencido pelo Brasil na final do mundial sub-19 de 2003, time da Índia não vingou no adulto

O "X" da questão, ao que parece, é criar um ambiente propício ao desenvolvimento de novos jogadores. Otimista com os resultados da equipe feminina adulta neste primeiro ano de ciclo olímpico, Wagão ressalta que José Roberto Guimarães, que desde o ano passado também é coordenador de todas as seleções brasileiras femininas de vôlei, se preocupa com a busca e o aprimoramento de jogadoras com potencial para a seleção adulta.

"Não existe essa cobrança exagerada em relação a resultado. Eles são importantes, claro, todo técnico quer ser campeão e ter resultados positivos ao final da temporada, mas nós temos uma segurança de que o importante é abastecer a seleção principal, que é o carro-chefe do voleibol. Com bons resultados no adulto, há uma maior visibilidade ao esporte, o que possibilita a manutenção das equipes existentes, o surgimento de novas equipes, novos investidores, patrocinadores, e isso alimenta a cadeia de cima para baixo", concluiu.

A seleção feminina, como já ressaltado mais acima, de fato investiu mais em jogadoras mais jovens este ano do que o time masculino, mas muito dessa opção do técnico Zé Roberto se deu por pedido de atletas veteranas de se afastar da equipe (temporária ou permanentemente) ou, até, por conta de lesões. Só no decorrer deste ciclo olímpico é que vai ser possível verificar se as jogadoras mais novas devem atuar nas principais competições ou dar lugar às mais experientes. De qualquer maneira, foi um passo na direção do rejuvenescimento do plantel.

Os maus resultados deste ou dos últimos anos nas categorias de base devem ser encarados não como a causa de as seleções adultas estarem tão envelhecidas na Rio 2016. Na verdade, esses dois fatores é que têm a mesma origem comum: o processo formador de atletas do vôlei nacional precisa se aperfeiçoar.

Sobre a autora

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos.

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.