Saída de Rede

No aniversário da conquista do ouro, relembre a trajetória da seleção masculina na Rio 2016

João Batista Junior

21/08/2017 06h00

Brasileiros comemoram final feliz na Rio 2016 (fotos: FIVB)

Faz exatamente um ano que um bloqueio de Lipe sobre Zaytsev rendeu à seleção brasileira masculina de vôlei a mais sofrida das três medalhas de ouro que conquistou em Jogos Olímpicos. Se uma geração de jovens jogadores encantou o país em Barcelona 1992 e uma das equipes mais vitoriosas da história do esporte se consagrou em Atenas 2004, foi com um time que seguiu à risca o ensinamento de transformar suor em ouro que o Brasil, na Rio 2016, quebrou uma escrita de seis anos sem títulos de grande relevo e fez a festa do torcedor no Macaranãzinho.

Vamos relembrar o caminho que levou a seleção à conquista da medalha de ouro naquela tarde de domingo, 21 de agosto de 2016.

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Jejum
Desde 2010, quando vencera a Liga Mundial na Argentina e o Campeonato Mundial da Itália, a seleção brasileira não subia ao topo do pódio em nenhuma das principais competições do voleibol internacional. Nesse período, o time comandado pelo técnico Bernardinho fora vencedor do Pan de Guadalajara 2011, da Copa dos Campeões 2013, dois torneios de relevo menor. Pesava na conta é que, desde então, além do bronze na Copa do Mundo 2011, havia sido prata nos Jogos de Londres 2012, no Mundial da Polônia 2014 e em quatro ligas mundiais.

Falar em “jejum” para uma seleção que em seis anos frequentara o pódio com tamanha assiduidade soa até injusto. Mas vale lembrar que, no Brasil, prevalece a ideia tosca de que “o segundo é o primeiro dos últimos”. Por isso, quando a equipe nacional entrou em quadra contra o México, na estreia do torneio olímpico, a pressão sobre o time da casa era ainda maior.

Começo insosso
O bom voleibol apresentado pela seleção na Liga Mundial 2016 servia de alento para o torcedor brasileiro. Se, por um lado, o time colecionou mais um vice-campeonato, perdendo a final para a Sérvia (equipe que compensou a ausência nas olimpíadas concentrando esforço para levantar um título inédito), por outro, boas atuações especialmente diante da França, campeã europeia, e dos EUA, vencedora da Copa do Mundo, levavam a crer que o time brasileiro estava num bom caminho para a disputa no Rio.

Wallace encara bloqueio mexicano na estreia

No entanto, os dois primeiros jogos nas Olimpíadas – embora com resultados favoráveis – foram o sinal de que nem tudo estava bem.

Contra o México, seleção que chegou ao Rio graças a uma repescagem de nível técnico baixíssimo, o Brasil precisou virar para largar com vitória (3 a 1).

No jogo seguinte, diante do Canadá, que havia surpreendido com uma vitória por 3-0 sobre os EUA na estreia, a seleção se viu novamente atrás no marcador. Menos mal que a vitória por 3 sets a 1 assegurou mais três pontos aos brasileiros, mas pairava a sensação de que o time teria problemas nas três partidas seguintes, contra equipes do primeiro escalão do vôlei.

Turbulência
Enquanto o Brasil sofria para encontrar seu melhor voleibol, os EUA estavam desesperados. Não bastasse o revés contra o Canadá no primeiro jogo, os norte-americanos perderam por 3-1 para a Itália na segunda rodada e estavam zerados na competição.

Mas quando as duas seleções se encontraram na terceira rodada, prevaleceu o instinto de sobrevivência da seleção americana. Os EUA venceram o Brasil por 3 sets a 1 e arrancaram rumo a um lugar no pódio – terminariam na terceira posição.

Vitória sobre Brasil mudou panorama da seleção dos EUA

A equipe brasileira, por sua vez, viu materializado o receio das partidas iniciais: àquela altura, não estava jogando o suficiente para confrontar grandes seleções. Caiu contra os EUA e, em seguida, sofreria uma derrota inédita para a Itália na quarta rodada.

Em sete duelos anteriores na história dos Jogos Olímpicos, o Brasil nunca havia perdido para a seleção italiana. Quando os europeus derrubaram o tabu com um 3 a 1, o time brasileiro se viu em maus lençóis: pela primeira vez desde 1996, chegaria à última rodada da primeira fase ainda na luta pela classificação.

Brasil vs. França
Apesar da derrota, o jogo contra a Itália trouxe modificações significativas ao time brasileiro. Ausente nas três primeiras rodadas por conta de uma lesão na coxa, o central Maurício Souza assumiu a titularidade da equipe, em lugar de Éder, ao passo que Lipe, no decorrer da partida, entrou no lugar de Maurício Borges e não saiu mais do time.

Assim, contra a França, o Brasil entrou em quadra com Bruno, Wallace, Maurício Borges, Lucão, Lucarelli, Lipe e Serginho, time titular que se manteve até o fim da competição.

Eliminação precoce deixou os franceses incrédulos

Na prática, o jogo foi a primeira decisão que a seleção brasileira encarou na Rio 2016. Por conta de campanhas irregulares (vitórias sobre México e Canadá, derrotas para EUA e Itália), Brasil e França disputariam uma partida com apelo surpreendente: se antes se acreditava que as equipes pudessem até decidir o destino da medalha de ouro, a situação mudara radicalmente e os dois times lutavam pela sobrevivência numa improvável disputa pelo quarto lugar da chave.

Numa partida tensa e equilibrada, o Brasil venceu por 3 a 1 a França. Naquele dia, o time francês, caracterizado naquele ciclo olímpico pelo jogo sólido na defesa e eficiente no ataque, cometeu 33 erros – dois dos quais do oposto Antonin Rouzier, nos dois pontos finais da partida. A seleção brasileira seguiu nas olimpíadas e o genial Earvin N’gapeth voltou para casa.

Drama e revanche
Classificar-se na quarta posição do grupo na primeira fase levou o Brasil a um duelo contra a Argentina nos playoffs, equipe que não vencia a seleção brasileira principal desde as quartas de final em Sydney 2000.

Treinada por Julio Velasco, que havia colocado a Itália no topo da modalidade nos anos 1990, a Argentina havia vencido quatro das cinco partidas que disputara na Rio 2016 – batera, inclusive, a Rússia por 3-0.

Argentina lutou, mas vitória nas quartas foi brasileira

O Brasil venceu a Argentina por 3 sets a 1, numa partida em que, além de lidar com uma aplicada seleção argentina, encarou problemas de ordem física na ponta: na primeira etapa, Lucarelli, lesionado, deu lugar a Maurício Borges, mas voltou à quadra no quarto set, no sacrifício, para substituir Lipe, que também se lesionou!

Com o moral agora elevado depois de duas vitórias difíceis, o time brasileiro encontrou a Rússia nas semifinais, num duelo em que a camisa do adversário impunha mais respeito do que a situação requeria.

Num ciclo olímpico tumultuado, em que conviveu com maus resultados, com um caso confirmado de doping (do ponta Markin, que foi absolvido, mas acabou fora da equipe olímpica) e com uma mudança no comando técnico a cerca de um ano dos Jogos, chegar às semifinais da Rio 2016 foi um prêmio para os então campeões olímpicos. Ainda mais, porque não puderam contar o central Dmitry Muserskiy, cortado das olimpíadas por lesão.

O fato é que, justamente diante da Rússia, o Brasil teve seu jogo mais tranquilo na caminhada para o título na Rio 2016: foi naquela semifinal que os brasileiros venceram seu primeiro jogo por 3 a 0.

Medalha de ouro
A Itália havia sido primeira colocada no grupo do Brasil e havia eliminado os EUA numa semifinal decidida em tie break. Ivan Zaytsev – que dera um show no saque contra os norte-americanos – era o protagonista (da equipe e do torneio) e tinha como coadjuvantes o ítalo-cubano Osmany Juantorena, que havia sido integrado à Azzurra um ano antes, e Filippo Lanza, que evoluíra da temporada. Dava, até, para dizer que os italianos eram ligeiramente favoritos ao ouro, até pela vitória sobre os brasileiros na fase classificatória.

Brasileiros e italianos se cumprimentam na rede: o ouro já tinha dono

Do outro lado, porém, a seleção brasileira tinha a seu favor, além da torcida que lotou o Maracanãzinho e do histórico de vitórias em jogos decisivos contra a Itália (semifinais em Los Angeles 1984, Pequim 2008 e Londres 2012, final em Atenas 2004), o fato de haver crescido no momento mais importante do torneio.

Num jogo de parciais parelhas (25-22, 28-26, 26-24), dois detalhes fizeram a balança pender para o lado brasileiro: Lanza falhou na recepção de um saque de Maurício Souza exatamente no set point da segunda parcial, e Zaytsev, que teve 65% de aproveitamento na partida, foi encaixotado por Lipe no match point.

Brasil 3 a 0. Ouro para o líbero Serginho, que, aos 40 anos, ganhou o prêmio de MVP do torneio e disputou sua última olimpíada, e também para o técnico Bernardinho, que, após 15 anos no cargo, deixaria o comando da seleção brasileira meses depois – ambos com a incrível marca de dois títulos em quatro finais olímpicas.

Sobre o autor

Carolina Canossa - Jornalista com experiência de dez anos na cobertura de esportes olímpicos, com destaque para o vôlei, incluindo torneios internacionais masculinos e femininos. João Batista Junior - Já cobriu campeonatos mundiais e a Liga Mundial. Sidrônio Henrique - Trabalhou para publicações da Europa e da América do Norte, produziu conteúdo para a Federação Internacional de Vôlei (FIVB).

Sobre o blog

O Saída de Rede é um blog que apresenta reportagens e análises sobre o que acontece no vôlei, além de lembrar momentos históricos da modalidade. Nosso objetivo é debater o vôlei de maneira séria e qualificada, tendo em vista não só chamar a atenção dos fãs da modalidade, mas também de pessoas que não costumam acompanhar as partidas regularmente.

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