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Bernardinho: “Time nasceu competitivo e seguirá sendo por outros 20 anos”
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Sidrônio Henrique

“Foram 20 anos incríveis, quem vai tocar o processo agora é o Sesc” (foto: Divulgação)

O momento parecia de turbulência com a saída do patrocinador Unilever, parceiro desde 1997, mas Bernardo Rezende garante que a equipe de vôlei feminino sob seu comando segue firme. “O time vai continuar sendo competitivo. Nasceu competitivo e seguirá sendo por outros 20 anos. Não há nenhuma descontinuidade, é um processo ajustado e quem vai tocar agora é o Sesc”, disse o técnico multicampeão ao Saída de Rede.

Esta é a primeira parte de uma entrevista que o treinador concedeu ao SdR. Nesta o foco é o voleibol feminino. Além da transição no Rexona-Sesc, equipe que conquistou a Superliga 11 vezes e que encerrou a fase classificatória da atual edição na liderança, com 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, Bernardinho fala sobre a dificuldade de enfrentar “seleções” no Mundial de Clubes, relembra que o arquirrival Osasco (atual Vôlei Nestlé) venceu a competição tendo “uma verdadeira seleção” e que depois perdeu a final da Superliga para o Rexona.

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Ele aponta o Camponesa/Minas, liderado pela oposta americana Destinee Hooker e pela ponteira Jaqueline Carvalho, como favorito na Superliga e alega que vencê-lo três vezes numa eventual semifinal é uma tarefa complicada.

Fala de talentos do voleibol brasileiro, como a central Bia, as pontas Rosamaria, Gabi e Tandara, as opostas Lorenne e Paula Borgo, além das levantadoras Roberta, Naiane, Juma e Macris.

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Sobre a estrangeira de sua equipe, a ponta holandesa Anne Buijs, Bernardinho afirma que “aos poucos ela está começando a mostrar mais consistência na atuação de alto nível”.

Confira a primeira parte da entrevista que Bernardo Rezende nos concedeu:

Saída de Rede – Como fica a equipe com a saída da Unilever após 20 anos de parceria?
Bernardinho – O time vai continuar sendo competitivo. Nasceu competitivo e seguirá sendo por outros 20 anos. Foram 20 anos incríveis e não há nenhuma descontinuidade, é um processo ajustado, combinado, de prosseguimento e quem vai tocar o processo agora é o Sesc. Esse processo foi conduzido por nós, junto com o Sesc, nessa transição. A Unilever jamais nos abandonou, muito pelo contrário, sempre foi uma parceira orientadora, muito preocupada com a consistência do projeto, tanto na parte competitiva quanto nas frentes sociais.

O técnico durante Mundial de Clubes 2016, nas Filipinas (foto: FIVB)

Saída de Rede – O Rexona vai para o Mundial de Clubes em maio, no Japão. Diante dessa situação, de transição, o time já havia se programado para contratar algum reforço?
Bernardinho – Nós não temos nenhuma verba neste momento para poder buscar alguém. E também não seria justo chegar num momento como esse e sacar uma jogadora para, de repente, colocar outra. Seria muito bacana poder reforçar, tentar trazer alguém que nos desse uma condição a mais. Osasco, quando foi ao Mundial, tinha uma verdadeira seleção.

Sobre o arquirrival Osasco e seu título mundial: “Tinha uma verdadeira seleção” (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você fala da edição de 2012, quando Osasco ganhou?
Bernardinho – Exatamente… E depois nós ganhamos delas na final aqui (na Superliga). (Osasco) Era uma seleção com das quatro titulares: Garay, Jaqueline, Thaisa e Sheilla. Tinha ainda duas reservas imediatas da seleção: Fabíola e Adenízia. O time chegou ao Mundial em condições de brigar. Hoje, as equipes turcas são verdadeiras seleções do mundo. Eczacibasi, por exemplo, o VakifBank, o Fenerbahce… Esses times são all-star, com jogadoras de várias seleções do mundo, se torna mais difícil vencê-los. No último Mundial a gente estava meio despreparado e perdeu duas vezes por 3-2, pro Eczacibasi e pro Casalmaggiore, campeão europeu. Esses dois foram os finalistas. Então faltou pouco. Quem sabe a gente não consiga depois da Superliga, mais preparado, um pouco mais? (Nota do SdR: o Rexona-Sesc terminou o Mundial 2016 na quinta colocação.)

Saída de Rede – O fato de o torneio agora ser no fim da temporada de clubes, pouco depois do encerramento da Superliga, ajuda o time? Embora esses adversários também estejam com bom ritmo.
Bernardinho – Para nós, que não temos a quantidade de talentos individuais a nível mundial que esses times têm, a questão do sistema funcionar é a única chance que a gente tem. Não dá para brigar na individualidade. Sob esse ponto de vista, a consistência de uma temporada talvez nos dê uma possibilidade a mais. Claro que esses grandes times continuam sendo os favoritos, mas talvez a gente tenha uma pequena condição a mais.

Bernardinho orienta o time durante partida da Superliga (foto: Alexandre Arruda/Divulgação)

Saída de Rede – Falando agora de Superliga, as outras equipes no top 4, Minas cresceu no segundo turno, Praia Clube caiu um pouco ao longo da competição e Osasco está se ajustando. Desses três adversários, qual seria o mais perigoso?
Bernardinho – O Minas com certeza é o mais perigoso. Na minha opinião, o Minas se tornou o favorito.

Saída de Rede – Por quê?
Bernardinho – Uma coisa é ter o Minas sem uma Hooker e sem uma Jaqueline. A Hooker é uma das grandes opostas do mundo. Veja bem, não falo só da Superliga, falo do mundo, e ela ataca como poucas. A Jaqueline é completa, arma o time de uma maneira… Que jogadora tem condições de passar como ela passa, arrumar o time, defender, fazer o jogo como ela faz? Aí você tem Rosamaria, Carol Gattaz fazendo excelente temporada, a Naiane… Pelas jogadoras que tem hoje, o Minas se tornou favorito na Superliga.

Saída de Rede – Enfrentá-las numa melhor de cinco jogos em uma possível semifinal facilita para vocês, não? Afinal, ganhar três vezes do Rexona…
Bernardinho – (Interrompendo) É, mas ganhar três vezes desse Minas aí é tão complicado quanto ganhar três vezes do Rexona.

Saída de Rede – Se você diz… E quanto ao Praia e ao Osasco?
Bernardinho – Acho que o Praia vive um momento de insegurança emocional, mas é um time com muito potencial. Na final, no ano passado, por muito pouco a coisa não fugiu da gente. Foi uma final muito dura. E Osasco é sempre Osasco, uma equipe de tradição, que vai chegar, mudou um pouco a forma de jogar: no último ano tinha mais força no meio, a cubana na ponta, agora tem a Tandara, duas estrangeiras, com muita força ali. A Bia tem jogado em altíssimo nível.

A central Bia, do Vôlei Nestlé, foi bastante elogiada por Bernardinho (foto: João Pires/Fotojump)

Saída de Rede – Você acha que a Bia subiu muito de produção em relação ao ano anterior?
Bernardinho – Ela já tinha jogado muito bem no Sesi com a Dani Lins. O fato de ter uma grande levantadora do lado dela, e ela sempre foi uma grande bloqueadora, deu uma condição… Me lembro que ganhamos grandes competições com a Dani e as centrais eram a Valeskinha e a Juciely, que são mais baixas, e a Dani as fazia jogar, mesmo sendo jogadoras fisicamente menos capazes de jogar com atletas grandes. A Dani faz isso muito bem e a Bia está se beneficiando disso. Para o voleibol é muito importante ter uma jogadora como ela, que naturalmente já é uma grande bloqueadora. É um belo trabalho feito lá e ter a Dani por perto dá uma condição ainda melhor.

“Natália foi uma jogadora fundamental” (foto: FIVB)

Saída de Rede – O Rexona sempre teve muito volume de jogo e você procura fazer o time jogar de forma acelerada na virada de bola e no contra-ataque. No ano passado, quando o passe não saía, era bola para a Natália, que descia o braço. Como está isso hoje? Conversando outro dia com o Anderson Rodrigues (técnico do Brasília Vôlei), ele dizia que o Rexona está bem, porém errando mais do que no ano passado. Você também acha isso? O que está faltando para o time?
Bernardinho – É exatamente isso. O Anderson enxerga um pouco com os meus olhos, até por termos convivido tanto tempo. Nós ainda não temos a consistência… Olha, a Natália foi uma jogadora fundamental nos últimos dois anos, dava um equilíbrio muito grande, pra gente se permitir ter um passe pior às vezes. Era uma jogadora que resolvia, ela foi excepcional. Não tê-la este ano requer um time que cometa menos erros, que desperdice menos, mas ainda estamos em busca disso, dessa consistência maior. Nos momentos importantes estamos tendo boas atuações, mas o time ainda oscila. A Anne (Buijs) tem altos e baixos, mas teve momentos muito bons, como na Copa Brasil, a final do Sul-Americano, mas não posso atribuir a ela a responsabilidade que a Natália já tinha condições de assumir. Eu tenho que ter também a calma de fazer com que ela tenha a tranquilidade de jogar sem um excesso de peso sobre ela. Quem está assumindo uma responsabilidade maior é a Gabi, o que é muito bom para ela, para o amadurecimento.

Saída de Rede – Mas ela não tem característica de força, tem outro perfil, não dá para comparar com a Natália.
Bernardinho – Não, mas você pode jogar de outra maneira. A ideia é um pouco essa, que ela jogue de uma forma com mais velocidade, para que ela consiga criar situações de dificuldades para o outro time.

O treinador orienta Anne Buijs: “Está começando a mostrar mais consistência” (foto: Marcelo Piu/Divulgação)

Saída de Rede – Quando a Brankica Mihajlovic (ponta sérvia, vice-campeã na Rio 2016), que tem um perfil parecido com o da Anne, com deficiências no passe e no fundo de quadra, jogou aqui, ela deslanchou a partir das quartas de final. Você está preparando a Anne para crescer na reta final?
Bernardinho – Aos poucos ela está começando a mostrar mais consistência na atuação de alto nível. É o que a gente espera dela: crescer fisicamente e conseguir lidar com uma situação de pressão que a Superliga exige o tempo todo.

Saída de Rede – Atualmente, no cenário internacional, temos a impressão de que existe uma carência de ponteiras passadoras. Você diria que o vôlei no Brasil reflete isso também?
Bernardinho – A Gabi é uma jovem ponteira excepcional. A Natália tem pouco tempo nessa função… Então, nós temos duas ponteiras. São pontas que às vezes não são tão boas passadoras, como a Tandara também não é, mas que você pode compor. Veja, a Sérvia jogou a Olimpíada com a Brankica na ponta, a Tandara não é pior passadora do que ela. Você tem como compor e o Zé Roberto vai saber montar isso. No Brasil há um pouco dessa carência, não só no feminino também há no masculino, mas eu diria que não estamos tão mal posicionados neste sentido. Temos algumas jogadoras interessantes para surgir, como a Rosamaria.

Saída de Rede – Nós conversamos com ela, que admitiu que não dava para ser oposta em nível internacional, até por sua altura (1,85m), mas sim ponteira. Ela pensou exatamente nisso.
Bernardinho – Ela pensou e os treinadores dela também. Na minha opinião é uma solução excepcional, ela tem plenas condições de jogar nessa posição.

Ele diz que Macris “taticamente joga muito” (foto: CBV)

Saída de Rede – Que outros destaques você vê entre as jogadoras mais jovens aqui no Brasil?
Bernardinho – Levantadoras você tem a Roberta, a Naiane, a Juma, que são jovens e boas jogadoras. A Macris é uma atleta que taticamente joga muito, ela é diferente e entra nesse rol. A Dani Lins continua sendo a principal e melhor jogadora da posição. Mas temos um leque de jogadoras interessantes para trabalhar, com boa estatura. Olhando pro futuro, eu vejo boas levantadoras. Sobre opostas, não sei se a ideia é a Tandara jogar um pouco ali, a Natália jogar eventualmente, mas eu tinha uma crença muito grande em uma menina que é a Paula Borgo, que fez duas boas temporadas e este ano está jogando menos. Claro que isso é momentâneo e é uma jogadora que tem potencial. Não temos uma quantidade grande, talvez seja o caso de pensarmos em uma estrutura um pouco híbrida.

Saída de Rede – E a Lorenne, sua jogadora até a temporada passada, foi ideia sua ela ir para o Sesi, sob o comando do Juba, que tinha sido seu assistente, para ela jogar mais?
Bernardinho – Sim, ela tinha que sair pra jogar.

“Lorenne talvez necessite mais tempo” (foto: Sesi)

Saída de Rede – Está muito verde ainda para se pensar em seleção principal?
Bernardinho – Ela está galgando, agora já joga a Superliga, tem potencial. Lorenne talvez necessite um pouco mais de tempo, assim como a Paula Borgo. Elas precisam passar por um processo de amadurecimento internacional para poder jogar.

Saída de Rede – A Lorenne joga de uma forma diferente do que historicamente as nossas opostas fazem, mais lenta, porém com mais alcance e com mais potência. Como você vê isso?
Bernardinho – É, ela vai mais alto, pega uma bola mais lenta. Temos que ver, pois a forma de jogar do Brasil não é muito esta e, lá fora, jogar com uma bola tão lenta talvez não seja o mais recomendável. Mas é uma jogadora de potencial, tem que ser trabalhada para ter condição de jogar internacionalmente. É preciso testá-la lá fora. Já jogou Mundial sub23, ou seja, está começando a ganhar essa experiência.


Moreno: primeiro ídolo surgiu antes do boom do vôlei no Brasil
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Sidrônio Henrique

Antes de amistoso contra a China, em Santo André (SP), em 1978, Moreno recebe homenagem pela partida de número 300 pela seleção. Chegaria a 366 jogos (fotos: arquivo pessoal)

Antes de Giba, Marcelo Negrão, Wallace, Renan Dal Zotto, entre tantos outros ídolos numa lista bem extensa, o vôlei brasileiro teve Antônio Carlos Moreno. Você não o conhece? Pois saiba que, apesar da falta de memória do brasileiro ser cruel com ídolos do passado, ele é respeitado no mundo inteiro, a ponto do americano Doug Beal, referência internacional, dizer que ele merece um lugar no Hall da Fama e do japonês Yasutaka Matsudaira, melhor técnico do século XX, levá-lo duas vezes para o Japão e apresentá-lo como “meu filho brasileiro”.

Moreno era conhecido no Brasil nos anos 1970, muito antes do voleibol conquistar o status que tem atualmente. Era 1979 e o comercial da marca de artigos esportivos Topper anunciava o nome dos craques de quatro modalidades que apareciam no vídeo. Entre eles lá estava Moreno, então a cara do voleibol no país, dando um peixinho e depois atacando.

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Ainda faltavam três anos para o boom do vôlei no Brasil, elevado à condição de segundo esporte nacional pela geração de prata, da qual muitos atletas tiveram Antônio Carlos Moreno como modelo. Mas antes mesmo da explosão da modalidade, comerciais em rede nacional, convites de equipes do exterior, o respeito dos adversários e o carinho dos fãs faziam parte da vida dele. Isso numa época em que o voleibol quase não era visto na TV, longe de rivalizar com o basquete.

Versatilidade
Num período em que o vôlei era bem diferente daquele praticado hoje, Moreno fez de tudo: entrada, saída, meio. “Até levantador eu fui”, disse ao Saída de Rede o ex-jogador de 68 anos. Foi ponteiro a maior parte do tempo. Destro, aprendeu a atacar também com a esquerda, depois de uma lesão na mão direita que quase o tirou do Mundial 1974. Com 1,92m, era alto para os padrões da época.

Qualquer garoto que jogasse ou pensasse em jogar vôlei no Brasil nos anos 1970 queria ser o Moreno”, contou ao SdR Marcos Kwiek, técnico do Genter Vôlei Bauru, da seleção feminina da República Dominicana e ex-atleta do antigo ponta no clube Hebraica, em São Paulo. Antônio Carlos Moreno começou na seleção brasileira adulta com apenas 17 anos, em 1965, e se despediu dela aos 32, em 1980, sempre como titular – foi capitão de 1972 a 1980. Participou de 366 partidas internacionais, incluindo quatro Jogos Olímpicos, quatro Campeonatos Mundiais e quatro Jogos Pan-Americanos.

Moreno (camisa 5) antes de amistoso da seleção em São Paulo como preparação para o Pan 1971, em Cali, Colômbia

Filho único, nascido em Santo André (SP), em 11 de junho de 1948, Moreno descobriu a modalidade aos 11 anos, em 1959, no Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, na sua cidade. No ano seguinte, começou a praticar o voleibol de forma competitiva no Clube Atlético Aramaçan, também em Santo André, onde vive até hoje.

Após chegar à seleção e se firmar como titular, com o aval dos veteranos, o garoto Antônio Carlos Moreno foi para o seu primeiro Mundial já ano seguinte, em 1966, na antiga Tchecoslováquia. Dois anos depois, aos 20, a maior emoção da sua carreira, a primeira Olimpíada. O Brasil ficou em um modesto nono lugar entre dez participantes na Cidade do México 1968. A qualidade técnica da nova geração alimentava o sonho de dias melhores para a modalidade no país, mas a falta de estrutura, em meio a uma gestão amadora, atrasou o desenvolvimento do voleibol brasileiro em uma década. “Íamos para torneios no exterior sem saber, por exemplo, o que era saque flutuante ou bloqueio ofensivo e aprendíamos durante as competições. Quase não havia intercâmbio”, comentou o craque.

Oportunidade no Japão
Mesmo muito jovem, Moreno chamava a atenção dos adversários. Na Copa do Mundo 1969, disputada na extinta Alemanha Oriental, caiu nas graças do treinador japonês Yasutaka Matsudaira, que estruturava a seleção que encantaria o mundo três anos mais tarde com seu jogo rápido, na Olimpíada de Munique, em 1972. Matsudaira foi escolhido pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB), em 2000, como o melhor técnico de equipes masculinas do século XX. No final dos anos 1960, nasceu entre ele e Moreno uma amizade que duraria até o falecimento do japonês em 2011.

Foto de uma revista especializada japonesa em nota sobre a chegada de Moreno ao país, em 1972. Ao lado dele, o técnico Nobuhiro Imai, que treinou a seleção feminina do Japão

O lendário treinador levaria o brasileiro para jogar na liga do Japão, uma potência na época, em 1972 e em 1977. Os atletas japoneses atuavam sob regime profissional, dedicando-se exclusivamente ao voleibol. Enquanto isso, no Brasil, os clubes treinavam duas horas por dia, quando era possível. A situação mais comum era que os jogadores tivessem empregos tradicionais pela manhã e à tarde, indo para o treino à noite. Os períodos de concentração da seleção brasileira raramente ultrapassavam dois meses e eram interrompidos para que os atletas pudessem atender compromissos nos seus empregos. Alguns acabavam pedindo dispensa para não ficar sem trabalho.

Treinos insuficientes
Moreno recorda que o time que foi a Munique 1972 era tecnicamente muito bom, mas a carga incompleta de treinos e a má sorte no sorteio das chaves (seis times divididos em dois grupos) atrapalharam os brasileiros. A equipe comandada pelo técnico Valderbi Romani caiu no mesmo lado do Japão e da Alemanha Oriental, que seriam ouro e prata, respectivamente. Naquele tempo, os dois primeiros avançavam à semifinal, terceiro e quarto disputavam do quinto ao oitavo lugares, e os dois últimos do nono ao décimo segundo lugar.

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O Brasil terminaria em oitavo em Munique, abatido após uma fase inicial em que jogou de igual para igual com os alemães orientais (veja vídeo no final deste texto) e engrossou dois sets contra o Japão de Matsudaira e do genial Katsutoshi Nekoda, o pai dos levantadores modernos, com seu estilo arrojado. Moreno ficaria amigo também de Nekoda, de quem havia se aproximado em 1969, durante a Copa do Mundo. O armador japonês faleceria em 1983, aos 39 anos, devido a um câncer no estômago.

Moreno (5), aos 17 anos, em 1965, na equipe juvenil do Randi, clube de Santo André (SP)

Ambidestro
Faltavam 37 dias para o Mundial 1974, no México, quando Moreno se acidentou numa porta de vidro e rompeu o tendão do dedo indicador da mão direita. Parecia o sinal vermelho para suas pretensões de ir a seu terceiro Campeonato Mundial, após as edições de 1966 e 1970. O atacante ficou desesperado, mas apostou na recuperação e, para compensar a impossibilidade de utilizar a mão direita, aprendeu a atacar com a esquerda. Foi ao torneio no México. “Era um ataque forte com a esquerda. Não tanto quanto com a direita, mas havia potência”, conta Luiz Eymard, colega de seleção de Moreno e um dos grandes nomes do voleibol brasileiro nos anos 1970.

Nas quadras mexicanas, Antônio Carlos Moreno ficava receoso de machucar ainda mais o dedo lesionado, principalmente na hora de bloquear. “Os cubanos sabiam da lesão e atacavam com força na minha mão direita. Doía uma barbaridade”, mencionou.

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Veio a Olimpíada de Montreal 1976 e o Brasil subiu mais um posto, terminando em sétimo, mas seria a partir do ciclo seguinte que o país daria um salto de qualidade no voleibol masculino. Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), havia assumido a presidência da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em 1975. Sob sua gestão, a modalidade cresceu.

Futuro promissor para o vôlei
A seleção masculina, no período 1977-1980, deu seus primeiros passos rumo às medalhas que conquistaria no ciclo 1981-1984. Revelações do início dos anos 1970, como William Carvalho e Bernard Rajzman, somavam-se aos talentos revelados no Mundial Juvenil 1977, como Renan Dal Zotto, Mário Xandó e José Montanaro, entre outros. “Aqueles meninos eram craques, como ficaria evidente mais tarde”, relembrou.

Em peça publicitária da Topper, de 1979, que circulava em revistas. Havia também um comercial na TV

Moreno se mantinha em evidência. Nos Jogos Pan-Americanos 1979 ele foi incluído pela terceira vez consecutiva na seleção do torneio. Conquistou medalha em todas as quatro edições de que participou: três pratas (1967, 1975 e 1979) e um bronze (1971).

Se os Jogos Olímpicos da Cidade do México 1968 ocupam lugar especial na sua memória por terem sido os primeiros, os de Moscou 1980 marcam sua melhor participação numa Olimpíada e também são lembrados com carinho. O quinto lugar, na sua despedida da seleção brasileira, demonstrou que a equipe tinha potencial para um futuro brilhante.

O momento mais marcante foi a virada por 3-2 sobre a Polônia, que chegou à capital russa para defender o título olímpico, comandada pelo atacante Tomasz Wojtowicz, o homem que quatro anos antes havia criado o ataque da linha dos três metros. A Polônia terminaria em quarto lugar em Moscou 1980, mas ainda era um dos melhores times do mundo. Foi a primeira vez que o Brasil derrotou uma potência numa Olimpíada, na sua melhor colocação até ali.

Técnico da seleção
Antônio Carlos Moreno já havia decidido que era hora de deixar a seleção. Queria sair ainda jogando bom voleibol e partir para uma experiência que vinha adiando havia alguns anos: uma temporada na liga italiana. Antes, atendeu a um convite de Nuzman e assumiu interinamente, de agosto a novembro de 1980, o cargo de técnico da seleção, em substituição a Paulo Russo, numa série de partidas contra a França e na Canadian Cup, torneio amistoso em que a seleção brasileira foi vice-campeã, perdendo a final para os Estados Unidos.

“A estrela de Moreno brilha no Palalido”, informa o título do jornal italiano, numa referência ao brasileiro e ao ginásio da partida, em Milão

Cumprido o compromisso com Nuzman, foi para o Gonzaga Milano, uma das principais equipes da Itália, e jogou, com destaque (veja imagem ao lado), por uma temporada, para depois voltar ao Brasil. Despediu-se das quadras em casa, Santo André, pela excepcional equipe da Pirelli, em 1982. Conquistou diversos títulos estaduais, brasileiros e sul-americanos. O amadorismo do voleibol no país o impediu de alçar voos mais altos com a seleção.

Seguiu a carreira de técnico, com a qual vinha flertando desde 1975, nas categorias inferiores. Comandou times grandes, como Pirelli e Banespa, ao longo dos anos 1980, depois de se aposentar como jogador. Suas atividades no ramo empresarial o afastavam às vezes do esporte, mas sempre que podia voltava à beira da quadra. Treinou sua última equipe em 2004, na Hebraica.

Formação profissional
Graduado em administração de empresas, fez mestrado em educação física na Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em gestão esportiva pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Participou da formação de mais de mil treinadores de diversas modalidades. Fala quatro idiomas além do português: espanhol, italiano, inglês e alemão. Quando o repórter diz que soube que ele falava também francês e japonês (servia como intérprete de Matsudaira nas suas viagens ao Brasil), Moreno retruca: “Esses aí eu esqueci, já não falo direito”.

Atualmente, ele trabalha no Instituto Olímpico Brasileiro, departamento do COB voltado à educação de atletas, treinadores e outros profissionais vinculados ao esporte. Na Rio 2016, por exemplo, ele atuou junto a equipes e atletas que conquistaram sete das 19 medalhas obtidas pelo Brasil.

Moreno, a esposa e os seis filhos

Prazer em ajudar
Criado pela mãe – o pai os deixou quando ainda era pequeno –, Moreno diz que aprendeu desde cedo com ela, que trabalhava como telefonista na Prefeitura Municipal de Santo André, a valorizar o aprendizado. “Tenho enorme prazer em auxiliar, contribuir, encorajar pessoas para que se desenvolvam cada dia mais, vencendo barreiras. Ser lembrado nunca foi meu objetivo, mas o reconhecimento de alunos, atletas, profissionais de diversas áreas e níveis é a minha grande recompensa”.

Moreno é casado com Selma e tem seis filhos – dois deles são técnicos de vôlei em universidades americanas. Até o final do ano nascerá seu oitavo neto.

Mesmo não tendo nenhuma medalha como atleta pelo Brasil numa competição global e sendo de um país de memória curta, Antônio Carlos Moreno tem lugar entre os grandes da história do vôlei. Estava à frente do seu tempo e foi peça essencial na evolução de uma modalidade que hoje coleciona títulos para o Brasil. Um exemplo para quem teve a chance de conviver com ele. Nas palavras do atacante José Montanaro, expoente da geração de prata, “Moreno foi um mestre dentro e fora das quadras”.

(Veja abaixo trecho de uma partida em Munique 1972 entre Brasil e Alemanha Oriental, equipe campeã mundial e que ficaria com a prata naqueles Jogos Olímpicos. Moreno é o camisa 5.)

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HISTÓRIAS DE ANTÔNIO CARLOS MORENO

Vendedor de café
Era 1966, ele tinha 18 anos e embarcava para o seu primeiro Campeonato Mundial, na extinta Tchecoslováquia. Começava a trabalhar e estudar, não tinha grana. Queria comprar presentes, material esportivo e teve uma ideia ao descobrir que o café brasileiro era artigo raro, cobiçado e obviamente caro no leste europeu. Avisou aos colegas. Levou 20 quilos na mala. Os demais levaram o que podiam. O jovem Moreno ficou encarregado de intermediar a venda. Quando chegaram a Pardubice, cidade onde o Brasil jogou a primeira fase do torneio, ele pediu que os colegas lhe entregassem todo o café que tinham. Ficou com 180 quilos em seu quarto. Procurou um funcionário do hotel, que demonstrou interesse no produto. Cobrou 10 vezes o preço que havia pagado no Brasil, o que ainda era metade do valor cobrado na Tchecoslováquia. Vendeu tudo rapidamente, em apenas dois dias. Ele e os companheiros de time compraram presentes para a família, os amigos, além de material esportivo, claro.

Cadê o ginásio?
No curto período de treinamento para a Olimpíada da Cidade do México, em 1968, uma das preocupações da comissão técnica era a altitude da capital mexicana (2.250m). Resolveram que, para se adaptar, a seleção deveria passar um período em Campos do Jordão (1.628m). Chegaram lá, se hospedaram e no dia seguinte iam treinar no ginásio. Que ginásio? A seleção brasileira ficou concentrada em uma cidade que não tinha espaço apropriado para treinamento e ninguém da delegação sabia disso. A solução foi procurar um. Depois de horas e diversos telefonemas, encontraram um local adequado a 30 quilômetros dali.

Imagem icônica do terrorista na varanda do prédio onde estava a delegação israelense em Munique 1972

Testemunha do terror em Munique
Em Munique 1972 houve o ataque de oito terroristas palestinos, da organização Setembro Negro, que resultou na morte de 11 integrantes da delegação israelense. O bloco em que estavam os brasileiros era vizinho ao de Israel. “Ninguém saía da vila olímpica. Sabe aquela imagem famosa em que aparece o terrorista encapuzado? Eu via esse sujeito da nossa janela. E vi também quando houve aquela fila, dos terroristas e dos israelenses, se dirigindo para o ônibus para irem ao aeroporto. Foi o momento mais tenso e mais triste da minha vida esportiva”, contou Moreno.

Almoço com a rainha da Inglaterra
Os Jogos de Montreal 1976 tiveram a visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II – o Canadá faz parte da Comunidade Britânica de Nações. Foi programado um almoço para ela na vila olímpica. Ao saber disso, Moreno decidiu que ia “almoçar com a rainha”. Tratou de descobrir na véspera em que parte do refeitório ela ficaria e chegou uma hora antes na data marcada (não havia jogo nem treino naquele momento), para ficar o mais perto possível. “Havia todo um aparato de segurança, então fiquei um pouquinho longe, mas mesmo assim fiquei de olho nela, almocei olhando para a rainha da Inglaterra. Não é algo comum”, divertiu-se o ex-atleta.

Certificado de participação em Moscou 1980: quinto lugar era a melhor colocação do Brasil

Amizade com Zaytsev e câmbio na vila olímpica
Um das amizades que Moreno fez no mundo do vôlei foi com o levantador soviético Vyacheslav Zaytsev, pai do craque italiano Ivan Zaytsev. Prata em Montreal 1976, conquistaria seu cobiçado ouro em Moscou 1980 (ganharia outra prata em Seul 1988). Sempre que havia tempo, se encontrava com o brasileiro na vila olímpica moscovita. “Éramos muito amigos. Ele queria sempre saber coisas do Brasil e eu da União Soviética. Como era difícil comprar rublos (moeda local), rolava uma ajuda mútua. Eles cobiçavam dólares e a compra lá era restrita. Nós brasileiros precisávamos de rublos. Então nós dois fazíamos essa ponte entre nossas seleções. Eu dava ao Zaytsev dólares e ele vinha com os rublos”.

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O QUE DIZEM SOBRE MORENO

Doug Beal

“Moreno foi um dos maiores atletas que enfrentei. Ele e o Luiz Eymard foram os melhores brasileiros contra quem joguei. Moreno era extremamente inteligente. Se o Brasil tivesse ganhado alguma medalha nos anos 1970, certamente ele estaria no Hall da Fama, ali é o lugar dele. Um jogador completo”. Doug Beal, ex-atleta, ex-técnico dos EUA (ganhou o ouro em Los Angeles 1984) e ex-diretor executivo da USA Volleyball

José Roberto Guimarães

“Antônio Carlos Moreno foi um espelho fantástico, eu procurava fazer o que ele fazia, até no modo de me comportar. Muito jovem, o Moreno já era fluente em inglês e em alemão, uma cabeça extraordinária. Eu tinha 13 anos, morava em Santo André, quando fui jogar nas categorias de base do Randi (clube da cidade que antecedeu a Pirelli). Embora o Moreno tivesse só 19 anos, já era uma referência, era da seleção. Dominava todos os fundamentos, tinha facilidade de jogar, era diferenciado, atacava com os dois braços. Ele teve uma influência muito grande sobre mim”. José Roberto Guimarães, técnico tricampeão olímpico, colega de clube de Moreno e companheiro de seleção de 1973 a 1977

Bernardinho em Moscou 1980

“O Moreno foi uma referência muito importante no voleibol, foi um ícone. Eu comecei a ser convocado para a seleção brasileira em 1978, 1979 e tive minha primeira participação efetiva na Olimpíada de Moscou, em 1980. Ele era o capitão e transmitia pra gente toda a seriedade do trabalho, sua rigidez de valores, a importância de fazer a coisa certa. Ele foi muito importante para aquela geração de jovens talentosos que chegava para transformar o voleibol no Brasil. Tínhamos Renan, Xandó, Amauri, Montanaro e outros. O Moreno era um líder. Inclusive ele foi nosso técnico antes do Bebeto (de Freitas) assumir, nos treinou num torneio amistoso no Canadá, após a Olimpíada de Moscou”. Bernardinho, técnico bicampeão olímpico e tricampeão mundial, integrante da geração de prata e companheiro de seleção de 1978 a 1980

José Montanaro

“Ele era uma referência não só pra gente no Brasil, mas no mundo, numa época em que o voleibol não tinha repercussão aqui no país. Quando fui para a seleção adulta, a partir de 1978, ele era o capitão. Olha, o Moreno era um mestre dentro e fora das quadras, ajudou muito na formação da geração de prata. Foi meu técnico mais tarde no Banespa. É uma pessoa de muito valor. O cara era a eficiência em carne e osso, tinha muito conteúdo, inteligente demais, abria nossos horizontes, excelente em todos os fundamentos e ainda atacava com os dois braços”. José Montanaro, colega de Moreno na seleção de 1978 a 1980, foi prata no Mundial 1982 e na Olimpíada 1984

Carlos Arthur Nuzman

“Antônio Carlos Moreno é um dos grandes nomes da história do voleibol brasileiro. Seu equilíbrio e liderança, dentro e fora das quadras, o fizeram um grande capitão da seleção. Respeitado por todos, foi um dos atletas que deixou importante legado para a geração de prata. Moreno só fez amigos no voleibol, sempre conduziu sua carreira com elegância, dignidade e competência. Essas mesmas características ele trouxe para sua vida profissional e hoje realiza extraordinário trabalho no COB, ajudando a formar novos gestores para o esporte brasileiro no Instituto Olímpico Brasileiro”. Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, ex-presidente da CBV, ex-atleta da modalidade

Luiz Eymard

“Imagine um cara diferenciado. Era o Moreno. Ele foi minha primeira referência como atleta. Ainda me lembro da primeira competição ao lado dele, o Campeonato Sul-Americano 1967, em Santos. O Moreno é só um ano mais velho do que eu, mas era o modelo a ser seguido. Tinha um jogo refinado, atacava com os dois braços, se antecipava. O Moreno estimulava todo mundo a tentar ser melhor”. Luiz Eymard Zech Coelho, ex-jogador do Minas Tênis Clube e da seleção brasileira

Marcos Kwiek

“Qualquer garoto que jogasse ou pensasse em jogar vôlei no Brasil nos anos 1970 queria ser o Moreno. Ele é um dos maiores ídolos de todos os tempos do voleibol brasileiro. Infelizmente, quase não há material sobre ele, um atleta que foi reconhecido pelo seu jogo no mundo todo. Moreno foi minha inspiração para entrar no esporte, fazer educação física. Uma pessoa do bem. Ele é o cara”. Marcos Kwiek, técnico do Genter Vôlei Bauru, da seleção feminina da República Dominicana e ex-atleta de Moreno no clube Hebraica, em São Paulo


Seleção masculina perde mais uma peça-chave após saída de Bernardinho
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Sidrônio Henrique

Bernardinho e Roberta: parceria de 20 anos com títulos no clube e na seleção (fotos: arquivo pessoal)

Ela é a voz na cabeça de Bernardinho há 20 anos. Sabe aquele fone de ouvido que você cansou de ver o técnico arrancar quando tem raiva? Ela está do outro lado – e não é por sua causa que ele se irrita, longe disso. Suas análises, tanto dos jogos da seleção brasileira quanto dos adversários, foram fundamentais em todas as grandes conquistas de um time com um cartel impressionante. Formada em educação física, porém atuando na área de estatística, Roberta Giglio segue ao lado do chefe no Rexona-Sesc, mas decidiu colocar um ponto final na sua história com a seleção masculina. “Era uma rotina muito desgastante, eu queria sair há algum tempo e o Bernardinho me segurava. Aproveitei a saída dele e agora vou cuidar da minha vida. Mas saio com a sensação de que fiz tudo o que poderia fazer”, disse Roberta, 45 anos, ao Saída de Rede. Ela é mais uma peça-chave da antiga comissão técnica que deixa a seleção, após Rubinho abrir mão, em janeiro, do cargo de assistente do novo treinador.

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Foi Renan Dal Zotto, o substituto de Bernardinho, quem a apresentou ao multicampeão em 1997. Roberta Giglio estava com Renan pela segunda temporada na Superliga masculina, na extinta equipe da Olympikus, quando conheceu Bernardo Rezende, que a levou para o Rexona, então com sede em Curitiba. Naquele mesmo ano ela começou a trabalhar para a seleção feminina, também treinada por ele. A dobradinha Rexona/seleção começou ali e não parou mais. Em 2001, quando Bernardinho assumiu o comando do masculino, Robertinha, como é chamada, foi junto.

Robertinha analisava o desempenho do Brasil e do adversário

Zé Roberto
Graduou-se em educação física em 1993, na FMU, em São Paulo, mas antes mesmo de formada já dava seus primeiros passos no voleibol. Não dentro das quadras, afinal a altura de 1,63m não ajudava muito e não havia líbero naquela época. Começou fazendo anotações em torneios infantojuvenis, até que em 1992 foi trabalhar com o técnico José Roberto Guimarães, no antigo time feminino Colgate São Caetano.

Ricardo Trade, o Baka, hoje diretor executivo da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), foi contemporâneo dela na faculdade, era preparador físico na Colgate e a chamou para fazer estatística. Pouco tempo depois, Sérgio Negrão assumiu a equipe e ela foi mantida. Ficou em São Caetano de 1992 a 1995, depois foi trabalhar no vôlei masculino, com Renan Dal Zotto, de 1995 a 1997, até engatar a parceria definitiva com Bernardinho.

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Não faltam episódios curiosos dessa relação profissional de 20 anos. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ela não pôde acompanhar a delegação da seleção feminina, devido ao número limitado de profissionais que poderiam ser credenciados então. A solução foi preparar vídeos e análises dos adversários a toque de caixa e se manter em contato com o assistente Chico dos Santos, que fez as vezes de estatístico.

Comissão técnica da seleção masculina após a conquista da Liga Mundial 2006, em Moscou, Rússia

Choro
Atenas 2004, já com a seleção masculina, foi um título marcante, mas também um pesadelo em termos de trabalho. “Era uma loucura, pois eu ainda fazia as análises sozinha. Eram seis jogos por rodada na fase inicial. Nos últimos dias eu chorava para aquilo acabar, não aguentava mais. Como a primeira partida era às 8h30, lá pelas 7h30 eu estava no ginásio. Saía depois da meia-noite, às vezes chegava às 2h na vila olímpica e o Bernardinho estava me esperando. Eu virava a noite para entregar tudo, quase não dormia. Nos dias em que o masculino não jogava, fazia análises”, relembrou Roberta Giglio.

Desde que passou a integrar a comissão técnica da seleção brasileira, há 20 anos, ficava pelo menos seis meses fora de casa. “Às vezes emendava cinco semanas no exterior, uma loucura”, completou. De todos os continentes, só não foi à África. Esteve em 40 países. Somente ao Japão foram 18 viagens, sempre na classe econômica. “Muitas vezes na poltrona do meio”, afirmou rindo.

“Robeeertaaaa”
Na seleção, dividia os ouvidos de Bernardinho com o assistente técnico Rubinho. “Ali era o Rubinho quem falava mais. Mas no Rexona só sou eu mesma”. No clube, ela enfatizou, as cobranças não diminuem. “É o mesmo trabalho, a mesma exigência”.

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Às vezes há momentos engraçados. Na semifinal da Copa Brasil 2017, diante do Dentil/Praia Clube, uma cena hilária. “De repente ouvi gritos vindos lá de perto do banco, o Bernardinho berrando ‘Robeeertaaaa’, mas eu achava que era com a levantadora (Roberta Ratzke). Aí olho pra quadra, a Roberta estava me olhando e disse ‘é contigo’. Ele esqueceu de apertar o botão pra falar no fone, por isso eu nunca ia achar que era comigo. As jogadoras reservas se acabando de rir e ele cada vez mais bravo com a demora”, contou Robertinha, que nutre grande admiração pelo chefe.

Com a ajuda do pai, ela desenvolveu software que representa diferencial para a seleção e o Rexona

Software
Foi com a ajuda do pai, o aposentado Cláudio Giglio, que durante 30 anos trabalhou para a multinacional Philips e era autodidata em computação, que ela deu uma das maiores contribuições ao voleibol brasileiro. Tendo como referência o software Data Volley, desenvolvido pelos italianos para análises estatísticas e largamente utilizado ao redor do mundo, ela criou uma versão tão perfeita que os estrangeiros ficavam curiosos a respeito.

Nunca deu nome ao software, que fez pensando em seu trabalho na seleção. Os upgrades no programa são constantes e somente ela o utiliza. “Isso sempre despertou muita curiosidade. Eu, uma mulher, fazendo tudo diferente no meio de um monte de homem, e meu trabalho era referência. Sempre tinha gente de olho, até porque ganhamos muitos títulos”. O mais recente foi o ouro olímpico na Rio 2016. “Minha função não envolve apenas estatística, mas estratégia também. Esse software me ajuda a acelerar as análises”, ressaltou.

Robertinha ainda não sabe o que vai fazer após a temporada de clubes, mas pensa em sossegar um pouco. “Preciso curtir minha casa em São Paulo, pois quase não vou lá. Quando não estou viajando com o time do Rexona, acabo ficando no Rio”.


Assistente de Zé Roberto fala em renovação drástica e pede paciência
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Sidrônio Henrique

Zé Roberto e Coco: parceria iniciada em 1996 e que se mantém na seleção desde 2003 (fotos: FIVB)

Quando José Roberto Guimarães assumiu a seleção feminina em agosto de 2003, Paulo Coco foi junto como seu principal assistente. Braço direito de um dos técnicos mais vitoriosos da história da modalidade, numa parceria que começou ainda antes, em 1996, Coco está atualmente no comando do Camponesa/Minas, quinto colocado até aqui na Superliga 2016/2017. Ele se mantém ligado em cada um dos adversários não somente pelo futuro da sua equipe, mas também como subsídio para a próxima convocação da seleção brasileira, que este ano disputará o Grand Prix, a Copa dos Campeões e o Campeonato Sul-Americano.

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“A gente teve uma geração vitoriosa, que durou muito. Apesar de terem entrado jogadoras novas ao longo desse processo, a gente manteve uma base muito grande por um bom tempo. A renovação vai ser mais drástica agora. Em algumas das principais seleções do mundo isso já ocorreu. Nesse primeiro momento, nós vamos sofrer um pouco com essa transição”, disse Paulo Coco ao Saída de Rede. Ele pediu um tempo antes das inevitáveis cobranças. “Quanto antes isso aconteça e dê resultado, melhor pra gente, mas temos que ter paciência”, afirmou.

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Ele comentou sobre a mudança de posição de Rosamaria Montibeller, atacante que, sob seu comando no Minas, migrou da saída para a entrada de rede esta temporada. O treinador vê o deslocamento como algo positivo para a atleta e para o voleibol brasileiro.

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A insistência do seu chefe em querer neste ciclo olímpico jogadoras que deram adeus à seleção, como a central Fabiana Claudino e a oposta Sheilla Castro, é vista com naturalidade, apesar do discurso calcado na renovação. “Seriam opções, mas elas não querem. Nível de jogo elas teriam”.

Confira a entrevista que Paulo Coco concedeu ao SdR:

O técnico está contente com o rendimento de Rosamaria na ponta (foto: Orlando Brito/MTC)

Saída de Rede – Como você avalia o rendimento da Rosamaria na entrada de rede, numa mudança feita na metade do primeiro turno da Superliga?
Paulo Coco – Tem sido bastante proveitoso. Ela vem mostrando uma versatilidade muito grande. Antes de ela mudar para a ponta, eu conversei com ela, obviamente. A Rosa tem os objetivos dela de seleção. Como oposta, a altura dela não ajuda no nível internacional (a jogadora tem 1,85m). Então essa mudança abre um leque importante de possibilidades na carreira dela. Isso em virtude da capacidade e do empenho que ela tem. Temos que ter em mente que ela nunca foi uma ponteira passadora, temos que ser pacientes, mas ela vem desempenhando esse papel muito bem.

Saída de Rede – Como tem sido a evolução da Rosamaria como ponteira?
Paulo Coco – Ela vem melhorando seu jogo de rede, seu nível no bloqueio, pois está jogando em outra função. Eu tô pegando no pé para ela melhorar o volume de jogo, o fundo de quadra. Quando se é uma boa atacante, a menina tende a se concentrar na sua atuação ofensiva, mas a função dela é muito importante para o volume de jogo, para fazer o time jogar em função da sua recepção. Ela vem evoluindo nesse aspecto também, o que é muito importante não só para o Minas, mas para a seleção, que assim pode ter mais opções na posição 4, que é a grande carência no voleibol mundial. Estamos fazendo esse investimento.

Saída de Rede – Como você vê o nível dessas jogadoras mais jovens que deverão chegar à seleção neste ciclo? Como seria a renovação? Obviamente combinada com a presença de algumas veteranas.
Paulo Coco – A gente já vem ao longo dos anos trabalhando com uma seleção de jovens, isso desde 2008/2009, com várias jogadoras que vêm ganhando experiência, como a própria Rosamaria, Gabi, Carol… Acho que o Brasil vai estar bem, a gente vai sofrer um pouco no início… Vão pintar nomes, que prefiro não citar para não cometer uma injustiça e esquecer alguém. Mas temos muita gente de talento que, com trabalho, vai ajudar a manter o Brasil entre as principais forças do mundo.

Gabi é um dos jovens talentos que já faz parte da seleção

Saída de Rede – A Superliga propicia rodagem às mais jovens, mas há uma diferença muito grande entre o nível do torneio e o que se vê nas competições entre as principais seleções. Como a Superliga pode ajudar a formar essas atletas?
Paulo Coco – A Superliga permite que elas assumam responsabilidade, assim elas podem chegar à seleção mais preparadas, apesar de que há uma diferença muito grande entre o nível do voleibol nacional e o internacional. Mas de qualquer forma é uma preparação, aqui elas estão em ação e nos jogos internacionais ganham cancha, experiência e assim conseguem chegar num nível que nos permita jogar de igual pra igual com as principais seleções.

Saída de Rede – Além de sair atrás no processo de renovação, quais seriam as outras desvantagens do Brasil?
Paulo Coco – A principal mesmo é a nossa renovação. A gente teve uma geração vitoriosa, que durou muito. Apesar de terem entrado jogadoras novas ao longo desse processo, a gente manteve uma base muito grande por um bom tempo. A renovação vai ser mais drástica agora. Em algumas das principais seleções do mundo isso já ocorreu. Pega o exemplo da China, que foi campeã olímpica na Rio 2016 e fez sua renovação depois de Londres 2012. Você pega a Sérvia, que tem uma equipe muito jovem e é uma das potências mundiais. Há os Estados Unidos, que mudam o time de um ano para o outro e mesmo assim se mantêm em alta. E não podemos esquecer países como Holanda, Turquia, Rússia… Nesse primeiro momento, nós vamos sofrer um pouco com essa transição.

Saída de Rede – Então foi um erro segurar demais a geração anterior? Ficaram mais tempo do que o necessário?
Paulo Coco – Não, você quer sempre as melhores. Você não vai abrir mão das melhores porque são jogadoras mais velhas. O que norteia a gente é o rendimento. Se uma atleta, seja lá qual for a idade, rende bem, então é chamada. Se você tem duas jogadoras com o mesmo rendimento, você tem que escolher entre experiência ou juventude e ver o que vai ser mais proveitoso para o seu time. Idade hoje não quer dizer nada. Temos várias jogadoras com trinta e poucos anos jogando no mais alto nível.

Coco no comando da seleção nas finais do GP 2015

Saída de Rede – Quando a CBV anunciou que Zé Roberto teria seu contrato renovado até Tóquio 2020, ele enfatizou a necessidade de renovação, mas ao mesmo tempo disse que gostaria de contar com jogadoras que haviam se despedido da seleção após a Rio 2016, caso de Fabiana e Sheilla. Não seria um erro? Temos aí uma contradição.
Paulo Coco – Fabiana e Sheilla ainda seriam opções, mas elas não querem. Nível de jogo elas teriam. A Fabiana é um dos destaques da Superliga, com uma saúde incrível. Talvez para a Sheilla fosse mais difícil em virtude da função, que exige muito do físico, pede uma definidora, mas tecnicamente não se discute.

Saída de Rede – Você acha que os resultados da seleção vão cair neste ciclo olímpico?
Paulo Coco – Não sei, precisamos de um tempo para que se mature uma equipe, para que essas jogadoras sintam o que é jogar no nível internacional, que é diferente de jogar aqui dentro do Brasil. Bloqueios diferentes, aquelas europeias muito altas, é outra realidade.

Saída de Rede – Que avaliação você faz do material humano à disposição da seleção, considerando aquelas que deverão fazer parte da equipe principal?
Paulo Coco – Não é muito extenso ou volumoso, mas temos algumas jogadoras interessantes, que já vem sendo trabalhadas e que podem, caso cresçam, se desenvolvam, render bastante. Acho que é esse o processo de transição… Quanto antes isso aconteça e dê resultado, melhor pra gente, mas temos que ter paciência.


Zé Roberto mantém 500 vídeos para ajudar na caça de medalhas na seleção
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Carolina Canossa

Zé Roberto conta com a ajuda de amigos para conseguir vídeos (Foto: Divulgação/CBV)

Zé Roberto conta com a ajuda de amigos para conseguir vídeos (Foto: Divulgação/CBV)

Por Denise Mirás

Em um cálculo rápido, são pelos menos 500 vídeos de jogos nacionais e internacionais, guardados na casa de José Roberto Guimarães desde que ele assumiu o cargo de técnico da seleção brasileira feminina de vôlei, em 2003. Essa “filmoteca” é fundamental, diz Zé Roberto na batalha por medalhas olímpicas – duas, com as garotas (Pequim 2008 e Londres 2012) e uma com os homens (Barcelona 1992).

Técnico que adora “ser professor” e que agora tem pela frente mais uma transição de ciclo olímpico, com jogadoras menos experientes chegando, Zé Roberto tem na conta que “derrotas marcam muito, são doídas, sofridas, mas são importantes para análises de como as adversárias venceram”.  Vencer, para os brasileiros, pode parecer normal, mas não é, diz. “O equilíbrio é cada vez maior e importante mesmo é estar entre os primeiros.”

O que esperar da seleção feminina neste novo ciclo olímpico?

“Vão sofrer até ganhar maturidade”, diz Paula, sobre renovação da seleção

Para o novo ciclo, Zé Roberto acompanha as seleções sub-17 e sub-19 e se diz contente pela média de altura das equipes, por olhar “de baixo” as garotas. Que, claro, estão na filmoteca, assim como as estrelas – brasileiras e internacionais.

Segundo o treinador, a filmoteca tem jogos, mas também treinamentos… “E não só jogos nossos, mas de nossas adversárias. Jogos da Europa, por exemplo que peço a técnicos amigos para me enviar. Trocamos muitas informações”, diz.

Russas Sokolova e Gamova estão entre as principais "personagens" da videoteca do técnico (Foto: Russia Volley)

Russas Sokolova e Gamova estão entre as principais “personagens” da videoteca do técnico (Foto: Russia Volley)

“Quem organiza os vídeos são o Boni e o Wendell (ex-jogadores, agora da comissão técnica da seleção feminina). Posso pedir a eles tal jogo, ou um apanhado de tal jogadora, algo individual. Eles vão lá e procuram. Pode ser uma jogadora chinesa de 2013, 2014, ou posso querer ver um jogo do ciclo 2004-2008 para ver a evolução da equipe. Mas normalmente a busca é por vídeos mais recentes.”

As russas Gamova e Sokolova estão entre as jogadoras que Zé Roberto mais procurou e analisou: “Mas também porque foram mais longevas de seleção, né?”

Um quebra-cabeças para Renan

Se Zé Roberto já tem tudo à mão, para mais um ciclo olímpico da seleção feminina, Renan Dal Zotto está chegando à masculina. Mesmo com toda a estrutura deixada por Bernardinho,  o que “facilita o trabalho”, diz que precisa de um tempo para se organizar e começar o planejamento para o grupo.

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De toda forma, “a função do técnico é extrair o melhor de cada atleta, para que peças de um quebra-cabeça se encaixem”. Se não for assim, assinala, não se forma um time. “E é esse o maior desafio”, diz.

Para Renan, não é uma questão de ser mais ou menos rígido, no cargo. “É preciso, sim, que haja um acordo entre técnico e jogadores, e que todos sejam fieis a esse acordo, construindo, aprendendo e melhorando, nos moldando. Porque o vôlei, antes, era União Soviética e Brasil, era Estados Unidos. Agora, são seis, oito países disputando medalhas. É preciso estar muito mais atento…”, afirma.


Quem foram os melhores do vôlei feminino em 2016?
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João Batista Junior

2016 foi o ano de Ting Zhu, de grandes investimentos na Turquia e persistentes no Brasil (fotos: FIVB e Vitor Ricci/Ford Sports)

Ano olímpico do vôlei teve destaques de várias vertentes (fotos: FIVB e Vitor Ricci/Ford Sports)

Uma lista de melhores do esporte em 2016 tem de começar ou passar, obrigatoriamente, pelas Olimpíadas do Rio. Isso não quer dizer, no entanto, que essa lista precise se ater apenas ao evento.

Entre os melhores do ano no vôlei feminino, o leitor poderá/deverá discordar, mas foram excluídos times e seleções. A razão foi simples: ninguém foi dominante nas quadras este ano. Nem o Rexona, campeão da Superliga pela 11ª vez, mas quinto no Mundial de Clubes, nem o Eczacibasi VitrA, bicampeão mundial, mas precocemente eliminado no Europeu e entrando como convidado para jogar nas Filipinas, nem a seleção brasileira, campeã do GP, mas quinta no Rio, nem a seleção chinesa, ouro no Rio e desinteressada na reta final do GP.

Enumeramos, por outro lado, duas jogadoras, uma treinadora, uma liga e um sinal positivo para o esporte como destaques de 2016. A lista não tem ordem de preferência ou de importância, a sequência dos nomes foi determinada pelo alfabeto. Dê uma olhada:

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Boskovic no GP: 30 pontos contra o Brasil na vitória por 3 a 2

Boskovic no GP: 30 pontos contra o Brasil na vitória por 3 a 2

BOSKOVIC
A oposta Tijana Boskovic surgiu na seleção sérvia adulta colocando no banco ninguém menos que a veterana Jovana Brakocevic, no Mundial da Itália 2014. A partir dali, ela não perdeu mais a titularidade da saída de rede do time dirigido por Zora Terzic.

No Grand Prix deste ano, conseguiu destacar-se nas poucas vezes em que a Sérvia mandou para a quadra o time titular. Na virada de 3 a 2 sobre o Brasil, pela segunda semana do torneio, ela marcou nada menos que 30 pontos – quase o dobro das maiores pontuadoras adversárias naquele dia, Natália e Fabiana, com 16.

Quando foi a vez da competição máxima do esporte, Boskovic não decepcionou. Maior pontuadora da Sérvia na Rio 2016 – terceira no geral –, a atacante de 19 anos foi uma das chaves para que sua seleção chegasse à inédita medalha olímpica de prata.

O ano de ouro da oposta até poderia acabar por aí, mas, no Mundial de Clubes das Filipinas, ela foi a terceira maior pontuadora do torneio, a segunda melhor atacante e ainda conquistou o título com o Eczacibasi VitrA.

Chinesas comemoram o ouro na Rio 2016

Chinesas comemoram o ouro na Rio 2016

LANG PING
Observe a foto ao lado. A China acabara de se sagrar tricampeã olímpica. As jogadoras orientais pulam, gritam, correm, se multiplicam numa alegria que não cabe em si. Meio absorta, talvez olhando para o alto da arquibancada ou para o telão ou para o teto do Maracanãzinho ou para um vazio impossível, Lang Ping, com uma mão para trás e um sorriso indisfarçável, é a pessoa mais feliz do Rio de Janeiro naquela noite de sábado.

O “Martelo de Ferro”, como era chamada quando jogava, havia chegado perto duas vezes de repetir, como treinadora, o título que conquistou com a China em Los Angeles/1984: dirigiu a seleção chinesa vice-campeã olímpica em Atlanta 1996 e os EUA em Pequim 2008.

Mas, em 2016, apesar da juventude da equipe que comandava e dos resultados fracos na primeira fase, ela se tornou a primeira personalidade do voleibol mundial a conquistar a medalha olímpica de ouro como jogadora e também como treinadora.

De quebra, Lang Ping, que não sabe se continuará à frente da seleção chinesa, ainda mostrou, por duas vezes, que o torneio anual da FIVB precisa de ajustes. Ou, do contrário, servirá como certame meramente preparatório. Tanto no ano passado quanto neste, ela levou as principais jogadoras da seleção chinesa para disputar a fase classificatória do GP, mas mandou um time B para as finais. Coincidência ou não, a tática deu resultado em ambas ocasiões: se a China venceu o torneio olímpico em agosto passado, venceu também a Copa do Mundo 2015, duas conquistas que o voleibol chinês há um bom tempo não tinha.

A volta de Jaqueline ao Minas foi uma das grandes contratações da temporada no vôlei brasileiro (Orlando Bento/MTC)

A volta de Jaqueline ao Minas foi uma das grandes contratações da temporada no vôlei brasileiro (Orlando Bento/MTC)

PERSISTENTES
N
ão é segredo para ninguém que o esporte brasileiro no período pós-olímpico foi abalroado pela crise financeira, e o vôlei não foi exceção. O São José desistiu de disputar a Superliga masculina e a Voleisul/Paquetá, sem grana, não pôde aceitar o convite de substituir os paulistas. No feminino, a equipe de Araraquara até foi socorrida depois de perder o patrocinador na temporada passada, mas, neste ano, não conseguiu colocar o time em quadra e acabou abrindo mão da Superliga feminina. O Sesi, como se sabe, diminuiu drasticamente o investimento no vôlei feminino, o que tem feito a equipe cumprir uma campanha terrível no nacional. Mas nem tudo é crise: há os persistentes.

Contra a maré, o Dentil/Praia Clube não só manteve as principais jogadoras do vice-campeonato da Superliga 2015/2016 como também contratou uma das melhores centrais do mundo, Fabiana. O Camponesa/Minas, para não deixar por menos, trouxe a ponteira Jaqueline e a oposta norte-americana Destinee Hooker, duas jogadoras que, sem maiores delongas, são estrelas do vôlei mundial. E o Genter Vôlei Bauru repatriou a campeã olímpica Mari e contratou duas jogadoras da seleção dominicana, a ponteira Prisila Rivera e a líbero Brenda Castillo – talvez a melhor do mundo na posição.

Além disso, a edição 2017 da Superliga B tem tudo para, de fato, atrair a atenção do fã do voleibol: se José Roberto Guimarães vai comandar o Hinode/GRB/Barueri, com jogadoras como as ponteiras Érika Coimbra e Suelle, a central Fê Ísis e a levantadora Ana Cristina, a ex-jogadora Cristina Pirv vai gerir o BRH-Sulflex/Curitibano, que terá na atacante campeã olímpica Valeskinha sua maior estrela.

Ting Zhu foi a grande jogadora do ciclo olímpico para a Rio 2016

Ting Zhu foi a grande jogadora do ciclo olímpico para a Rio 2016

TING ZHU
Com 22 anos completados em novembro, Ting Zhu foi a grande jogadora do ciclo olímpico que acabou. A ponteira chinesa foi campeã e eleita melhor jogadora da Copa do Mundo 2015, repetindo a dobradinha na Rio 2016. Se a China titubeou na primeira fase, passou aos mata-matas com três derrotas na conta, ela tratou de conduzir o time para uma medalha de ouro que, em certo momento, parecia improvável.

Maior pontuadora nas Olimpíadas, Ting Zhu não se apequenou diante de uma seleção brasileira empurrada por 12 mil torcedores no Maracanãzinho. Ela fez 28 pontos na partida que se tornou uma mais dolorosas derrotas do esporte brasileiro nos Jogos. Nas semifinais, marcou 33 pontos contra a Holanda, num jogo de quatro sets decididos por contagem mínima. E na decisão, comandou a virada contra a Sérvia com 25 pontos.

Finda a temporada da seleção, apresentou-se a seu novo clube, o VakifBank, da Turquia, e continua brilhando: ela é o grande destaque do time, que lidera invicto a liga turca.

VÔLEI TURCO
Pouca gente vai discordar que o voleibol italiano, historicamente, seja o “eldorado” da modalidade, possua a liga mais competitiva, os clubes mais bem estruturados etc. Contudo, é inegável que o crescimento do vôlei turco nos últimos dois ciclos olímpicos tenha ampliado os horizontes dos profissionais do esporte, a tal ponto que, hoje, o campeonato local rivalize com o da Itália – e talvez, até, o supere em importância e qualidade. A montagem de elenco dos grandes clubes nesta temporada é um exemplo de o quanto se tem investido em voleibol na Turquia.

Natália trocou o vôlei brasileiro pelo turco, nesta temporada (Divulgação/Fenerbahçe)

Natália trocou o vôlei brasileiro pelo turco, nesta temporada (Divulgação/Fenerbahçe)

Três das quatro principais equipes do país (o Galatasaray é a exceção) foram turbinadas por contratações de grande relevo para esta temporada. O Fenerbahçe, que já contava com a craque sul-coreana Kim Yeon Koung, tem a levantadora tailandesa Nootsara Tomkom e a ponteira da seleção brasileira Natália. O VakifBank, atual campeão nacional, contratou a ponta chinesa Ting Zhu, além de manter no elenco a norte-americana Kimberly Hill (MVP do Mundial de 2014), a central sérvia Milena Rasic e a oposta holandesa Lonneke Slöetjes. E o Eczacibasi VitrA, que montou uma “seleção mundial”, manteve Boskovic e a norte-americana Jordan Larson no elenco e trouxe gente do gabarito das centrais Rachael Adams (norte-americana) e Thaisa, da ponteira russa Tatiana Kosheleva.

Como a liga turca só permite que cada time utilize até três estrangeiras em quadra por vez, só na Liga dos Campeões é possível vê-las todas em ação. Mas isso não diminui o interesse pelo campeonato nacional, que tem, inclusive, destaques noutras equipes, como a brasileira Joycinha, no Bursa Sehíd, e a belga Lise Van Hecke, com passagem pelo Vôlei Nestlé na temporada passada, atuando agora no Besiktas.


Com patrocínio forte, Pirv entra na Superliga B para desafiar Zé Roberto
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Carolina Canossa

Pirv e Rafael Delibo selam acordo entre o Curitibano e a BRH-Sulflex (Fotos: Divulgação)

Pirv e Rafael Delibo selam acordo entre o Curitibano e a BRH-Sulflex (Foto: Divulgação)

Jogadoras com passagem pela seleção, finanças asseguradas por uma grande empresa e técnico de qualidade inquestionável no banco. Comandado por José Roberto Guimarães, o Hinode/GRB Barueri tinha todos os elementos para fazer uma participação tranquila na próxima Superliga B e assegurar um lugar na elite do voleibol nacional na temporada 2017/2018. Mas a equipe paulista ganhou um desafiante de peso nesta jornada: o BRH-Sulflex/Curitibano.

Contando com outro grande nome do vôlei em sua gestão, a ex-jogadora Cristina Pirv, o Curitibano já estava confirmado na disputa, mas faltava um parceiro que proporcionasse um maior fôlego na briga pela vaga. Pois o impulso foi dado: o acordo com a empresa de importação e distribuição de componentes hidráulicos está confirmado e pode ser considerado um “presente de Natal” para os fãs do voleibol paranaense, esperançosos em rever uma equipe feminina de alto nível na região desde que o Rexona trocou o estado pelo Rio de Janeiro, em 2004.

Assessora técnica do Curitibano, Pirv trabalhou ao lado da ex-tenista Gisele Miró na captação de recursos para o projeto – em boa forma física aos 44 anos, ela chegou a ser convidada para jogar, mas preferiu se dedicar apenas a treinos eventuais. “Eu estou no dia a dia do time e com o técnico Jorge Edson (campeão olímpico em Barcelona 1992) e também ajudando no planejamento e contratações das meninas. Voltar ao vôlei é espetacular para mim”, destacou a romena.

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Com 30 mil na plateia, Zé Roberto apresenta patrocinador

Diretor de marketing da BRH-Sulflex, Rafael Delibo ressaltou que a presença de Pirv foi fundamental para que o acordo se concretizasse.

“Ficamos muito felizes com o anúncio de um novo time de vôlei em 2017 para a cidade de Curitiba. Isso vira mais um pouco os holofotes para a cidade, que já é referência em muitas coisas, principalmente no esporte e qualidade de vida com os parques que a contemplam. Quando descobrimos que por traz do novo time teríamos o Clube Curitibano dando todo o suporte e estrutura e a Cris Priv coordenando o restante do projeto, não pensamos duas vezes em apoiar. Mais do que isso: seremos o patrocinador master do time nesta temporada”, afirmou o executivo. “Associar a BRH-Sulflex ao Clube Curitibano e à Cris Pirv é um orgulho para nós, que atuamos há quase 15 anos em todo território nacional levando produtos de alta qualidade, profissionalismo, respeito aos nossos clientes e parceiros”, complementou.

Apesar das dificuldades econômicas e política do Brasil, Pirv se mostrou otimista com o projeto. “Realmente não é uma situação fácil, mas acredito que o esporte pode trazer muitas alegrias para as pessoas e dar oportunidades para que crianças e jovens não se envolvam com drogas e outras coisas do tipo. No esporte, você aprende a lidar com vitória, com derrotas, o seu caráter pode se formar… Seria uma pena deixar isso acabar. Estou super feliz e quero lutar  com a experiência dos vários países onde joguei. Tudo pode ser somado ao desenvolvimento”, comentou.

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Campeã em Pequim 2008, Valeskinha já fechou com a nova equipe (Foto: Reuters)

Campeã em Pequim 2008, Valeskinha já fechou com a nova equipe (Foto: Reuters)

CAMPEÃ OLÍMPICA NO ELENCO

O grupo do Curitibano para a Superliga B ainda está em formação, mas já é certo que também contará com uma atleta de renome no cenário internacional: Valeskinha, campeã olímpica com a seleção brasileira em Pequim 2008. Outros nomes já confirmados no projeto são Caroline Mattos, Marieta Brito, Mariana Leite, Raquele Lenartowicz, Ana Moreira, Verena Bortolanza e Nina Romano.

Pirv reconhece que o Curitibano não é o principal candidato ao título. “Realmente o time de Barueri é o favorito. Todo mundo sabe e isso será grande desafio pra gente, mas eu gosto de desafios”, avisou a romena. “Estamos trabalhando duro e o tempo é curto para apresentarmos o melhor trabalho, mas faremos tudo para ter essa vaga na Superliga A”, encerrou.

Com sete participantes, a Superliga B feminina tem início previsto para 21 de janeiro, dia em que o Curitibano vai enfrentar em casa o Abel Havan Brusque em casa. Os times se enfrentam no sistema “todos contra todos”, com o primeiro colocado avançado direto às semis e os times que ficarem entre segundo e sexta disputando as quartas de final em melhor-de-três partidas. Somente o campeão assegura um lugar na elite nacional, com o vice e o medalhista de bronze disputando um torneio contra os dois últimos colocados da atual Superliga A para a definição das vagas restantes.


Com 30 mil na plateia, Zé Roberto apresenta patrocinador do Barueri
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Carolina Canossa

Elenco de Barueri para a Superliga B será o mesmo da Taça de Prata (Fotos: Thiago Andrade/Divulgação)

Parceria do Barueri com a Hinode aconteceu durante convenção da empresa (Fotos: Thiago Andrade/Divulgação)

Foram semanas arcando os custos do próprio bolso, mas o técnico José Roberto Guimarães conseguiu colocar em prática o sonho de criar um time de alto nível no voleibol brasileiro. Com o apoio da empresa de cosméticos Hinode, o GRB Barueri conseguiu os recursos financeiros necessários para jogar a segunda divisão nacional no início do ano que vem e, assim, tentar uma vaga na temporada 2017/2018 da Superliga feminina de vôlei.

O anúncio oficial da criação do novo time, que se chamará Hinode/GRB Barueri, aconteceu neste sábado (10), durante a convenção nacional de funcionários e consultores do patrocinador. Por isso, a plateia que acompanhou o evento foi grande: cerca de 30 mil pessoas, que ainda puderam desfrutar de uma palestra sobre trabalho em grupo ministrada por Zé Roberto, único tricampeão olímpico do esporte brasileiro.

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“Estou muito orgulhoso por esse momento, por estar realizando um sonho antigo que é representar o vôlei da cidade de Barueri, que agora se torna possível por meio da Hinode e do Grêmio Recreativo Barueri”, comentou Zé Roberto, que fez questão de lembrar atletas que se dispuseram a trabalhar de graça na primeira fase do projeto, caso de Érika Coimbra, medalhista de bronze em Sidney 2000. “Algumas jogadoras abraçaram o time antes mesmo de conseguirmos um patrocínio, trabalharam conosco sem receber nada até que apareceu um anjo em nossas vidas, e esse anjo é a Hinode. Temos muito trabalho pela frente, pois esse projeto nos reserva ainda muita coisa para o futuro, tanto para o crescimento do voleibol brasileiro como no desenvolvimento de pessoas”, afirmou.

Érika será a capitã da equipe, que continuará com o mesmo elenco da Taça de Prata

Érika será a capitã da equipe, que continuará com o mesmo elenco da Taça de Prata

Érika, aliás, será a capitã do Barueri. “O que o vôlei mostra é que podemos sonhar sim, todos temos uma história de trabalho, de luta, de ficar longe da família. Criamos cicatrizes em busca do nosso sonho, mas no final cada cicatriz valeu muito a pena”, destacou a jogadora, que entre o fim de outubro e começo de novembro deixou parentes e namorado em Minas Gerais para se dedicar ao projeto, mesmo sem saber se daria certo.

Em seu elenco, Barueri contará com as mesmas atletas que já vestiram a camisa do time durante a Taça de Prata, classificatória para a Superliga B. Isso significa uma oportunidade para nomes importantes que, até então, estavam sem time, como a ponteira Suelle, a levantadora Ana Cristina, a central Fernanda Ísis e a líbero Michele Daldegan. Não há previsão de novas contratações para a disputa da Superliga B – a estreia de Barueri está marcada para o dia 24 de janeiro, em casa, contra o São José dos Pinhais.

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Oportunidade para a base

A parceria com a Hinode também permitiu a Zé Roberto viabilizar um outro projeto: dar chance a garotas que sonham em se tornar jogadoras de vôlei. Os primeiros testes para identificar novos talentos para a categoria de base, inclusive, já estão marcados: serão nos dias 16 e 17 de dezembro, no Ginásio Poliesportivo José Correa, em Barueri.

“Sabemos da capacidade do José Roberto, um campeão olímpico, e acreditamos que essas jogadoras estarão nos representando de forma impecável. O esporte é uma ferramenta de transformação e uma forma de embelezar o espírito, o corpo e a mente, assim como a nossa empresa. Juntos podemos muito mais”, resumiu Arthur Luloian, vice-presidente administrativo e financeiro da Hinode.


Lang Ping diz que só há duas opções para seu futuro
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Sidrônio Henrique

Lang Ping coach of China

Lang Ping conquistou o ouro olímpico como atleta e como treinadora, feito inédito no vôlei (foto: FIVB)

Aposentadoria ou seguir como técnica da seleção feminina da China. São essas as duas opções que Lang Ping, treinadora que levou as chinesas a conquista da medalha de ouro na Rio 2016, coloca para si mesma, reveladas esta semana numa entrevista à TV estatal CCTV, do seu país, e que teve seu conteúdo parcialmente reproduzido pelo site da Federação Internacional de Vôlei (FIVB).

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Ping, que completará 56 anos no dia 10 de dezembro, contou que recusou diversas ofertas de equipes no exterior, inclusive a seleção italiana. Ela já treinou times estrangeiros. Começou no voleibol universitário dos Estados Unidos, passou por clubes da Itália e comandou a seleção americana no ciclo 2005-2008.

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Lang Ping havia conduzido a seleção feminina chinesa no período 1995-1999, quando levou o time ao bronze na Copa do Mundo 1995, à prata olímpica em Atlanta 1996, além do vice-campeonato mundial em 1998 – nas três competições o ouro ficou com Cuba. À frente dos EUA, outra prata nos Jogos Olímpicos, desta vez em Pequim 2008, perdendo a final para o Brasil, do técnico José Roberto Guimarães. Oito anos depois, agora novamente treinando a China, deu o troco em pleno Maracanãzinho, calando quase 12 mil torcedores que lotavam o ginásio, nas quartas de final da Rio 2016 – vitória asiática sobre as sul-americanas por 3-2, com 15-13 no tie break.

USA head coach Ping LANG (CHN)

No comando dos EUA em Pequim 2008 (foto: FIVB)

Primeiros grandes títulos
O ouro no Rio e a conquista da Copa do Mundo 2015 foram os únicos grandes títulos de Lang Ping como técnica de seleções. Ela persistiu e chegou lá. Em 2014, havia sido vice-campeã mundial com as chinesas mais uma vez, sendo derrotada na final pelos EUA, do treinador Karch Kiraly – a China quase caiu na terceira fase diante da República Dominicana, vencendo as caribenhas de virada por 3-2 para se manter viva.

A carreira de técnica de Ping começou logo depois de deixar as quadras como jogadora. No Mundial 1986, aos 25 anos, foi assistente da ex-colega no sexteto nacional Zhang Rongfang, que estava no comando quando a China conquistou seu segundo e último título do torneio. A partir do ano seguinte, foi auxiliar do time de vôlei feminino da Universidade do Novo México, nos EUA, onde estudou gestão esportiva. Dali foi para a Itália, assumindo a função de técnica da equipe da cidade de Modena. Voltou a jogar para tentar ajudar a seleção do seu país a conseguir, em casa, o tricampeonato mundial, em 1990, mas teve que se contentar com a prata, caindo na decisão contra a antiga União Soviética. Depois, retomou a carreira de treinadora, seguindo para a Universidade do Novo México.

Como atleta, MVP em Los Angeles 1984 (Reprodução/Internet)

Ícone chinês
Fez história como atleta, sendo considerada a maior jogadora do mundo nos anos 1980, uma ponteira completa, quase perfeita em todos os fundamentos, que esbanjava técnica, conhecida como Iron Hammer (Martelo de Ferro). Ícone em seu país, teve seu primeiro casamento transmitido ao vivo pela TV. O governo comunista a considerava um modelo para a juventude chinesa. Esses anos todos, nunca perdeu o status de ídolo, agora ainda mais forte após o ouro na Rio 2016.

Chegou à seleção adulta com apenas 17 anos, em 1978. Mas passou a brilhar mesmo a partir de 1981, quando a China começou um domínio absoluto que duraria até meados da década. Era a estrela principal de uma equipe repleta de grandes jogadoras. Seu currículo como atleta impressiona: venceu a Copa do Mundo 1981 e 1985, Mundial 1982 e a Olimpíada de Los Angeles 1984, onde foi a melhor jogadora da competição.

Mais uma vez escolhida MVP e prestes a completar 25 anos, anunciou aposentadoria precoce após a Copa do Mundo 1985, para desespero dos fãs, que só a veriam em ação num retorno sob encomenda para aquele Mundial 1990.

É a única, entre homens ou mulheres, a conquistar o ouro olímpico no voleibol como atleta e como treinadora. A seleção feminina chinesa tem três ouros olímpicos e Lang Ping só não participou da campanha de Atenas 2004. Ela entrou para o Hall da Fama do Vôlei em 2002.

Além da indecisão entre sair de cena ou continuar no comando do time que conta com Ting Zhu e cia, Ping precisa de um tempo para se recuperar de uma lesão no joelho que tem provocado fortes dores.


Suelle fala sobre desentendimento no Pinheiros e futuro da carreira
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Carolina Canossa

Suelle tem passagens pelos principais times do Brasil, como Dentil/Praia, Rexona e Vôlei Netslé (Foto: Vitor Ricci/Ford Sports)

Suelle tem passagens pelos principais times do Brasil, como Dentil/Praia, Rexona e Vôlei Netslé (Foto: Vitor Ricci/Ford Sports)

Ao formar o elenco que defendeu Barueri na Taça Prata, o técnico José Roberto Guimarães recorreu a jogadoras que não conseguiram espaço no competitivo mercado do voleibol brasileiro em um momento de crise econômica. Uma delas, porém, tinha uma história diferente para contar. Aos 29 anos, Suelle começou a temporada no Pinheiros e, inclusive, estava inscrita pelo tradicional time paulistano para a disputa da Superliga 2016/2017.

Mas problemas pessoais mudaram os planos da ponteira, que até já defendeu a seleção brasileira adulta. “Me desentendi com o Paulinho de Tarso (técnico) e achei melhor sair”, comentou Suelle, sem mencionar o motivo da briga. “Quando você se desentende, espera que tudo se resolva, mas eu sou muito assim, gosto de trabalhar em um clima gostoso, sou muito tranquila. Então, optei por explorar outras oportunidades”, complementou.

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Discórdias à parte, a jogadora garante que o problema faz parte do passado. “Não ficou um clima estranho. Eu e o Paulo conversamos, ficou tudo bem, mas preferi sair do clube”, afirmou.

Suelle defendeu a seleção no Grand Prix 2015 (Foto: Alexandre Arruda/CBV)

Suelle defendeu a seleção no Grand Prix 2015 (Foto: Alexandre Arruda/CBV)

Um dos motivadores para a decisão foi justamente o projeto encabeçado por Zé Roberto, ainda que, em um primeiro momento, Barueri não tenha pagado salários para as atletas. “Tive até propostas de algumas equipes para estar na Superliga, mas jogar com o Zé Roberto é a minha prioridade no Brasil. Com certeza vai levar muito em consideração quem o apoiou e abraçou o projeto no início, que é tão difícil. Já estou feliz de fazer parte deste começo, sem criar expectativa nenhuma. Tenho certeza que todo mundo vai crescer muito só de trabalhar com ele”, acredita.

As jogadoras do Barueri voltam a treinar na próxima quarta-feira (9), no Sportsville, centro de treinamento que o técnico mantém na cidade da Grande São Paulo. A princípio, Suelle pretende estar lá, a despeito da possibilidade de se transferir para algum time do exterior ainda nesta temporada. “Até queria jogar fora do Brasil, mas é muito difícil falar não para o Zé Roberto. Gosto e tenho muito a crescer com ele. Espero que esse projeto crie raízes e dê certo no futuro”, destacou a atleta, esperançosa.