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Arquivo : Rio-2016

Campeão mundial dá adeus às quadras
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Sidrônio Henrique

O ponta e capitão Michal Winiarski ergue o troféu de campeão mundial em 2014 (foto: FIVB)

Um dos ponteiros mais completos do mundo, o polonês Michal Winiarski, 33 anos, dá adeus às quadras. O atacante, campeão mundial com a seleção da Polônia em 2014, anunciou nesta sexta-feira (14) que vai parar de jogar voleibol por causa das intensas dores lombares que o fizeram se ausentar a maior parte do tempo na temporada. A despedida oficial será nesta quarta-feira (19), em um dos intervalos da primeira partida da série final da liga polonesa (PlusLiga), entre seu clube, Skra Belchatow, e Zaksa Kedzierzyn-Kozle, na cidade de Lodz.

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Jogador refinado, ex-capitão do selecionado polonês, Winiarski vinha apresentando problemas físicos ao longo desta década – além das dores lombares, teve de lidar com lesões nos dois joelhos e no ombro direito. O anúncio da sua aposentadoria, feito inicialmente pelo Skra Belchatow e mais tarde replicado pela Federação Polonesa de Vôlei (PZPS), não foi exatamente uma surpresa. Na temporada atual e na anterior da PlusLiga, o ponta de 2m pouco jogou – ficou mais de 100 dias longe das quadras agora no período 2016/2017.

Vitória sobre o Brasil
Winiarski fez sua última aparição pela seleção em grande estilo, levantando o troféu de campeão mundial em casa, em 2014, diante de 12 mil torcedores que lotaram a Spodek Arena, em Katowice, para ver a vitória de virada da Polônia sobre o Brasil por 3-1. Foi peça importante na conquista, ainda que as dores lombares o tenham deixado fora de algumas partidas do desgastante torneio, que se arrastou por três semanas.

O ponteiro posicionado para receber um saque (FIVB)

Melhor passador em Pequim 2008
Entre seus títulos estão ainda o da Liga Mundial 2012, torneio que fez os poloneses acreditarem que seriam capazes de ficar com o ouro na Olimpíada de Londres, disputada menos de um mês depois – perderam para a sacadora Bulgária e para a esforçada Austrália na primeira fase, se viram obrigados a encarar a Rússia nas quartas de final e foram despachados em sets diretos. Quatro anos antes, ao lado do ponta Sebastian Swiderski e do oposto Mariusz Wlazly, destacou-se nos Jogos Olímpicos de Pequim, quando a Polônia foi eliminada num jogo dramático de quartas de final contra a Itália, decidido por 17-15 no tie break. Michal Winiarski foi o melhor passador e ficou entre os dez atacantes mais eficientes em Pequim 2008.

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Antes disso, já havia chamado atenção, com 23 anos recém-completados, como um dos melhores ponteiros do Mundial 2006. A Polônia chegou à final, sendo triturada por 3-0 pela seleção brasileira, de Ricardinho, Giba, Gustavo, entre outros craques. Mas Winiarski, que havia acabado de assinar contrato com o Trentino, da Itália, foi um dos destaques do campeonato. Jogou também na liga russa, pelo Fakel Novy Urengov, mas passou mesmo a maior parte do tempo no Skra Belchatow – entre idas e vindas, esta é a sua oitava temporada, tendo conquistado o título da PlusLiga três vezes. No Trentino, venceu a liga italiana 2007/2008 e a Liga dos Campeões da Europa 2008/2009. Pela seleção, ficou ainda com a prata na Copa do Mundo 2011.

Em oito temporadas no Skra, Winiarski venceu a PlusLiga três vezes (Divulgação/Skra Belchatow)

Peça fundamental
Era o equivalente a Nalbert ou Murilo na seleção polonesa. Peça fundamental enquanto esteve em forma. Extremamente popular entre os fãs, seu nome era o mais visto nas costas das camisas da seleção que os torcedores utilizavam durante o Mundial 2014. Retraído, era comum que pedisse desculpas durante entrevistas por causa de sua timidez excessiva. As respostas quase sempre eram lacônicas, para surpresa dos estrangeiros e desespero da mídia polonesa, ávida por uma declaração a mais dos seus ídolos, a maioria disposta a embarcar em alguma polêmica. Winiarski optou pela discrição, ajudado pelo fato de ser tímido.

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Em 2015, ciente de que não teria chance de disputar a Rio 2016, aquela que seria sua terceira Olimpíada, disse a uma emissora de TV polonesa que trocaria o ouro do Mundial 2014 por um bronze olímpico.

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No anúncio feito pelo Skra Belchatow, Winiarski falou sobre superação. “Aprendi durante todos esses anos jogando voleibol que não há nada que impeça o sol de aparecer depois da chuva. Cedo ou tarde, ele virá. É por isso que, quanto mais chove, maior prazer o sol te dá”.


“É muito cedo para falar algo”, diz Kiraly sobre Hooker na seleção dos EUA
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Sidrônio Henrique

Karch Kiraly foi evasivo sobre a volta da oposta Destinee Hooker à seleção (fotos: FIVB)

A volta da oposta Destinee Hooker à seleção americana permanece uma incógnita. Numa entrevista exclusiva ao Saída de Rede, o técnico Karch Kiraly afirmou que “é muito cedo para falar algo”, quando questionado se as portas estariam abertas para a atleta. Ela foi um dos principais nomes da modalidade de 2010 a 2012 e atualmente vive grande fase na Superliga, jogando pelo Camponesa/Minas.

Hooker, medalha de prata na Olimpíada de Londres, foi chamada recentemente por Bernardinho de “uma das grandes opostas do mundo”. Em janeiro, a atacante disse ao SdR que ir a Tóquio 2020 está em seus planos. No entanto, aparentemente, as divergências com ela não foram superadas pelo treinador da seleção feminina dos Estados Unidos. “Ainda não temos todas as respostas, nem tudo está claro”.

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Hooker é um dos destaques da Superliga (Orlando Bento/MTC)

A opção por três ponteiras em vez de quatro na Rio 2016 ou a escolha de duas opostas com características semelhantes, nada disso incomoda Kiraly. Ele disse que não se arrepende de suas escolhas. “É muito fácil pensar em outras formas de montar a equipe depois que tudo passou”, ponderou.

O técnico admitiu que a derrota para a Sérvia na semifinal olímpica, após estar liderando o tie break por 11-8, foi dolorosa. E prosseguiu: “Assim como eu sei que foi para o torcedor brasileiro ver sua seleção eliminada pela China nas quartas de final”.

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Eleito pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB) o melhor jogador do século XX, dono de três ouros olímpicos, único atleta a ganhar medalhas tanto no indoor (Los Angeles 1984 e Seul 1988) quanto na praia (Atlanta 1996), Karch Kiraly é um ícone da modalidade. Foi assistente técnico da seleção feminina de seu país no ciclo 2009-2012. A partir de 2013, assumiu o cargo de treinador, posição que ocupará pelo menos até Tóquio 2020, após ter seu contrato renovado no ano passado. Conduziu, pela primeira vez na história, as mulheres dos EUA ao título do Campeonato Mundial, no torneio disputado em 2014, na Itália. No entanto, apesar de favoritas ao ouro, as americanas ficaram com o bronze na Rio 2016.

Confira a entrevista que Kiraly concedeu, por telefone, ao SdR:

Saída de Rede – Começa um novo ciclo olímpico, espera-se que a seleção americana apresente caras novas, como ocorreu no início do período passado. É isso mesmo que vamos ver?
Karch Kiraly – Acho que todas as grandes seleções vão vir com caras novas. Certamente teremos muitas jogadoras jovens na disputa do Grand Prix, aquelas que vão ganhar experiência ao longo do ciclo. Há quatro anos eu tive a chance de descobrir o talento de atletas como Kim Hill, Kelly Murphy e Rachel Adams. Espero descobrir novas jogadoras agora e somar àquelas que temos.

Ele teve o contrato renovado na seleção até Tóquio 2020

Saída de Rede – Conversando com técnicos como Bernardinho e Paulo Coco, assistente de Zé Roberto na seleção feminina, eles apontaram uma carência mundial de ponteiras clássicas, aquelas completas, capazes de executar bem todos os fundamentos. Você concorda com essa avaliação?
Karch Kiraly – De fato, não há tantas pontas completas como a Jordan Larson, por exemplo, que é capaz de fazer tudo em alto nível. Algumas são muito fortes no ataque, mas não são boas passadoras. É uma boa observação, não há tantas jogadoras completas pelo mundo.

Saída de Rede – Você acha que essa menor oferta de jogadoras mais habilidosas está ligada ao fato do voleibol feminino ter se tornado cada vez mais físico, com muitas das ponteiras dando ênfase ao ataque em detrimento de outros fundamentos?
Karch Kiraly – É um ponto interessante a ser avaliado, as características das atletas, a composição das equipes. Talvez seja algo mais recente se observarmos os ciclos anteriores.

Para Kiraly, a central Akinradewo é a melhor do mundo na posição

Saída de Rede – O que você vê quando analisa os períodos 2005-2008 e 2009-2012, por exemplo?
Karch Kiraly – No ciclo 2005-2008 eu ainda não estava envolvido com o vôlei feminino. No seguinte, é verdade, havia um número maior de jogadoras com esse estilo mais completo, como Jaqueline, Jordan Larson, Logan Tom, Carolina Costagrande (ponta/oposta argentina naturalizada italiana, MVP da Copa do Mundo 2011), entre tantas outras.

Saída de Rede – Os Estados Unidos estiveram bem perto da decisão da medalha de ouro na Rio 2016, lideravam o tie break por 11-8 diante da Sérvia na semifinal e levaram a virada. Como você encarou aquela derrota? O que deu errado na reta final da partida?
Karch Kiraly – Aquela foi uma derrota dolorosa para a gente, assim como eu sei que foi para o torcedor brasileiro ver sua seleção eliminada pela China nas quartas de final. Perder a semifinal foi incrivelmente triste para nós. Mas fiquei orgulhoso pelo fato de as jogadoras terem sido capazes de levantar a cabeça, lutar e vencer a disputa pela medalha de bronze (3-1 sobre a Holanda).

Americanas choram após a derrota para a Sérvia na semifinal

Saída de Rede – Mas o que faltou naquele tie break contra a Sérvia?
Karch Kiraly – Não dá para olhar somente para o tie break sem falar da partida inteira, foi um jogo parelho. Tínhamos a melhor central do mundo, Foluke Akinradewo, mas ela não estava em plenas condições físicas, não pôde jogar o tempo todo (esteve nos dois primeiros sets), isso fez diferença. Veja que cada time marcou 101 pontos naquela semifinal, mas nós falhamos em fazer alguns a mais no final. Diria que a Sérvia foi um pouco melhor.

Saída de Rede – Você levou para a Olimpíada um time com três ponteiras e três levantadoras, ainda que uma dessas armadoras tenha ido como sacadora. Arrependeu-se por não ter levado mais uma ponta no lugar da levantadora Courtney Thompson?
Karch Kiraly – É muito fácil pensar em outras formas de montar a equipe depois que tudo passou. Eu não me arrependo. Tínhamos três grandes ponteiras, Jordan Larson, Kim Hill e Kelsey Robinson, e era com elas que vínhamos jogando na temporada. Um trio muito bom. Eu podia escolher qualquer combinação como dupla titular e continuaríamos fortes.

Thompson comandando a coreografia das colegas na Rio 2016

Saída de Rede – A seleção americana tinha duas opostas no Rio com características semelhantes, Karsta Lowe e Kelly Murphy, ambas canhotas, com jogo mais acelerado. Por que não optou pela Nicole Fawcett, que embora também jogasse em velocidade é destra, tinha golpes distintos das outras duas?
Karch Kiraly – Nunca mais vamos jogar aquele torneio, já passou. Tivemos nossas chances, tínhamos uma equipe com nível para ganhar o ouro, fomos ao Rio para isso, mas perdemos por pouco. Jogamos oito partidas e ganhamos sete. Todos os semifinalistas saíram da nossa chave, um grupo muito forte. Fomos capazes de derrotar a China, mas não no momento certo. Aliás, não tivemos a chance de jogar contra elas na final, mas ganhamos uma medalha. Lowe e Murphy cumpriram seu papel.

Hooker é a oposta titular do Camponesa/Minas (Orlando Bento/MTC)

Saída de Rede – Falando em opostas, Destinee Hooker, que não foi convocada no período 2013-2016, tem se destacado na Superliga. Recentemente, Bernardinho a definiu como “uma das grandes opostas do mundo”. Há espaço para ela na seleção americana neste ciclo?
Karch Kiraly – É muito, muito cedo para termos qualquer certeza. Ainda não temos todas as respostas, nem tudo está claro.

Saída de Rede – Mas, afinal, as portas estão abertas para a Hooker?
Karch Kiraly – É muito cedo para falar algo.

Saída de Rede – O novo diretor executivo da USA Volleyball (organização que administra a modalidade nos EUA), Jamie Davis, disse que uma de suas prioridades será a implantação de uma liga profissional no país até a próxima Olimpíada. Você acredita que isso é possível?
Karch Kiraly – Creio que qualquer pessoa que goste de voleibol ao redor do mundo torce para que os EUA tenham uma liga profissional de sucesso, pois seria bom para o esporte internacionalmente. Para os atletas americanos, seria a oportunidade de jogar no próprio país e não ter que depender de ligas estrangeiras, por melhores que sejam. Várias fórmulas foram tentadas, diversos modelos foram testados, vamos ver se agora finalmente dará certo.


No vôlei por acaso, central sonha com seleção e é elogiado por Renan
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Sidrônio Henrique

Flávio Gualberto, destaque do Minas, chega a 3,65m no ataque (foto: Orlando Bento/MTC)

O voleibol entrou na vida dele por acaso, mas o mineiro Flávio Gualberto foi aproveitando as oportunidades na modalidade e, quem sabe, pode ganhar uma chance na seleção principal. Seu desempenho tem agradado. “O Flávio já teve uma passagem em 2015 numa seleção B (nos Jogos Pan-Americanos), é um meio de rede rápido, um bom jogador. Ele é um cara que fez uma bela Superliga, jogou de igual para igual com todo mundo, muitas vezes fazendo a diferença”. Quem diz é Renan Dal Zotto, técnico da seleção masculina, numa conversa com o Saída de Rede. É claro que ele não vai divulgar qualquer nome da lista de convocados antes do dia 8 de maio, data do anúncio, mas não resta dúvida que o central do Minas Tênis Clube lhe causou boa impressão.

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Como tantos adolescentes Brasil afora, Flávio gostava mesmo era de futebol. Não era tão alto e, ele garante, jogava bem. Era o maior passatempo na sua cidade natal, a pequena Pimenta, município com pouco menos de 10 mil habitantes, no sudoeste de Minas Gerais, a cerca de 240 quilômetros de Belo Horizonte. Até que, quando tinha 14 anos, faltou um jogador para completar o time de vôlei da escola, para a disputa de um torneio intercolegial. Flávio topou participar. Começava assim sua relação com a modalidade que o levaria para uma das principais equipes do país, que o conduziu às seleções brasileiras nas categorias de base e que hoje o projeta como um nome a ser considerado para a principal.

Renan: “Flávio jogou de igual para igual com todo mundo, muitas vezes fazendo a diferença” (foto: CBV)

“Foi dando tudo certo, eu fui gostando e no final daquele ano o técnico do time levou a mim e a um amigo da escola para uma peneira no Minas Tênis Clube”, conta Flávio ao SdR. Terminava 2007 e, dos 120 meninos testados, somente ele e o amigo, que deixaria o esporte anos depois por causa dos estudos, foram aprovados. Era o início da sua vida em um dos clubes mais tradicionais do Brasil. Em março de 2008 mudou-se para BH, ainda não tinha 15 anos, mas para ajudá-lo havia crescido 12 centímetros no ano anterior. Os técnicos trataram de treiná-lo para ser um meio de rede. No mês passado, completou nove anos de Minas Tênis. “Sou cria do MTC”, afirma com orgulho, ele que encerrou sua terceira temporada como titular.

Destaque
O time fez uma campanha irregular na fase de classificação da Superliga 2016/2017, terminando em sexto lugar na tabela. Nas quartas de final, encarou o Sesi, de Bruno, Lucão, Murilo e Serginho, jogadores consagrados. O Minas teve a primeira partida da série melhor de cinco nas mãos, em plena São Paulo, ao abrir 2-0, mas sucumbiu à pressão. Perdeu as duas seguintes sem oferecer muita resistência e disse adeus à competição. No entanto, independentemente das críticas que possam ser feitas à equipe, jovem na sua maioria, Flávio está entre os nomes que chamaram a atenção.

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O central completa 24 anos este mês e é praticamente unanimidade entre os técnicos da Superliga. É comum ouvir que Flávio é um bloqueador nato, tem bom ataque e que ressaltem sua postura de líder em quadra, impressionante pela idade – é o capitão do Minas. Outro ponto de destaque é sua regularidade: repete boas atuações, se mantém constante.

Flávio é o capitão do Minas (foto: Orlando Bento/MTC)

Timing
A pouca altura para a posição, apenas 2m, é compensada com muita impulsão e timing, no caso do bloqueio – ele raramente queima, quase sempre trabalhando com uma leitura apurada. “Você vê um jogador relativamente baixo como ele parar caras experientes e que sobem bastante como Lucão e Riad, então é porque ele também vai alto e, além disso, tem um tempo de bloqueio muito bom”, observa Nery Tambeiro, técnico do Minas Tênis Clube.

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Eficiente no ataque, Flávio é quem joga na rede de dois, próximo ao levantador, quando este tem menos opções na linha de frente. “Como atacante, ele é muito ágil”, aponta Tambeiro. Há centrais na Superliga que se valem de um ou dois tipos de bola para virar, mas no caso dele o repertório é mais amplo, beneficiado por seu alcance, que conforme o MTC é de 3,65m no ataque, e pela velocidade.

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O saque, ele admite, é o seu pior fundamento. “Não evoluí no viagem e o meu flutuante poderia ser mais agressivo”. Quem já o viu sacar viagem sabe que não há ali a potência de centrais como Lucão, Éder ou Isac. No flutuante, ele não impõe dificuldade para a linha de passe como Maurício Souza, que tem hoje um dos melhores serviços do país. Mas Flávio vem treinando para melhorar nesse aspecto.

Primeiro à direita na fila do meio, Flávio com a seleção sub23 que venceu a Copa Pan-Americana 2015, disputada nos EUA, quando ele foi o melhor bloqueador do torneio (foto: CBV)

Seleção adulta
Sua única passagem pela seleção adulta foi na equipe B que, sob o comando de Rubinho, representou o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 2015, em Toronto, Canadá. Menos experiente, Flávio era reserva em um time que tinha Maurício Souza e Otávio como titulares. “Ir ao Pan foi o máximo, uma tremenda honra representar o país numa competição daquelas”. O Brasil ficou com a medalha de prata, perdendo na final por 2-3 para a equipe A da Argentina. Antes de chegar a esse momento, ele acumulou rodagem, jogando desde o infantojuvenil ao sub23.

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Com o país bem servido de centrais, Flávio Gualberto sabe que precisa ter paciência para chegar à seleção principal. Mesmo com 2m, ele acredita que possa ter uma chance – os dois menores meios de rede do Brasil na Rio 2016, Maurício Souza e Éder, têm 2,05m. “É o sonho de qualquer atleta profissional jogar pela seleção. Eu acho que é uma questão de tempo, mas não fico ansioso esperando a convocação”. Falta menos de um mês para ele descobrir se o sonho se tornará realidade.

ATUALIZAÇÃO ÀS 18H15 – No final da tarde desta segunda-feira (10), o central Flávio e outros 11 atletas foram chamados pelo técnico Renan Dal Zotto para treinar no Centro de Desenvolvimento do Voleibol (CDV), em Saquarema (RJ). O grupo se reunirá no dia 23 de abril. A lista final dos convocados, como informado neste texto, será divulgada no dia 8 de maio – um dia após o encerramento da Superliga masculina.


No dia 1º de abril, seis fatos do vôlei que parecem mentira, mas não são
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Sidrônio Henrique

No Dia da Mentira, o Saída de Rede relembra seis fatos ligados ao voleibol que parecem difíceis de acreditar, mas que são incontestáveis. De uma cubana voadora a um francês marrento, passando por partidas que ainda mexem com a torcida brasileira, além de um Mundial esvaziado, dá uma conferida na lista abaixo.

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A baixinha Mireya assombrou o mundo (foto: Tasso Marcelo/Ag. Estado)

Salta, chica!
Suponha que você, fã de vôlei, nunca ouviu falar sobre Mireya Luis. De repente, alguém te diz que uma ponteira com mero 1,75m teve o maior alcance da história, chegando a 3,36m, e que foi a maior atacante de todos os tempos. Dá para acreditar? Parece mentira, mas não é.

De 1983 a 2000, essa ponta cubana brilhou nas quadras mundo afora. Sua impulsão era de 1,10m. Lá do alto, distribuía petardos que assombravam as adversárias. Na tentativa de contê-la, os bloqueios atrasavam um tempo na hora de subir, na esperança de amortecer a bola. Bloqueá-la, só se ela atacasse para baixo, e às vezes nem assim. Em mais de uma oportunidade, sepultou o sonho do ouro das brasileiras. O duelo mais notório foi a semifinal da Olimpíada de Atlanta, em 1996, quando Mireya, depois de um começo opaco, foi crescendo até destruir o Brasil no tie break. Deixou sua seleção como tricampeã olímpica e bi mundial, entre outros títulos, à frente de um timaço apontado por muitos como o maior de todos os tempos.

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A tristeza de Mari, Virna e Zé Roberto após a derrota para as russas (FIVB)

24 a 19 na semifinal de Atenas
Olimpíada de Atenas, 26 de agosto de 2004. Faltava um, apenas um ponto para a seleção brasileira feminina de vôlei chegar a uma inédita final olímpica, após ter parado na semifinal nas três edições anteriores. O time comandado pelo técnico José Roberto Guimarães vencia a Rússia na semifinal do vôlei feminino por dois sets a um e liderava o quarto set por 24-19 quando a levantadora Fernanda Venturini foi para o saque. A virada de bola russa na sequência, com a ponta Lioubov Sokolova, parecia normal, afinal ainda restariam outros quatro match points, com o Brasil recebendo o serviço e tendo três atacantes na rede.

O que parecia mera formalidade virou um pesadelo. Uma a uma, a seleção brasileira foi desperdiçando suas chances, até que as russas fecharam a parcial em 28-26, levando a decisão para o tie break. No quinto set, o Brasil voltou a liderar, mas sucumbiu no final e perdeu por 16-14. Foram sete match points jogados fora (seis na quarta parcial e um na última). A oposta Marianne Steinbrecher, 21 anos recém-completados, marcou impressionantes 37 pontos na partida, recorde mantido até hoje em Jogos Olímpicos. No entanto, foi injustamente rotulada por alguns como símbolo da derrota, que ocorreu como fruto do desequilíbrio coletivo. Um desastre, que mesmo depois de dois ouros olímpicos (Pequim 2008 e Londres 2012) ainda vive na memória do torcedor.

Zé Roberto dá um peixinho: seis match points salvos diante da Rússia (Lalo de Almeira/Folhapress)

Quartas de final de Londres
Mais uma vez a Rússia, de Lioubov Sokolova e Ekaterina Gamova, aparecia no caminho da seleção brasileira feminina. O retrospecto era péssimo em jogos decisivos. Além da semifinal de Atenas 2004, as adversárias haviam sido algozes do Brasil nas decisões dos Mundiais 2006 e 2010 – a oposta Gamova marcou, nessas duas partidas, 28 e 35 pontos, respectivamente. É verdade que em Pequim 2008 as brasileiras massacraram as russas, mas como o próprio Zé Roberto ressaltou, a superioridade do Brasil afastava qualquer equilíbrio e o jogo foi na primeira fase.

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Para aumentar o drama em Londres 2012, a seleção brasileira avançou às quartas de final após ficar em um modesto quarto lugar em seu grupo, tendo perdido por 0-3 para a Coreia do Sul. As russas estavam invictas. Fim da linha para o Brasil? Que nada! O jogo foi ao tie break e, para apimentar ainda mais a rivalidade entre brasileiras e russas, estas últimas tiveram seis match points. Poderiam ter fechado a partida num contra-ataque pela entrada com Nataliya Goncharova, mas Jaqueline Carvalho defendeu e entregou na mão da levantadora Dani Lins. Era dia de Sheilla Castro. A oposta brasileira salvou cinco dos seis match points – o outro foi num ataque pelo meio com Thaisa Menezes.

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No final, dois saques certeiros da ponta Fernanda Garay sobre Sokolova, sobrecarregada no passe. No primeiro, ace. No seguinte, uma bola de graça, convertida em ponto numa china com Fabiana Claudino. Brasil 21-19. A semifinal de Atenas pode não ter sido esquecida, mas foi vingada.

Giba consola Bruno após a derrota na final de Londres 2012 (AP)

Final masculina de Londres
A seleção brasileira masculina esteve muito perto do seu terceiro ouro olímpico antes de conquistá-lo na Rio 2016. Chegou a ter dois match points na final de Londres 2012 diante da Rússia. O Brasil começou atropelando e, com relativa facilidade, abriu 2-0.

A partir do terceiro set, dois fatores mudaram o jogo. Do lado russo, o único oposto de ofício da equipe, Maxim Mikhaylov, devidamente marcado pelo time de Bernardinho, foi deslocado para a entrada. Em seu lugar na saída de rede, o técnico Vladimir Alekno colocou o central Dmitriy Muserskiy, um gigante de 2,18m que às vezes desempenhava essa função em seu clube, o Belogorie Belgorod, mas nunca havia sido testado nela em jogos da seleção. Pelo Brasil, o ponta Dante Amaral começou a sentir fortes dores em seu joelho direito, o que prejudicou sua mobilidade e comprometeu o esquema tático da equipe.

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Estava traçada ali uma das viradas mais espetaculares da história. Some à queda no desempenho do Brasil uma atuação de gala de Muserskiy e o resultado foi Rússia 3-2. O central transformado em oposto saiu da condição de coadjuvante para protagonista na final. Nos dois primeiros sets, como meio de rede, havia marcado apenas quatro pontos. Marcaria outros 27 a partir da terceira parcial para se consagrar. Parecia mentira, mas infelizmente foi verdade.

A imprevisibilidade de N’gapeth
Há os que o amam e aqueles que não o suportam. Só não há um fã desse esporte que seja indiferente ao marrento ponta francês Earvin N’gapeth. Também não se pode negar o talento daquele que é um dos maiores jogadores da década. À sua irreverência e jeito provocativo, acrescente uma dose de imprevisibilidade que garantem lances incríveis, como que tirados da cartola por esse atacante que desde 2014 joga pelo Modena, da Itália.

Parece mentira que o craque de 1,94m, atualmente com 26 anos, tenha decidido arriscar, enquanto girava, uma bola de gancho no match point da decisão do Campeonato Europeu 2015, diante da valente Eslovênia, quando o placar dava apenas um ponto de vantagem para a França. A cada rodada da liga italiana, surgem nas redes sociais clipes com jogadas geniais (como as do vídeo acima) de um cara que desde os tempos de juvenil era apontado como detentor de um talento que lhe garantiria projeção internacional. Momentos que só vendo para crer.

Japonesas conquistaram o troféu num campeonato reduzido (FIVB)

Mundial com quatro equipes
Onde já se viu isso? Culpa da Guerra Fria. O Saída de Rede já te contou essa história, em janeiro deste ano, quando o evento completou 50 anos. Por causa de diferenças políticas, o Mundial feminino 1967 teve apenas quatro países participantes: Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Peru.

O torneio deveria ter tido a presença de 11 seleções, mas o país-sede, o Japão, capitalista, advertiu que não hastearia a bandeira nem executaria o hino nacional da Coreia do Norte e da Alemanha Oriental, duas novas nações surgidas depois da II Guerra Mundial, integrantes do bloco comunista. Como outros cinco participantes eram alinhados com aqueles dois, o boicote dos sete fez o evento virar um simples quadrangular, vencido com facilidade pelo anfitrião. Um fiasco que parece história inventada, mas que de fato aconteceu.


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Sidrônio Henrique

A atacante canadense foi destaque na equipe carioca: “Eu aprendi tanto jogando no Brasil” (foto: CBV)

Bicampeã da Superliga pela Unilever (hoje Rexona-Sesc), a oposta canadense Sarah Pavan deixou saudade entre os fãs do time carioca. Ao lado da ponteira Natália Zilio, ela liderou o time de Bernardinho numa virada histórica na decisão da Superliga 2012/2013 sobre o arquirrival Osasco (na época Sollys/Nestlé, atual Vôlei Nestlé), depois de estar perdendo por 0-2, em pleno ginásio do Ibirapuera, São Paulo. Sarah terminou aquela final com 22 pontos, mesma quantidade feita por Natália, num jogo que ficou marcado na memória de ambas as torcidas. “Adorava enfrentar Osasco”, contou ao Saída de Rede a veterana atacante de 30 anos.

Bernardinho foi uma referência em sua carreira. “Eu tive a sorte de ter tido a chance de aprender por duas temporadas sob o comando de um dos maiores técnicos de todos os tempos”, disse a oposta canhota, que antes de chegar aqui havia atuado três temporadas na Itália e uma na Coreia do Sul. “Sempre penso em voltar a jogar no Brasil”.

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Ainda ganharia mais um título na Superliga 2013/2014, numa final diante do Sesi. Depois, com foco no vôlei de praia, fechou contratos indoor na Ásia, onde os campeonatos são mais curtos.

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Voltou à Coreia do Sul, jogando pelo Caltex Seoul no período 2014/2015 – ficou em quinto lugar no nacional. Nas duas últimas temporadas defendeu o Shanghai Lansheng, da rica e breve liga chinesa – terminou em terceiro lugar no ano passado e em quinto neste.

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Na praia, o que deveria ser o ápice de uma parceria de quatro anos com Heather Bansley terminou em decepção na arena montada em Copacabana para a Rio 2016, quando foram eliminadas nas quartas de final. “Não há motivo para jogar se não for para vencer. Eu fiquei extremamente chateada. Acho que nós éramos boas o suficiente para conquistar uma medalha no Rio”, lamentou a atleta, uma das principais bloqueadoras do circuito mundial, com seu 1,96m.

Veja a entrevista exclusiva que Sarah Pavan concedeu ao SdR:

Oposta Sarah Pavan jogou duas temporadas na Superliga (CBV)

Saída de Rede – Como tem sido jogar na liga chinesa? Quais as principais diferenças, além da curta duração, em relação à Superliga ou outros campeonatos nos quais você jogou?
Sarah Pavan – Encerrei minha segunda temporada pelo Shanghai e realmente tenho curtido muito jogar lá. A China é uma potência no vôlei feminino, então há várias equipes muito fortes na liga. Tem sido um desafio e tanto, além de ser divertido viver num país e numa cultura únicos. O estilo de vida chinês e o formato da liga deles são muito diferentes de qualquer outro lugar em que eu tenha vivido ou qualquer campeonato que eu tenha disputado. O nível é muito bom. Geralmente, os times jogam com muita velocidade no ataque, apoiados numa defesa sólida.

Parceria de quatro anos com Heather Bansley na praia terminou em decepção na Rio 2016 (FIVB)

Saída de Rede – Depois da eliminação da sua dupla de vôlei de praia na Rio 2016, você escreveu sobre o quanto estava abatida. O que deu errado na Olimpíada?
Sarah Pavan – Para mim, não há motivo para jogar se não for para vencer. Eu fiquei extremamente chateada. Dediquei quatro anos da minha vida me preparando para ganhar uma medalha na Rio 2016 e isso não aconteceu. Ainda penso nisso o tempo todo. Nós (ela e sua antiga parceira, Heather Bansley) enfrentamos a dupla (Laura) Ludwig/(Kira) Walkenhorst (alemãs que as eliminaram nas quartas de final e seguiram rumo ao ouro) tantas vezes durante quatro anos e só havíamos perdido uma vez para elas antes desse confronto na Olimpíada. Nós tínhamos a expectativa de jogar bem, conhecíamos as adversárias, mas infelizmente naquele dia jogamos abaixo do nosso nível habitual (perderam por um duplo 14-21). Eu realmente acho que nós éramos boas o suficiente para conquistar uma medalha no Rio.

Saída de Rede – Você decidiu mudar de parceira depois da Rio 2016 e agora vai jogar com Melissa Humana-Paredes. Por quê? Quais os seus planos no vôlei de praia?
Sarah Pavan – Decidi mudar de parceira depois do Rio porque senti que Heather e eu havíamos esgotado nosso potencial juntas e eu já não nos via fazendo progresso, se desenvolvendo. Eu jogo para vencer e nós nunca havíamos vencido um torneio juntas, apesar de estarmos no top 5 do ranking mundial. Eu senti que recomeçar, ter ao lado uma pessoa nova, era a melhor opção para o meu futuro na praia. Eu planejo jogar na areia por pelo menos mais quatro anos e, se tudo der certo, representar o Canadá em Tóquio 2020.

Sarah foi a melhor bloqueadora do circuito mundial de vôlei de praia em 2015 (FIVB)

Saída de Rede – O vôlei de praia continua sendo sua prioridade?
Sarah Pavan – Não diria que o vôlei de praia é a minha prioridade. Veja, eu tenho fechado contratos nas principais ligas no voleibol indoor e encaro meu trabalho na quadra com muita seriedade. Eu me empenho nas duas modalidades e vou continuar sendo assim.

Saída de Rede – Você chegou a disputar o Mundial 2010 pela seleção canadense. Quais suas melhores lembranças do indoor jogando na seleção?
Sarah Pavan – A melhor lembrança que eu tenho da seleção canadense foi ter podido jogar com a minha irmã (Rebecca Pavan, central, que este ano migrou para o vôlei de praia). Ela é quatro anos mais nova do que eu e nós nunca havíamos jogado juntas. Então, em 2012, nós estávamos juntas na seleção. Foi muito legal poder dividir aquele momento com ela.

A atacante foi só elogios ao técnico Bernardinho (CBV)

Saída de Rede – Aqui no Brasil você deixou muitos fãs, especialmente, claro, na torcida do Rexona, seu ex-clube (na época Unilever). Já teve alguma proposta para voltar a jogar na Superliga?
Sarah Pavan – Eu sempre penso em voltar a jogar no Brasil, gostei demais das duas temporadas que passei aí, tenho imenso respeito e admiração pela Superliga e pelas jogadoras brasileiras. Os fãs eram simplesmente maravilhosos, eu me sentia em casa. Infelizmente, não recebi ofertas do Brasil desde que saí do Rio de Janeiro. Como eu estava focada na Olimpíada, eu queria contratos mais curtos para poder treinar um pouco mais na praia, então ir para a Ásia foi a melhor opção para mim naquele momento.

Saída de Rede – O que você aprendeu nas duas temporadas que jogou no Brasil? Como foi ser treinada pelo Bernardinho?
Sarah Pavan – Eu aprendi tanto jogando no Brasil. Eu adorava a atmosfera que o Bernardinho criava durante os treinamentos, me vi forçada a crescer como jogadora, tanto física quanto mentalmente, para poder competir entre as atletas de alto nível que a Superliga tem. Outro ponto importante é que, com o Bernardinho, eu aprendi muito no processo de preparação para uma partida. Ele faz uma análise tão minuciosa, tão inteligente, era fantástico ter a possibilidade de aprender detalhes muito específicos de um planejamento sendo atleta dele. Eu tive a sorte de ter tido a chance de aprender treinando por duas temporadas sob o comando de um dos maiores técnicos de todos os tempos.

“Osasco lutava, era fantástico jogar contra elas” (CBV)

Saída de Rede – E a rivalidade com o time de Osasco, como você encarava os confrontos com o arquirrival da sua equipe brasileira?
Sarah Pavan – Eu adorava enfrentar Osasco, gosto muito de uma grande rivalidade. Aquela atmosfera envolvendo os confrontos entre Rio e Osasco mobilizava as jogadoras, os técnicos… Os fãs ficavam super animados. É sempre muito bom ver duas equipes fortes se enfrentando, as partidas entre esses dois times quase sempre iam para o tie break. Osasco lutava muito, era fantástico jogar contra elas.


Novo astro do vôlei alcança mais de 80cm acima do aro de basquete
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Sidrônio Henrique

Oposto polonês Maciej Muzaj, 22 anos, 2,08m de altura e alcance de 3,86m no ataque (foto: PlusLiga)

Ele já alcançou impressionantes 3,86m quando ataca. Para que você tenha ideia do quanto isso representa, o aro da tabela de basquete fica suspenso a 3,05m e a altura da rede de voleibol masculino é de 2,43m. O oposto polonês Maciej Muzaj, 22 anos, 2,08m, salta com facilidade e coloca a cintura na borda superior da rede de vôlei. Destaque no Jastrzebski Wegiel (JSW), quarto colocado na liga da Polônia a dois jogos do final do returno, ele tem chamado a atenção e é a maior promessa de um país apaixonado pela modalidade.

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Não bastasse a impulsão extraordinária, o canhoto Muzaj é um atacante habilidoso, daqueles que se viram com bolas altas ou em combinações em velocidade. Está na pré-lista de convocados do novo técnico da seleção polonesa, Ferdinando De Giorgi, para a primeira competição da temporada, a Liga Mundial, que começa no dia 2 de junho.

Muzaj: “Foi um choque ver o meu alcance no ataque” (PlusLiga)

“Foi um choque para mim ver o meu alcance no ataque. Eu sempre tive facilidade para saltar e sabia que ia bem alto, mas 3,86m foi uma loucura, até porque eu nunca havia verificado a marca exata”, disse Muzaj, que chega a 3,50m no bloqueio, ao Saída de Rede. A medição foi feita no final de fevereiro, utilizando o acessório Vert, bastante popular entre times americanos de voleibol e basquete, e que tem ganhado espaço entre os europeus. “Tomei um susto quando vi o alcance de 3,86m. Ele chega a 3,75m sem muito esforço, o que já é um absurdo. Sai 1,16m do chão”, comentou o australiano Mark Lebedew, técnico do JSW e da seleção de seu país.

Sesi mostra força em momento decisivo da temporada

É raro um jogador ultrapassar os 3,70m. Em situações de jogo, o alcance varia de acordo com as condições de ataque e obviamente é menor no bloqueio. Há também a possibilidade do desempenho cair ao longo da partida por causa do desgaste físico.

Wallace tem o maior salto e um dos maiores alcances da seleção brasileira (FIVB)

Brasil, Simon e Kaziyski
Entre os atletas da equipe brasileira na Rio 2016, os maiores alcances são, segundo uma fonte da antiga comissão técnica, do oposto Wallace Souza (1,98m) e do central Éder Carbonera (2,05m), ambos com 3,65m no ataque – os números no site da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) estão, na maioria das vezes, defasados. Quem mais salta na seleção é Wallace, com 1,05m de impulsão.

Quando estava no Piacenza, da Itália, o central cubano Robertlandy Simon, 2,08m de altura, atualmente no Sada Cruzeiro, cravou 3,89m no ataque em março de 2014 durante um teste. Em julho de 2008, treinando pela seleção da Bulgária semanas antes da Olimpíada de Pequim, o ponteiro Matey Kaziyski, 2,02m, chegou a 3,79m. Como nem todas as equipes fazem registro sistemático ou mesmo divulgam o alcance dos seus atletas, acredita-se que os 3,89m obtidos por Simon há três anos sejam o recorde mundial. A assessoria de imprensa do Sada Cruzeiro informou ao SdR que, desde sua chegada ao clube no ano passado, a marca mais alta obtida por ele foi de 3,80m.

Mari: “Acho difícil surgirem jogadoras tão boas quanto na minha geração”

No mês passado, o canadense Daenan Gyimah, central de apenas 19 anos e 2m de altura, que joga pela prestigiada Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), treinado por John Speraw, o mesmo técnico da seleção masculina dos EUA, foi destaque nas redes sociais americanas. O motivo para que ele fosse tema de posts de veículos como Sports Illustrated e Bleacher Report foi o seu alcance de 3,72m no ataque. Teve vídeo de Gyimah compartilhado mais de 40 mil vezes, tamanha admiração que ele provocou.

Renan Buiatti: “Não ter ido pra Rio 2016 foi um incentivo para melhorar”

Impulsão e alcance não resultam em talento, é claro, embora tanto Simon quanto Kaziyski sejam craques. Maciej Muzaj parece disposto a entrar para esse clube. No ano passado foi convocado para a seleção e chegou a disputar o primeiro fim de semana da Liga Mundial, tendo entrado nas três partidas.

Kurek foi o oposto titular da Polônia na Rio 2016 (FIVB)

Confiança
A presença dos veteranos Bartosz Kurek e Dawid Konarski na saída de rede da seleção em 2016 não deixou espaço para o inexperiente Muzaj, que somente na temporada passada começou a jogar como titular no JSW. Antes, era reserva de Mariusz Wlazly no Skra Belchatow. “Agora me sinto confiante para brigar por um lugar na seleção, se o técnico me der uma oportunidade”, afirmou o oposto, que completa 23 anos em maio.

Esguio, Muzaj lidou com várias lesões antes de se firmar no JSW, clube que já foi um dos mais ricos da Polônia do final da década passada ao início desta, mas que hoje em dia tem um orçamento modesto, que representa menos da metade do valor gasto por qualquer uma das três grandes equipes do país: Skra Belchatow, Zaksa Kedzierzyn-Kozle e Resovia Rzeszow.

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Num time modesto, cabe a Maciej Muzaj e ao veterano ponta cubano Salvador Hidalgo Oliva o crédito em quadra pelo sucesso do JSW. Esta temporada, o clube bateu uma vez o Skra e duas o Resovia, perdendo duas vezes para o líder Zaksa apenas no tie break. O JSW deve garantir um lugar nas semifinais da PlusLiga (não há quartas de final na liga polonesa), disputada atualmente por 16 clubes.

Os pais queriam que Muzaj fosse tenista, mas ele acabou jogando voleibol (PlusLiga)

Tênis
Os pais de Muzaj foram jogadores de voleibol, chegaram a atuar na primeira divisão polonesa, mas a modalidade entrou na vida dele como segunda opção. “Eles queriam que eu fosse tenista, mas o tênis é um esporte muito caro, então acabei indo para o vôlei”, contou ele, que nasceu na cidade de Breslávia (Wroclaw), no sul do país.

Começou a jogar na escola, no início do ensino médio, e em um clube da sua cidade chamado Gwardia Wroclaw. Foi descoberto por um olheiro e de lá foi para o centro de treinamento da seleção, em Spala, região central da Polônia, para treinar na categoria infantojuvenil. Concluído o ensino médio, foi contratado pelo Skra Belchatow, que estava de olho no potencial de Muzaj, então com 18 anos.

Cirurgia e recuperação
Aos 19, teve que se submeter a uma cirurgia no ombro esquerdo, ficou um ano se recuperando e acabou fora do mundial juvenil. Aos poucos, foi desenvolvendo seus golpes, ganhando maturidade. Na temporada 2015/2016, terminou como o segundo maior pontuador da PlusLiga. Na atual, poupado contra as equipes mais fracas com o intuito de se preservar para os confrontos-chave, Muzaj caiu na tabela de pontuadores, mas mantém seu aproveitamento no ataque próximo dos 50%, mesmo jogando sobrecarregado e enfrentando os bloqueios mais bem estruturados do campeonato.

”Tem sido difícil, mas era o certo”, diz Bernardinho sobre saída da seleção

“Ele está mais forte esta temporada, nossa comissão técnica tem trabalhado nisso. Muzaj é aquele tipo de atleta que não tem muita facilidade em aumentar a massa muscular, mas conseguimos fazer com que ganhasse um quilo de massa magra desde setembro do ano passado. Esse é um processo que vai levar alguns anos”, explicou ao SdR o técnico Lebedew. “O importante é que atualmente ele suporta a carga de treinos e musculação sem restrições, sem comprometer seu físico”, completou.

Lesionado, Douglas Souza é desfalque do Sesi até o fim da Superliga

O que falta no jogo do jovem canhoto? “Eu diria que o saque dele, embora seja bom, ainda precisa de mais consistência, regularidade. Outro ponto importante é que, para alguém que vai tão alto, ele às vezes respeita demais o bloqueio adversário e não precisa ser assim”, ponderou Mark Lebedew.

Técnico Mark Lebedew diz que o saque de Muzaj precisa de mais consistência (PlusLiga)

Europeu 2017
Uma das metas do oposto é disputar o Campeonato Europeu 2017, que será realizado na Polônia, com abertura marcada para o dia 24 de agosto, no Estádio Nacional de Varsóvia, repetindo a grandiosidade do jogo inicial do Mundial 2014. “É um sonho. Se eu trabalhar duro, talvez consiga estar na equipe, mas ainda falta muito. As expectativas aqui na Polônia para esse torneio são altas. Eu vou fazer o possível para estar lá”, disse Muzaj.

Se a falta de experiência na seleção adulta pesa contra ele, o talento e a explosão são aspectos favoráveis (veja vídeo acima). Ajuda também o fato de o país estar carente de opostos. O grande ídolo polonês na posição, Wlazly, não joga pela seleção desde a conquista do Mundial 2014, e antes disso, por problemas de convivência, estava ausente desde 2010. O mais recente titular na saída de rede foi Kurek, que era ponteiro e esta temporada voltou à antiga função. Embora esbanjasse potência, Kurek decaía nos finais de set, como ficou evidente na Copa do Mundo 2015 e na Rio 2016. Seu reserva, Konarski, não consegue sustentar um desempenho em alto nível por períodos longos.

Maluco beleza do vôlei oferece dinheiro para juiz apitar direito

É nesse cenário que as atenções se voltam para Maciej Muzaj, uma aposta para este ciclo. No ano que vem, no Mundial, que será disputado na Itália e na Bulgária, a seleção polonesa defenderá o título conquistado em casa em 2014. Porém, o grande objetivo é voltar a brilhar nos Jogos Olímpicos. Após ser eliminada nas quartas de final das últimas quatro edições, a Polônia quer, em Tóquio 2020, voltar ao pódio, algo que não consegue desde o ouro em Montreal 1976.

(Se quiser ver mais variações de ataque de Muzaj e alguns dos melhores momentos dele nesta temporada no bloqueio e no saque, confira aqui.)


Lesionado, Douglas Souza é desfalque do Sesi até o fim da Superliga
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Carolina Canossa

Campeão olímpico, Douglas Souza é ponteiro titular da equipe do Sesi (foto: Divulgação)

A luta do Sesi pelo título da atual edição da Superliga masculina de vôlei ganhou um enorme obstáculo. Um dos principais jogadores da equipe na competição, o ponteiro Douglas Souza está fora da disputa devido a uma lesão.

Douglas sofreu uma ruptura no abdômen em um treino que deve deixá-lo fora das quadras por cerca de três meses. Ou seja, ainda que o Sesi chegue à decisão do campeonato, no dia 7 de maio, não haverá tempo hábil para ele defender a camisa vermelha da equipe paulistana.

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Campeão olímpico na Rio 2016, Douglas era, junto do oposto Theo, a principal opção ofensiva do Sesi na Superliga. Até o momento, por exemplo, o ponteiro é o quarto atacante mais eficiente da Superliga, além de ter uma função tática importante na recepção, principalmente após um problema no cotovelo de Murilo Endres, especialista em passe.

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Douglas, aliás, também teve uma lesão no tornozelo logo no início da temporada de clubes, mas havia se recuperado e estava em ótima forma desde então. Agora, o Sesi terá que jogar os momentos decisivos da disputa com seus ponteiros reservas, mas um retorno antecipado de Murilo para o jogo inteiro não está descartado.

ATUALIZADO ÀS 16h47 – Procurado, o Sesi afirma que o afastamento de Douglas será menor, de três a quatro semanas.


Maluco beleza do vôlei oferece dinheiro para árbitro apitar direito
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Sidrônio Henrique

Ex-jogador da seleção russa, o ponta defende atualmente o modesto Yenisey Krasnoyarsk (foto: FIVB)

O ponta russo Alexey Spiridonov, quase sempre no papel de maluco beleza do vôlei, continua aprontando das suas. Neste fim de semana, o atacante de 28 anos e 1,96m, conhecido tanto pelo seu talento como pelas constantes provocações, se superou. Irritado com a arbitragem durante um jogo da liga russa entre Yugra Samotlor e Yenisey Krasnoyarsk, seu clube, ele ofereceu, por meio de gestos e palavras, dinheiro ao segundo juiz para que “apitasse de maneira justa”. O Krasnoyarsk, visitante, perdeu a partida de virada por 1-3. O clube de Spiridonov está em oitavo lugar na tabela. Catorze equipes disputam a temporada 2016/2017, liderada pelo Zenit Kazan, que está invicto com 24 vitórias.

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“Os árbitros estavam ali para se certificar de que perderíamos a partida. Fazia tempo que eu não via um jogo da liga russa em que um time recebeu tanta ajuda. Que vergonha! Ganhei um cartão amarelo antes da partida começar, depois recebi um cartão vermelho e não sei nem a razão. Aí fui até o segundo árbitro e lhe ofereci dinheiro, só para que apitasse de maneira justa pelo restante da partida”, disse Spiridonov ao site russo sport.business-gazeta.ru.

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O ponteiro havia recebido um cartão amarelo antes mesmo início da partida por chutar um dos postes de sustentação da rede. O vermelho veio depois de uma reclamação de Spiridonov contra o segundo árbitro, que indicou toque no bloqueio após um ataque do adversário que o ponta dizia ter sido fora. O ex-jogador da seleção russa, cuja carreira é marcada pela indisciplina, não chegou a ser expulso da partida. Nesta segunda-feira (20), porém, a Federação Russa decidiu multá-lo em 10 mil rublos, o equivalente a R$ 537,58 – valor apenas simbólico. A penalidade foi aplicada, segundo a federação, “devido ao comportamento rude do atleta”.

Histórico de indisciplina
Spiridonov, que foi cortado semanas antes dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 por ter chegado embriagado à concentração da seleção e que não foi convocado para a Rio 2016, tem um histórico de confusões envolvendo colegas e adversários, incluindo o ex-técnico da seleção brasileira masculina Bernardinho. O então treinador do Brasil, durante as finais da Liga Mundial 2013, disse que o russo se comportava como um louco. Após a vitória sobre os brasileiros na final do torneio, Spiridonov fez um gesto obsceno para as câmeras e mencionou o nome de Bernardinho. Um ano antes, na liga russa, irritou tanto o levantador Sergey Grankin, colega de seleção e oponente na partida, que o adversário cruzou a rede para agredi-lo, sendo contido pelos demais.

Apelidado de Tintin pelo ponta francês Guillaume Samica, por sua semelhança com o personagem de quadrinhos belga, Alexey Spiridonov é um ponta completo, mas viu sua carreira prejudicada pelo pavio curto. Jogou as duas últimas temporadas pelo Zenit Kazan, mas foi dispensado no ano passado. Já se envolveu em polêmicas até mesmo fora da quadra, como quando debochou, em 2015, do embargo do governo russo aos produtos poloneses, irritando torcedores e jogadores da seleção da Polônia.


Bernardinho: “Time nasceu competitivo e seguirá sendo por outros 20 anos”
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Sidrônio Henrique

“Foram 20 anos incríveis, quem vai tocar o processo agora é o Sesc” (foto: Divulgação)

O momento parecia de turbulência com a saída do patrocinador Unilever, parceiro desde 1997, mas Bernardo Rezende garante que a equipe de vôlei feminino sob seu comando segue firme. “O time vai continuar sendo competitivo. Nasceu competitivo e seguirá sendo por outros 20 anos. Não há nenhuma descontinuidade, é um processo ajustado e quem vai tocar agora é o Sesc”, disse o técnico multicampeão ao Saída de Rede.

Esta é a primeira parte de uma entrevista que o treinador concedeu ao SdR. Nesta o foco é o voleibol feminino. Além da transição no Rexona-Sesc, equipe que conquistou a Superliga 11 vezes e que encerrou a fase classificatória da atual edição na liderança, com 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, Bernardinho fala sobre a dificuldade de enfrentar “seleções” no Mundial de Clubes, relembra que o arquirrival Osasco (atual Vôlei Nestlé) venceu a competição tendo “uma verdadeira seleção” e que depois perdeu a final da Superliga para o Rexona.

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Ele aponta o Camponesa/Minas, liderado pela oposta americana Destinee Hooker e pela ponteira Jaqueline Carvalho, como favorito na Superliga e alega que vencê-lo três vezes numa eventual semifinal é uma tarefa complicada.

Fala de talentos do voleibol brasileiro, como a central Bia, as pontas Rosamaria, Gabi e Tandara, as opostas Lorenne e Paula Borgo, além das levantadoras Roberta, Naiane, Juma e Macris.

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Seleção masculina perde mais uma peça-chave após saída de Bernardinho

Sobre a estrangeira de sua equipe, a ponta holandesa Anne Buijs, Bernardinho afirma que “aos poucos ela está começando a mostrar mais consistência na atuação de alto nível”.

Confira a primeira parte da entrevista que Bernardo Rezende nos concedeu:

Saída de Rede – Como fica a equipe com a saída da Unilever após 20 anos de parceria?
Bernardinho – O time vai continuar sendo competitivo. Nasceu competitivo e seguirá sendo por outros 20 anos. Foram 20 anos incríveis e não há nenhuma descontinuidade, é um processo ajustado, combinado, de prosseguimento e quem vai tocar o processo agora é o Sesc. Esse processo foi conduzido por nós, junto com o Sesc, nessa transição. A Unilever jamais nos abandonou, muito pelo contrário, sempre foi uma parceira orientadora, muito preocupada com a consistência do projeto, tanto na parte competitiva quanto nas frentes sociais.

O técnico durante Mundial de Clubes 2016, nas Filipinas (foto: FIVB)

Saída de Rede – O Rexona vai para o Mundial de Clubes em maio, no Japão. Diante dessa situação, de transição, o time já havia se programado para contratar algum reforço?
Bernardinho – Nós não temos nenhuma verba neste momento para poder buscar alguém. E também não seria justo chegar num momento como esse e sacar uma jogadora para, de repente, colocar outra. Seria muito bacana poder reforçar, tentar trazer alguém que nos desse uma condição a mais. Osasco, quando foi ao Mundial, tinha uma verdadeira seleção.

Sobre o arquirrival Osasco e seu título mundial: “Tinha uma verdadeira seleção” (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você fala da edição de 2012, quando Osasco ganhou?
Bernardinho – Exatamente… E depois nós ganhamos delas na final aqui (na Superliga). (Osasco) Era uma seleção com das quatro titulares: Garay, Jaqueline, Thaisa e Sheilla. Tinha ainda duas reservas imediatas da seleção: Fabíola e Adenízia. O time chegou ao Mundial em condições de brigar. Hoje, as equipes turcas são verdadeiras seleções do mundo. Eczacibasi, por exemplo, o VakifBank, o Fenerbahce… Esses times são all-star, com jogadoras de várias seleções do mundo, se torna mais difícil vencê-los. No último Mundial a gente estava meio despreparado e perdeu duas vezes por 3-2, pro Eczacibasi e pro Casalmaggiore, campeão europeu. Esses dois foram os finalistas. Então faltou pouco. Quem sabe a gente não consiga depois da Superliga, mais preparado, um pouco mais? (Nota do SdR: o Rexona-Sesc terminou o Mundial 2016 na quinta colocação.)

Saída de Rede – O fato de o torneio agora ser no fim da temporada de clubes, pouco depois do encerramento da Superliga, ajuda o time? Embora esses adversários também estejam com bom ritmo.
Bernardinho – Para nós, que não temos a quantidade de talentos individuais a nível mundial que esses times têm, a questão do sistema funcionar é a única chance que a gente tem. Não dá para brigar na individualidade. Sob esse ponto de vista, a consistência de uma temporada talvez nos dê uma possibilidade a mais. Claro que esses grandes times continuam sendo os favoritos, mas talvez a gente tenha uma pequena condição a mais.

Bernardinho orienta o time durante partida da Superliga (foto: Alexandre Arruda/Divulgação)

Saída de Rede – Falando agora de Superliga, as outras equipes no top 4, Minas cresceu no segundo turno, Praia Clube caiu um pouco ao longo da competição e Osasco está se ajustando. Desses três adversários, qual seria o mais perigoso?
Bernardinho – O Minas com certeza é o mais perigoso. Na minha opinião, o Minas se tornou o favorito.

Saída de Rede – Por quê?
Bernardinho – Uma coisa é ter o Minas sem uma Hooker e sem uma Jaqueline. A Hooker é uma das grandes opostas do mundo. Veja bem, não falo só da Superliga, falo do mundo, e ela ataca como poucas. A Jaqueline é completa, arma o time de uma maneira… Que jogadora tem condições de passar como ela passa, arrumar o time, defender, fazer o jogo como ela faz? Aí você tem Rosamaria, Carol Gattaz fazendo excelente temporada, a Naiane… Pelas jogadoras que tem hoje, o Minas se tornou favorito na Superliga.

Saída de Rede – Enfrentá-las numa melhor de cinco jogos em uma possível semifinal facilita para vocês, não? Afinal, ganhar três vezes do Rexona…
Bernardinho – (Interrompendo) É, mas ganhar três vezes desse Minas aí é tão complicado quanto ganhar três vezes do Rexona.

Saída de Rede – Se você diz… E quanto ao Praia e ao Osasco?
Bernardinho – Acho que o Praia vive um momento de insegurança emocional, mas é um time com muito potencial. Na final, no ano passado, por muito pouco a coisa não fugiu da gente. Foi uma final muito dura. E Osasco é sempre Osasco, uma equipe de tradição, que vai chegar, mudou um pouco a forma de jogar: no último ano tinha mais força no meio, a cubana na ponta, agora tem a Tandara, duas estrangeiras, com muita força ali. A Bia tem jogado em altíssimo nível.

A central Bia, do Vôlei Nestlé, foi bastante elogiada por Bernardinho (foto: João Pires/Fotojump)

Saída de Rede – Você acha que a Bia subiu muito de produção em relação ao ano anterior?
Bernardinho – Ela já tinha jogado muito bem no Sesi com a Dani Lins. O fato de ter uma grande levantadora do lado dela, e ela sempre foi uma grande bloqueadora, deu uma condição… Me lembro que ganhamos grandes competições com a Dani e as centrais eram a Valeskinha e a Juciely, que são mais baixas, e a Dani as fazia jogar, mesmo sendo jogadoras fisicamente menos capazes de jogar com atletas grandes. A Dani faz isso muito bem e a Bia está se beneficiando disso. Para o voleibol é muito importante ter uma jogadora como ela, que naturalmente já é uma grande bloqueadora. É um belo trabalho feito lá e ter a Dani por perto dá uma condição ainda melhor.

“Natália foi uma jogadora fundamental” (foto: FIVB)

Saída de Rede – O Rexona sempre teve muito volume de jogo e você procura fazer o time jogar de forma acelerada na virada de bola e no contra-ataque. No ano passado, quando o passe não saía, era bola para a Natália, que descia o braço. Como está isso hoje? Conversando outro dia com o Anderson Rodrigues (técnico do Brasília Vôlei), ele dizia que o Rexona está bem, porém errando mais do que no ano passado. Você também acha isso? O que está faltando para o time?
Bernardinho – É exatamente isso. O Anderson enxerga um pouco com os meus olhos, até por termos convivido tanto tempo. Nós ainda não temos a consistência… Olha, a Natália foi uma jogadora fundamental nos últimos dois anos, dava um equilíbrio muito grande, pra gente se permitir ter um passe pior às vezes. Era uma jogadora que resolvia, ela foi excepcional. Não tê-la este ano requer um time que cometa menos erros, que desperdice menos, mas ainda estamos em busca disso, dessa consistência maior. Nos momentos importantes estamos tendo boas atuações, mas o time ainda oscila. A Anne (Buijs) tem altos e baixos, mas teve momentos muito bons, como na Copa Brasil, a final do Sul-Americano, mas não posso atribuir a ela a responsabilidade que a Natália já tinha condições de assumir. Eu tenho que ter também a calma de fazer com que ela tenha a tranquilidade de jogar sem um excesso de peso sobre ela. Quem está assumindo uma responsabilidade maior é a Gabi, o que é muito bom para ela, para o amadurecimento.

Saída de Rede – Mas ela não tem característica de força, tem outro perfil, não dá para comparar com a Natália.
Bernardinho – Não, mas você pode jogar de outra maneira. A ideia é um pouco essa, que ela jogue de uma forma com mais velocidade, para que ela consiga criar situações de dificuldades para o outro time.

O treinador orienta Anne Buijs: “Está começando a mostrar mais consistência” (foto: Marcelo Piu/Divulgação)

Saída de Rede – Quando a Brankica Mihajlovic (ponta sérvia, vice-campeã na Rio 2016), que tem um perfil parecido com o da Anne, com deficiências no passe e no fundo de quadra, jogou aqui, ela deslanchou a partir das quartas de final. Você está preparando a Anne para crescer na reta final?
Bernardinho – Aos poucos ela está começando a mostrar mais consistência na atuação de alto nível. É o que a gente espera dela: crescer fisicamente e conseguir lidar com uma situação de pressão que a Superliga exige o tempo todo.

Saída de Rede – Atualmente, no cenário internacional, temos a impressão de que existe uma carência de ponteiras passadoras. Você diria que o vôlei no Brasil reflete isso também?
Bernardinho – A Gabi é uma jovem ponteira excepcional. A Natália tem pouco tempo nessa função… Então, nós temos duas ponteiras. São pontas que às vezes não são tão boas passadoras, como a Tandara também não é, mas que você pode compor. Veja, a Sérvia jogou a Olimpíada com a Brankica na ponta, a Tandara não é pior passadora do que ela. Você tem como compor e o Zé Roberto vai saber montar isso. No Brasil há um pouco dessa carência, não só no feminino também há no masculino, mas eu diria que não estamos tão mal posicionados neste sentido. Temos algumas jogadoras interessantes para surgir, como a Rosamaria.

Saída de Rede – Nós conversamos com ela, que admitiu que não dava para ser oposta em nível internacional, até por sua altura (1,85m), mas sim ponteira. Ela pensou exatamente nisso.
Bernardinho – Ela pensou e os treinadores dela também. Na minha opinião é uma solução excepcional, ela tem plenas condições de jogar nessa posição.

Ele diz que Macris “taticamente joga muito” (foto: CBV)

Saída de Rede – Que outros destaques você vê entre as jogadoras mais jovens aqui no Brasil?
Bernardinho – Levantadoras você tem a Roberta, a Naiane, a Juma, que são jovens e boas jogadoras. A Macris é uma atleta que taticamente joga muito, ela é diferente e entra nesse rol. A Dani Lins continua sendo a principal e melhor jogadora da posição. Mas temos um leque de jogadoras interessantes para trabalhar, com boa estatura. Olhando pro futuro, eu vejo boas levantadoras. Sobre opostas, não sei se a ideia é a Tandara jogar um pouco ali, a Natália jogar eventualmente, mas eu tinha uma crença muito grande em uma menina que é a Paula Borgo, que fez duas boas temporadas e este ano está jogando menos. Claro que isso é momentâneo e é uma jogadora que tem potencial. Não temos uma quantidade grande, talvez seja o caso de pensarmos em uma estrutura um pouco híbrida.

Saída de Rede – E a Lorenne, sua jogadora até a temporada passada, foi ideia sua ela ir para o Sesi, sob o comando do Juba, que tinha sido seu assistente, para ela jogar mais?
Bernardinho – Sim, ela tinha que sair pra jogar.

“Lorenne talvez necessite mais tempo” (foto: Sesi)

Saída de Rede – Está muito verde ainda para se pensar em seleção principal?
Bernardinho – Ela está galgando, agora já joga a Superliga, tem potencial. Lorenne talvez necessite um pouco mais de tempo, assim como a Paula Borgo. Elas precisam passar por um processo de amadurecimento internacional para poder jogar.

Saída de Rede – A Lorenne joga de uma forma diferente do que historicamente as nossas opostas fazem, mais lenta, porém com mais alcance e com mais potência. Como você vê isso?
Bernardinho – É, ela vai mais alto, pega uma bola mais lenta. Temos que ver, pois a forma de jogar do Brasil não é muito esta e, lá fora, jogar com uma bola tão lenta talvez não seja o mais recomendável. Mas é uma jogadora de potencial, tem que ser trabalhada para ter condição de jogar internacionalmente. É preciso testá-la lá fora. Já jogou Mundial sub23, ou seja, está começando a ganhar essa experiência.


Moreno: primeiro ídolo surgiu antes do boom do vôlei no Brasil
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Sidrônio Henrique

Antes de amistoso contra a China, em Santo André (SP), em 1978, Moreno recebe homenagem pela partida de número 300 pela seleção. Chegaria a 366 jogos (fotos: arquivo pessoal)

Antes de Giba, Marcelo Negrão, Wallace, Renan Dal Zotto, entre tantos outros ídolos numa lista bem extensa, o vôlei brasileiro teve Antônio Carlos Moreno. Você não o conhece? Pois saiba que, apesar da falta de memória do brasileiro ser cruel com ídolos do passado, ele é respeitado no mundo inteiro, a ponto do americano Doug Beal, referência internacional, dizer que ele merece um lugar no Hall da Fama e do japonês Yasutaka Matsudaira, melhor técnico do século XX, levá-lo duas vezes para o Japão e apresentá-lo como “meu filho brasileiro”.

Moreno era conhecido no Brasil nos anos 1970, muito antes do voleibol conquistar o status que tem atualmente. Era 1979 e o comercial da marca de artigos esportivos Topper anunciava o nome dos craques de quatro modalidades que apareciam no vídeo. Entre eles lá estava Moreno, então a cara do voleibol no país, dando um peixinho e depois atacando.

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Ainda faltavam três anos para o boom do vôlei no Brasil, elevado à condição de segundo esporte nacional pela geração de prata, da qual muitos atletas tiveram Antônio Carlos Moreno como modelo. Mas antes mesmo da explosão da modalidade, comerciais em rede nacional, convites de equipes do exterior, o respeito dos adversários e o carinho dos fãs faziam parte da vida dele. Isso numa época em que o voleibol quase não era visto na TV, longe de rivalizar com o basquete.

Versatilidade
Num período em que o vôlei era bem diferente daquele praticado hoje, Moreno fez de tudo: entrada, saída, meio. “Até levantador eu fui”, disse ao Saída de Rede o ex-jogador de 68 anos. Foi ponteiro a maior parte do tempo. Destro, aprendeu a atacar também com a esquerda, depois de uma lesão na mão direita que quase o tirou do Mundial 1974. Com 1,92m, era alto para os padrões da época.

Qualquer garoto que jogasse ou pensasse em jogar vôlei no Brasil nos anos 1970 queria ser o Moreno”, contou ao SdR Marcos Kwiek, técnico do Genter Vôlei Bauru, da seleção feminina da República Dominicana e ex-atleta do antigo ponta no clube Hebraica, em São Paulo. Antônio Carlos Moreno começou na seleção brasileira adulta com apenas 17 anos, em 1965, e se despediu dela aos 32, em 1980, sempre como titular – foi capitão de 1972 a 1980. Participou de 366 partidas internacionais, incluindo quatro Jogos Olímpicos, quatro Campeonatos Mundiais e quatro Jogos Pan-Americanos.

Moreno (camisa 5) antes de amistoso da seleção em São Paulo como preparação para o Pan 1971, em Cali, Colômbia

Filho único, nascido em Santo André (SP), em 11 de junho de 1948, Moreno descobriu a modalidade aos 11 anos, em 1959, no Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, na sua cidade. No ano seguinte, começou a praticar o voleibol de forma competitiva no Clube Atlético Aramaçan, também em Santo André, onde vive até hoje.

Após chegar à seleção e se firmar como titular, com o aval dos veteranos, o garoto Antônio Carlos Moreno foi para o seu primeiro Mundial já ano seguinte, em 1966, na antiga Tchecoslováquia. Dois anos depois, aos 20, a maior emoção da sua carreira, a primeira Olimpíada. O Brasil ficou em um modesto nono lugar entre dez participantes na Cidade do México 1968. A qualidade técnica da nova geração alimentava o sonho de dias melhores para a modalidade no país, mas a falta de estrutura, em meio a uma gestão amadora, atrasou o desenvolvimento do voleibol brasileiro em uma década. “Íamos para torneios no exterior sem saber, por exemplo, o que era saque flutuante ou bloqueio ofensivo e aprendíamos durante as competições. Quase não havia intercâmbio”, comentou o craque.

Oportunidade no Japão
Mesmo muito jovem, Moreno chamava a atenção dos adversários. Na Copa do Mundo 1969, disputada na extinta Alemanha Oriental, caiu nas graças do treinador japonês Yasutaka Matsudaira, que estruturava a seleção que encantaria o mundo três anos mais tarde com seu jogo rápido, na Olimpíada de Munique, em 1972. Matsudaira foi escolhido pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB), em 2000, como o melhor técnico de equipes masculinas do século XX. No final dos anos 1960, nasceu entre ele e Moreno uma amizade que duraria até o falecimento do japonês em 2011.

Foto de uma revista especializada japonesa em nota sobre a chegada de Moreno ao país, em 1972. Ao lado dele, o técnico Nobuhiro Imai, que treinou a seleção feminina do Japão

O lendário treinador levaria o brasileiro para jogar na liga do Japão, uma potência na época, em 1972 e em 1977. Os atletas japoneses atuavam sob regime profissional, dedicando-se exclusivamente ao voleibol. Enquanto isso, no Brasil, os clubes treinavam duas horas por dia, quando era possível. A situação mais comum era que os jogadores tivessem empregos tradicionais pela manhã e à tarde, indo para o treino à noite. Os períodos de concentração da seleção brasileira raramente ultrapassavam dois meses e eram interrompidos para que os atletas pudessem atender compromissos nos seus empregos. Alguns acabavam pedindo dispensa para não ficar sem trabalho.

Treinos insuficientes
Moreno recorda que o time que foi a Munique 1972 era tecnicamente muito bom, mas a carga incompleta de treinos e a má sorte no sorteio das chaves (seis times divididos em dois grupos) atrapalharam os brasileiros. A equipe comandada pelo técnico Valderbi Romani caiu no mesmo lado do Japão e da Alemanha Oriental, que seriam ouro e prata, respectivamente. Naquele tempo, os dois primeiros avançavam à semifinal, terceiro e quarto disputavam do quinto ao oitavo lugares, e os dois últimos do nono ao décimo segundo lugar.

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O Brasil terminaria em oitavo em Munique, abatido após uma fase inicial em que jogou de igual para igual com os alemães orientais (veja vídeo no final deste texto) e engrossou dois sets contra o Japão de Matsudaira e do genial Katsutoshi Nekoda, o pai dos levantadores modernos, com seu estilo arrojado. Moreno ficaria amigo também de Nekoda, de quem havia se aproximado em 1969, durante a Copa do Mundo. O armador japonês faleceria em 1983, aos 39 anos, devido a um câncer no estômago.

Moreno (5), aos 17 anos, em 1965, na equipe juvenil do Randi, clube de Santo André (SP)

Ambidestro
Faltavam 37 dias para o Mundial 1974, no México, quando Moreno se acidentou numa porta de vidro e rompeu o tendão do dedo indicador da mão direita. Parecia o sinal vermelho para suas pretensões de ir a seu terceiro Campeonato Mundial, após as edições de 1966 e 1970. O atacante ficou desesperado, mas apostou na recuperação e, para compensar a impossibilidade de utilizar a mão direita, aprendeu a atacar com a esquerda. Foi ao torneio no México. “Era um ataque forte com a esquerda. Não tanto quanto com a direita, mas havia potência”, conta Luiz Eymard, colega de seleção de Moreno e um dos grandes nomes do voleibol brasileiro nos anos 1970.

Nas quadras mexicanas, Antônio Carlos Moreno ficava receoso de machucar ainda mais o dedo lesionado, principalmente na hora de bloquear. “Os cubanos sabiam da lesão e atacavam com força na minha mão direita. Doía uma barbaridade”, mencionou.

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Veio a Olimpíada de Montreal 1976 e o Brasil subiu mais um posto, terminando em sétimo, mas seria a partir do ciclo seguinte que o país daria um salto de qualidade no voleibol masculino. Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), havia assumido a presidência da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em 1975. Sob sua gestão, a modalidade cresceu.

Futuro promissor para o vôlei
A seleção masculina, no período 1977-1980, deu seus primeiros passos rumo às medalhas que conquistaria no ciclo 1981-1984. Revelações do início dos anos 1970, como William Carvalho e Bernard Rajzman, somavam-se aos talentos revelados no Mundial Juvenil 1977, como Renan Dal Zotto, Mário Xandó e José Montanaro, entre outros. “Aqueles meninos eram craques, como ficaria evidente mais tarde”, relembrou.

Em peça publicitária da Topper, de 1979, que circulava em revistas. Havia também um comercial na TV

Moreno se mantinha em evidência. Nos Jogos Pan-Americanos 1979 ele foi incluído pela terceira vez consecutiva na seleção do torneio. Conquistou medalha em todas as quatro edições de que participou: três pratas (1967, 1975 e 1979) e um bronze (1971).

Se os Jogos Olímpicos da Cidade do México 1968 ocupam lugar especial na sua memória por terem sido os primeiros, os de Moscou 1980 marcam sua melhor participação numa Olimpíada e também são lembrados com carinho. O quinto lugar, na sua despedida da seleção brasileira, demonstrou que a equipe tinha potencial para um futuro brilhante.

O momento mais marcante foi a virada por 3-2 sobre a Polônia, que chegou à capital russa para defender o título olímpico, comandada pelo atacante Tomasz Wojtowicz, o homem que quatro anos antes havia criado o ataque da linha dos três metros. A Polônia terminaria em quarto lugar em Moscou 1980, mas ainda era um dos melhores times do mundo. Foi a primeira vez que o Brasil derrotou uma potência numa Olimpíada, na sua melhor colocação até ali.

Técnico da seleção
Antônio Carlos Moreno já havia decidido que era hora de deixar a seleção. Queria sair ainda jogando bom voleibol e partir para uma experiência que vinha adiando havia alguns anos: uma temporada na liga italiana. Antes, atendeu a um convite de Nuzman e assumiu interinamente, de agosto a novembro de 1980, o cargo de técnico da seleção, em substituição a Paulo Russo, numa série de partidas contra a França e na Canadian Cup, torneio amistoso em que a seleção brasileira foi vice-campeã, perdendo a final para os Estados Unidos.

“A estrela de Moreno brilha no Palalido”, informa o título do jornal italiano, numa referência ao brasileiro e ao ginásio da partida, em Milão

Cumprido o compromisso com Nuzman, foi para o Gonzaga Milano, uma das principais equipes da Itália, e jogou, com destaque (veja imagem ao lado), por uma temporada, para depois voltar ao Brasil. Despediu-se das quadras em casa, Santo André, pela excepcional equipe da Pirelli, em 1982. Conquistou diversos títulos estaduais, brasileiros e sul-americanos. O amadorismo do voleibol no país o impediu de alçar voos mais altos com a seleção.

Seguiu a carreira de técnico, com a qual vinha flertando desde 1975, nas categorias inferiores. Comandou times grandes, como Pirelli e Banespa, ao longo dos anos 1980, depois de se aposentar como jogador. Suas atividades no ramo empresarial o afastavam às vezes do esporte, mas sempre que podia voltava à beira da quadra. Treinou sua última equipe em 2004, na Hebraica.

Formação profissional
Graduado em administração de empresas, fez mestrado em educação física na Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em gestão esportiva pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Participou da formação de mais de mil treinadores de diversas modalidades. Fala quatro idiomas além do português: espanhol, italiano, inglês e alemão. Quando o repórter diz que soube que ele falava também francês e japonês (servia como intérprete de Matsudaira nas suas viagens ao Brasil), Moreno retruca: “Esses aí eu esqueci, já não falo direito”.

Atualmente, ele trabalha no Instituto Olímpico Brasileiro, departamento do COB voltado à educação de atletas, treinadores e outros profissionais vinculados ao esporte. Na Rio 2016, por exemplo, ele atuou junto a equipes e atletas que conquistaram sete das 19 medalhas obtidas pelo Brasil.

Moreno, a esposa e os seis filhos

Prazer em ajudar
Criado pela mãe – o pai os deixou quando ainda era pequeno –, Moreno diz que aprendeu desde cedo com ela, que trabalhava como telefonista na Prefeitura Municipal de Santo André, a valorizar o aprendizado. “Tenho enorme prazer em auxiliar, contribuir, encorajar pessoas para que se desenvolvam cada dia mais, vencendo barreiras. Ser lembrado nunca foi meu objetivo, mas o reconhecimento de alunos, atletas, profissionais de diversas áreas e níveis é a minha grande recompensa”.

Moreno é casado com Selma e tem seis filhos – dois deles são técnicos de vôlei em universidades americanas. Até o final do ano nascerá seu oitavo neto.

Mesmo não tendo nenhuma medalha como atleta pelo Brasil numa competição global e sendo de um país de memória curta, Antônio Carlos Moreno tem lugar entre os grandes da história do vôlei. Estava à frente do seu tempo e foi peça essencial na evolução de uma modalidade que hoje coleciona títulos para o Brasil. Um exemplo para quem teve a chance de conviver com ele. Nas palavras do atacante José Montanaro, expoente da geração de prata, “Moreno foi um mestre dentro e fora das quadras”.

(Veja abaixo trecho de uma partida em Munique 1972 entre Brasil e Alemanha Oriental, equipe campeã mundial e que ficaria com a prata naqueles Jogos Olímpicos. Moreno é o camisa 5.)

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HISTÓRIAS DE ANTÔNIO CARLOS MORENO

Vendedor de café
Era 1966, ele tinha 18 anos e embarcava para o seu primeiro Campeonato Mundial, na extinta Tchecoslováquia. Começava a trabalhar e estudar, não tinha grana. Queria comprar presentes, material esportivo e teve uma ideia ao descobrir que o café brasileiro era artigo raro, cobiçado e obviamente caro no leste europeu. Avisou aos colegas. Levou 20 quilos na mala. Os demais levaram o que podiam. O jovem Moreno ficou encarregado de intermediar a venda. Quando chegaram a Pardubice, cidade onde o Brasil jogou a primeira fase do torneio, ele pediu que os colegas lhe entregassem todo o café que tinham. Ficou com 180 quilos em seu quarto. Procurou um funcionário do hotel, que demonstrou interesse no produto. Cobrou 10 vezes o preço que havia pagado no Brasil, o que ainda era metade do valor cobrado na Tchecoslováquia. Vendeu tudo rapidamente, em apenas dois dias. Ele e os companheiros de time compraram presentes para a família, os amigos, além de material esportivo, claro.

Cadê o ginásio?
No curto período de treinamento para a Olimpíada da Cidade do México, em 1968, uma das preocupações da comissão técnica era a altitude da capital mexicana (2.250m). Resolveram que, para se adaptar, a seleção deveria passar um período em Campos do Jordão (1.628m). Chegaram lá, se hospedaram e no dia seguinte iam treinar no ginásio. Que ginásio? A seleção brasileira ficou concentrada em uma cidade que não tinha espaço apropriado para treinamento e ninguém da delegação sabia disso. A solução foi procurar um. Depois de horas e diversos telefonemas, encontraram um local adequado a 30 quilômetros dali.

Imagem icônica do terrorista na varanda do prédio onde estava a delegação israelense em Munique 1972

Testemunha do terror em Munique
Em Munique 1972 houve o ataque de oito terroristas palestinos, da organização Setembro Negro, que resultou na morte de 11 integrantes da delegação israelense. O bloco em que estavam os brasileiros era vizinho ao de Israel. “Ninguém saía da vila olímpica. Sabe aquela imagem famosa em que aparece o terrorista encapuzado? Eu via esse sujeito da nossa janela. E vi também quando houve aquela fila, dos terroristas e dos israelenses, se dirigindo para o ônibus para irem ao aeroporto. Foi o momento mais tenso e mais triste da minha vida esportiva”, contou Moreno.

Almoço com a rainha da Inglaterra
Os Jogos de Montreal 1976 tiveram a visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II – o Canadá faz parte da Comunidade Britânica de Nações. Foi programado um almoço para ela na vila olímpica. Ao saber disso, Moreno decidiu que ia “almoçar com a rainha”. Tratou de descobrir na véspera em que parte do refeitório ela ficaria e chegou uma hora antes na data marcada (não havia jogo nem treino naquele momento), para ficar o mais perto possível. “Havia todo um aparato de segurança, então fiquei um pouquinho longe, mas mesmo assim fiquei de olho nela, almocei olhando para a rainha da Inglaterra. Não é algo comum”, divertiu-se o ex-atleta.

Certificado de participação em Moscou 1980: quinto lugar era a melhor colocação do Brasil

Amizade com Zaytsev e câmbio na vila olímpica
Um das amizades que Moreno fez no mundo do vôlei foi com o levantador soviético Vyacheslav Zaytsev, pai do craque italiano Ivan Zaytsev. Prata em Montreal 1976, conquistaria seu cobiçado ouro em Moscou 1980 (ganharia outra prata em Seul 1988). Sempre que havia tempo, se encontrava com o brasileiro na vila olímpica moscovita. “Éramos muito amigos. Ele queria sempre saber coisas do Brasil e eu da União Soviética. Como era difícil comprar rublos (moeda local), rolava uma ajuda mútua. Eles cobiçavam dólares e a compra lá era restrita. Nós brasileiros precisávamos de rublos. Então nós dois fazíamos essa ponte entre nossas seleções. Eu dava ao Zaytsev dólares e ele vinha com os rublos”.

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O QUE DIZEM SOBRE MORENO

Doug Beal

“Moreno foi um dos maiores atletas que enfrentei. Ele e o Luiz Eymard foram os melhores brasileiros contra quem joguei. Moreno era extremamente inteligente. Se o Brasil tivesse ganhado alguma medalha nos anos 1970, certamente ele estaria no Hall da Fama, ali é o lugar dele. Um jogador completo”. Doug Beal, ex-atleta, ex-técnico dos EUA (ganhou o ouro em Los Angeles 1984) e ex-diretor executivo da USA Volleyball

José Roberto Guimarães

“Antônio Carlos Moreno foi um espelho fantástico, eu procurava fazer o que ele fazia, até no modo de me comportar. Muito jovem, o Moreno já era fluente em inglês e em alemão, uma cabeça extraordinária. Eu tinha 13 anos, morava em Santo André, quando fui jogar nas categorias de base do Randi (clube da cidade que antecedeu a Pirelli). Embora o Moreno tivesse só 19 anos, já era uma referência, era da seleção. Dominava todos os fundamentos, tinha facilidade de jogar, era diferenciado, atacava com os dois braços. Ele teve uma influência muito grande sobre mim”. José Roberto Guimarães, técnico tricampeão olímpico, colega de clube de Moreno e companheiro de seleção de 1973 a 1977

Bernardinho em Moscou 1980

“O Moreno foi uma referência muito importante no voleibol, foi um ícone. Eu comecei a ser convocado para a seleção brasileira em 1978, 1979 e tive minha primeira participação efetiva na Olimpíada de Moscou, em 1980. Ele era o capitão e transmitia pra gente toda a seriedade do trabalho, sua rigidez de valores, a importância de fazer a coisa certa. Ele foi muito importante para aquela geração de jovens talentosos que chegava para transformar o voleibol no Brasil. Tínhamos Renan, Xandó, Amauri, Montanaro e outros. O Moreno era um líder. Inclusive ele foi nosso técnico antes do Bebeto (de Freitas) assumir, nos treinou num torneio amistoso no Canadá, após a Olimpíada de Moscou”. Bernardinho, técnico bicampeão olímpico e tricampeão mundial, integrante da geração de prata e companheiro de seleção de 1978 a 1980

José Montanaro

“Ele era uma referência não só pra gente no Brasil, mas no mundo, numa época em que o voleibol não tinha repercussão aqui no país. Quando fui para a seleção adulta, a partir de 1978, ele era o capitão. Olha, o Moreno era um mestre dentro e fora das quadras, ajudou muito na formação da geração de prata. Foi meu técnico mais tarde no Banespa. É uma pessoa de muito valor. O cara era a eficiência em carne e osso, tinha muito conteúdo, inteligente demais, abria nossos horizontes, excelente em todos os fundamentos e ainda atacava com os dois braços”. José Montanaro, colega de Moreno na seleção de 1978 a 1980, foi prata no Mundial 1982 e na Olimpíada 1984

Carlos Arthur Nuzman

“Antônio Carlos Moreno é um dos grandes nomes da história do voleibol brasileiro. Seu equilíbrio e liderança, dentro e fora das quadras, o fizeram um grande capitão da seleção. Respeitado por todos, foi um dos atletas que deixou importante legado para a geração de prata. Moreno só fez amigos no voleibol, sempre conduziu sua carreira com elegância, dignidade e competência. Essas mesmas características ele trouxe para sua vida profissional e hoje realiza extraordinário trabalho no COB, ajudando a formar novos gestores para o esporte brasileiro no Instituto Olímpico Brasileiro”. Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, ex-presidente da CBV, ex-atleta da modalidade

Luiz Eymard

“Imagine um cara diferenciado. Era o Moreno. Ele foi minha primeira referência como atleta. Ainda me lembro da primeira competição ao lado dele, o Campeonato Sul-Americano 1967, em Santos. O Moreno é só um ano mais velho do que eu, mas era o modelo a ser seguido. Tinha um jogo refinado, atacava com os dois braços, se antecipava. O Moreno estimulava todo mundo a tentar ser melhor”. Luiz Eymard Zech Coelho, ex-jogador do Minas Tênis Clube e da seleção brasileira

Marcos Kwiek

“Qualquer garoto que jogasse ou pensasse em jogar vôlei no Brasil nos anos 1970 queria ser o Moreno. Ele é um dos maiores ídolos de todos os tempos do voleibol brasileiro. Infelizmente, quase não há material sobre ele, um atleta que foi reconhecido pelo seu jogo no mundo todo. Moreno foi minha inspiração para entrar no esporte, fazer educação física. Uma pessoa do bem. Ele é o cara”. Marcos Kwiek, técnico do Genter Vôlei Bauru, da seleção feminina da República Dominicana e ex-atleta de Moreno no clube Hebraica, em São Paulo