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Mari: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”
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Sidrônio Henrique

A oposta do Bauru diz que está super tranquila (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

A silhueta esguia surge no corredor que dá acesso à quadra e os fãs que aguardam a loira de 1,90m se agitam ao vê-la de longe, chegando para o treino. Quase cinco anos depois de ter vestido a camisa da seleção brasileira pela última vez, a ponta/oposta Marianne Steinbrecher, 33 anos, ainda causa frisson entre os aficionados por voleibol. É quase impossível ignorá-la, seja por sua simples presença, seja por sua história representando o Brasil.

Foi do céu ao inferno mais de uma vez. Muito jovem, 21 anos recém-completados, marcou 37 pontos na tragédia de Atenas, em 2004, a semifinal olímpica em que o Brasil desperdiçou sete match points e viu a Rússia avançar à final. Começava ali um calvário que acabaria quatro anos depois, na sua maior conquista, o ouro olímpico em Pequim. Calou seus detratores como titular absoluta em uma equipe esférica, beirando à perfeição. Contusões, cirurgias, o corte antes de Londres 2012… Uma carreira atribulada, mas Mari sempre ressurge.

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A forma atual, ela admite, não é a ideal, mas segue se esforçando, lutando contra as limitações físicas. “Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande”, disse ao Saída de Rede.

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O modo como o voleibol feminino é jogado atualmente não a agrada muito. “Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo”. Sobre a renovação na seleção, Mari torce pelo sucesso do time, mas foi taxativa: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”.

Atualmente revezando-se com Bruna Honório na saída de rede, ela tenta ajudar o Genter Vôlei Bauru, clube que passou a integrar em novembro do ano passado, a chegar à semifinal da Superliga, na segunda temporada da equipe na primeira divisão. Logo mais, às 20h30, em Belo Horizonte, o Bauru entra em quadra como visitante contra o Camponesa/Minas para a primeira partida da série melhor de três das quartas de final.

Veja a entrevista que Marianne Steinbrecher concedeu ao SdR:

Saída de Rede – Os fãs ficam muito agitados quando te veem. Faz tempo que você não joga pela seleção, mas segue sendo assunto nas redes sociais e chama muita atenção nos ginásios. A que você atribui isso?
Mari – Acho que simpatizam comigo porque sou uma jogadora diferente. Mas sou mais séria na quadra, fora dela sou completamente diferente do que quando estou jogando. As pessoas não sabem, acham que sou assim o tempo todo e não é verdade, sou brincalhona. Quem me conhece, sabe. Então eu acho que esse jeito diferente, aparentemente mais frio, causa essa curiosidade, né. Também o fato de eu não ser uma brasileira típica. Essas coisas me deixam bem diferente da maioria das jogadoras.

Mari na semifinal de Atenas 2004: bloqueando Gamova e no chão após a derrota (fotos: FIVB)

Saída de Rede – Como avalia seu atual momento na carreira? Está jogando do jeito que gostaria? Como vê sua participação no Bauru?
Mari – Tô voltando numa situação atípica, fiquei muito tempo parada depois da morte do meu pai (1º de abril de 2016). Eu vim num esquema diferente delas (aponta para as colegas de time, na quadra). Eu tenho alguns, não digo privilégios, mas algumas coisas que eu resolvo com o Marcos (Kwiek, treinador do Bauru). Eu tenho que ver minha mãe, que agora é uma senhora paraplégica que mora sozinha (vive em Rolândia-PR, cidade onde a paulistana Mari foi criada), eu tenho todo um esquema um pouco diferente. Mas eu não deixo de treinar, eu treino igual a todo mundo. Eu vim depois, né. Cheguei ao time em novembro, então até eu entrar em ritmo de novo… Até hoje eu não peguei ritmo de jogo. Eu vinha jogando, mas aí eu machuquei o abdome, fiquei um bom tempo parada. Agora tô voltando a treinar. Ainda não estou como eu gostaria, por não ter ritmo de jogo e ter tido também essa lesão no abdome, que me deixou um tempo afastada.

Redenção em Pequim 2008: ouro (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você teve muitas lesões ao longo da carreira. O quanto elas te atrapalharam? Te fizeram mudar a forma de jogar?
Mari – Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Eu tive uma lesão na perna esquerda (joelho esquerdo, em 2013) que eu nunca mais pude cair me apoiando nela como fazia antes, isso me deixou muito travada. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, pensar muito mais para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande. Então foi toda uma adaptação, levou pelo menos dois anos para hoje estar um movimento mais natural. Eu tive vários problemas que a maioria das jogadoras não teve. Tive uma cirurgia no ombro direito ainda muito nova, depois demorou a recuperar. Em 2008 eu já estava OK, mas você tem que ficar sempre cuidando. Teve a cirurgia no joelho direito em 2010, que me tirou do Mundial. Leva sempre um ano (de recuperação) para você estar bem. E nunca mais você fica 100%, você volta bem, mas nunca mais é o joelho como a gente nasceu. Foram várias coisas… Eu aprendi muito a ter superação diante desses problemas. Isso me fez crescer muito como atleta, como pessoa.

Saída de Rede – A temporada anterior, parte na Itália, depois na Indonésia, onde o nível é mais baixo, te atrapalhou de alguma forma?
Mari – Não, foi ótima. O nível delas (jogadoras indonésias) não é o nosso nível, mas o das estrangeiras que vão para lá é muito bom. Tinha as chinesas, jogadoras da seleção delas, que disputaram duas Olimpíadas, e jogaram lá também. A Logan Tom (ponta americana), que estava no meu time, ela estava muito bem. As estrangeiras são diferenciadas, a cobrança em cima da gente na Indonésia era muito grande. Lá a gente atacava 80, 90 bolas por jogo. Se fizéssemos menos de 30 pontos, eles achavam que a gente jogou mal. É um outro tipo de pressão, então fisicamente você tem que estar o tempo inteiro bem. Treinava e jogava sexta, sábado e domingo, não tinha folga… Eles são assim, um pouco fora do normal. (Risos)

No ataque: lesões mudaram sua forma de jogar (fotos: Neide Carlos/Genter Vôlei Bauru)

Saída de Rede – Você ficou decepcionada por não ter sido lembrada na convocação da seleção no ano passado?
Mari – Não chegou a ser decepção porque não esperava nada, não espero nada, mas eu acho que poderia ter sido lembrada pela fase em que eu estava. Eu vinha bem, fisicamente muito bem. Fui pra Indonésia por falta de pagamento (na Itália), não por opção minha. Naquele período não tinha um time pra eu poder me encaixar. Até havia outros times, mas financeiramente não estava valendo a pena em comparação com o que a Indonésia me ofereceu. E eu estava vindo de uma situação sem receber, então não podia pensar só onde jogar, mas na parte financeira também. Eu fiquei mais de cinco meses sem salário na Itália, tendo despesas em euro, e o euro estava quatro e pouco em relação ao real… Tive que optar pela situação financeira que a Indonésia estava oferecendo.

Saída de Rede – O Bolzano (clube italiano pelo qual ela jogou metade da temporada passada) pagou tudo o que te devia?
Mari – Não, não…

Saída de Rede – Eles propuseram algum acordo?
Mari – Eles tão pagando muito picado, sabe. Já tem mais de um ano e até hoje eles me ligam e falam “vamos pagar um pouquinho aqui”. Eu já entendi que eu nunca vou ver a cor do dinheiro realmente.

(Nesse momento, Paula Pequeno, do Terracap/BRB/Brasília Vôlei, que havia treinado e se alongava noutro canto do ginásio do Sesi, em Taguatinga (DF), chega e dá um abraço e um beijo na ex-colega de seleção. As duas foram as ponteiras titulares em Pequim 2008, quando o Brasil conquistou seu primeiro ouro olímpico no vôlei feminino, numa campanha invicta, com oito vitórias e apenas um set perdido.)

Batendo papo com as colegas de time durante intervalo do treino

Saída de Rede – Você já pensou em parar ou faz planos de jogar até uma determinada idade?
Mari – Hoje em dia não tô mais pensando muito nisso, não. Eu acho que fisicamente, apesar dos contratempos, ainda tô super tranquila pra jogar. Tudo depende mais da cabeça hoje em dia, né… Eu vou fazer 34 anos e o que pesa mais não é a parte física, mas sim a cabeça. Sabe, você estar querendo fazer outras coisas, estar descobrindo outras coisas e o vôlei passa a não ser mais o principal foco… Mas eu ainda não cheguei nesse ponto. Quando chegar nesse ponto, vai ser o momento em que vou falar “não quero mais”.

Saída de Rede – Seu contrato com o Bauru vai até o final desta temporada. Onde você se vê na próxima? Pensa em renovação com o clube?
Mari – Eu espero continuar.

Saída de Rede – O que acha da renovação na seleção feminina, das novas jogadoras que substituirão a sua geração?
Mari – Eu acho que o vôlei, comparando a nossa geração com essa de hoje, virou um voleibol masculino: só força, porrada, você não vê mais jogada, você não vê mais jogadoras habilidosas, não vê levantadoras como Fofão e Fernanda Venturini. Pra mim, o vôlei feminino virou um vôlei, digamos, um pouco mais feio. Mais forte, porém mais feio. Modo de dizer, não que seja um vôlei feio. (Risos)

Durante aquecimento na Superliga, ela aguarda sua vez de atacar

Saída de Rede – Com mais potência, com ênfase na parte física?
Mari – Exatamente. Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo. Então nossa renovação está… No mundo, né, no geral tá sendo muito isso.

Saída de Rede – Você acha que as jogadoras jovens cotadas para a seleção podem ajudar a manter o Brasil em alta?
Mari – Ai, prefiro não opinar porque a gente não sabe o que pode acontecer… Assim como minha geração foi um pouco desacreditada, de 2005 até ganhar o ouro olímpico em 2008… Depois na Olimpíada seguinte elas ganharam outro ouro, sabe, esse grupo em que ninguém acreditava, que era chamado de geração amarelona e tal. Isso pode acontecer com essa geração nova. Eu torço pra que isso aconteça, que vençam. Porém, acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração. É pouco provável ter tantas atletas naquele nível nessa geração que está chegando.


Fofão dá risada sobre boato da sua volta às quadras
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Sidrônio Henrique

Fofão deixou as quadras em 2015: vôlei agora somente com os familiares (foto: Alexandre Arruda/CBV)

Parecia uma brincadeira desde o início e afinal era mesmo: Fofão continua longe das quadras e não vai retornar para jogar pelo Olímpico Las Palmas, da liga espanhola. O boato nasceu a partir de uma brincadeira feita pelo próprio clube em suas contas nas redes sociais no dia 28 de dezembro. A data representa na Espanha o Dia dos Santos Inocentes, que é marcado por pegadinhas, assim como o Dia da Mentira (1º de abril) no Brasil. O que nasceu como uma data de celebração religiosa acabou virando um dia de pregar peças. Foi o que o Las Palmas fez e, ainda que desmentisse a brincadeira naquela tarde (o SdR reproduziu o esclarecimento), muita gente ao redor do mundo levou a sério. Fofão, como ela mesma contou ao Saída de Rede, riu com a notícia.

“Uma amiga ligou pra mim e me contou, me deu os parabéns. Eu não entendi nada. Até perguntei ao João Márcio (marido) se ele tinha algo a ver com aquilo”, comentou conosco a ex-levantadora, 46 anos, rindo bastante. “Isso foi ontem (quarta-feira). De repente, um monte de gente telefonando pra me parabenizar, saber se eu ia mesmo”, completou.

O erro do site World of Volley, que foi copiado mundo afora (Reprodução/Internet)

Erro replicado
A demora entre a divulgação da piada e a repercussão teve uma razão. É que somente no dia 4 de janeiro a “notícia” chegou ao site de origem sérvia World of Volley, que tem colaboradores espalhados pela Europa. O WofV levou a sério a broma espanhola e cravou que Fofão voltaria à ativa. Foi o estopim para que sites e blogs ao redor do mundo copiassem a informação, sem o menor critério. O que era para ser uma brincadeira foi tomado como verdade até mesmo no Brasil, causando furor nas redes sociais.

SdR falou também com o clube Olímpico Las Palmas. A assessoria de imprensa do time enfatizou que o Dia dos Santos Inocentes é uma tradição e que as piadas feitas no país naquela data são coisas que ninguém acreditaria, como dizer que o astro do Barcelona Lionel Messi vai jogar no arquirrival Real Madrid. “Nós pensamos em dizer que Fofão jogaria em nosso clube, uma brincadeira clara, pois ela está aposentada há algum tempo e nosso clube não poderia pagar uma atleta do nível dela”, informou a assessoria.

Clube no Brasil
“Tinha gente triste ao telefone porque a Fofão iria embora para a Espanha, até apareceram uns querendo arranjar um time pra ela aqui mesmo no Brasil”, divertiu-se o marido da ex-atleta, João Márcio Pinto.

Vôlei, para ela, somente com os familiares. “Quando os sobrinhos aparecem e dizem ‘vem, tia, joga com a gente’, aí eu jogo”, contou Fofão. Atualmente, ela estuda marketing numa universidade paulista. O casal mora na cidade de São Paulo.

Fofão se despediu das quadras em 2015, aos 45 anos, jogando pelo Rexona, do Rio de Janeiro. Atuou pela seleção brasileira de 1991 a 2008. Conquistou um ouro e dois bronzes nos Jogos Olímpicos. Foi uma das principais jogadoras na campanha vitoriosa de Pequim 2008. Acumulou ainda seis títulos do Grand Prix, além de dois vice-campeonatos mundiais, entre outras medalhas.

Torneios da categoria master? “Olha, me convidam bastante, talvez no futuro eu jogue, agora não, estou concentrada nos meus estudos”, respondeu a campeã olímpica.

Quem viu Fofão em ação pôde testemunhar uma das melhores da posição em todos os tempos. Quem não viu… Bom, o YouTube está aí.

Colaborou Carolina Canossa


Mundial 2006: dez anos de uma revanche frustrada
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João Batista Junior

Em 2006, a seleção brasileira amargou o segundo de três vice-campeonatos mundiais (fotos: FIVB)

Em 2006, a seleção brasileira amargou o segundo de três vice-campeonatos mundiais (fotos: FIVB)

Bicampeã olímpica, a seleção brasileira feminina de vôlei chegou perto três vezes de conquistar o Campeonato Mundial. Foi vice-campeã em 1994, no Ginásio do Ibirapuera, contra Cuba, e duas vezes segunda colocada no Japão, em 2006 e 2010, ambas contra a Rússia.

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A máquina cubana de jogar foi campeã em 1994, com Mireya Luis, Regla Torres, Carvajal & cia., sem perder um único set para ninguém. E em 2010, o time de Gamova e Sokolova, embora tenha precisado reverter um placar de 2 sets a 1 na decisão, atropelou na quarta parcial e viu a seleção verde-amarela desabar depois de um erro da arbitragem num ataque de Sheilla.

Ficou o Mundial de 2006 como a chance mais clara de título para o Brasil, justamente a primeira grande oportunidade para exorcizar o fantasma russo do 24 a 19, que assolava a seleção brasileira desde a semifinal de Atenas 2004.

No entanto, aquela final disputada na quinta-feira,16 de novembro de 2006, em Osaka, não só frustrou a expectativa brasileira de revanche contra as russas como também não fez justiça à excelente campanha do Brasil no Japão.

Vamos relembrar a saga das brasileiras do Campeonato Mundial feminino de Vôlei do Japão 2006:

Jogadoras brasileiras, da esquerda para a direita: (de pé) Mari, Sheilla, Fabiana, Paula e Carol Gattaz, e (sentadas) Walewska, Renatinha, Carol Albuquerque, Fabi, Fofão, Sassá e Jaqueline

Jogadoras brasileiras, da esquerda para a direita: (de pé) Mari, Sheilla, Fabiana, Paula e Carol Gattaz, e (sentadas) Walewska, Renatinha, Carol Albuquerque, Fabi, Fofão, Sassá e Jaqueline

O TIME
O calendário conta dois anos e três meses entre a decepção olímpica e a abertura do Campeonato Mundial do Japão 2006. Depois daquela derrota para a Rússia e do quarto lugar nas Olimpíadas de 2004, a seleção passou por um processo de renovação. Aliás, um vitorioso processo de renovação.

Entre 2005 e 2006, o Brasil venceu as duas edições do Grand Prix bem como as do Torneio de Montreux, e também conquistou, em 2005, o obrigatório Campeonato Sul-Americano e a Copa dos Campeões. A seleção comandada pelo técnico José Roberto Guimarães levantou todos os troféus que disputou nesse período e chegou ao mundial com cinco jogadoras remanescentes de Atenas – as centrais Fabiana e Walewska, a levantadora Fofão, a ponteira Sassá e a atacante Mari (oposta nos Jogos, ponteira no Mundial).

Das outras sete jogadoras, a oposta Sheilla, a ponteira e Paula Pequeno e a líbero Fabi já haviam disputado um mundial: em 2002, quando as principais jogadoras do país queriam a saída do técnico Marco Aurélio Motta e recusaram sua convocação, um time bastante jovem disputou o Mundial da Alemanha e terminou no sétimo lugar.

Já para a ponteira Jaqueline, a levantadora Carol Albuquerque, a oposta Renatinha e central Carol Gattaz, o mundial de 2006 foi a primeira experiência numa competição dessa magnitude.

Ingrid Visser (1977-2013) encara bloqueio de Walewska: jogo duro contra Holanda

Ingrid Visser (1977-2013) encara bloqueio de Walewska: jogo duro contra Holanda

PROBLEMAS COM A HOLANDA, MUDANÇAS NA ESCALAÇÃO
A seleção brasileira disputou a primeira fase do campeonato no grupo C. Nos dois primeiros compromissos, vitórias fáceis por 3 a 0 sobre Porto Rico e Cazaquistão. A terceira partida, porém, levou o técnico José Roberto Guimarães a mudar a equipe.

Além da líbero Fabí, o Brasil tinha Sheilla como titular da saída de rede, Carol Albuquerque no levantamento, Walewska e Carol Gattaz no meio, e Jaqueline e Mari pela entrada de rede – Paula, que dera à luz cinco meses antes, e Sassá eram as ponteiras reservas.

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O panorama mudou quando a antes dócil Holanda ofereceu resistência e chegou a virar contra o Brasil para 2 a 1. Pela marcha dos acontecimentos, as brasileiras, justamente num mundial, se aproximavam da primeira derrota na história para as holandesas. Foi quando Sassá e Fofão entraram no time, respectivamente, no lugar de Mari e Carol Albuquerque, e o time verde-amarelo conquistou a vitória no tie break.

Essa configuração só não foi definitiva, porque Fabiana ocuparia o lugar de Carol Gattaz na equipe titular somente a partir da segunda fase da competição, e também porque Fofão e Carol Albuquerque ainda se revezaram por mais alguns jogos, até que a veterana da armação de jogadas virasse titular definitivamente.

O Brasil encerrou a primeira fase na liderança do grupo, depois de vencer EUA e Camarões por 3 a 0.

Yimei Wang em ação no Mundial de 2006

Yimei Wang em ação no Mundial de 2006

JOGÃO CONTRA A CHINA
A fase posterior promoveu o cruzamento das quatro melhores equipes dos grupos B e C, acumulando da fase inicial os resultados das partidas entre os times classificados. Noutras palavras o Brasil largou com 3 vitórias por ter vencido EUA, Porto Rico e Holanda. Esta nova chave classificaria duas seleções às semifinais, o que fazia dela, com a presença também de Rússia e China, um grupo da morte para ninguém botar defeito!

Depois de uma vitória tranquila sobre o Azerbaijão por 3 sets a 0, o Brasil enfrentou a então campeã olímpica China. O time oriental, é verdade, fazia uma campanha fraca e estava com a corda no pescoço, mas tinha duas jogadoras extraordinárias no elenco: a levantadora Kun Feng, MVP dos Jogos de Atenas, e a jovem oposta Yimei Wang, então com 18 anos de idade, – que ficou conhecida no Brasil pelo pitoresco apelido de “Bebezão”.

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Com uma potência invejável nas cortadas, Wang infernizou a vida das brasileiras e, graças a seus 26 pontos, levou a seleção chinesa a abrir 2 a 0 no placar. A virada brasileira, que contou com 21 acertos de Jaqueline, veio num quinto set decidido em 19-17.

Com a vitória, o Brasil se classificou por antecipação às semifinais e empurrou China para a melancólica disputa do quinto lugar. Foi uma vingança das brasileiras pela eliminação para as chinesas, também num tie break, no Mundial de 2002.

PRÉVIA INAMISTOSA
Com a vitória sobre a Alemanha por 3 a 0 no penúltimo jogo daquele estágio, o Brasil enfrentou a Rússia na última rodada da segunda fase numa partida que valeria, apenas, para saber quem enfrentaria Sérvia e Montenegro e quem pegaria a Itália nas semifinais.

Apesar da ascensão das sérvias e do título de 2002 que as italianas defendiam, estava claro que o chaveamento não importaria muito e que, no fundo, aquele Brasil vs. Rússia era uma prévia da final ou, noutra hipótese, um amistoso de luxo para as duas melhores seleções do campeonato.

Além de Sokolova, que foi poupada da partida, a ideia de “amistoso” também não entrou em quadra naquele dia.

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Diante de uma discreta Gamova, que assinalou 11 pontos, o Brasil venceu de virada por 3 sets a 1, com 20 anotações de Sheilla. O momento mais marcante do jogo, no entanto, foi uma áspera discussão entre Fabiana e as russas depois de um bloqueio sofrido pela brasileira no quarto set. Mesmo num jogo que não valia muito, estava demonstrado que a rivalidade da década anterior, entre brasileiras e cubanas, dera lugar a outro duelo de gigantes.

As semifinais correram dentro das previsões: as russas atropelaram as italianas em sets diretos, as brasileiras bateram as sérvio-montenegrinas por 3 sets a 1, e a final, afinal, reeditaria a maldita semifinal de Atenas.

Fofão levanta sob olhar atento de Gamova

Fofão levanta sob olhar atento de Gamova

Era a segunda decisão entre Brasil e Rússia naquele ano. Dois meses antes, em Reggio Calabria, na Itália, as brasileiras conquistaram o Grand Prix com uma vitória por 3 a 1 sobre as russas. Fora a segunda vitória verde-amarela sobre as russas naquele torneio.

Assim, somadas as vitórias no GP e o 3 a 1 na segunda fase do Mundial, o Brasil chegava à final do campeonato com três vitórias consecutivas sobre a Rússia em jogos oficiais. Tudo era propício para que o time se redimisse da perda da vaga para a final olímpica com uma faixa de campeã mundial. Mas era a Rússia de Gamova do outro lado.

TÃO PERTO…
Brasil e Rússia entraram em quadra naquele 16 de novembro de 2006 sem desfalques. O técnico José Roberto Guimarães escalou Fofão, Sheilla, Fabiana, Walewska, Jaqueline, Sassá e Fabi, enquanto o italiano Giovanni Caprara alinhou a Rússia com Akulova, Gamova, Borodakova, Merkulova, Godina, Sokolova e Kryuchkova.

A seleção brasileira começou arrasadora: em 21 minutos, venceu o primeiro set por 25 a 15. A resposta russa apareceu em seguida: com parciais de 25-23 e 25-18, as russas viraram o placar e ficaram a um set de conquistar um título que não vinha desde os tempos da URSS, em 1990.

Gamova celebra, em 2006, o primeiro dos dois mundiais que venceu com a Rússia

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O Brasil voltou para a partida com Mari no lugar de Sassá e venceu a quarta parcial por 25-20. Pela segunda vez consecutiva, o mundial feminino seria decidido em cinco sets.

Num tie break equilibrado, o Brasil abriu 13 a 11 com um erro de ataque de Sokolova pela saída de rede. A matemática do vôlei diz que, a partir daí, as brasileiras só dependiam da virada de bola para conquistar o título mundial. Contudo, nesse momento do rodízio, a seleção tinha apenas duas atacantes na rede (Jaqueline e Walewska) contra três russas e foi essa a matemática que prevaleceu.

Em dois erros de ataque de Sheilla, que marcou 22 pontos no jogo, a Rússia empatou o quinto set. Em seguida, Jaqueline, que fez 19 pontos, parou no bloqueio de Merkulova e o primeiro match point do jogo era europeu. Primeiro e único, porque, com um erro de passe do Brasil, Gamova, de xeque, marcou seu 28º ponto na partida e fechou o campeonato mundial.

A seleção brasileira feminina de vôlei precisou esperar dois anos para conquistar o ouro em Pequim e acabar com a injusta fama de equipe “amarelona”, e só em 2012, num tie break enfartante em Londres, foi que se vingou da Rússia e de Gamova. Mas ainda falta um título mundial, um prêmio que, há exatos dez anos, esteve a dois pontos de vir para o Brasil.


Discurso de Zé Roberto contraria necessidade de renovação
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Sidrônio Henrique

Zé Roberto fez um excelente trabalho contra a Holanda (Foto: Divulgação/FIVB)

José Roberto Guimarães está no comando da seleção feminina desde 2003 (Fotos: FIVB)

Renovar uma equipe considerada potência, saber a hora de deixar de lado grandes nomes certamente não são tarefas fáceis, mas isso inevitavelmente ocorre nas principais seleções e não seria diferente com o time feminino do Brasil. O técnico José Roberto Guimarães, tricampeão olímpico, foi confirmado na semana passada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) no comando da seleção feminina até a Olimpíada de Tóquio 2020, mas entre as diversas declarações dadas à imprensa pelo treinador uma causa certa preocupação. “Não estou convencido de que algumas jogadoras não possam vir a jogar pela seleção. São jovens e privilegiadas no aspecto físico, a tentativa de fazê-las jogar sempre vai existir. A Sheilla e a Fabiana têm bola para continuar jogando”, afirmou Zé Roberto, durante entrevista coletiva.

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No caminho para a Rio 2016, o técnico optou por correr o menor risco possível e mexeu pouco na equipe ao longo do ciclo, além de tomar decisões no mínimo arriscadas, como incluir apenas uma oposta de ofício, Sheilla, longe da sua melhor forma, e ainda levar a levantadora Fabíola à Olimpíada apenas dois meses e meio após ela dar à luz. Espera-se, portanto, que Zé Roberto não assuma essa mesma postura na nova fase de seu trabalho com a CBV. A central e capitã Fabiana e a oposta Sheilla já declararam que não vestirão mais a camisa amarela para cuidar da vida pessoal. Thaísa, por sua vez, deu sinais claros de que sua relação com o técnico está desgastada e pode seguir o mesmo caminho. Outras jogadoras, como Jaqueline e Dani Lins, ainda não deram uma resposta definitiva para a questão.

"Trenzinho" para cumprimentar a torcida é a marca registrada da seleção feminina na Rio 2016 (Fotos: FIVB)

Fabiana e Sheilla deram adeus à seleção, Dani Lins ainda não se decidiu

Antecedentes
Não é a primeira vez que o treinador insiste com quem afirma já ter dado sua contribuição à seleção. Ele demonstrou dificuldade para desapegar de atletas veteranas, tendo pedido mais de uma vez para a levantadora Fofão seguir após o ouro de Pequim 2008, além de ter chamado a central Walewska para a Copa dos Campeões 2013.

Possível substituta de Sheilla tem história de superação e já acumula fãs

Independentemente da boa forma, como era o caso de Walewska, a seleção é, antes de tudo, um grande compromisso – Walewska, ainda hoje jogando em alto nível, disse mais de uma vez que seu ciclo com a seleção já havia se encerrado e que isso era algo muito bem resolvido para ela. Bicampeã olímpica, a líbero Fabi despediu-se da seleção e colocou um ponto final em sua bela história com a equipe.

Motivação e rendimento
Talvez Fabiana ainda tenha algo a oferecer, afinal ela e Thaisa formam uma das melhores duplas de meios de rede de todos os tempos. Mas será que Fabiana, que disse adeus à seleção após a derrota para a China no Maracanãzinho e terá 35 anos em Tóquio 2020, ainda tem motivação para estar no time e continuará a render? Não dá para comparar eventuais novatas com grandes veteranas, mas sem rodagem as mais jovens nunca despontarão.

Campanha chinesa no Rio só conheceu duas vitórias em cinco jogos (fotos: FIVB)

Campeã na Rio 2016, seleção chinesa apostou na renovação

No caso de Sheilla, que disputou sua primeira grande competição com a seleção no Mundial 2002, seria mesmo ela privilegiada no aspecto físico, como disse Zé Roberto? Por mais importante que tenha sido Sheilla (jamais serão esquecidas suas atuações em Pequim 2008 e em Londres 2012), não seria o momento de dar espaço para novas opções, tendo quatro anos para avaliações até Tóquio 2020? Sheilla foi reserva na temporada de clubes mais recente e, por decisão sua, não jogará na próxima. Na Olimpíada de 2020 ela terá 37 anos.

Menos mal que o técnico, no comando da seleção feminina desde 2003, também parece estar de olho nas mais jovens. “Na base temos jogadoras novas aparecendo, acho que temos um futuro promissor pela frente”, disse durante a coletiva. Adversários na busca por títulos, como China, Sérvia e Estados Unidos, investem constantemente em renovação. Não é mudar simplesmente por mudar. Renovar exige planejamento e sabemos que Zé Roberto tem uma equipe capaz de assisti-lo nesse processo, além da sua inegável competência. O problema está na insistência em nomes que já deram o seu melhor, fizeram muito pela seleção e inclusive disseram adeus. Para que surjam jogadoras capazes de defender o Brasil, elas precisam de espaço.


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