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Juciely desafia o tempo e segue como referência no esporte
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Sidrônio Henrique

Juciely conquistou mais uma Superliga este ano (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

Com velocidade e tempo de bloqueio impressionantes, eficiente no ataque, Juciely Barreto é, aos 36 anos, referência entre as meios de rede brasileiras. Não se surpreenda se o técnico José Roberto Guimarães convocá-la para a seleção neste ciclo. Juciely desafia o tempo. Terá 39 anos em Tóquio 2020. Mesma idade que a também central americana Danielle Scott tinha em Londres 2012. “Eu penso nela, viu”, diz ao Saída de Rede a mineira da cidade de João Monlevade, admitindo que a estrangeira duas vezes vice-campeã olímpica é um exemplo. “Quando reflito sobre quanto chão teremos até lá, pergunto a mim mesma: ‘será que dá?’ Hoje em dia a resposta é ‘não sei’, mas até bem pouco tempo era ‘não’. Se o Zé Roberto me chamar, vamos conversar”.

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Quem acompanhou a decisão da Superliga 2016/2017, domingo passado, com a vitória do Rexona-Sesc por 3-2 sobre o Vôlei Nestlé, a viu fazer a diferença na reta final da partida. Só no tie break foram seis pontos, o último deles marcado quando sua equipe chegou a nove no placar e ela foi para o saque. Ao longo do torneio, a veterana esbanjou regularidade e muitas vezes foi o desafogo da levantadora Roberta Ratzke. “Eu peço bola mesmo, quero ajudar. Ali no tie break era a nossa temporada resumida em 15 pontos”, relembra.

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Jucy sabe que a renovação deve ser a tônica na seleção, mas sem deixar de lado a experiência de algumas peças, numa mescla que possa garantir sucesso. Contra si, além do tempo que ela insiste em desafiar, a exigência constante de esforço extra diante dos ataques e bloqueios mais altos no cenário internacional. Se a convocação não vier, segue a vida no clube. Já são sete temporadas no atual Rexona-Sesc – venceu seis Superligas com o time carioca (já havia ganhado uma com o Minas Tênis Clube) e deve permanecer. Parar não está em seus planos.

Vôlei entrou tarde em sua vida
Ser apontada como uma das principais centrais do País parece estranho para alguém com um minguado 1,84m e que descobriu o voleibol tão tarde. Tinha 18 anos quando, em 1999, começou no Usipa, clube de Ipatinga (MG), a pouco mais de 100 quilômetros de João Monlevade, onde vivia com os pais, que moram lá até hoje. “Eu brincava de vôlei na escola, gostava, mas não pensava em ser jogadora. Até que alguém me viu e fui parar no Usipa, achavam que eu tinha que ser central”, conta a atleta.

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Em 2000 foi para o Macaé. Chamou a atenção do Minas Tênis Clube e no ano seguinte seguiu para a tradicional equipe de Belo Horizonte – um timaço onde jogavam, entre outras, Fofão, Cristina Pirv, Ângela Moraes, Érika, Elisângela e Ana Maria Volponi, além das juvenis Fabiana e Sheilla, sob o comando do treinador Antônio Rizola. Ganharam a Superliga derrotando o BCN Osasco de José Roberto Guimarães na final.

Ângela Moraes lidera volta olímpica em 2002 no Mineirinho: ídolo de Juciely (foto: CBV)

Pouco experiente, estando apenas na sua terceira temporada na modalidade, treinava mais do que jogava. Encontrou naquele time, na época MRV Minas, seu grande ídolo no vôlei: a central Ângela Moraes, de 1,81m. “Eu parava só para ficar olhando ela treinar. A Ângela me influenciou de todas as formas, eu ficava tentando fazer tudo igualzinho a ela, que atacava uma china linda, incrível na velocidade de perna e de braço. Ela tinha também uma bola de dois tempos que era única: ela quicava no tempo frente e atacava uma chutada. Essa eu tentei fazer muitas vezes e nunca consegui”, conta Juciely.

Oposta?
No segundo ano no MRV Minas não jogou, apenas treinava. “Queriam me transformar em oposta, diziam que eu era baixa demais para ser meio de rede, mas eu não levava jeito para atacar na saída. Tenho todos os cacoetes de atacante de meio, tinha que ser central, apesar de pequena”. A baixa estatura é compensada com velocidade e impulsão. Aliás, a jogadora do Rexona-Sesc diz que não sabe o quanto salta. “Não sei qual é a minha impulsão ou o meu alcance, mas sei que salto bastante”. Os dados no site da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) estão longe da realidade.

Fique por dentro do mercado do vôlei

Passou uma temporada em Osasco, depois foram duas no Brasil Telecom, de Brasília. Voltou ao Minas para mais um ano. Então, no período seguinte, 2008/2009, novamente no Brasil Telecom, desta vez em Brusque (SC), ela acredita que explodiu de vez. “A partir daquela temporada em Brusque, comecei a jogar bem mesmo”. A equipe contava com jogadoras como Fabíola e Elisângela. Ao lado de Nati Martins, atualmente no Vôlei Nestlé, Juciely formava a dupla de centrais titulares.

Com o troféu da Superliga 2016/2017 (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

Despertando o interesse de Bernardinho
O Brasil Telecom quase foi responsável por uma das maiores zebras da história da Superliga. Após eliminar o Pinheiros nas quartas de final, o time de Brusque encarou simplesmente na série melhor de três partidas da semifinal a equipe de Bernardinho, na época Rexona-Ades. O primeiro jogo, em Santa Catarina, foi vencido pelo Brasil Telecom por 3-2. No seguinte, em pleno Tijuca Tênis Clube, no Rio, a equipe visitante abriu 2-0, para desespero do técnico multicampeão. O Rexona viraria a partida e venceria o jogo seguinte, mas o adversário impôs respeito. Jucy chamou tanto a atenção que recebeu um convite de Bernardinho para jogar no Rio de Janeiro.

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“Minha pontuação no ranking das atletas não me ajudou e eu não me encaixava no Rexona. Fui jogar na temporada seguinte no São Caetano/Blausiegel, que tinha também a Fofão, a Sheilla, a Mari”, recorda a central.

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Porém, no período 2010/2011, finalmente pôde jogar no Rexona. “Aquele time patrocinado pela Blausiegel acabou e fomos Sheilla, Mari e eu jogar no Rio, treinadas pelo Bernardinho”. Começava para Juciely uma história que segue até hoje. Várias atletas entraram e saíram da equipe, mas a meio de rede mineira segue firme.

Recebendo prêmio de melhor central no GP 2015 (foto: FIVB)

Primeira convocação e cortes
Após sua temporada inicial no Rexona, veio também sua primeira convocação para a seleção adulta – jamais havia sido chamada nas categorias de base. “Com o Bernardo cresci a ponto de me tornar uma atleta da seleção brasileira. O Zé Roberto apontou muitos caminhos, me deu soluções quando comecei a disputar jogos internacionais, onde a realidade é completamente diferente. São grandes técnicos”, elogia Jucy, sem esquecer de afagar os dois.

Dos cortes sofridos na seleção, ela fala com resignação. “É algo doloroso, é um sonho que fica para trás, mas é um risco com o qual o atleta convive”.

Ficar fora da Olimpíada de Londres, em 2012, “doeu demais”, admite a atleta, que no entanto ressalta: “Apesar de ter sofrido, tinha consciência que a Adenízia estava melhor, ela vinha jogando muito bem”. O corte da lista de jogadoras que foi ao Mundial 2014 era esperado, pois Juciely sofria com uma lesão no joelho esquerdo.

Alegria e tristeza na Rio 2016
A participação na Rio 2016, apesar do desfecho triste, com a queda diante da China nas quartas de final, é lembrada com carinho por ser a única em Jogos Olímpicos. “Quando você entra na vila olímpica, percebe que aquele sonho se realizou”. A presença dos pais e dos amigos no Maracanãzinho foi extremamente importante para ela.

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Questionada se a chave muito tranquila da primeira fase na Olimpíada havia preparado suficientemente o time para o duelo nas quartas, ela rebate: “Tínhamos consciência de que o mata-mata seria muito difícil. A (ponteira) Ting Zhu saiu do passe no segundo set, a (técnica) Lang Ping fez umas mudanças e a gente não conseguiu mais acompanhar o ritmo delas”.

Juciely comemora um ponto durante a Rio 2016 (foto: FIVB)

Saque perdido
A central fica com a voz embargada quando relembra o saque desperdiçado no final do tie break diante da China. O Brasil perdia por 11-12 das orientais e Juciely, no serviço, buscou uma paralela, mas a bola foi para fora – a oposta Sheilla Castro erraria outro no rodízio seguinte.

“O meu erro ainda me revolta. Como pude errar aquele saque? Não dormi aquela noite, chorei muito. Nos dias seguintes, sempre que alguém me abordava, falando do jogo, eu caía no choro. Fui pro interior do Rio, um lugar onde ninguém me conhecia, depois fui pra Minas, ficar com meus pais. Nós todas (jogadoras) procuramos respostas para aquela derrota contra a China e não temos. As chinesas jogaram demais”, afirma Jucy.

Mundial de Clubes
O foco agora é o Mundial de Clubes, de 9 a 14 de maio, em Kobe, no Japão. A chave, com o VakifBank da Turquia e o Dínamo Moscou, é complicada, mas ela se mantém otimista, mesmo sabendo o quanto é difícil enfrentar bloqueios mais elevados ou tentar conter atacantes mais altas. “É outro nível, muito puxado, tenho que me desdobrar. No Grand Prix 2015 ganhei o prêmio de melhor central e fiquei me perguntando como poderia ter sido a melhor no meio de tanta mulher alta”. Às vezes não é preciso ser alta para ser grande.


Rio x Osasco: relembre cinco protagonistas em decisões de Superliga
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João Batista Junior

Mari foi um dos destaques do Osasco (imagem: UOL)

Quando Rexona-Sesc e Vôlei Nestlé entrarem em quadra na manhã do domingo, será a 11ª vez que Rio e Osasco decidem a Superliga feminina. Da temporada 2004/2005 para cá, só em duas ocasiões a final do campeonato nacional não foi disputada entre as duas equipes. A vantagem na contabilidade desse duelo é carioca, com sete títulos contra três das osasquenses.

A dois dias de mais uma final na história do clássico do voleibol brasileiro, o Saída de Rede relembra cinco jogadoras que se destacaram nas partidas decisivas entre Rio e Osasco.

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Mari
Num tempo em que a final do campeonato não era em jogo único, mas em melhor de cinco, Mari foi um dos grandes nomes do Finasa/Osasco na conquista do troféu da temporada 2004/2005. A equipe contava com Carol Albuquerque, Paula Pequeno, Arlene, Valeskinha, Érika e era dirigida por José Roberto Guimarães. A MVP do Grand Prix 2008, que mais tarde migraria para a entrada de rede, ainda atuava como oposta.

No playoff decisivo diante do Rexona – que tinha Fernanda Venturini, Leila, Sassá, Jaqueline, Fabiana –, o time paulista abriu 1 a 0 na série, com uma vitória por 3 a 2 no Rio. No jogo 2, em Osasco, partida que deixou o time da casa muito perto da conquista, Mari protagonizou um lance dos mais polêmicos: com 18 a 17 para as visitantes no tie break, ela atacou para fora uma bola pela entrada de rede. Enquanto o segundo árbitro marcou ponto para o time carioca, o primeiro refutou a anotação de seu colega de arbitragem e deu desvio no bloqueio.

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As reclamações do Rexona, como se supõe, foram veementes, mas o jogo prosseguiu e set acabou com 25-23 para Osasco, com Mari sendo eleita a melhor jogadora em quadra.

A disputa acabou no jogo 3, com uma fácil vitória osasquense por 3 a 0 no Ginásio Caio Martins, em Niterói.

Ao lado de Gabi, Fofão exibe medalha do decacampeonato do Rexona (Alexandre Arruda/CBV)

Fofão
A longeva carreira de Fofão terminou em maio de 2015, com 44 anos de idade, no Mundial feminino de Clubes, em Zurique. Sua despedida das quadras brasileiras, no entanto, ocorreu algumas semanas antes, como campeã da Superliga.

Líder com folga na fase classificatória, tudo levava a crer que o Rexona-AdeS não deixaria escapar o decacampeonato nacional naquele ano. Embora não tivesse encontrado uma oposta confiável em toda a campanha, o time contava com a distribuição de bolas e a qualidade no levantamento de Fofão.

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A decisão em jogo único foi disputada na Arena da Barra (o mesmo palco da final deste domingo, agora rebatizada como “Jeunesse Arena”), no Rio. Além da tradição e rivalidade de cariocas e osasquenses, havia em jogo um duelo particular: pelo segundo ano consecutivo, as levantadoras campeãs olímpicas como titulares da seleção, Fofão (2008) e Dani Lins (2012), se enfrentavam na final. E, assim como em 2014 (ano em que Dani defendia o Sesi), foi a medalhista de ouro de Pequim quem levou a melhor.

O time da casa atropelou o Osasco (então, Molico/Nestlé) e venceu por 3 a 0, em pouco mais de uma hora e meia de partida. E Fofão, capitã da equipe, encerrou sua história nas Superligas levantando o troféu da temporada 2014/2015.

Hooker brilhou no título do Osasco, na temporada 2011/12 (João Pires/Vipcomm)

Destinee Hooker
Principal atacante da Seleção dos EUA em todo o ciclo olímpico para Londres 2012, a oposta Destinee Hooker atuou pelo Osasco (então, Sollys/Nestlé) na temporada 2011/2012 da Superliga. Foi uma passagem rápida e vitoriosa pela equipe paulista.

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Jogadora mais eficiente no ataque em toda a competição, Hooker brilhou na final do campeonato. Em pleno Maracanãzinho, a norte-americana não deu chance à defesa da Unilever e anotou 20 pontos, com mais de 50% de aproveitamento nas cortadas. O jogo durou menos de 1h20 e terminou com 3 a 0 para Osasco. Como curiosidade, vale dizer que esse foi o último jogo de Fernanda Venturini, que jogava no time do Rio, no voleibol.

Sarah Pavan foi bicampeã da Superliga pela Unilever (Reprodução/internet)

Sarah Pavan
Se o Osasco levantou o troféu em 2012 com uma oposta dos Estados Unidos, na temporada 2012/2013, foi a vez de a Unilever buscar reforço na América do Norte. Vinda de uma boa passagem no voleibol italiano, a oposta canadense Sarah Pavan (que disputou as Olimpíadas do Rio 2016 no vôlei de praia) correspondeu às expectativas do torcedor carioca.

A decisão daquele ano, que tinha gosto de revanche para o time comandando por Bernardinho, foi em São Paulo, no Ibirapuera. O Sollys/Nestlé tinha várias jogadoras da seleção campeã de Londres 2012 (Fernanda Garay, Sheilla, Adenizia, Thaisa e Jaqueline) e chegou a abrir 2 a 0. Contudo, uma reação rápida e furiosa devolveu à Unilever o trono do vôlei feminino brasileiro – e, até aqui, não o perdeu mais, conquistando ainda os outros três nacionais disputados desde então.

Terceira pontuadora daquele campeonato, Pavan marcou 22 pontos na partida e brilhou junto com Natália. No ano seguinte, mesmo sem se destacar tanto na final, a canadense se despediu da torcida do Brasil com uma vitória sobre o Sesi e mais um título na conta do clube carioca.

Natália já se destacou pelos dois lados do clássico (divulgação; FIVB)

Natália
Não é estranho encontrar jogadoras no vôlei brasileiro que contabilizem passagens tanto pelo Rio quanto pelo Osasco. Também não é raro notar campeãs pelas duas equipes. Mas destaque, mesmo, em finais pelos dois lados, talvez só Natália.

Jogadora a jogadora, quem leva a melhor no Rexona x Vôlei Nestlé?

Na decisão da temporada 2009/2010, um famoso cartão amarelo no terceiro set despertou uma gigantesca Natália, na partida entre Sollys/Osasco e Unilever, no Ibirapuera. Jogando na saída de rede, a atacante marcou 28 pontos e foi a maior anotadora na vitória osasquense por 3 sets a 2.

Já na final da temporada 2012/2013, a mesma em que Sarah Pavan foi destaque, Natália também assinalou 22 pontos e ajudou a Unilever a levantar o título. Foi sua primeira grande atuação desde as duas cirurgias na perna, em 2011, para retirar um tumor.

Sua recuperação total só se confirmou na temporada 2014/2015, quando foi a principal atacante do Rexona-AdeS no título conquistado sobre o Osasco – confronto que rendeu o último troféu a Fofão. Natália, na ocasião, obteve 16 acertos e foi a pontuadora máxima da peleja.

E em 2017, quem você acha que será protagonista no clássico?


Mari: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”
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Sidrônio Henrique

A oposta do Bauru diz que está super tranquila (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

A silhueta esguia surge no corredor que dá acesso à quadra e os fãs que aguardam a loira de 1,90m se agitam ao vê-la de longe, chegando para o treino. Quase cinco anos depois de ter vestido a camisa da seleção brasileira pela última vez, a ponta/oposta Marianne Steinbrecher, 33 anos, ainda causa frisson entre os aficionados por voleibol. É quase impossível ignorá-la, seja por sua simples presença, seja por sua história representando o Brasil.

Foi do céu ao inferno mais de uma vez. Muito jovem, 21 anos recém-completados, marcou 37 pontos na tragédia de Atenas, em 2004, a semifinal olímpica em que o Brasil desperdiçou sete match points e viu a Rússia avançar à final. Começava ali um calvário que acabaria quatro anos depois, na sua maior conquista, o ouro olímpico em Pequim. Calou seus detratores como titular absoluta em uma equipe esférica, beirando à perfeição. Contusões, cirurgias, o corte antes de Londres 2012… Uma carreira atribulada, mas Mari sempre ressurge.

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A forma atual, ela admite, não é a ideal, mas segue se esforçando, lutando contra as limitações físicas. “Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande”, disse ao Saída de Rede.

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O modo como o voleibol feminino é jogado atualmente não a agrada muito. “Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo”. Sobre a renovação na seleção, Mari torce pelo sucesso do time, mas foi taxativa: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”.

Atualmente revezando-se com Bruna Honório na saída de rede, ela tenta ajudar o Genter Vôlei Bauru, clube que passou a integrar em novembro do ano passado, a chegar à semifinal da Superliga, na segunda temporada da equipe na primeira divisão. Logo mais, às 20h30, em Belo Horizonte, o Bauru entra em quadra como visitante contra o Camponesa/Minas para a primeira partida da série melhor de três das quartas de final.

Veja a entrevista que Marianne Steinbrecher concedeu ao SdR:

Saída de Rede – Os fãs ficam muito agitados quando te veem. Faz tempo que você não joga pela seleção, mas segue sendo assunto nas redes sociais e chama muita atenção nos ginásios. A que você atribui isso?
Mari – Acho que simpatizam comigo porque sou uma jogadora diferente. Mas sou mais séria na quadra, fora dela sou completamente diferente do que quando estou jogando. As pessoas não sabem, acham que sou assim o tempo todo e não é verdade, sou brincalhona. Quem me conhece, sabe. Então eu acho que esse jeito diferente, aparentemente mais frio, causa essa curiosidade, né. Também o fato de eu não ser uma brasileira típica. Essas coisas me deixam bem diferente da maioria das jogadoras.

Mari na semifinal de Atenas 2004: bloqueando Gamova e no chão após a derrota (fotos: FIVB)

Saída de Rede – Como avalia seu atual momento na carreira? Está jogando do jeito que gostaria? Como vê sua participação no Bauru?
Mari – Tô voltando numa situação atípica, fiquei muito tempo parada depois da morte do meu pai (1º de abril de 2016). Eu vim num esquema diferente delas (aponta para as colegas de time, na quadra). Eu tenho alguns, não digo privilégios, mas algumas coisas que eu resolvo com o Marcos (Kwiek, treinador do Bauru). Eu tenho que ver minha mãe, que agora é uma senhora paraplégica que mora sozinha (vive em Rolândia-PR, cidade onde a paulistana Mari foi criada), eu tenho todo um esquema um pouco diferente. Mas eu não deixo de treinar, eu treino igual a todo mundo. Eu vim depois, né. Cheguei ao time em novembro, então até eu entrar em ritmo de novo… Até hoje eu não peguei ritmo de jogo. Eu vinha jogando, mas aí eu machuquei o abdome, fiquei um bom tempo parada. Agora tô voltando a treinar. Ainda não estou como eu gostaria, por não ter ritmo de jogo e ter tido também essa lesão no abdome, que me deixou um tempo afastada.

Redenção em Pequim 2008: ouro (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você teve muitas lesões ao longo da carreira. O quanto elas te atrapalharam? Te fizeram mudar a forma de jogar?
Mari – Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Eu tive uma lesão na perna esquerda (joelho esquerdo, em 2013) que eu nunca mais pude cair me apoiando nela como fazia antes, isso me deixou muito travada. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, pensar muito mais para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande. Então foi toda uma adaptação, levou pelo menos dois anos para hoje estar um movimento mais natural. Eu tive vários problemas que a maioria das jogadoras não teve. Tive uma cirurgia no ombro direito ainda muito nova, depois demorou a recuperar. Em 2008 eu já estava OK, mas você tem que ficar sempre cuidando. Teve a cirurgia no joelho direito em 2010, que me tirou do Mundial. Leva sempre um ano (de recuperação) para você estar bem. E nunca mais você fica 100%, você volta bem, mas nunca mais é o joelho como a gente nasceu. Foram várias coisas… Eu aprendi muito a ter superação diante desses problemas. Isso me fez crescer muito como atleta, como pessoa.

Saída de Rede – A temporada anterior, parte na Itália, depois na Indonésia, onde o nível é mais baixo, te atrapalhou de alguma forma?
Mari – Não, foi ótima. O nível delas (jogadoras indonésias) não é o nosso nível, mas o das estrangeiras que vão para lá é muito bom. Tinha as chinesas, jogadoras da seleção delas, que disputaram duas Olimpíadas, e jogaram lá também. A Logan Tom (ponta americana), que estava no meu time, ela estava muito bem. As estrangeiras são diferenciadas, a cobrança em cima da gente na Indonésia era muito grande. Lá a gente atacava 80, 90 bolas por jogo. Se fizéssemos menos de 30 pontos, eles achavam que a gente jogou mal. É um outro tipo de pressão, então fisicamente você tem que estar o tempo inteiro bem. Treinava e jogava sexta, sábado e domingo, não tinha folga… Eles são assim, um pouco fora do normal. (Risos)

No ataque: lesões mudaram sua forma de jogar (fotos: Neide Carlos/Genter Vôlei Bauru)

Saída de Rede – Você ficou decepcionada por não ter sido lembrada na convocação da seleção no ano passado?
Mari – Não chegou a ser decepção porque não esperava nada, não espero nada, mas eu acho que poderia ter sido lembrada pela fase em que eu estava. Eu vinha bem, fisicamente muito bem. Fui pra Indonésia por falta de pagamento (na Itália), não por opção minha. Naquele período não tinha um time pra eu poder me encaixar. Até havia outros times, mas financeiramente não estava valendo a pena em comparação com o que a Indonésia me ofereceu. E eu estava vindo de uma situação sem receber, então não podia pensar só onde jogar, mas na parte financeira também. Eu fiquei mais de cinco meses sem salário na Itália, tendo despesas em euro, e o euro estava quatro e pouco em relação ao real… Tive que optar pela situação financeira que a Indonésia estava oferecendo.

Saída de Rede – O Bolzano (clube italiano pelo qual ela jogou metade da temporada passada) pagou tudo o que te devia?
Mari – Não, não…

Saída de Rede – Eles propuseram algum acordo?
Mari – Eles tão pagando muito picado, sabe. Já tem mais de um ano e até hoje eles me ligam e falam “vamos pagar um pouquinho aqui”. Eu já entendi que eu nunca vou ver a cor do dinheiro realmente.

(Nesse momento, Paula Pequeno, do Terracap/BRB/Brasília Vôlei, que havia treinado e se alongava noutro canto do ginásio do Sesi, em Taguatinga (DF), chega e dá um abraço e um beijo na ex-colega de seleção. As duas foram as ponteiras titulares em Pequim 2008, quando o Brasil conquistou seu primeiro ouro olímpico no vôlei feminino, numa campanha invicta, com oito vitórias e apenas um set perdido.)

Batendo papo com as colegas de time durante intervalo do treino

Saída de Rede – Você já pensou em parar ou faz planos de jogar até uma determinada idade?
Mari – Hoje em dia não tô mais pensando muito nisso, não. Eu acho que fisicamente, apesar dos contratempos, ainda tô super tranquila pra jogar. Tudo depende mais da cabeça hoje em dia, né… Eu vou fazer 34 anos e o que pesa mais não é a parte física, mas sim a cabeça. Sabe, você estar querendo fazer outras coisas, estar descobrindo outras coisas e o vôlei passa a não ser mais o principal foco… Mas eu ainda não cheguei nesse ponto. Quando chegar nesse ponto, vai ser o momento em que vou falar “não quero mais”.

Saída de Rede – Seu contrato com o Bauru vai até o final desta temporada. Onde você se vê na próxima? Pensa em renovação com o clube?
Mari – Eu espero continuar.

Saída de Rede – O que acha da renovação na seleção feminina, das novas jogadoras que substituirão a sua geração?
Mari – Eu acho que o vôlei, comparando a nossa geração com essa de hoje, virou um voleibol masculino: só força, porrada, você não vê mais jogada, você não vê mais jogadoras habilidosas, não vê levantadoras como Fofão e Fernanda Venturini. Pra mim, o vôlei feminino virou um vôlei, digamos, um pouco mais feio. Mais forte, porém mais feio. Modo de dizer, não que seja um vôlei feio. (Risos)

Durante aquecimento na Superliga, ela aguarda sua vez de atacar

Saída de Rede – Com mais potência, com ênfase na parte física?
Mari – Exatamente. Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo. Então nossa renovação está… No mundo, né, no geral tá sendo muito isso.

Saída de Rede – Você acha que as jogadoras jovens cotadas para a seleção podem ajudar a manter o Brasil em alta?
Mari – Ai, prefiro não opinar porque a gente não sabe o que pode acontecer… Assim como minha geração foi um pouco desacreditada, de 2005 até ganhar o ouro olímpico em 2008… Depois na Olimpíada seguinte elas ganharam outro ouro, sabe, esse grupo em que ninguém acreditava, que era chamado de geração amarelona e tal. Isso pode acontecer com essa geração nova. Eu torço pra que isso aconteça, que vençam. Porém, acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração. É pouco provável ter tantas atletas naquele nível nessa geração que está chegando.


Fofão dá risada sobre boato da sua volta às quadras
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Sidrônio Henrique

Fofão deixou as quadras em 2015: vôlei agora somente com os familiares (foto: Alexandre Arruda/CBV)

Parecia uma brincadeira desde o início e afinal era mesmo: Fofão continua longe das quadras e não vai retornar para jogar pelo Olímpico Las Palmas, da liga espanhola. O boato nasceu a partir de uma brincadeira feita pelo próprio clube em suas contas nas redes sociais no dia 28 de dezembro. A data representa na Espanha o Dia dos Santos Inocentes, que é marcado por pegadinhas, assim como o Dia da Mentira (1º de abril) no Brasil. O que nasceu como uma data de celebração religiosa acabou virando um dia de pregar peças. Foi o que o Las Palmas fez e, ainda que desmentisse a brincadeira naquela tarde (o SdR reproduziu o esclarecimento), muita gente ao redor do mundo levou a sério. Fofão, como ela mesma contou ao Saída de Rede, riu com a notícia.

“Uma amiga ligou pra mim e me contou, me deu os parabéns. Eu não entendi nada. Até perguntei ao João Márcio (marido) se ele tinha algo a ver com aquilo”, comentou conosco a ex-levantadora, 46 anos, rindo bastante. “Isso foi ontem (quarta-feira). De repente, um monte de gente telefonando pra me parabenizar, saber se eu ia mesmo”, completou.

O erro do site World of Volley, que foi copiado mundo afora (Reprodução/Internet)

Erro replicado
A demora entre a divulgação da piada e a repercussão teve uma razão. É que somente no dia 4 de janeiro a “notícia” chegou ao site de origem sérvia World of Volley, que tem colaboradores espalhados pela Europa. O WofV levou a sério a broma espanhola e cravou que Fofão voltaria à ativa. Foi o estopim para que sites e blogs ao redor do mundo copiassem a informação, sem o menor critério. O que era para ser uma brincadeira foi tomado como verdade até mesmo no Brasil, causando furor nas redes sociais.

SdR falou também com o clube Olímpico Las Palmas. A assessoria de imprensa do time enfatizou que o Dia dos Santos Inocentes é uma tradição e que as piadas feitas no país naquela data são coisas que ninguém acreditaria, como dizer que o astro do Barcelona Lionel Messi vai jogar no arquirrival Real Madrid. “Nós pensamos em dizer que Fofão jogaria em nosso clube, uma brincadeira clara, pois ela está aposentada há algum tempo e nosso clube não poderia pagar uma atleta do nível dela”, informou a assessoria.

Clube no Brasil
“Tinha gente triste ao telefone porque a Fofão iria embora para a Espanha, até apareceram uns querendo arranjar um time pra ela aqui mesmo no Brasil”, divertiu-se o marido da ex-atleta, João Márcio Pinto.

Vôlei, para ela, somente com os familiares. “Quando os sobrinhos aparecem e dizem ‘vem, tia, joga com a gente’, aí eu jogo”, contou Fofão. Atualmente, ela estuda marketing numa universidade paulista. O casal mora na cidade de São Paulo.

Fofão se despediu das quadras em 2015, aos 45 anos, jogando pelo Rexona, do Rio de Janeiro. Atuou pela seleção brasileira de 1991 a 2008. Conquistou um ouro e dois bronzes nos Jogos Olímpicos. Foi uma das principais jogadoras na campanha vitoriosa de Pequim 2008. Acumulou ainda seis títulos do Grand Prix, além de dois vice-campeonatos mundiais, entre outras medalhas.

Torneios da categoria master? “Olha, me convidam bastante, talvez no futuro eu jogue, agora não, estou concentrada nos meus estudos”, respondeu a campeã olímpica.

Quem viu Fofão em ação pôde testemunhar uma das melhores da posição em todos os tempos. Quem não viu… Bom, o YouTube está aí.

Colaborou Carolina Canossa


Mundial 2006: dez anos de uma revanche frustrada
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João Batista Junior

Em 2006, a seleção brasileira amargou o segundo de três vice-campeonatos mundiais (fotos: FIVB)

Em 2006, a seleção brasileira amargou o segundo de três vice-campeonatos mundiais (fotos: FIVB)

Bicampeã olímpica, a seleção brasileira feminina de vôlei chegou perto três vezes de conquistar o Campeonato Mundial. Foi vice-campeã em 1994, no Ginásio do Ibirapuera, contra Cuba, e duas vezes segunda colocada no Japão, em 2006 e 2010, ambas contra a Rússia.

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A máquina cubana de jogar foi campeã em 1994, com Mireya Luis, Regla Torres, Carvajal & cia., sem perder um único set para ninguém. E em 2010, o time de Gamova e Sokolova, embora tenha precisado reverter um placar de 2 sets a 1 na decisão, atropelou na quarta parcial e viu a seleção verde-amarela desabar depois de um erro da arbitragem num ataque de Sheilla.

Ficou o Mundial de 2006 como a chance mais clara de título para o Brasil, justamente a primeira grande oportunidade para exorcizar o fantasma russo do 24 a 19, que assolava a seleção brasileira desde a semifinal de Atenas 2004.

No entanto, aquela final disputada na quinta-feira,16 de novembro de 2006, em Osaka, não só frustrou a expectativa brasileira de revanche contra as russas como também não fez justiça à excelente campanha do Brasil no Japão.

Vamos relembrar a saga das brasileiras do Campeonato Mundial feminino de Vôlei do Japão 2006:

Jogadoras brasileiras, da esquerda para a direita: (de pé) Mari, Sheilla, Fabiana, Paula e Carol Gattaz, e (sentadas) Walewska, Renatinha, Carol Albuquerque, Fabi, Fofão, Sassá e Jaqueline

Jogadoras brasileiras, da esquerda para a direita: (de pé) Mari, Sheilla, Fabiana, Paula e Carol Gattaz, e (sentadas) Walewska, Renatinha, Carol Albuquerque, Fabi, Fofão, Sassá e Jaqueline

O TIME
O calendário conta dois anos e três meses entre a decepção olímpica e a abertura do Campeonato Mundial do Japão 2006. Depois daquela derrota para a Rússia e do quarto lugar nas Olimpíadas de 2004, a seleção passou por um processo de renovação. Aliás, um vitorioso processo de renovação.

Entre 2005 e 2006, o Brasil venceu as duas edições do Grand Prix bem como as do Torneio de Montreux, e também conquistou, em 2005, o obrigatório Campeonato Sul-Americano e a Copa dos Campeões. A seleção comandada pelo técnico José Roberto Guimarães levantou todos os troféus que disputou nesse período e chegou ao mundial com cinco jogadoras remanescentes de Atenas – as centrais Fabiana e Walewska, a levantadora Fofão, a ponteira Sassá e a atacante Mari (oposta nos Jogos, ponteira no Mundial).

Das outras sete jogadoras, a oposta Sheilla, a ponteira e Paula Pequeno e a líbero Fabi já haviam disputado um mundial: em 2002, quando as principais jogadoras do país queriam a saída do técnico Marco Aurélio Motta e recusaram sua convocação, um time bastante jovem disputou o Mundial da Alemanha e terminou no sétimo lugar.

Já para a ponteira Jaqueline, a levantadora Carol Albuquerque, a oposta Renatinha e central Carol Gattaz, o mundial de 2006 foi a primeira experiência numa competição dessa magnitude.

Ingrid Visser (1977-2013) encara bloqueio de Walewska: jogo duro contra Holanda

Ingrid Visser (1977-2013) encara bloqueio de Walewska: jogo duro contra Holanda

PROBLEMAS COM A HOLANDA, MUDANÇAS NA ESCALAÇÃO
A seleção brasileira disputou a primeira fase do campeonato no grupo C. Nos dois primeiros compromissos, vitórias fáceis por 3 a 0 sobre Porto Rico e Cazaquistão. A terceira partida, porém, levou o técnico José Roberto Guimarães a mudar a equipe.

Além da líbero Fabí, o Brasil tinha Sheilla como titular da saída de rede, Carol Albuquerque no levantamento, Walewska e Carol Gattaz no meio, e Jaqueline e Mari pela entrada de rede – Paula, que dera à luz cinco meses antes, e Sassá eram as ponteiras reservas.

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O panorama mudou quando a antes dócil Holanda ofereceu resistência e chegou a virar contra o Brasil para 2 a 1. Pela marcha dos acontecimentos, as brasileiras, justamente num mundial, se aproximavam da primeira derrota na história para as holandesas. Foi quando Sassá e Fofão entraram no time, respectivamente, no lugar de Mari e Carol Albuquerque, e o time verde-amarelo conquistou a vitória no tie break.

Essa configuração só não foi definitiva, porque Fabiana ocuparia o lugar de Carol Gattaz na equipe titular somente a partir da segunda fase da competição, e também porque Fofão e Carol Albuquerque ainda se revezaram por mais alguns jogos, até que a veterana da armação de jogadas virasse titular definitivamente.

O Brasil encerrou a primeira fase na liderança do grupo, depois de vencer EUA e Camarões por 3 a 0.

Yimei Wang em ação no Mundial de 2006

Yimei Wang em ação no Mundial de 2006

JOGÃO CONTRA A CHINA
A fase posterior promoveu o cruzamento das quatro melhores equipes dos grupos B e C, acumulando da fase inicial os resultados das partidas entre os times classificados. Noutras palavras o Brasil largou com 3 vitórias por ter vencido EUA, Porto Rico e Holanda. Esta nova chave classificaria duas seleções às semifinais, o que fazia dela, com a presença também de Rússia e China, um grupo da morte para ninguém botar defeito!

Depois de uma vitória tranquila sobre o Azerbaijão por 3 sets a 0, o Brasil enfrentou a então campeã olímpica China. O time oriental, é verdade, fazia uma campanha fraca e estava com a corda no pescoço, mas tinha duas jogadoras extraordinárias no elenco: a levantadora Kun Feng, MVP dos Jogos de Atenas, e a jovem oposta Yimei Wang, então com 18 anos de idade, – que ficou conhecida no Brasil pelo pitoresco apelido de “Bebezão”.

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Com uma potência invejável nas cortadas, Wang infernizou a vida das brasileiras e, graças a seus 26 pontos, levou a seleção chinesa a abrir 2 a 0 no placar. A virada brasileira, que contou com 21 acertos de Jaqueline, veio num quinto set decidido em 19-17.

Com a vitória, o Brasil se classificou por antecipação às semifinais e empurrou China para a melancólica disputa do quinto lugar. Foi uma vingança das brasileiras pela eliminação para as chinesas, também num tie break, no Mundial de 2002.

PRÉVIA INAMISTOSA
Com a vitória sobre a Alemanha por 3 a 0 no penúltimo jogo daquele estágio, o Brasil enfrentou a Rússia na última rodada da segunda fase numa partida que valeria, apenas, para saber quem enfrentaria Sérvia e Montenegro e quem pegaria a Itália nas semifinais.

Apesar da ascensão das sérvias e do título de 2002 que as italianas defendiam, estava claro que o chaveamento não importaria muito e que, no fundo, aquele Brasil vs. Rússia era uma prévia da final ou, noutra hipótese, um amistoso de luxo para as duas melhores seleções do campeonato.

Além de Sokolova, que foi poupada da partida, a ideia de “amistoso” também não entrou em quadra naquele dia.

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Diante de uma discreta Gamova, que assinalou 11 pontos, o Brasil venceu de virada por 3 sets a 1, com 20 anotações de Sheilla. O momento mais marcante do jogo, no entanto, foi uma áspera discussão entre Fabiana e as russas depois de um bloqueio sofrido pela brasileira no quarto set. Mesmo num jogo que não valia muito, estava demonstrado que a rivalidade da década anterior, entre brasileiras e cubanas, dera lugar a outro duelo de gigantes.

As semifinais correram dentro das previsões: as russas atropelaram as italianas em sets diretos, as brasileiras bateram as sérvio-montenegrinas por 3 sets a 1, e a final, afinal, reeditaria a maldita semifinal de Atenas.

Fofão levanta sob olhar atento de Gamova

Fofão levanta sob olhar atento de Gamova

Era a segunda decisão entre Brasil e Rússia naquele ano. Dois meses antes, em Reggio Calabria, na Itália, as brasileiras conquistaram o Grand Prix com uma vitória por 3 a 1 sobre as russas. Fora a segunda vitória verde-amarela sobre as russas naquele torneio.

Assim, somadas as vitórias no GP e o 3 a 1 na segunda fase do Mundial, o Brasil chegava à final do campeonato com três vitórias consecutivas sobre a Rússia em jogos oficiais. Tudo era propício para que o time se redimisse da perda da vaga para a final olímpica com uma faixa de campeã mundial. Mas era a Rússia de Gamova do outro lado.

TÃO PERTO…
Brasil e Rússia entraram em quadra naquele 16 de novembro de 2006 sem desfalques. O técnico José Roberto Guimarães escalou Fofão, Sheilla, Fabiana, Walewska, Jaqueline, Sassá e Fabi, enquanto o italiano Giovanni Caprara alinhou a Rússia com Akulova, Gamova, Borodakova, Merkulova, Godina, Sokolova e Kryuchkova.

A seleção brasileira começou arrasadora: em 21 minutos, venceu o primeiro set por 25 a 15. A resposta russa apareceu em seguida: com parciais de 25-23 e 25-18, as russas viraram o placar e ficaram a um set de conquistar um título que não vinha desde os tempos da URSS, em 1990.

Gamova celebra, em 2006, o primeiro dos dois mundiais que venceu com a Rússia

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O Brasil voltou para a partida com Mari no lugar de Sassá e venceu a quarta parcial por 25-20. Pela segunda vez consecutiva, o mundial feminino seria decidido em cinco sets.

Num tie break equilibrado, o Brasil abriu 13 a 11 com um erro de ataque de Sokolova pela saída de rede. A matemática do vôlei diz que, a partir daí, as brasileiras só dependiam da virada de bola para conquistar o título mundial. Contudo, nesse momento do rodízio, a seleção tinha apenas duas atacantes na rede (Jaqueline e Walewska) contra três russas e foi essa a matemática que prevaleceu.

Em dois erros de ataque de Sheilla, que marcou 22 pontos no jogo, a Rússia empatou o quinto set. Em seguida, Jaqueline, que fez 19 pontos, parou no bloqueio de Merkulova e o primeiro match point do jogo era europeu. Primeiro e único, porque, com um erro de passe do Brasil, Gamova, de xeque, marcou seu 28º ponto na partida e fechou o campeonato mundial.

A seleção brasileira feminina de vôlei precisou esperar dois anos para conquistar o ouro em Pequim e acabar com a injusta fama de equipe “amarelona”, e só em 2012, num tie break enfartante em Londres, foi que se vingou da Rússia e de Gamova. Mas ainda falta um título mundial, um prêmio que, há exatos dez anos, esteve a dois pontos de vir para o Brasil.


Discurso de Zé Roberto contraria necessidade de renovação
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Sidrônio Henrique

Zé Roberto fez um excelente trabalho contra a Holanda (Foto: Divulgação/FIVB)

José Roberto Guimarães está no comando da seleção feminina desde 2003 (Fotos: FIVB)

Renovar uma equipe considerada potência, saber a hora de deixar de lado grandes nomes certamente não são tarefas fáceis, mas isso inevitavelmente ocorre nas principais seleções e não seria diferente com o time feminino do Brasil. O técnico José Roberto Guimarães, tricampeão olímpico, foi confirmado na semana passada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) no comando da seleção feminina até a Olimpíada de Tóquio 2020, mas entre as diversas declarações dadas à imprensa pelo treinador uma causa certa preocupação. “Não estou convencido de que algumas jogadoras não possam vir a jogar pela seleção. São jovens e privilegiadas no aspecto físico, a tentativa de fazê-las jogar sempre vai existir. A Sheilla e a Fabiana têm bola para continuar jogando”, afirmou Zé Roberto, durante entrevista coletiva.

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No caminho para a Rio 2016, o técnico optou por correr o menor risco possível e mexeu pouco na equipe ao longo do ciclo, além de tomar decisões no mínimo arriscadas, como incluir apenas uma oposta de ofício, Sheilla, longe da sua melhor forma, e ainda levar a levantadora Fabíola à Olimpíada apenas dois meses e meio após ela dar à luz. Espera-se, portanto, que Zé Roberto não assuma essa mesma postura na nova fase de seu trabalho com a CBV. A central e capitã Fabiana e a oposta Sheilla já declararam que não vestirão mais a camisa amarela para cuidar da vida pessoal. Thaísa, por sua vez, deu sinais claros de que sua relação com o técnico está desgastada e pode seguir o mesmo caminho. Outras jogadoras, como Jaqueline e Dani Lins, ainda não deram uma resposta definitiva para a questão.

"Trenzinho" para cumprimentar a torcida é a marca registrada da seleção feminina na Rio 2016 (Fotos: FIVB)

Fabiana e Sheilla deram adeus à seleção, Dani Lins ainda não se decidiu

Antecedentes
Não é a primeira vez que o treinador insiste com quem afirma já ter dado sua contribuição à seleção. Ele demonstrou dificuldade para desapegar de atletas veteranas, tendo pedido mais de uma vez para a levantadora Fofão seguir após o ouro de Pequim 2008, além de ter chamado a central Walewska para a Copa dos Campeões 2013.

Possível substituta de Sheilla tem história de superação e já acumula fãs

Independentemente da boa forma, como era o caso de Walewska, a seleção é, antes de tudo, um grande compromisso – Walewska, ainda hoje jogando em alto nível, disse mais de uma vez que seu ciclo com a seleção já havia se encerrado e que isso era algo muito bem resolvido para ela. Bicampeã olímpica, a líbero Fabi despediu-se da seleção e colocou um ponto final em sua bela história com a equipe.

Motivação e rendimento
Talvez Fabiana ainda tenha algo a oferecer, afinal ela e Thaisa formam uma das melhores duplas de meios de rede de todos os tempos. Mas será que Fabiana, que disse adeus à seleção após a derrota para a China no Maracanãzinho e terá 35 anos em Tóquio 2020, ainda tem motivação para estar no time e continuará a render? Não dá para comparar eventuais novatas com grandes veteranas, mas sem rodagem as mais jovens nunca despontarão.

Campanha chinesa no Rio só conheceu duas vitórias em cinco jogos (fotos: FIVB)

Campeã na Rio 2016, seleção chinesa apostou na renovação

No caso de Sheilla, que disputou sua primeira grande competição com a seleção no Mundial 2002, seria mesmo ela privilegiada no aspecto físico, como disse Zé Roberto? Por mais importante que tenha sido Sheilla (jamais serão esquecidas suas atuações em Pequim 2008 e em Londres 2012), não seria o momento de dar espaço para novas opções, tendo quatro anos para avaliações até Tóquio 2020? Sheilla foi reserva na temporada de clubes mais recente e, por decisão sua, não jogará na próxima. Na Olimpíada de 2020 ela terá 37 anos.

Menos mal que o técnico, no comando da seleção feminina desde 2003, também parece estar de olho nas mais jovens. “Na base temos jogadoras novas aparecendo, acho que temos um futuro promissor pela frente”, disse durante a coletiva. Adversários na busca por títulos, como China, Sérvia e Estados Unidos, investem constantemente em renovação. Não é mudar simplesmente por mudar. Renovar exige planejamento e sabemos que Zé Roberto tem uma equipe capaz de assisti-lo nesse processo, além da sua inegável competência. O problema está na insistência em nomes que já deram o seu melhor, fizeram muito pela seleção e inclusive disseram adeus. Para que surjam jogadoras capazes de defender o Brasil, elas precisam de espaço.


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