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Novo astro do vôlei alcança mais de 80cm acima do aro de basquete
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Sidrônio Henrique

Oposto polonês Maciej Muzaj, 22 anos, 2,08m de altura e alcance de 3,86m no ataque (foto: PlusLiga)

Ele já alcançou impressionantes 3,86m quando ataca. Para que você tenha ideia do quanto isso representa, o aro da tabela de basquete fica suspenso a 3,05m e a altura da rede de voleibol masculino é de 2,43m. O oposto polonês Maciej Muzaj, 22 anos, 2,08m, salta com facilidade e coloca a cintura na borda superior da rede de vôlei. Destaque no Jastrzebski Wegiel (JSW), quarto colocado na liga da Polônia a dois jogos do final do returno, ele tem chamado a atenção e é a maior promessa de um país apaixonado pela modalidade.

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Não bastasse a impulsão extraordinária, o canhoto Muzaj é um atacante habilidoso, daqueles que se viram com bolas altas ou em combinações em velocidade. Está na pré-lista de convocados do novo técnico da seleção polonesa, Ferdinando De Giorgi, para a primeira competição da temporada, a Liga Mundial, que começa no dia 2 de junho.

Muzaj: “Foi um choque ver o meu alcance no ataque” (PlusLiga)

“Foi um choque para mim ver o meu alcance no ataque. Eu sempre tive facilidade para saltar e sabia que ia bem alto, mas 3,86m foi uma loucura, até porque eu nunca havia verificado a marca exata”, disse Muzaj, que chega a 3,50m no bloqueio, ao Saída de Rede. A medição foi feita no final de fevereiro, utilizando o acessório Vert, bastante popular entre times americanos de voleibol e basquete, e que tem ganhado espaço entre os europeus. “Tomei um susto quando vi o alcance de 3,86m. Ele chega a 3,75m sem muito esforço, o que já é um absurdo. Sai 1,16m do chão”, comentou o australiano Mark Lebedew, técnico do JSW e da seleção de seu país.

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É raro um jogador ultrapassar os 3,70m. Em situações de jogo, o alcance varia de acordo com as condições de ataque e obviamente é menor no bloqueio. Há também a possibilidade do desempenho cair ao longo da partida por causa do desgaste físico.

Wallace tem o maior salto e um dos maiores alcances da seleção brasileira (FIVB)

Brasil, Simon e Kaziyski
Entre os atletas da equipe brasileira na Rio 2016, os maiores alcances são, segundo uma fonte da antiga comissão técnica, do oposto Wallace Souza (1,98m) e do central Éder Carbonera (2,05m), ambos com 3,65m no ataque – os números no site da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) estão, na maioria das vezes, defasados. Quem mais salta na seleção é Wallace, com 1,05m de impulsão.

Quando estava no Piacenza, da Itália, o central cubano Robertlandy Simon, 2,08m de altura, atualmente no Sada Cruzeiro, cravou 3,89m no ataque em março de 2014 durante um teste. Em julho de 2008, treinando pela seleção da Bulgária semanas antes da Olimpíada de Pequim, o ponteiro Matey Kaziyski, 2,02m, chegou a 3,79m. Como nem todas as equipes fazem registro sistemático ou mesmo divulgam o alcance dos seus atletas, acredita-se que os 3,89m obtidos por Simon há três anos sejam o recorde mundial. A assessoria de imprensa do Sada Cruzeiro informou ao SdR que, desde sua chegada ao clube no ano passado, a marca mais alta obtida por ele foi de 3,80m.

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No mês passado, o canadense Daenan Gyimah, central de apenas 19 anos e 2m de altura, que joga pela prestigiada Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), treinado por John Speraw, o mesmo técnico da seleção masculina dos EUA, foi destaque nas redes sociais americanas. O motivo para que ele fosse tema de posts de veículos como Sports Illustrated e Bleacher Report foi o seu alcance de 3,72m no ataque. Teve vídeo de Gyimah compartilhado mais de 40 mil vezes, tamanha admiração que ele provocou.

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Impulsão e alcance não resultam em talento, é claro, embora tanto Simon quanto Kaziyski sejam craques. Maciej Muzaj parece disposto a entrar para esse clube. No ano passado foi convocado para a seleção e chegou a disputar o primeiro fim de semana da Liga Mundial, tendo entrado nas três partidas.

Kurek foi o oposto titular da Polônia na Rio 2016 (FIVB)

Confiança
A presença dos veteranos Bartosz Kurek e Dawid Konarski na saída de rede da seleção em 2016 não deixou espaço para o inexperiente Muzaj, que somente na temporada passada começou a jogar como titular no JSW. Antes, era reserva de Mariusz Wlazly no Skra Belchatow. “Agora me sinto confiante para brigar por um lugar na seleção, se o técnico me der uma oportunidade”, afirmou o oposto, que completa 23 anos em maio.

Esguio, Muzaj lidou com várias lesões antes de se firmar no JSW, clube que já foi um dos mais ricos da Polônia do final da década passada ao início desta, mas que hoje em dia tem um orçamento modesto, que representa menos da metade do valor gasto por qualquer uma das três grandes equipes do país: Skra Belchatow, Zaksa Kedzierzyn-Kozle e Resovia Rzeszow.

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Num time modesto, cabe a Maciej Muzaj e ao veterano ponta cubano Salvador Hidalgo Oliva o crédito em quadra pelo sucesso do JSW. Esta temporada, o clube bateu uma vez o Skra e duas o Resovia, perdendo duas vezes para o líder Zaksa apenas no tie break. O JSW deve garantir um lugar nas semifinais da PlusLiga (não há quartas de final na liga polonesa), disputada atualmente por 16 clubes.

Os pais queriam que Muzaj fosse tenista, mas ele acabou jogando voleibol (PlusLiga)

Tênis
Os pais de Muzaj foram jogadores de voleibol, chegaram a atuar na primeira divisão polonesa, mas a modalidade entrou na vida dele como segunda opção. “Eles queriam que eu fosse tenista, mas o tênis é um esporte muito caro, então acabei indo para o vôlei”, contou ele, que nasceu na cidade de Breslávia (Wroclaw), no sul do país.

Começou a jogar na escola, no início do ensino médio, e em um clube da sua cidade chamado Gwardia Wroclaw. Foi descoberto por um olheiro e de lá foi para o centro de treinamento da seleção, em Spala, região central da Polônia, para treinar na categoria infantojuvenil. Concluído o ensino médio, foi contratado pelo Skra Belchatow, que estava de olho no potencial de Muzaj, então com 18 anos.

Cirurgia e recuperação
Aos 19, teve que se submeter a uma cirurgia no ombro esquerdo, ficou um ano se recuperando e acabou fora do mundial juvenil. Aos poucos, foi desenvolvendo seus golpes, ganhando maturidade. Na temporada 2015/2016, terminou como o segundo maior pontuador da PlusLiga. Na atual, poupado contra as equipes mais fracas com o intuito de se preservar para os confrontos-chave, Muzaj caiu na tabela de pontuadores, mas mantém seu aproveitamento no ataque próximo dos 50%, mesmo jogando sobrecarregado e enfrentando os bloqueios mais bem estruturados do campeonato.

”Tem sido difícil, mas era o certo”, diz Bernardinho sobre saída da seleção

“Ele está mais forte esta temporada, nossa comissão técnica tem trabalhado nisso. Muzaj é aquele tipo de atleta que não tem muita facilidade em aumentar a massa muscular, mas conseguimos fazer com que ganhasse um quilo de massa magra desde setembro do ano passado. Esse é um processo que vai levar alguns anos”, explicou ao SdR o técnico Lebedew. “O importante é que atualmente ele suporta a carga de treinos e musculação sem restrições, sem comprometer seu físico”, completou.

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O que falta no jogo do jovem canhoto? “Eu diria que o saque dele, embora seja bom, ainda precisa de mais consistência, regularidade. Outro ponto importante é que, para alguém que vai tão alto, ele às vezes respeita demais o bloqueio adversário e não precisa ser assim”, ponderou Mark Lebedew.

Técnico Mark Lebedew diz que o saque de Muzaj precisa de mais consistência (PlusLiga)

Europeu 2017
Uma das metas do oposto é disputar o Campeonato Europeu 2017, que será realizado na Polônia, com abertura marcada para o dia 24 de agosto, no Estádio Nacional de Varsóvia, repetindo a grandiosidade do jogo inicial do Mundial 2014. “É um sonho. Se eu trabalhar duro, talvez consiga estar na equipe, mas ainda falta muito. As expectativas aqui na Polônia para esse torneio são altas. Eu vou fazer o possível para estar lá”, disse Muzaj.

Se a falta de experiência na seleção adulta pesa contra ele, o talento e a explosão são aspectos favoráveis (veja vídeo acima). Ajuda também o fato de o país estar carente de opostos. O grande ídolo polonês na posição, Wlazly, não joga pela seleção desde a conquista do Mundial 2014, e antes disso, por problemas de convivência, estava ausente desde 2010. O mais recente titular na saída de rede foi Kurek, que era ponteiro e esta temporada voltou à antiga função. Embora esbanjasse potência, Kurek decaía nos finais de set, como ficou evidente na Copa do Mundo 2015 e na Rio 2016. Seu reserva, Konarski, não consegue sustentar um desempenho em alto nível por períodos longos.

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É nesse cenário que as atenções se voltam para Maciej Muzaj, uma aposta para este ciclo. No ano que vem, no Mundial, que será disputado na Itália e na Bulgária, a seleção polonesa defenderá o título conquistado em casa em 2014. Porém, o grande objetivo é voltar a brilhar nos Jogos Olímpicos. Após ser eliminada nas quartas de final das últimas quatro edições, a Polônia quer, em Tóquio 2020, voltar ao pódio, algo que não consegue desde o ouro em Montreal 1976.

(Se quiser ver mais variações de ataque de Muzaj e alguns dos melhores momentos dele nesta temporada no bloqueio e no saque, confira aqui.)


“Tem sido difícil, mas era o certo”, diz Bernardinho sobre saída da seleção
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Sidrônio Henrique

Colocar um ponto final na sua história com a seleção masculina após 16 temporadas não foi fácil para Bernardinho. Dois meses depois de deixar o cargo, o técnico bicampeão olímpico e tri mundial, que hoje segue no comando do time feminino Rexona-Sesc, reflete sobre o peso da decisão. “Tem sido difícil, mas era o certo. É duro, mas era o correto”, afirmou ao Saída de Rede.

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Na segunda parte da entrevista ao SdR (veja aqui a primeira), Bernardinho fala ainda sobre seu papel na Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) de agora em diante (“não tenho cargo, sou um colaborador”), a relação entre clubes e seleção, a possibilidade de criação de uma liga independente no país, transmissões online e admite que, entre as inúmeras propostas que recebe do exterior, duas mexeram com ele.

Confira nossa conversa com Bernardo Rezende:

Saída de Rede – Qual a importância das transmissões online para a exposição dos patrocinadores?
Bernardinho – Todo tipo de visibilidade para os patrocinadores, desde que se respeitem as normas, é importante. Então as transmissões são fundamentais. Claro que é preciso se organizar, pois é um movimento conjunto. Não pode ser feito um contra o outro. Os clubes têm que ser beneficiados. Vivemos uma crise, ter patrocinadores é uma coisa cada vez mais difícil, então temos que pensar efetivamente nisso. Caso contrário, teremos um decréscimo de investimentos e, com isso, um empobrecimento dos clubes e do voleibol brasileiro, o que não é bom. E a seleção se alimenta dos clubes.

Bernardinho orienta suas atletas durante pedido de tempo (Alexandre Arruda/Rexona-Sesc)

Saída de Rede – Oito dos doze clubes da primeira divisão da Superliga masculina integram a Associação de Clubes de Vôlei (ACV)*. O que você acha da possibilidade de criação de uma liga no país?
Bernardinho – Tem que haver um sentido de liga efetivamente. Muitas vezes cada clube tem seus interesses próprios. Acho que se uma liga surgir atendendo o interesse de todos será bem-vinda, válida. Agora, tem que ter interlocução com a CBV, tem que conversar. Pode até ser que os clubes cheguem a um acordo e administrem a liga, né. Porém, autonomia para negociar não é tão simples. Se alguns dos clubes que estão de fora são importantes, como é o caso do Campinas (Brasil Kirin), então você vai ter que entender o porquê disso. Se é algo tão positivo, por que alguns times estão de fora?

Saída de Rede – Quais os empecilhos para a implantação de uma liga no Brasil?
Bernardinho – O que é uma liga? Uma liga é onde todos lutam, onde todos se beneficiam do bolo. Você briga na quadra, onde você tenta ganhar, só ali. O sentido tem que ser esse, não o de “ah, eu vou querer me beneficiar, eu vou querer prejudicar o outro”. E às vezes o que sinto que é uns clubes não têm interesse no benefício dos outros, olham somente para o interesse próprio. Então temos que fazer uma autoanálise, se realmente a intenção é nobre no sentido de criar uma liga onde todos de alguma forma se beneficiarão. Outra coisa são clubes que apenas chegaram, surgiram quererem também… Ah, calma! Vamos primeiro provar que nós temos condições de estar aí. Há uns com tradição, com história e têm todo o direito de pleitear uma posição de um comando maior, uma autonomia maior para traçar as diretrizes para o seu clube, para os times como um todo, para o campeonato, que já disputam há muito tempo, que é o caso de várias estruturas que estão aí há muitos anos, alguns há décadas. No caso do Rexona são 20 anos.

Técnico se irrita durante partida na Rio 2016 (FIVB)

Saída de Rede – De que maneira esse processo deveria se dar, caso a ideia seja levada adiante?
Bernardinho – Eu acho que, de alguma forma, é preciso pensar numa integração maior num primeiro momento e depois de muitos anos se tornaria isso, uma liga independente… Acho que os passos precisam ser dados. Tem que se pensar na forma de se fazer, se criar responsabilidades claras, punições também, para aquilo que não for cumprido dentro daquelas que seriam as normas. Não é somente criar e depois vem aquilo que é um pouco do sentimento do brasileiro, aquele paternalismo… “Ah, mas a Confederação (Brasileira de Vôlei) não tutela os nossos interesses”. Se é autonomia, então os clubes têm que ter autonomia e a capacidade de gerir a sua própria liga. Aí, acredito eu, a Confederação teria apenas a responsabilidade sobre questões técnicas, como a arbitragem, o regulamento. Mas todas as questões de patrocínio, de marketing seriam tuteladas por essa liga independente. Acho que tudo é uma questão de negociar, ninguém pode se furtar a debater o assunto, buscar soluções, o que for melhor para o voleibol.

Saída de Rede – Como é a relação entre clube e seleção?
Bernardinho – Muitas vezes vejo alguns clubes que têm certa dificuldade em colaborar com a seleção… Eu tenho até dificuldade de falar aqui, minha intenção é colaborar…  É que os clubes são muito importantes, mas a seleção é o carro-chefe do momento, as seleções… Por quê? As seleções formam os ídolos nacionais que os clubes vão querer contratar. “Ah, mas o jogador fica muito tempo na seleção, isso e aquilo”. Mas se o jogador não ficar muito tempo, e o tempo que ele fica lá é necessário para ter um grande resultado, o clube não vai se beneficiar. E sem os ídolos, os clubes não vão ter patrocínios. Isso é um fato. Então às vezes, sabe, há uma forma de se justificar totalmente equivocada. Seleção é o carro-chefe e os clubes são muito necessários e importantes. Eu digo isso porque eu estou à frente de um clube e não é há pouco tempo. A gente tem que entender que sem os ídolos da seleção os clubes não terão condições de se sustentar, pois os patrocinadores querem os grandes ídolos aqui no Brasil.

Saída de Rede – Quando você diz que alguns clubes têm dificuldade em colaborar, vê isso ocorrer mais no masculino ou no feminino?
Bernardinho – Um pouco mais no masculino.

Segundo o treinador, Taubaté não liberou Lipe para uma excursão com a seleção em 2015 (FIVB)

Saída de Rede – Por exemplo…
Bernardinho – Taubaté é um caso especial, com um dirigente bastante peculiar, que é o Ricardo Navajas, que eu não tenho nada contra. Muito pelo contrário, ele faz o trabalho dele, respeito o trabalho dele lá, mas ele nunca teve uma posição de colaboração. Prejudicar nunca prejudicou, agora nunca foi um cara que veio “ah, vamos apoiar”. Ele tem que entender que os ídolos do Taubaté são ídolos que foram feitos na seleção. Veja o Lucarelli… Ele não surgiu lá. Surgiu no Minas (Tênis Clube), depois foi pro Sesi, aí na seleção começou a ter mais maturidade e depois foi pra Taubaté. O Lipe (atualmente no voleibol turco, no Halkbank Ankara) longe de ter começado lá, como tantos outros, o Wallace, o Éder… Há de haver um entendimento sobre essas coisas, é preciso ter um equilíbrio. E a seleção… Eles falam “ah, a seleção quer ter mais tempo”. Mais tempo para se preparar. Em 2015, por exemplo, teve jogador que ficou de fora de uma excursão importante (aos EUA e à Europa), caso do Lipe, porque Taubaté não liberou. A excursão era importante porque fomos impedidos pela Federação Internacional de Vôlei de participar da Copa do Mundo e aquela era a última chance da gente avaliar a equipe na temporada. Eles (Taubaté) pressionaram para não participar, tanto é que o Lipe não viajou.

Saída de Rede – Essa resistência de alguns clubes é pelo desgaste do atleta, risco de lesão? O que eles argumentam?
Bernardinho – O argumento é sempre alguma coisa desse tipo, que os clubes têm mais competições, que é preciso… Digo os clubes de uma forma geral. Claro que no final há o bom senso, você tem o equilíbrio da temporada como um todo… Eu falei desse exemplo (do Taubaté), mas você tem isso nos clubes de uma forma geral, eles têm essa questão da disputa por espaço. As seleções têm que ter um espaço importante para as competições. Contusão acontece na seleção e acontece no clube. Nós todos temos que ter o bom senso de fazer aquilo que deve ser feito. Quando os jogadores se machucam nos clubes, o que acontece eventualmente, a seleção não fica “ah, olha os caras…”. Não, no alto rendimento isso pode acontecer, não é verdade? Terminou a Olimpíada do Rio, apesar de um sentir algo aqui e outro ali, todos estavam aptos a jogar, como jogaram até a final. Numa competição intensa, dura, dia sim, dia não, logo depois de uma Liga Mundial, onde nós chegamos a final também.

“Seleção é o carro-chefe, é fato” (FIVB)

Saída de Rede – Qual a saída para esse impasse?
Bernardinho – Que haja um entendimento que todos são profissionais competentes nos clubes e nas seleções. A intenção da seleção é ganhar títulos. Ao ganhar títulos e formar ídolos, a partir dessas conquistas, com a visibilidade que a seleção tem, os clubes se beneficiam disso, obviamente. Os clubes têm o papel de desenvolver esses jogadores. Sem os clubes as seleções não terão seu processo de alimentação realizado. As seleções precisam dos clubes. É importante que haja entendimento e que um colabore com o outro. Quanto mais as seleções forem vitoriosas e mais os clubes brasileiros desenvolverem grandes atletas e com isso atraírem patrocinadores, melhor para todo o movimento, nós vivemos disso. O problema às vezes é querer olhar apenas para o próprio umbigo. A gente tem que ter uma visão mais do todo, da importância de todos nesse processo. Somos todos peças de um grande mecanismo, mas o mesmo mecanismo, o voleibol brasileiro. Eu não tô agora mais na seleção, mas não adianta, é o carro-chefe, é fato.

Saída de Rede – Como foi deixar o cargo de técnico da seleção masculina depois do ouro na Rio 2016?
Bernardinho – Foi difícil… Mas aquilo nunca foi meu, eu era parte daquilo. Não era um feudo meu, estive lá por um tempo, os resultados foram satisfatórios, afinal fui mantido por um tempo até bastante longo, mas terminou. Agora eu vou colaborar naquilo que for pedido. Se quiserem a minha colaboração, jamais deixarei de colaborar com a seleção e principalmente com o Renan, que no caso está lá hoje e que é um irmão que a vida me deu. Ele é um cara excepcional, uma figura humana de primeiríssima qualidade. Eu tenho certeza que o trabalho dele vai ter um êxito incrível, numa nova forma de fazer. Claro que há um alinhamento, ele conhece muito, estava ali bem perto de todos nós, mas são coisas novas, situações novas.

Sobre Renan: “Figura humana de primeiríssima qualidade” (arquivo pessoal/Renan Dal Zotto)

Saída de Rede – Agora como coordenador técnico, até onde irá sua participação na seleção masculina?
Bernardinho – Na verdade eu não sou nada, sou um colaborador.

Saída de Rede – A CBV anunciou seu nome nesse cargo de coordenador técnico quando o Renan foi apresentado como novo treinador.
Bernardinho – Não, eu não tenho cargo, sou um colaborador. Fui chamado para uma reunião com todos os treinadores, fui lá na CBV, dei os meus pitacos, opiniões, falei, participei… Sempre que eu for chamado e tiver a possibilidade de ir, estarei lá. Agora, não é simples sair, tem sido difícil, mas era o certo. É duro, mas era o correto.

Saída de Rede – Você continua recebendo propostas do exterior?
Bernardinho – Muitas.

Saída de Rede – Alguma te balançou?
Bernardinho – Só as dos Estados Unidos me balançaram. Não pela proposta financeira, mas as possibilidades que elas abrem. Tive também da Europa e da Ásia, mas essas dos Estados Unidos mexeram comigo, vindas de duas universidades.

Saída de Rede – De quais universidades?
Bernardinho – Não quero dizer até porque há treinadores trabalhando lá. Mas me interessa porque envolve a questão da educação, combina área acadêmica e esporte. Isso é algo que eu não tive quando estudante. Eu me formei em economia (em 1984, na PUC-Rio) e queria fazer uma pós-graduação fora. Então poderia ter essa possibilidade agora. E também pelas meninas, minhas filhas (Júlia e Vitória), para elas também seria uma oportunidade interessante. Não tem sentido eu largar a seleção brasileira, uma seleção como essa, para dirigir um grande time na Europa. Que sentido isso tem, não é verdade? Se fosse para treinar um desses times, eu continuaria na seleção.
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*Sada Cruzeiro, JF Vôlei, Montes Claros, Funvic/Taubaté, Copel Telecom Maringá, Lebes Gedore Canoas, Sesi e Bento Vôlei integram a Associação de Clubes de Vôlei (ACV)


Confirmado: Vôlei Nestlé estará no Mundial de clubes
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Carolina Canossa

Anúncio oficial foi feito em um restaurante japonês e contou com parte do elenco de Osasco (Foto: João Pires/Fotojump)

Se no fim de semana houve um “meio anúncio”, agora ele é completo: nesta quarta-feira (15), o Vôlei Nestlé confirmou que estará na disputa do Mundial de clubes femininos, programado para entre 8 a 14 de maio no Japão.

Campeão do torneio em 2012, o time brasileiro foi um dos quatro agraciados pelos convites distribuídos pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB) – o nome dos demais contemplados ainda não foi divulgado.

“Estou honrado pelo reconhecimento. A nossa história na disputa do Mundial nos credencia a ter esse convite. São quatro participações, com três finais e um terceiro lugar com uma equipe que disputou a competição desfalcada das jogadoras da seleção brasileira. É uma enorme satisfação mais uma vez poder participar de uma competição tão importante como essa com as cores do Vôlei Nestlé e representando a cidade de Osasco”, afirmou o técnico Luizomar de Moura.

Após fim de patrocínio, Bernardinho fala sobre o futuro do Rio em entrevista exclusiva

Na neve? Variação peculiar do vôlei sonha com a Olimpíada de inverno

Para a disputa do Mundial, o clube paulista contará com o aporte financeiro de um novo patrocinador, o Grupo Baumgart, através da Vedacit, cuja marca estará presente nas camisas usadas pela comissão técnica do Vôlei Nestlé, e através também do shopping Center Norte, que vai promover atividades relacionadas ao vôlei.

Presente em todas as participações de Osasco no Mundial, a líbero Camila Brait está empolgada. “Jogar o Mundial é sempre difícil porque lá estão os melhores times do mundo. Sabemos que precisamos seguir crescendo nesta fase final da Superliga pensando em executar um bom papel no Mundial. É muito importante ganhar uma medalha e não importa a cor. Claro que nosso objetivo será o ouro, mas além do título de 2012 já conseguimos duas pratas e um bronze”, afirmou a atleta.

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Destaque do time nesta temporada, a ponteira Tandara comemorou o desafio inédito na carreira. “Estou muito feliz porque nunca joguei um Mundial. É uma oportunidade única, pois não sei quando terei essa chance novamente. São os melhores times do mundo e o Vôlei Nestlé está entre eles. Será uma experiência singular e estou encarando de uma maneira positiva. O clube faz um trabalho de excelência, sempre mantendo o alto nível, e uma boa sequência na Superliga ajudará na preparação para o Mundial”, afirmou.

Além do Vôlei Nestlé, somente outros dois times brasileiros já foram campeões mundiais: o Sadia (1991) e o Leite Moça (1994). Na edição de 2017, o Brasil também será representado pelo Rexona-Sesc.


Na neve? Variação peculiar do vôlei sonha com Olimpíada de Inverno
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Carolina Canossa

Vôlei na neve exige sapatos com travas, como chuteiras, para ser jogado (Fotos: Divulgação)

Já pensou em ver partidas de vôlei na Olimpíada de Inverno? O que hoje parece apenas um delírio pode se tornar realidade dentro de alguns anos. É que, pouco a pouco, começa a ganhar popularidade uma versão bastante peculiar do esporte que tanto gostamos: duelos realizados na neve.

Modalidade costuma render belas imagens

Surgido de uma brincadeira entre amigos no rigoroso inverno austríaco, o Snow Volleyball deixou de ser um mero entretenimento e vem se profissionalizando ao longo da última década. O primeiro torneio oficial foi ideia de Martin Kaswurm e atualmente está na segunda edição de seu Circuito Europeu, com direito a chancela oficial da Confederação Europeia de Vôlei (CEV, na sigla em inglês) – a organização continua nas mãos de Kaswurm, que ao lado do sócio Veit Manninger fez uma apresentação sobre o novo esporte no último congresso da FIVB (Federação Internacional de Vôlei), em outubro. A expectativa deles é que, já no ano que vem, a entidade ajude a colocar em prática um Circuito Mundial de vôlei na neve.

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Banheiras aquecidas de hidromassagem estão entre os mimos para o público

O vôlei na neve segue os preceitos do vôlei de praia: dois jogadores de cada lado e quadra de 16 m x 8 m, com rede de 2,24 m no feminino e 2,43 m no masculino. A primeira grande diferença está no tipo de calçado usado pelos atletas, que precisam ter travas, como chuteiras, evitar quedas e escorregões. “É só vestir roupas quentes e calçados de futebol. Isso é tudo o que você precisa”, conta o tcheco Robert Kufa, segundo colocado no ranking elaborado pela CEV. “Comparado com o vôlei de praia, é muito mais difícil prever o que o adversário vai fazer, então é preciso tentar fazer uma leitura corporal deles e improvisar”, destacou. Detalhe: apesar das declarações de Kufa, não é tão incomum ver atletas jogando apenas de shorts e camiseta ou até mesmo regata.

Geralmente sediado na área de lazer de estações de esqui de alto padrão, os torneios de vôlei na neve também contam com bastante entretenimento ao redor: no intuito de atrair público, a estrutura muitas vezes possui até banheira aquecida de hidromassagem. O Circuito Europeu 2017 já teve etapas na República Tcheca e, neste fim de semana, realizou seus duelos na Suíça. Estão previstas ainda paradas na Eslovênia, Áustria, Liechtenstein e Itália até abril, aproveitando ao máximo o tempo frio no continente.

Até por falta de lugares adequados para treinar nas condições exigidas pelo Snow Volleyball, o Brasil não deve repetir nesta modalidade o mesmo sucesso que já obteve no indoor e na praia, mas é bem possível que um dia o esporte se torne o primeiro com bola no programa da Olimpíada de Inverno. Por enquanto, destaque para os vídeos e fotos com belas imagens…


Vídeo que sugere ida ao Mundial alvoroça torcida do Vôlei Nestlé
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Carolina Canossa

Osasco ganhou o Mundial de clubes em 2012 (Foto: Reprodução/Facebook)

“Para bom entendedor, meio anúncio vale”. Basta uma pequena modificação no popular ditado para resumir o alvoroço causado entre os torcedores do Vôlei Nestlé causado por um vídeo de 21 segundos postado na página do time neste domingo (12).

Nas imagens, é possível ver a frase “Nós somos Osasco” seguido de vários caracteres em japonês – vale lembrar que o próximo Mundial de clubes feminino será realizado justamente no Japão, mais precisamente na cidade de Kobe. O torneio ocorre entre 9 e 14 de maio.

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Como se não bastasse, a trilha sonora do vídeo é um canto da torcida bastante comum nas partidas realizadas no ginásio José Liberatti: “Nós somos Osasco/ Campeão mundial/ Nada mais interessa / Nós fazemos a festa”. Quer mais? O título da postagem é “Esse rolê vai longe…”, uma clara referência à distância do país asiático e à mais recente campanha de marketing do time.

Desta forma, não se pode presumir outra coisa senão o fato de que a negociação para um dos convites distribuídos pela FIVB para a disputa tenha sido concedido à equipe paulista, que já estava em tratativas com a entidade há algumas semanas. Aliás, o aparecimento de um novo patrocinador (Vedacit) no fim do vídeo é mais um sinal do que deve ser anunciado em breve.

O Brasil já tem confirmado um participante no Mundial de clubes: trata-se do Rexona-Sesc, que garantiu sua vaga ao vencer o Sul-Americano de clubes no último mês de fevereiro.


Sada Cruzeiro transmite partida da Superliga e recebe advertência da CBV
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Sidrônio Henrique

Cruzeiro transmitiu em sua página no Facebook o jogo contra Canoas (Fotos: Fernando Potrick/Gama)

Um dos times de maior torcida do país, o Sada Cruzeiro bem que tentou… O clube mineiro transmitiu uma partida da Superliga 2016/2017, via Facebook Live, sem aviso prévio. No dia seguinte recebeu uma advertência da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). O Saída de Rede segue mostrando as tentativas dos clubes para garantir exposição aos patrocinadores e atender às demandas dos profissionais da modalidade e dos torcedores. O jogo em questão, vencido pelo Cruzeiro por 3-0, foi no dia 23 de novembro, contra o Lebes Gedore Canoas, na casa do adversário.

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“Tivemos um retorno extremamente positivo, com muita gente acompanhando e elogiando o clube por essa tentativa. A imagem não era a ideal, não tinha praticamente nenhuma estrutura, mas foi uma tentativa quase que desesperada de mostrar a partida para o torcedor. Temos um apelo muito grande nas redes sociais, de torcedores indignados por não conseguirem ver os jogos. Somos cobrados diariamente por isso”, disse ao SdR o diretor esportivo do Sada Cruzeiro, Flávio Pereira.

Flávio Pereira, diretor esportivo do Sada Cruzeiro (Divulgação/Sada Cruzeiro)

O vídeo teve mais de 33 mil visualizações. “Não houve nenhuma divulgação, somente quem estava online no momento”, ressaltou Pereira.

CBV não proíbe, mas…
Na quinta-feira (9), o blog fez uma entrevista exclusiva com o CEO da CBV, Ricardo Trade, o Baka, em que ele explicou o contrato da entidade com a Globo e prometeu transmissões online. A Confederação divulgou ainda uma nota na qual rebatia: “A CBV não proíbe as transmissões por internet, apenas, por motivos contratuais, somente pode autorizar transmissões pelos clubes em nossa página do Facebook ou em nosso site”.

Flávio Pereira contou que, antes mesmo dessa nota, o Sada Cruzeiro questionou a viabilidade das normas impostas pela CBV, que exigem que a transmissão seja feita dentro das plataformas da entidade, em HD, com o uso de três câmeras, placar na tela, logomarca Vôlei Brasil, sem narração, entre outros pontos. “Para os clubes é totalmente inviável, pois terão que arcar com os altíssimos custos e não podem mostrar a marca de nenhum patrocinador ou apoiador e vão gerar tráfego apenas para as plataformas da CBV. As exigências são tão absurdas que nenhuma equipe, até o momento, conseguiu fazer a transmissão no padrão exigido pela Confederação”, afirmou.

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Na Superliga 2012/2013 a própria CBV chegou a exibir algumas partidas na internet, em seu próprio site. Mas acabou cancelando as transmissões devido a uma série de problemas, entre os quais a baixa qualidade da imagem e constantes interrupções.

Transmissão no Facebook teve mais de 33 mil visualizações

Tentativa de diálogo
O diretor cruzeirense enfatizou que o clube tem tentado, “como em todas as questões que acreditamos serem importantes para o vôlei brasileiro”, dialogar com a Confederação. “A TV abriu mão destas partidas ao não transmiti-las. E também não tem interesse comercial nessa transmissão via internet”, completou Flávio Pereira.

Algumas entidades se valem de seus canais no YouTube para exibir torneios da modalidade. A própria Federação Internacional de Vôlei (FIVB) utiliza o recurso desde o ano passado – foi assim com os pré-olímpicos mundiais masculino e feminino, com a Liga Mundial e o Grand Prix. Por aqui na América do Sul, a Associação de Clubes Liga Argentina de Voleibol (Aclav) já o faz há alguns anos. Quase todas as partidas do campeonato argentino que não são transmitidas pela TV migram para o canal da emissora TyC Sports no YouTube, contando com narradores e algumas até com comentaristas. Na Itália e na Polônia há a opção de ver os jogos das ligas locais pela internet em sites autorizados pelas federações. Exceto pelos exemplos mostrados aqui no SdR, a Superliga segue dependendo da TV, com a maioria das partidas exibida em um canal por assinatura.


Londres 2012: Brasil não pode reivindicar medalha antes de punição à Rússia
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Carolina Canossa

Giba precisará do auxílio do COB em processo que ainda pode levar anos (Foto: Reprodução/Instagram)

Giba precisará do auxílio do COB em processo que ainda pode levar anos (Foto: Reprodução/Instagram)

A decisão do ex-jogador Giba de ir à sede da Federação Internacional de Vôlei (FIVB), na Suíça, para entender os procedimentos e tentar fazer o Brasil herdar a medalha de ouro da disputa masculina na Olimpíada de Londres por um suposto doping de atletas da seleção russa na competição animou muitos torcedores. Porém, esse processo não deve ser nada simples e pode levar anos até ser concluído em favor do Brasil. Isso se um dia o Brasil realmente herdar essa medalha…

Na verdade, ao menos por enquanto, os dirigentes do país sequer podem tomar qualquer atitude. Consultado pelo Saída de Rede, o presidente do Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem, Luciano Hostins, explicou que não há nada a ser feito pelos brasileiros até que o Comitê Olímpico Internacional (COI) decida tirar as medalhas da Rússia. O especialista usou o artigo 9.1 da norma antidoping de Londres e o item 2.1 do artigo 59 da Carta Olímpica para basear sua visão.

“Qualquer medalha que retorne ao COI por questões disciplinares não é repassada automaticamente. Deve haver do interessado em recebê-la uma solicitação, um procedimento disciplinar na entidade”, explicou Luciano, que trabalha como advogado na área desportiva há mais de 20 anos. “Tecnicamente, esse procedimento só começa depois de devolvida a medalha”, complementou.

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Cabe destacar que a expressão “devolvida a medalha” não é simbólica. Segundo Hostins, se punido, o Comitê Olímpico Russo teria que devolver fisicamente cada uma das 12 medalhas conquistadas pela seleção do país em Londres 2012. Se alguma não aparecer, haverá um novo problema, já que as formas do adereço são destruídas após a confecção do prêmio. No máximo, poderia ser feita uma réplica, que evidentemente não tem o mesmo valor.

Hostins é uma das maiores autoridades antidoping do Brasil (Foto: Divulgação)

Hostins é uma das maiores autoridades antidoping do Brasil (Foto: Divulgação)

O presidente do Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem ainda observou que Giba não pode conduzir esse processo apenas na condição de ex-atleta, ainda que tenha sido o capitão da seleção mais interessada em uma punição aos russos. “Não tem o menor problema em ele buscar se orientar sobre o assunto, mas o processo disciplinar teria que ser feito através do COB (Comitê Olímpico Brasileiro)”, explicou.

Nem mesmo a FIVB tem qualquer ingerência legal sobre o caso, já que as Olimpíadas são um torneio organizado pelo COI. “Eles não possuem nenhuma influência técnica”, afirmou Hostins. Ele, porém, não descartou que a FIVB se movimente politicamente em caso de doping russo comprovado até para evitar uma mancha na imagem do esporte. “É possível que eles pressionem de alguma forma, já que não é bom pra ninguém ter uma ‘medalha flutuando’ por aí”, analisou.

Fator positivo
Apesar de o caminho rumo ao resgate do ouro no vôlei masculino ser longo e difícil, Luciano Hostins acredita que o fato de não haver qualquer precedente de medalhas cassadas em esportes coletivos na história olímpica pode ser um fator positivo para o Brasil. “Acho que isso facilita justamente pela circunstância e pelo fato de que seria uma fraude muito grande”, analisou.

No entanto, para se ter uma ideia da complexidade de casos do tipo, até hoje os membros da equipe brasileira de revezamento 4 x 100 m no atletismo de Sydney 2000 lutam para serem realocados da segunda para a primeira posição em decorrência do doping confesso de um dos campeões, o americano Tim Montgomery. Contra o caso do vôlei pesa ainda o fato de não haver nenhuma comprovação de que os jogadores russos atuaram em Londres 2012 usando substâncias ilegais – o que foi divulgado até o momento é que atletas da modalidade estão entre os mais de mil denunciados no relatório McLaren, que desmascarou o esquema de doping que vigorou em todos os esportes do país pelo menos entre 2011 e 2015. Sabe-se apenas que o central/oposto Dmitriy Muserskiy foi pego no doping duas vezes nestes quatro anos, mas nem as datas ou a substância foram reveladas até o momento (veja mais detalhes em artigo publicado aqui no SdR em dezembro).

Atletas punidos, times não
Na história dos Jogos Olímpicos, o costume é punir o dopado, não o time. Foi o que aconteceu com Miguel Coll, do basquete de Porto Rico (Munique 1972), com os japoneses Mikiyasu Tanaka e Eiji Shimomura, do vôlei (Los Angeles 1984), e com a chinesa Wu Dan, vôlei (Barcelona 1992).

Em outras competições poliesportivas há um precedente do Canadá, que perdeu o ouro no hóquei sobre patins nos Jogos Pan-Americanos de 1999, por o goleiro Steve Vezina ter caído no antidoping. Ali, os EUA ficaram com o ouro, a Argentina, prata, e o Brasil herdou o bronze.


Memória: o vôlei feminino do Brasil e seus primeiros sinais de grandeza
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Sidrônio Henrique

Isabel ataca contra os EUA, Jacqueline observa: partida histórica em Los Angeles 1984 (fotos: Reprodução/Internet/YouTube)

Certas derrotas são marcantes. Algumas são revestidas de uma aura e revividas na memória do torcedor e dos personagens envolvidos. Tem sido assim com a da seleção brasileira feminina de vôlei por 3-2 para Cuba na semifinal da Olimpíada de Atlanta, em 1996, motivo para dezenas de reportagens e até um documentário. Mas outro revés 12 anos antes, coincidentemente na mesma data, 1º de agosto, também tem lugar especial na memória do voleibol nacional. Naquela noite de 1984, diante de 14 mil torcedores na Arena de Long Beach, o vôlei feminino brasileiro dava seus primeiros sinais de grandeza nos Jogos Olímpicos. Longe de ser potência, o time de Isabel, Vera Mossa e Jacqueline quase surpreendeu as donas da casa. Os Estados Unidos suaram para vencer por 3-2, de virada, um confronto tido como fácil. Para o Brasil, aquela partida na Olimpíada de Los Angeles, em 1984, mostrou que apesar do resultado adverso o time era grande. E o mundo do vôlei reconheceu isso.

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Para entender o porquê da importância desse jogo e o que havia de tão especial em ganhar dois sets das americanas é preciso voltar no tempo e dar uma olhada no cenário da época. O voleibol feminino tinha uma superpotência: a seleção chinesa, liderada pelas ponteiras Lang Ping e Zhang Rongfang. Campeã da Copa do Mundo 1981 e do Mundial 1982, a China era a principal favorita ao ouro em Los Angeles 1984. Com um time moldado a partir de meados dos anos 1970 e que não pôde ir a Moscou 1980 por causa de um boicote promovido por seu próprio governo, os EUA queriam, desta vez em casa, provar que mereciam o topo do pódio.

EUA em ascensão
As americanas eram, sem dúvida, as principais adversárias das chinesas naquelas Olimpíadas. Quarto colocado na Copa do Mundo 1981 (perdendo a prata e o bronze no saldo de sets para japonesas e soviéticas, respectivamente) e terceiro no Mundial 1982, os EUA estavam em ascensão e ainda teriam a torcida a seu favor. Mesmo antes de 1984, já mostravam seu poderio. No Campeonato Mundial 1982, disputado no Peru, as americanas foram as únicas a derrotar a eventual campeã China e por um contundente 3-0. Acabaram surpreendidas na semifinal pelas anfitriãs, que com o apoio dos seus barulhentos torcedores chegaram a um inesperado vice-campeonato. No restante do ciclo, incluindo Los Angeles 1984, as peruanas não ganhariam mais um set sequer dos EUA – passada a surpresa caseira de 1982, o Peru alcançaria seu auge no período 1986-1988.

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As demais forças da época eram Cuba, União Soviética e Japão. As seleções da Coreia do Sul e da Alemanha Oriental integravam o segundo escalão, mas em um nível acima das brasileiras.

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Oito equipes participavam do torneio olímpico de vôlei feminino então, divididas em dois grupos de quatro. As duas primeiras de cada chave avançavam à semifinal, enquanto os terceiros e quartos colocados disputavam do 5º ao 8º lugares.

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Boicote soviético
Antes que os soviéticos e seus aliados anunciassem o boicote aos Jogos de Los Angeles, em represália à medida tomada pelos EUA e seguida por diversos países capitalistas de não comparecerem a Moscou, as chaves estavam assim divididas: o grupo A com China, EUA, Alemanha Oriental e Brasil, e o B com URSS, Cuba, Japão e Peru.

Se em Moscou 1980, na sua primeira participação nos Jogos Olímpicos, o vôlei feminino do Brasil contou com a ajuda do boicote para ganhar a vaga, em LA 1984 essa veio graças ao Peru. É que o sistema de classificação vigente garantia a presença nas Olimpíadas para o campeão da Copa do Mundo e do Mundial. Como a China ganhou ambos, as vice-campeãs mundiais, as peruanas, também se classificaram. Assim, o Brasil garantiu seu lugar mesmo perdendo a final do Sul-Americano 1983 para seu arquirrival. Os campeonatos continentais, exceto o da África no caso do vôlei feminino, eram qualificatórios para as Olimpíadas.

Dois meses e meio antes da abertura de Los Angeles 1984, a URSS anunciou o boicote, contando com a adesão da maioria dos países do bloco comunista. Alguns poucos, como Iugoslávia, Romênia e China, decidiram ir aos Jogos em solo americano.

Vera Mossa se prepara para receber uma bola na entrada: segunda participação olímpica aos 19 anos

A ausência da URSS e de grande parte dos seus aliados obrigou os organizadores a recompor as chaves em diversas modalidades. No grupo A do voleibol feminino saiu apenas a Alemanha Oriental, substituída pela vizinha Alemanha Ocidental, mais fraca. O Brasil continuava assim a encarar uma parada indigesta, tendo que enfrentar chinesas e americanas. Do outro lado, japonesas e peruanas, que dificilmente passariam por cubanas e soviéticas, ganharam a companhia da Coreia do Sul e do inofensivo Canadá. Os três países convidados foram pinçados entre os eliminados no pré-olímpico mundial, disputado no início do ano.

Estreia contra a China
O torneio de vôlei feminino de Los Angeles 1984 começou no dia 30 de julho. A estreia brasileira foi diante da todo-poderosa China. Mas quem esperava um passeio das orientais, se enganou. Nunca uma seleção feminina do Brasil tinha treinado tanto. As brasileiras haviam ficado concentradas por quatro meses no Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP). O resultado se viu em quadra (confira o vídeo abaixo). Apesar da vitória chinesa por 3-0 (15-13, 15-10, 15-11), o Brasil ofereceu uma resistência que ninguém esperava, arrancando elogios do técnico chinês, Yuan Weimin.

Era a vez da partida crucial para as pretensões do Brasil, desacreditado pela mídia, de chegar à semifinal. O ceticismo da imprensa era compreensível. A seleção feminina vinha de um 7º lugar em Moscou 1980, 8º na Copa do Mundo 1981 (perdeu todos os sete jogos, ganhando apenas um set), 8º no Mundial 1982. Um ano antes, no Pan 1983, havia enfrentado duas vezes aquele mesmo time dos EUA (foi a última vez que as americanas foram com a equipe A aos Jogos Pan-Americanos) e perdido ambas por 3-0, sem despertar preocupação nas oponentes.

O plano em LA 1984 era ganhar dos Estados Unidos. Na sequência, fechando a fase preliminar, teriam que bater as alemãs ocidentais, adversárias com as quais as brasileiras haviam jogado cinco vezes naquele ano e vencido todas, quatro delas por 3-0. Essas duas vitórias seriam a passagem para a semifinal.

Eliani Oliveira, a Lica, que mais tarde se tornaria atriz, era uma reserva bastante acionada

Escalação
O time titular do Brasil tinha Isabel Salgado e Vera Mossa nas pontas, Jacqueline Silva era a levantadora, Regina Uchoa e Sandra Suruagy (seria a primeira líbero da seleção brasileira em 1998) pelo meio e Heloísa Roese jogava na saída, posição que na época tinha um perfil técnico, com forte presença no passe, diferente da composição atual. Completavam a equipe as ponteiras Fernanda Emerick e Luiza Machado (revelação ainda juvenil, que desistiria da seleção no ciclo seguinte), as centrais Eliani Oliveira (décadas depois se tornaria atriz, utilizando o nome Lica Oliveira), Ana Margarida Álvares (juvenil promissora que mais tarde seria conhecida simplesmente como Ida) e Mônica Caetano, além da levantadora Ana Richa, a mais nova do grupo com 17 anos. O técnico era Ênio Figueiredo, que faleceria em 2014. Ele comandou a seleção feminina de 1978 a 1984, período que incluiu dois Mundiais e duas Olimpíadas.

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Aquele time brasileiro era bastante jovem. Cinco das doze atletas ainda eram juvenis: Vera, Eliani, Luiza, Ida e Ana Richa. No caso de Vera Mossa, 19 anos, já era sua segunda participação olímpica, ela havia ido a Moscou 1980 com apenas 15 anos. A mais velha da equipe era Heloísa, 27 anos, jogadora universal, que no ano seguinte seria chamada para a seleção do mundo, enfrentando as chinesas em duas partidas amistosas promovidas pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Isabel completaria 24 anos no dia seguinte ao jogo contra as americanas. Jacqueline tinha 22 anos. Assim como Vera, ela e Isabel haviam participado da Olimpíada quatro anos antes. A quarta remanescente de Moscou era Fernanda Emerick.

Isabel ganha tempo amarrando o tênis em meio a uma boa sequência das americanas

Diferença de altura
A atleta mais alta do Brasil era a ponta Vera Mossa, com 1,83m. Os EUA tinham várias acima disso. A maior delas era a ponteira Flo Hyman, uma gigante para os padrões dos anos 1980 com seu 1,97m – parecia ainda mais alta atacando contra bloqueios que muitas vezes contavam com jogadoras de menos de 1,80m.

O Brasil era visto como um time eficiente no ataque, apesar do estilo ortodoxo, com pouca variação. Seu bloqueio, se não era excepcional, podia ser considerado bom para a época. Aí começavam os problemas. O saque era irregular e, na maioria das vezes, exigia pouco da linha de recepção adversária. Já o passe ruim obrigava Jacqueline a se deslocar constantemente, dando pouca oportunidade para combinações em velocidade. A defesa chegou a ser comparada a um táxi numa corrida de fórmula um. Em LA 1984, é bom que se diga, o Brasil chegou defendendo melhor. Nada que lembrasse a eficiência de hoje, mas bem acima do seu habitual naquele tempo.

Flo Hyman marca e comemora de frente para as brasileiras: a americana era uma das atacantes mais temidas da época

Gamova dos anos 1980
Os EUA tinham em Flo Hyman sua principal arma. Para que o leitor que não a viu jogar entenda, ela era uma espécie de Gamova do período, seja pela altura (a russa é cinco centímetros mais alta, mas os bloqueios também cresceram), pela potência ou pela falta de habilidade na defesa, o que parecia natural em razão do seu tamanho. Hyman faleceria em janeiro de 1986, por causa do rompimento de um aneurisma da aorta abdominal, provocado pela síndrome de Marfan, da qual era portadora. Morreu durante uma partida da liga japonesa, que então atraía grandes estrelas. O técnico cubano Eugenio George, tricampeão olímpico com Cuba em 1992, 1996 e 2000, falecido em 2014, afirmou certa vez que Flo Hyman foi uma das melhores jogadoras que ele teve a chance de ver em sua longa carreira.

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Além da ponteira de 1,97m, os EUA tinham como destaque duas centrais: Rose Magers, 1,90m, e Paula Weishoff, 1,85m. O leitor acostumado às grandes meios de rede deste século talvez ache que as primeiras donas da posição foram as centrais cubanas dos anos 1990 ou ainda a peruana Gabriela Perez na segunda metade dos anos 1980. Todas essas foram espetaculares, sem dúvida. Antes delas, porém, o mundo do vôlei se impressionava com Rose Magers. Já Paula Weishoff era mais rápida, extremamente habilidosa. Versátil, migraria para a posição de oposta quando essa função foi introduzida no vôlei feminino – seria a MVP de Barcelona 1992, Olimpíada em que as americanas ficaram com o bronze. Weishoff passou pelo extinto Leites Nestlé, de Sorocaba (SP), em 1994, mas ficou a maior parte do tempo no banco por causa de lesões. Vale menção ainda à levantadora Debbie Green, que se não fintava bem era precisa e variava as jogadas, e também à ponta Rita Crockett, que com apenas 1,75m compensava a pouca altura com impulsão – ela seria parceira de Jacqueline Silva no circuito americano de vôlei de praia.

Eliani, Vera e Heloísa observam as americanas enquanto aguardam o saque do Brasil

Altos e baixos
O Brasil surpreendeu as americanas nos dois primeiros sets, com uma eficiência acima do seu padrão habitual no bloqueio e na defesa. Ao vencer a parcial inicial, as brasileiras comemoraram como se tivessem vencido a partida. Após abrir 2-0 (15-12 e 15-10), esperava-se combatividade do time sul-americano para fechar o jogo, mas o que se viu foi muita desorganização. Os EUA levaram os dois sets seguintes com facilidade (15-5 e 15-5), aproveitando-se do nervosismo brasileiro. Veio o quinto set, ainda disputado com o sistema de vantagem – o tie break só seria introduzido em 1989 –, e as americanas abriram 6-2. Começou então a reação brasileira. O bloqueio voltou a tocar na bola, dando à defesa a chance de produzir contra-ataques. O Brasil chegou a ter 12-9 a seu favor, mas aí veio outro apagão. Flo Hyman foi impiedosa na reta final da partida, com direito a provocação em um dos pontos. O bloqueio brasileiro não conseguiu mais contê-la. Com duas horas e meia de duração, o jogo terminou com um ataque pelo meio de Paula Weishoff, após um longo rali: 15-12. Festa americana, desolação do lado brasileiro.

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Isabel, símbolo maior daquela geração, falou várias vezes sobre essa partida histórica. Numa entrevista concedida há seis meses à revista Trip, relembrou o quanto foi dolorosa a derrota. “Foi tão barra-pesada. Era como se eu nunca tivesse perdido na vida, parecia que eu tinha morrido. Foi total despreparo nosso, em todos os aspectos, não só o emocional. Mas ao mesmo tempo foi emocionante: não se imaginava que a gente pudesse ganhar um set sequer das americanas”. Isabel foi um ícone do esporte naquela década, chegando a estampar a capa da revista semanal Veja em 1982, num reflexo do boom do voleibol no país. Confira após o post o vídeo que ela gravou para o Canal Brasil, no qual aponta a derrota para os EUA em 1984 como o momento de maior tristeza da sua carreira.

Regina Uchoa aguarda autorização do árbitro para sacar

Outro expoente daquela época, Vera Mossa, que iria ainda a Seul 1988, volta e meia se via tendo que falar sobre a partida épica. “Aquele jogo mudaria nossa história. O momento ficou meio que emblemático”, comentou, numa entrevista concedida à TV há cinco anos.

Quase…
Vera tem razão. Se tivessem avançado a uma improvável semifinal, o esporte feminino brasileiro poderia ter quebrado antes uma barreira que só seria rompida em Atlanta 1996, quando as mulheres conquistaram quatro medalhas para o país – as primeiras delas na história nacional nos Jogos Olímpicos. A brasileira que mais próximo havia chegado do pódio era Aída dos Santos, mãe da central/ponteira campeã olímpica Valeskinha. Em Tóquio 1964, Aída ficou em quarto lugar no salto em altura, apesar de competir sem técnico ou material para treinamento.

Claro que não haveria garantia de medalha caso a seleção de vôlei feminino avançasse às semifinais em Los Angeles 1984, mas mesmo o quarto lugar seria um feito e tanto para um grupo de jogadoras que nem de longe tinha o apoio dado ao time masculino, que ficaria com a prata. Apesar do longo período de concentração no CTA de São José dos Campos para aquela competição, a equipe treinada por Ênio Figueiredo quase não jogava, tendo pouco intercâmbio, enquanto os homens tinham bastante rodagem. Os métodos de treinamento aplicados à seleção masculina também eram mais sofisticados, para a época, do que os do feminino.

A levantadora Jacqueline Silva seria cortada da seleção no ano seguinte, já sob o comando do técnico Jorge de Barros, após reivindicar equiparação das condições de treino entre as equipes masculina e feminina. Ela tomou atitudes consideradas indisciplinadas pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), como vestir o uniforme de treinamento pelo avesso e fazer críticas à comissão técnica para a imprensa.

As brasileiras reagiram no quinto set, tiveram três pontos de vantagem, mas acabaram perdendo

Abatimento
O restante da participação do vôlei feminino do Brasil em Los Angeles 1984 foi melancólico. Abatidas, só ganhariam do fraco Canadá na disputa de 7º e 8º lugares, jogo decidido em sets diretos, repetindo a colocação de Moscou 1980. Ainda na fase de grupos, perderam para as freguesas da Alemanha Ocidental pelo absurdo placar de 3-0 – uma equipe que sequer havia feito cócegas na China e que só tinha oferecido alguma resistência aos EUA no primeiro set, sendo atropelada depois. Antes de enfrentar as canadenses, as brasileiras cruzaram com a Coreia do Sul, vencendo o primeiro set por 15-13 depois de estarem perdendo por 11-3, mas acabariam tomando a virada nas parciais seguintes, caindo por 3-1, exibindo um jogo opaco, diferente daquele apresentado contra chinesas e americanas.

Dois momentos
Aquela Olimpíada pode ser dividida para o time brasileiro em antes e depois do jogo contra os Estados Unidos. Quando a partida começou, ninguém esperava muito do Brasil. A equipe foi do céu ao inferno em duas horas e meia. Mas a dor da derrota não seria em vão. Viu-se ali o potencial de um grupo de mulheres que desbravavam um esporte que só havia despontado para o grande público do país dois anos antes. Algumas conciliavam a modalidade com os estudos ou carreiras tradicionais, numa indicação de resquícios de amadorismo, contra a estrutura profissional ou de regime full time das potências.

Fim de uma partida épica e a alegria das americanas, que terminariam aqueles Jogos Olímpicos com a prata

Embora o voleibol não despertasse atenção nos EUA, o jogo foi exibido ao vivo e em horário nobre por lá. Por aqui, um pool de seis emissoras (Globo, Bandeirantes, Record, SBT, Gazeta e a extinta Manchete) transmitiam quase todas as partidas de vôlei daquela Olimpíada, mesmo as que não eram das seleções brasileiras. Febre a partir de 1982, o vôlei tinha espaço constante na grade de programação – a TV por assinatura chegaria aqui apenas na década seguinte. Assim, o país inteiro teve a chance de ver o time de Isabel, Vera Mossa e Jacqueline quase derrotar as donas da casa. As projeções se mostraram acertadas: China e EUA conquistaram suas primeiras medalhas no vôlei. As chinesas ficaram com o ouro, deixando as americanas com a prata. O Japão faturou o bronze ao superar o Peru. Os Estados Unidos ainda sentiram o gosto de derrotar a China por 3-1 na última rodada da fase preliminar, mas ambas já estavam classificadas para a semifinal e os adversários da outra chave eram inferiores. Na decisão, as chinesas venceram as anfitriãs em sets diretos.

Isabel na capa da revista Veja em 1982

Destaques
Jacqueline foi escolhida a melhor levantadora de LA 1984, num tempo em que as estatísticas para o fundamento eram acertadamente deixadas de lado na hora de escolher quem se destacava, tendo como foco aspectos técnicos. Vejam duas pinturas dela contra as americanas no vídeo do início deste post, aos 5’25’’ e aos 22’16’’. Jackie Silva, como ficaria conhecida no vôlei de praia (conquistaria o ouro ao lado de Sandra Pires em Atlanta 1996), foi a melhor no levantamento em Los Angeles numa competição em que estavam presentes a genial chinesa Yang Xilan, além das talentosas Kumi Nakada (Japão) e Rosa Garcia (Peru). A atacante Isabel Salgado foi quem mais colocou bolas no chão no torneio. Com 1,80m, a ponteira chegava a 3,08m no ataque, um alcance que impressionava. Para efeito de comparação, Ana Moser, ídolo dos anos 1990, com 1,85m atacava a 3,09m. Ainda na Olimpíada de 1984, Vera Mossa recebeu o prêmio fair play, por seu espírito esportivo.

O duelo de cinco sets entre Brasil e EUA na Arena de Long Beach chamou a atenção para o potencial das brasileiras, que passaram a ser mais respeitadas. Cortes e pedidos de dispensa atrapalhariam o time adulto no ciclo olímpico seguinte, que até teve bons momentos como o honroso quinto lugar no Mundial 1986 e as primeiras vitórias em jogos oficiais contra a URSS e o Japão. Havia evolução. Em 1987, uma nova geração se sagraria campeã mundial juvenil, feito repetido em 1989 – aqueles foram os primeiros títulos globais do voleibol brasileiro, seja entre homens ou mulheres. Veio outra década e a seleção feminina de vôlei adulta do Brasil virou potência pelas mãos de Ana Moser, Márcia Fu, Fernanda Venturini, Hilma e Virna, entre outras. As jogadoras viviam outra realidade, com a contribuição daquelas que trilharam o caminho anteriormente.

Heloísa e Regina Uchoa cumprimentam as adversárias após a derrota por 3-2

Grandiosas
A edição especial sobre a primeira semana de LA 1984 da revista americana Time destacou a partida entre brasileiras e americanas. Um dos especialistas consultados pela publicação referiu-se à seleção do Brasil dizendo “they are great” (“elas são grandiosas”). Disso não havia dúvida. Embora distante do pódio, a equipe deu claros sinais de grandeza. Pela primeira vez, sob os olhos do mundo, o vôlei feminino brasileiro mostrou sua cara. Elas foram grandes de fato.


Convite? FIVB diz que Vôlei Nestlé não está garantido no Mundial de clubes
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Carolina Canossa

Cidade japonesa de Kobe vai receber o próximo Mundial feminino de clubes (Foto: Divulgação/FIVB)

Cidade japonesa de Kobe vai receber o próximo Mundial feminino de clubes (Foto: Divulgação/FIVB)

A notícia de que o Vôlei Nestlé está tentando obter um dos quatro convites no Mundial feminino de clubes animou os fãs da equipe paulista, mas eles ainda terão que esperar um pouco mais para comemorar. Procurada pelo Saída de Rede para falar sobre o assunto, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) confirmou que, de fato, está analisando alguns candidatos, mas deixou claro: nenhuma equipe da América do Sul já pode se considerar assegurado na disputa.

Confira abaixo a mensagem enviada pela entidade ao SdR:

Vários clubes foram convidados a participar, mas, por enquanto, só foi pedido que eles confirmem o interesse. Nenhum time sul-americano está oficialmente confirmado até agora.

Não há uma data de definição para que os quatro convites sejam feitos, mas critérios como torcida, força política e financeira, elenco e país de origem sempre são considerados para a definição dos contemplados. O Mundial feminino de clubes de vôlei será disputado de 8 a 14 de maio em Kobe, no Japão.

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Outros dois times brasileiros, o Rexona-Sesc e o Dentil/Praia clube, sonham em participar da disputa, mas ambos inicialmente tentarão a vaga através do título do Sul-americano feminino, entre 12 e 19 de fevereiro em Uberlândia e Uberaba (MG).


Vôlei Nestlé trabalha por convite no Mundial feminino de clubes
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Carolina Canossa

Vôlei Nestlé se sagrou campeão mundial em 2012 (Foto: João Pires/Fotojump)

Vôlei Nestlé se sagrou campeão mundial em 2012 (Foto: João Pires/Fotojump)

O Mundial feminino de clubes femininos de vôlei será disputado apenas em maio, mas a movimentação nos bastidores para participar da competição já está a toda. E tem clube brasileiro de olho em um dos quatro convites que serão dados pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei)…

Trata-se do Vôlei Nestlé. Enquanto as quadras estavam vazias por conta das festividades de fim de ano, a direção do time sediado em Osasco trabalhou intensamente para conseguir levar o clube à competição na cidade de Kobe (Japão). Porém, procurada pela reportagem do SdR, a equipe ainda não respondeu ao nosso questionamento sobre o tema. O mesmo aconteceu com a FIVB.

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Praia é a decepção do primeiro turno da Superliga. Como foi o seu time?

A força de um patrocinador de renome internacional é um trunfo para o Vôlei Nestlé, que nesta temporada preferiu apostar em um elenco formado por jogadoras com potencial para estarem na Olimpíada de 2020 lideradas por três atletas consagradas: a levantadora Dani Lins, a líbero Camila Brait e a ponteira/oposta Tandara. O time encerrou o primeiro turno da Superliga na segunda posição, atrás apenas do arquirrival Rexona-Sesc.

Dos oito participantes do Mundial feminino de clubes 2017, quatro serão definidos por convites. A outra metade das vagas será dada ao campeão asiático (NEC Red Rockets (Japão)), ao “clube-sede” (Hisamitsu Springs (Japão)), ao campeão europeu (ainda a ser definido) e ao campeão sul-americano (ainda a ser definido). Vale destacar que a disputa continental entre os times latinos vai acontecer de 12 a 19 de fevereiro nas cidades mineiras de Uberlândia e Uberaba, com participação do Dentil/Praia Clube (sede) e do Rexona (atual campeão da disputa e da Superliga).

Em 2016, o Mundial de clubes femininos de vôlei aconteceu nas Filipinas: único representante verde-amarelo na disputa, o Rexona lutou bastante contra times de maior orçamento, mas acabou eliminado ainda na primeira fase – o título ficou com o Eczacibasi, da Turquia, onde atua a central brasileira Thaisa, que foi convidado pela organização justamente por ter levado o Mundial de 2015.

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Três times brasileiros já se sagraram campeões mundiais de vôlei feminino: o próprio Vôlei Nestlé (2012), o Leite Moça/Sorocaba (1994) e o Sadia (1991).