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Arquivo : Atenas 2004

Mari: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”
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Sidrônio Henrique

A oposta do Bauru diz que está super tranquila (foto: Guilherme Cirino/Instagram @guilhermectx)

A silhueta esguia surge no corredor que dá acesso à quadra e os fãs que aguardam a loira de 1,90m se agitam ao vê-la de longe, chegando para o treino. Quase cinco anos depois de ter vestido a camisa da seleção brasileira pela última vez, a ponta/oposta Marianne Steinbrecher, 33 anos, ainda causa frisson entre os aficionados por voleibol. É quase impossível ignorá-la, seja por sua simples presença, seja por sua história representando o Brasil.

Foi do céu ao inferno mais de uma vez. Muito jovem, 21 anos recém-completados, marcou 37 pontos na tragédia de Atenas, em 2004, a semifinal olímpica em que o Brasil desperdiçou sete match points e viu a Rússia avançar à final. Começava ali um calvário que acabaria quatro anos depois, na sua maior conquista, o ouro olímpico em Pequim. Calou seus detratores como titular absoluta em uma equipe esférica, beirando à perfeição. Contusões, cirurgias, o corte antes de Londres 2012… Uma carreira atribulada, mas Mari sempre ressurge.

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A forma atual, ela admite, não é a ideal, mas segue se esforçando, lutando contra as limitações físicas. “Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande”, disse ao Saída de Rede.

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O modo como o voleibol feminino é jogado atualmente não a agrada muito. “Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo”. Sobre a renovação na seleção, Mari torce pelo sucesso do time, mas foi taxativa: “Acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração”.

Atualmente revezando-se com Bruna Honório na saída de rede, ela tenta ajudar o Genter Vôlei Bauru, clube que passou a integrar em novembro do ano passado, a chegar à semifinal da Superliga, na segunda temporada da equipe na primeira divisão. Logo mais, às 20h30, em Belo Horizonte, o Bauru entra em quadra como visitante contra o Camponesa/Minas para a primeira partida da série melhor de três das quartas de final.

Veja a entrevista que Marianne Steinbrecher concedeu ao SdR:

Saída de Rede – Os fãs ficam muito agitados quando te veem. Faz tempo que você não joga pela seleção, mas segue sendo assunto nas redes sociais e chama muita atenção nos ginásios. A que você atribui isso?
Mari – Acho que simpatizam comigo porque sou uma jogadora diferente. Mas sou mais séria na quadra, fora dela sou completamente diferente do que quando estou jogando. As pessoas não sabem, acham que sou assim o tempo todo e não é verdade, sou brincalhona. Quem me conhece, sabe. Então eu acho que esse jeito diferente, aparentemente mais frio, causa essa curiosidade, né. Também o fato de eu não ser uma brasileira típica. Essas coisas me deixam bem diferente da maioria das jogadoras.

Mari na semifinal de Atenas 2004: bloqueando Gamova e no chão após a derrota (fotos: FIVB)

Saída de Rede – Como avalia seu atual momento na carreira? Está jogando do jeito que gostaria? Como vê sua participação no Bauru?
Mari – Tô voltando numa situação atípica, fiquei muito tempo parada depois da morte do meu pai (1º de abril de 2016). Eu vim num esquema diferente delas (aponta para as colegas de time, na quadra). Eu tenho alguns, não digo privilégios, mas algumas coisas que eu resolvo com o Marcos (Kwiek, treinador do Bauru). Eu tenho que ver minha mãe, que agora é uma senhora paraplégica que mora sozinha (vive em Rolândia-PR, cidade onde a paulistana Mari foi criada), eu tenho todo um esquema um pouco diferente. Mas eu não deixo de treinar, eu treino igual a todo mundo. Eu vim depois, né. Cheguei ao time em novembro, então até eu entrar em ritmo de novo… Até hoje eu não peguei ritmo de jogo. Eu vinha jogando, mas aí eu machuquei o abdome, fiquei um bom tempo parada. Agora tô voltando a treinar. Ainda não estou como eu gostaria, por não ter ritmo de jogo e ter tido também essa lesão no abdome, que me deixou um tempo afastada.

Redenção em Pequim 2008: ouro (foto: FIVB)

Saída de Rede – Você teve muitas lesões ao longo da carreira. O quanto elas te atrapalharam? Te fizeram mudar a forma de jogar?
Mari – Eu tive lesões sérias que afetaram minha forma de jogar. Eu tive uma lesão na perna esquerda (joelho esquerdo, em 2013) que eu nunca mais pude cair me apoiando nela como fazia antes, isso me deixou muito travada. Hoje em dia eu tenho que me arrumar muito mais para atacar uma bola, pensar muito mais para saltar, pensar muito mais para cair. Em alto nível, qualquer diferença é muito grande. Então foi toda uma adaptação, levou pelo menos dois anos para hoje estar um movimento mais natural. Eu tive vários problemas que a maioria das jogadoras não teve. Tive uma cirurgia no ombro direito ainda muito nova, depois demorou a recuperar. Em 2008 eu já estava OK, mas você tem que ficar sempre cuidando. Teve a cirurgia no joelho direito em 2010, que me tirou do Mundial. Leva sempre um ano (de recuperação) para você estar bem. E nunca mais você fica 100%, você volta bem, mas nunca mais é o joelho como a gente nasceu. Foram várias coisas… Eu aprendi muito a ter superação diante desses problemas. Isso me fez crescer muito como atleta, como pessoa.

Saída de Rede – A temporada anterior, parte na Itália, depois na Indonésia, onde o nível é mais baixo, te atrapalhou de alguma forma?
Mari – Não, foi ótima. O nível delas (jogadoras indonésias) não é o nosso nível, mas o das estrangeiras que vão para lá é muito bom. Tinha as chinesas, jogadoras da seleção delas, que disputaram duas Olimpíadas, e jogaram lá também. A Logan Tom (ponta americana), que estava no meu time, ela estava muito bem. As estrangeiras são diferenciadas, a cobrança em cima da gente na Indonésia era muito grande. Lá a gente atacava 80, 90 bolas por jogo. Se fizéssemos menos de 30 pontos, eles achavam que a gente jogou mal. É um outro tipo de pressão, então fisicamente você tem que estar o tempo inteiro bem. Treinava e jogava sexta, sábado e domingo, não tinha folga… Eles são assim, um pouco fora do normal. (Risos)

No ataque: lesões mudaram sua forma de jogar (fotos: Neide Carlos/Genter Vôlei Bauru)

Saída de Rede – Você ficou decepcionada por não ter sido lembrada na convocação da seleção no ano passado?
Mari – Não chegou a ser decepção porque não esperava nada, não espero nada, mas eu acho que poderia ter sido lembrada pela fase em que eu estava. Eu vinha bem, fisicamente muito bem. Fui pra Indonésia por falta de pagamento (na Itália), não por opção minha. Naquele período não tinha um time pra eu poder me encaixar. Até havia outros times, mas financeiramente não estava valendo a pena em comparação com o que a Indonésia me ofereceu. E eu estava vindo de uma situação sem receber, então não podia pensar só onde jogar, mas na parte financeira também. Eu fiquei mais de cinco meses sem salário na Itália, tendo despesas em euro, e o euro estava quatro e pouco em relação ao real… Tive que optar pela situação financeira que a Indonésia estava oferecendo.

Saída de Rede – O Bolzano (clube italiano pelo qual ela jogou metade da temporada passada) pagou tudo o que te devia?
Mari – Não, não…

Saída de Rede – Eles propuseram algum acordo?
Mari – Eles tão pagando muito picado, sabe. Já tem mais de um ano e até hoje eles me ligam e falam “vamos pagar um pouquinho aqui”. Eu já entendi que eu nunca vou ver a cor do dinheiro realmente.

(Nesse momento, Paula Pequeno, do Terracap/BRB/Brasília Vôlei, que havia treinado e se alongava noutro canto do ginásio do Sesi, em Taguatinga (DF), chega e dá um abraço e um beijo na ex-colega de seleção. As duas foram as ponteiras titulares em Pequim 2008, quando o Brasil conquistou seu primeiro ouro olímpico no vôlei feminino, numa campanha invicta, com oito vitórias e apenas um set perdido.)

Batendo papo com as colegas de time durante intervalo do treino

Saída de Rede – Você já pensou em parar ou faz planos de jogar até uma determinada idade?
Mari – Hoje em dia não tô mais pensando muito nisso, não. Eu acho que fisicamente, apesar dos contratempos, ainda tô super tranquila pra jogar. Tudo depende mais da cabeça hoje em dia, né… Eu vou fazer 34 anos e o que pesa mais não é a parte física, mas sim a cabeça. Sabe, você estar querendo fazer outras coisas, estar descobrindo outras coisas e o vôlei passa a não ser mais o principal foco… Mas eu ainda não cheguei nesse ponto. Quando chegar nesse ponto, vai ser o momento em que vou falar “não quero mais”.

Saída de Rede – Seu contrato com o Bauru vai até o final desta temporada. Onde você se vê na próxima? Pensa em renovação com o clube?
Mari – Eu espero continuar.

Saída de Rede – O que acha da renovação na seleção feminina, das novas jogadoras que substituirão a sua geração?
Mari – Eu acho que o vôlei, comparando a nossa geração com essa de hoje, virou um voleibol masculino: só força, porrada, você não vê mais jogada, você não vê mais jogadoras habilidosas, não vê levantadoras como Fofão e Fernanda Venturini. Pra mim, o vôlei feminino virou um vôlei, digamos, um pouco mais feio. Mais forte, porém mais feio. Modo de dizer, não que seja um vôlei feio. (Risos)

Durante aquecimento na Superliga, ela aguarda sua vez de atacar

Saída de Rede – Com mais potência, com ênfase na parte física?
Mari – Exatamente. Eu acho o vôlei um esporte muito bonito, muito técnico. O vôlei feminino era pra ser muito mais assim e não está sendo. Então nossa renovação está… No mundo, né, no geral tá sendo muito isso.

Saída de Rede – Você acha que as jogadoras jovens cotadas para a seleção podem ajudar a manter o Brasil em alta?
Mari – Ai, prefiro não opinar porque a gente não sabe o que pode acontecer… Assim como minha geração foi um pouco desacreditada, de 2005 até ganhar o ouro olímpico em 2008… Depois na Olimpíada seguinte elas ganharam outro ouro, sabe, esse grupo em que ninguém acreditava, que era chamado de geração amarelona e tal. Isso pode acontecer com essa geração nova. Eu torço pra que isso aconteça, que vençam. Porém, acho difícil surgirem tantas jogadoras boas como na minha geração. É pouco provável ter tantas atletas naquele nível nessa geração que está chegando.


Seleção masculina perde mais uma peça-chave após saída de Bernardinho
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Sidrônio Henrique

Bernardinho e Roberta: parceria de 20 anos com títulos no clube e na seleção (fotos: arquivo pessoal)

Ela é a voz na cabeça de Bernardinho há 20 anos. Sabe aquele fone de ouvido que você cansou de ver o técnico arrancar quando tem raiva? Ela está do outro lado – e não é por sua causa que ele se irrita, longe disso. Suas análises, tanto dos jogos da seleção brasileira quanto dos adversários, foram fundamentais em todas as grandes conquistas de um time com um cartel impressionante. Formada em educação física, porém atuando na área de estatística, Roberta Giglio segue ao lado do chefe no Rexona-Sesc, mas decidiu colocar um ponto final na sua história com a seleção masculina. “Era uma rotina muito desgastante, eu queria sair há algum tempo e o Bernardinho me segurava. Aproveitei a saída dele e agora vou cuidar da minha vida. Mas saio com a sensação de que fiz tudo o que poderia fazer”, disse Roberta, 45 anos, ao Saída de Rede. Ela é mais uma peça-chave da antiga comissão técnica que deixa a seleção, após Rubinho abrir mão, em janeiro, do cargo de assistente do novo treinador.

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Foi Renan Dal Zotto, o substituto de Bernardinho, quem a apresentou ao multicampeão em 1997. Roberta Giglio estava com Renan pela segunda temporada na Superliga masculina, na extinta equipe da Olympikus, quando conheceu Bernardo Rezende, que a levou para o Rexona, então com sede em Curitiba. Naquele mesmo ano ela começou a trabalhar para a seleção feminina, também treinada por ele. A dobradinha Rexona/seleção começou ali e não parou mais. Em 2001, quando Bernardinho assumiu o comando do masculino, Robertinha, como é chamada, foi junto.

Robertinha analisava o desempenho do Brasil e do adversário

Zé Roberto
Graduou-se em educação física em 1993, na FMU, em São Paulo, mas antes mesmo de formada já dava seus primeiros passos no voleibol. Não dentro das quadras, afinal a altura de 1,63m não ajudava muito e não havia líbero naquela época. Começou fazendo anotações em torneios infantojuvenis, até que em 1992 foi trabalhar com o técnico José Roberto Guimarães, no antigo time feminino Colgate São Caetano.

Ricardo Trade, o Baka, hoje diretor executivo da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), foi contemporâneo dela na faculdade, era preparador físico na Colgate e a chamou para fazer estatística. Pouco tempo depois, Sérgio Negrão assumiu a equipe e ela foi mantida. Ficou em São Caetano de 1992 a 1995, depois foi trabalhar no vôlei masculino, com Renan Dal Zotto, de 1995 a 1997, até engatar a parceria definitiva com Bernardinho.

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Não faltam episódios curiosos dessa relação profissional de 20 anos. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ela não pôde acompanhar a delegação da seleção feminina, devido ao número limitado de profissionais que poderiam ser credenciados então. A solução foi preparar vídeos e análises dos adversários a toque de caixa e se manter em contato com o assistente Chico dos Santos, que fez as vezes de estatístico.

Comissão técnica da seleção masculina após a conquista da Liga Mundial 2006, em Moscou, Rússia

Choro
Atenas 2004, já com a seleção masculina, foi um título marcante, mas também um pesadelo em termos de trabalho. “Era uma loucura, pois eu ainda fazia as análises sozinha. Eram seis jogos por rodada na fase inicial. Nos últimos dias eu chorava para aquilo acabar, não aguentava mais. Como a primeira partida era às 8h30, lá pelas 7h30 eu estava no ginásio. Saía depois da meia-noite, às vezes chegava às 2h na vila olímpica e o Bernardinho estava me esperando. Eu virava a noite para entregar tudo, quase não dormia. Nos dias em que o masculino não jogava, fazia análises”, relembrou Roberta Giglio.

Desde que passou a integrar a comissão técnica da seleção brasileira, há 20 anos, ficava pelo menos seis meses fora de casa. “Às vezes emendava cinco semanas no exterior, uma loucura”, completou. De todos os continentes, só não foi à África. Esteve em 40 países. Somente ao Japão foram 18 viagens, sempre na classe econômica. “Muitas vezes na poltrona do meio”, afirmou rindo.

“Robeeertaaaa”
Na seleção, dividia os ouvidos de Bernardinho com o assistente técnico Rubinho. “Ali era o Rubinho quem falava mais. Mas no Rexona só sou eu mesma”. No clube, ela enfatizou, as cobranças não diminuem. “É o mesmo trabalho, a mesma exigência”.

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Às vezes há momentos engraçados. Na semifinal da Copa Brasil 2017, diante do Dentil/Praia Clube, uma cena hilária. “De repente ouvi gritos vindos lá de perto do banco, o Bernardinho berrando ‘Robeeertaaaa’, mas eu achava que era com a levantadora (Roberta Ratzke). Aí olho pra quadra, a Roberta estava me olhando e disse ‘é contigo’. Ele esqueceu de apertar o botão pra falar no fone, por isso eu nunca ia achar que era comigo. As jogadoras reservas se acabando de rir e ele cada vez mais bravo com a demora”, contou Robertinha, que nutre grande admiração pelo chefe.

Com a ajuda do pai, ela desenvolveu software que representa diferencial para a seleção e o Rexona

Software
Foi com a ajuda do pai, o aposentado Cláudio Giglio, que durante 30 anos trabalhou para a multinacional Philips e era autodidata em computação, que ela deu uma das maiores contribuições ao voleibol brasileiro. Tendo como referência o software Data Volley, desenvolvido pelos italianos para análises estatísticas e largamente utilizado ao redor do mundo, ela criou uma versão tão perfeita que os estrangeiros ficavam curiosos a respeito.

Nunca deu nome ao software, que fez pensando em seu trabalho na seleção. Os upgrades no programa são constantes e somente ela o utiliza. “Isso sempre despertou muita curiosidade. Eu, uma mulher, fazendo tudo diferente no meio de um monte de homem, e meu trabalho era referência. Sempre tinha gente de olho, até porque ganhamos muitos títulos”. O mais recente foi o ouro olímpico na Rio 2016. “Minha função não envolve apenas estatística, mas estratégia também. Esse software me ajuda a acelerar as análises”, ressaltou.

Robertinha ainda não sabe o que vai fazer após a temporada de clubes, mas pensa em sossegar um pouco. “Preciso curtir minha casa em São Paulo, pois quase não vou lá. Quando não estou viajando com o time do Rexona, acabo ficando no Rio”.


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Sidrônio Henrique

As várias faces de Doug Beal, o homem que reinventou o vôlei (fotos: FIVB, USAV e arquivo pessoal)

Douglas Peter Beal completa 70 anos no começo de março, já são 60 anos desde que descobriu o vôlei na sua escola primária, em Cleveland, Ohio, no norte dos Estados Unidos. No início de 2016 ele surpreendeu o mundo da modalidade ao anunciar que deixaria o cargo de diretor executivo da USA Volleyball (USAV, organização que administra o vôlei no país). Tinha até data marcada: 2 de janeiro de 2017. O dia chegou, Beal sai da entidade esportiva que comandou por 12 anos, mas nada de adeus. Em vez disso, um até logo. “Tenho quatro ou cinco diferentes projetos, que poderão ser desenvolvidos em parceria com a USAV”, disse em entrevista exclusiva ao Saída de Rede, concedida por telefone, no dia 29 de dezembro, desde Colorado Springs, na sede da USA Volleyball. Sua volta à ativa não tem data. “Preciso de um tempo para descansar, resolver algumas situações em família”, explicou.

Se você não está acostumado ao nome, a gente te conta quem é Doug Beal. Ele é considerado revolucionário por treinadores em todo o mundo pelas alterações que introduziu nos Jogos Olímpicos de 1984, como o sistema de recepção com dois passadores em vez de cinco e por transformar a posição de oposto desde um perfil técnico em um especialista em ataque. Há mais de 30 anos, com mínimos ajustes (a utilização de um terceiro passador é o mais evidente), as equipes jogam da forma que Beal concebeu. Foi ele quem transformou a seleção masculina dos EUA numa potência, levando o time ao seu primeiro ouro olímpico naquele mesmo ano (veja perfil após a entrevista). Era apenas o começo.

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Com Beal à frente da USAV a partir de 2005, os EUA atravessaram três ciclos olímpicos. Eles, que não conquistavam medalha no indoor desde Barcelona 1992, ganharam duas em Pequim 2008 (entre elas o terceiro ouro do masculino na história), uma em Londres 2012 e duas na Rio 2016. Na praia, outras cinco medalhas nessas edições, sendo três de ouro. A seleção masculina finalmente venceu a Liga Mundial em 2008 e repetiu a dose em 2014. Já a equipe feminina desencantou, alcançando pela primeira vez o topo do pódio em um dos principais torneios, ao obter o ouro no Mundial 2014. Doug Beal concorreu à presidência da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) em 2012 e perdeu para Ary Graça. Seguiu então com seu trabalho na USAV, mas sempre de olho na modalidade ao redor do mundo.

Para ele, o Brasil é uma referência. “Temos muito respeito pelo voleibol brasileiro e sabemos que é recíproco”. Ele vê Bernardinho como um dos maiores de todos os tempos e diz que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) fez bem em renovar com Zé Roberto. “Conheço Bernardinho pessoalmente e tenho profunda admiração por um dos melhores técnicos da história. Fico contente que a CBV tenha renovado com Zé Roberto, não se pode interromper um trabalho vitorioso por causa de um tropeço”, afirmou.

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Tendo passado boa parte da vida à beira da quadra, o americano disse que atualmente prefere o voleibol feminino ao masculino. Ele falou da Rio 2016, das principais seleções, comentou que ficou surpreso com a derrota do Brasil para a China nas quartas de final no feminino e que Bernardinho se superou ao levar o ouro “com uma equipe apenas boa, longe de ser a melhor”. Segundo Beal, a entrada de Lipe no time titular foi fundamental. “Às vezes um jogador vem do banco e completa o quebra-cabeça”, ponderou. Ele gostou do resultado das seleções americanas no Maracanãzinho. A jovem oposta sérvia Tijana Boskovic lhe causou boa impressão e os saques do italiano Ivan Zaytsev ainda fazem o ex-treinador se perguntar “o que foi aquilo?”.

Confira o bate-papo com uma lenda do vôlei, o homem que modernizou a modalidade:

Saída de Rede – Pronto para a despedida, para deixar a USAV?
Doug Beal – Estou cercado de caixas, tudo empacotado, o meu antigo escritório já está fechado, tem pouca gente aqui esta época do ano. Virei no dia 2 de janeiro só para me despedir, mas na verdade já fiz tudo o que tinha de fazer em relação a minha partida. Mas você sabe que não gosto de dizer “adeus”, então prefiro pensar num “até logo”.

Doug Beal foi diretor executivo da USAV por 12 anos

Saída de Rede – Algum projeto em mente para a fase pós-USAV?
Doug Beal – Tenho quatro ou cinco diferentes projetos, que poderão ser desenvolvidos em parceria com a USAV. Em alguns eu teria uma participação maior, noutros seria um consultor.

Saída de Rede – Quais projetos?
Doug Beal – Não queria detalhar isso agora, mas são ideias para ampliar a popularidade e também desenvolver o voleibol nos Estados Unidos.

Saída de Rede – Mas há uma data para o seu retorno à ativa?
Doug Beal – Não estou pronto para tomar nenhuma decisão. Preciso de um tempo para descansar, resolver algumas situações em família, vou para a Califórnia (ele mora em Los Angeles). Realmente não sei quando volto à ativa.

Saída de Rede – A USAV ainda não anunciou seu sucessor. Não houve definição?
Doug Beal – Não que eu saiba. Talvez o conselho de diretores, composto de 17 pessoas, tenha escolhido alguém, mas pode ser que o novo diretor executivo esteja trabalhando em outro lugar e precise de um tempo. Pode ser que a escolha demore algumas semanas. Eles são muito criteriosos.

Orientando o ponta Riley Salmon em Atenas 2004

Saída de Rede – Da última vez que conversamos, você cogitava trabalhar para a FIVB, caso o quisessem. Há algo nesse sentido?
Doug Beal – Tive várias conversas com o Ary (Graça), mas nada formal. Também tenho conversado com o Fábio e o Fernando, que ajudam o Ary no comando da FIVB, para ver se há como eu contribuir. (Nota do SdR: Fábio Azevedo e Luiz Fernando Lima são, respectivamente, diretor-geral e secretário-geral da FIVB.)

Saída de Rede – Você gosta de como o vôlei vem sendo conduzido pela FIVB?
Doug Beal – Gosto de algumas coisas, é o caso da ideia de promover a modalidade como uma atividade para as famílias, afinal o voleibol pode ser praticado por pessoas de todas as faixas etárias.

Saída de Rede – Cada vez mais as modalidades esportivas são apresentadas como entretenimento, disputando espaço entre si na TV e na internet. A forma como o vôlei vem sendo embalado e apresentado ao público te agrada?
Doug Beal – Nas grandes competições, sim. Sem dúvida esporte é entretenimento, a atmosfera tem que ser agradável ao público, senão ele rejeita. Mas há um ponto crucial: o jogo precisa vender a si mesmo. É necessário que as pessoas amem e entendam o esporte, que as regras sejam simples, que as partidas sejam atrativas.

Com o colega soviético Vyacheslav Platonov no início dos anos 1980

Saída de Rede – E isso é uma realidade? O vôlei é atrativo?
Doug Beal – É, mas a mídia tem um papel importante, que é o de torná-lo mais acessível ao torcedor. Acho que precisamos de mais análises, para que o fã possa se aprofundar. Veja que o vôlei de praia se expandiu muito nos últimos anos porque é fácil de compreendê-lo, além de outros fatores, como o fato de ser ao ar livre. Pensando de uma forma geral, na praia e no indoor, nunca é demais promover os que fazem o esporte, promover os indivíduos, os grandes jogadores.

Saída de Rede – Quais os problemas que você vê no caminho da modalidade para torná-la mais popular?
Doug Beal – Vejo mais problemas no vôlei masculino, onde os ralis são geralmente muito curtos e há muitos erros por causa do excesso de força. Mas ainda assim digo que o voleibol não precisa de grandes mudanças nas regras. Se o espectador entende o que está se passando e gosta do que vê, ele será fiel.

Discursando durante evento da USA Volleyball em Colorado Springs

Saída de Rede – Você tem gostado mais do feminino nos últimos anos, tem dito que é mais agradável de assistir.
Doug Beal – O vôlei feminino está mais potente, mas a habilidade ainda é fator preponderante. Vejo algumas jogadoras fantásticas em todas as grandes seleções. Os ralis são longos, é difícil colocar a bola no chão e é isso que o torcedor quer ver. De fato, acho o voleibol feminino melhor para assistir.

Saída de Rede – Olhando para sua carreira, quais os melhores momentos?
Doug Beal – A preparação e a disputa da Olimpíada de Los Angeles, em 1984, eu era um técnico bem jovem (37 anos) quando conquistamos nosso primeiro ouro no vôlei. Os dois anos que passei em Milão, no comando do Mediolanum, aquele foi um período muito bom da minha vida. Logo depois voltei para os EUA e trabalhei para ajudar a desenvolver o esporte aqui, isso também tem sido algo muito importante para mim. O crescimento da USAV é muito relevante, não posso deixar de mencionar.

Saída de Rede – E as maiores decepções?
Doug Beal – Não ter conseguido implantar as seletivas olímpicas para o vôlei de praia nos EUA me incomoda muito. Teria sido crucial para atrair mais patrocinadores. As seletivas atraem dinheiro e público aqui, movimentam milhões de dólares em esportes como natação, atletismo, ginástica, entre outros. No lugar disso, continuamos utilizando o ranking da FIVB para determinar quem vai às Olimpíadas representando os EUA no vôlei de praia.

Com três dos futuros campeões olímpicos em Los Angeles 1984

Saída de Rede – Mas o que aconteceu? A ideia foi rejeitada?
Doug Beal – Os atletas não se empolgaram, não quiseram levar adiante. Isso me frustrou.

Saída de Rede – Essa foi sua única grande decepção?
Doug Beal – O time masculino em Sydney 2000 (os EUA não passaram da primeira fase), eu o treinei muito mal, jogamos horrivelmente. Aquilo foi uma decepção e a responsabilidade foi minha. Ah, me lembrei de outro momento grandioso…

Saída de Rede – Qual?
Doug Beal – Pequim 2008. Não ganhávamos medalhas no indoor desde Barcelona 1992, mas lá na China ganhamos duas na quadra (ouro no masculino e prata no feminino). Pequim foi um momento especial.

Beal e a comissão técnica do time masculino dos EUA comemoram o ouro em Pequim 2008

Saída de Rede – Como você avalia a rivalidade com o Brasil desde que o vôlei começou a se desenvolver em ambos os países no início dos anos 1980?
Doug Beal – O Brasil é a nossa referência, temos muito respeito pelo voleibol brasileiro e sabemos que é recíproco. Se você analisar a partir daquela época, vai ver que são os dois países mais bem sucedidos no vôlei nas Olimpíadas. Tenho orgulho em dizer que desde Los Angeles 1984 os EUA têm ganhado medalhas nos Jogos Olímpicos, no indoor ou na praia. O Brasil também tem um desempenho muito bom. (Nota do SdR: os americanos ficaram sem medalha na quadra em 1996, 2000 e 2004, mas sempre conquistam algo na praia desde que a modalidade fez sua estreia olímpica em 1996. Já o Brasil, que também nunca deixou de ganhar medalha na praia, tem subido seguidamente no pódio no indoor desde 1992.)

Saída de Rede – O que achou da Olimpíada do Rio depois de tanta polêmica e do massacre que vinha sofrendo meses antes por parte da mídia americana?
Doug Beal – Parecia que nada ia dar certo. Quando víamos o noticiário aqui só se falava em problemas, que nada ia ficar pronto, que ia ser um desastre, mas no final deu tudo certo. Foram grandes Jogos Olímpicos, graças ao espírito do povo brasileiro e ao empenho do comitê organizador, que fez de tudo para aparar qualquer aresta. E olha que já vi muitas Olimpíadas, não sei nem quantas.

Saída de Rede – Sua primeira Olimpíada foi a de Los Angeles 1984?
Doug Beal – Como participante, sim. Mas eu já havia ido aos Jogos de Munique, em 1972.

Beal observa a seleção durante Atenas 2004, uma das três Olimpíadas em que foi técnico

Saída de Rede – Como espectador ou voluntário? Pois os EUA não se classificaram no vôlei.
Doug Beal – O pré-olímpico foi lá mesmo na Europa, pouco antes da Olimpíada, não conseguimos nos classificar, aí parte do time americano decidiu ficar para ver. Eu me lembro como se fosse hoje. O mundo era tão mais simples, viajar era mais tranquilo, comprar ingressos era uma facilidade. Hoje em dia para comprar uma entrada você preenche tanta coisa e ainda tem que esperar para saber se deu certo. Aí fomos, e eu ficava ali vendo os times que não tínhamos condições de derrotar, pensando em um dia jogar naquele nível. Um bando de amigos juntos vendo tudo aquilo, era um barato.

Saída de Rede – Mas voltando ao Rio, não viu problemas?
Doug Beal – O Rio de Janeiro é uma cidade complicada para se fazer um evento dessa magnitude por causa do problema de transporte, além é claro do endividamento que deve ter sido gerado pela construção de tantas novas arenas. Mas isso é um mal que atinge muitas cidades que foram sede dos Jogos Olímpicos. De todos que vi, gostei mesmo dos de Los Angeles (1984) e os de Sydney (2000), duas cidades com infraestrutura ideal para receber a Olimpíada. Espero que LA volte a recebê-la em 2024. Mas no Rio, apesar dos problemas políticos, econômicos, sociais e até de saúde que o Brasil enfrenta, havia uma energia incrível. Me lembro de Atenas (2004), que foi um evento complicado e muito criticado, e os Jogos ocorreram sem nenhuma paixão, de uma forma quase burocrática. No Brasil jamais seria daquele jeito. Houve incidentes, como aquele da água oxigenada na piscina dos saltos ornamentais, mas sempre há incidentes nas Olimpíadas, mesmo nas mais bem sucedidas, é um evento gigantesco. A Rio 2016, na minha opinião, foi um sucesso. Ainda tem outro fator importante para mim, que sou do vôlei: os brasileiros amam a modalidade. Então tanto na arena em Copacabana quanto no Maracanãzinho a sensação era única, um show. Isso vai ser difícil superar.

Brasileiras choram após eliminação na Rio 2016: “Acho que até as chinesas ficaram surpresas”

Saída de Rede – O que achou do voleibol apresentado no Maracanãzinho?
Doug Beal – Fui surpreendido com a derrota da seleção feminina do Brasil nas quartas de final. Acho que até as chinesas ficaram surpresas. (risos) As brasileiras provavelmente tinham a melhor equipe. Diria que se jogassem dez vezes contra a China, ganhariam oito ou nove, mas aquele jogo serviu para mostrar como está equilibrado o nível do vôlei feminino atualmente. Em Londres 2012, Brasil e EUA estavam à frente dos demais times. Veja que Japão e Coreia do Sul (bronze e quarto lugar, respectivamente) não tinham nível para bater de frente com os finalistas. Já no Rio você tinha os quatro primeiros colocados (China, Sérvia, EUA e Holanda), mais o Brasil e, com alguns ajustes, a Rússia, todos com chance de medalha.

Saída de Rede – E do masculino, qual a sua avaliação?
Doug Beal – O Bernardinho se superou. Aquele foi sem dúvida, nos grandes torneios, o melhor trabalho dele como técnico, pois conquistou o ouro com uma equipe apenas boa, longe de ser a melhor. Ele estruturou um esquema que compensava as limitações do time. Fez uma alteração na equipe ainda na primeira fase que foi fundamental para que o jogo brasileiro fluísse melhor.

Para Doug Beal, o ponta Lipe era a peça que faltava

Saída de Rede – Qual?
Doug Beal – A entrada daquele ponteiro Lipe no time titular. Ele não é o melhor jogador do Brasil, mas sua participação deu ao time a possibilidade de um padrão que não foi alcançado pelos adversários. Esporte é isso, nem sempre o melhor vence, mas sim aquele que está melhor estruturado. Lipe era a peça que faltava e o Bernardinho soube utilizá-lo. As pessoas olham muito para os grandes astros, mas às vezes um jogador vem do banco e completa o quebra-cabeça. Não sei se o Brasil chegaria ao ouro sem ele.

Saída de Rede – Que times te surpreenderam e quais te desapontaram no masculino?
Doug Beal – França e Polônia foram duas decepções. Talvez a França ainda seja o melhor time do mundo, mas não conseguiu colocar em prática seu jogo no Maracanãzinho, sucumbiu à pressão. Entre os demais favoritos, quase todos tiveram grandes momentos no Rio e ainda tivemos boas surpresas com o Canadá e a Argentina. Quer dizer, o Canadá pode ser uma surpresa para o resto do mundo. Nós, americanos, que os enfrentamos sempre, sabíamos que não ia ser fácil. Viu o que fizeram conosco na estreia?

Beal cumprimenta Alisha Glass e Courtney Thompson durante o Campeonato Mundial 2014 na Itália

Saída de Rede – Acompanhei a vitória canadense por 3-0. Pena que depois o oposto Gavin Schmitt sentiu uma lesão no joelho direito e não pôde jogar com a mesma intensidade. Poderiam ter ido mais longe, pelo menos brigar de igual para igual com a Rússia nas quartas de final?
Doug Beal – Sim, faltou um pouco de sorte a eles. O Canadá tem um time muito bom, bastante ajustado, com jogadores bem interessantes.

Saída de Rede – Você apontou a Argentina como uma surpresa. O que te agrada naquele time?
Doug Beal – A seleção argentina é limitada fisicamente, mas compensa isso com uma técnica apurada, tocam sempre na bola na defesa e encontram boas soluções no ataque. É uma equipe agradável de ver jogar, justamente por esse controle de bola. Os argentinos têm um voleibol muito bonito.

Saída de Rede – Você ainda não falou das seleções americanas…
Doug Beal – O que eu posso dizer… Honestamente, fiquei feliz com os dois bronzes, são medalhas olímpicas. Faltou pouco para chegarmos à final nos dois naipes, poderíamos ter saído do Rio com dois ouros, mas não foi assim. No caso da equipe feminina, na semifinal estávamos liderando o tie break por três pontos, mas alguns erros foram cometidos. A Sérvia foi melhor na reta final e mereceu ir à decisão. Aquela oposta deles, uma canhota muito nova (Tijana Boskovic), é excelente. Já a semifinal masculina… O que foi aquilo? Você estava lá, né.

Com o técnico do time masculino, John Speraw, após os EUA eliminarem a Polônia nas quartas de final da Rio 2016

Saída de Rede – Sim, vi de perto o que o Ivan Zaytsev (oposto italiano) fez.
Doug Beal – Então, ganhávamos o quarto set, a partida por 2-1, estávamos prontos para fechar o jogo, mas o Zaytsev foi para o saque e fez um estrago, quando não quebrava o nosso passe, fazia logo um ace. Ainda bem que tivemos forças para virar a partida na disputa do bronze. Eu fiquei feliz com o trabalho dos dois técnicos, Karch Kiraly (feminino) e John Speraw (masculino), tanto que a USAV renovou com ambos até Tóquio 2020. Temos duas seleções jovens, com muito potencial. Aliás, manter um bom trabalho em andamento é importante. Não dá para dispensar um técnico só porque houve um tropeço ou porque a medalha não foi a de ouro. Quem determina o padrão de uma equipe é o técnico, não os jogadores. Então é preciso valorizar os bons treinadores. Estou curioso para saber se o Bernardinho fica no comando da seleção masculina do Brasil ou não. Ele já decidiu?

Saída de Rede – Ainda não. Há poucos dias, numa entrevista à TV, ele disse que terá uma reunião na CBV em janeiro para decidir seu futuro.
Doug Beal – Espero que ele tome a melhor decisão para si. O conheço pessoalmente, não tanto quanto gostaria, e tenho profunda admiração por um dos melhores técnicos da história. Ele ama o esporte, mantém sua paixão sempre acesa, vive e respira voleibol. Fico contente que a CBV tenha renovado com Zé Roberto, era aquilo que eu falava há pouco: não se pode interromper um trabalho vitorioso por causa de um tropeço. A seleção feminina do Brasil perdeu nas quartas de final no Rio, mas já venceu muito pelas mãos do Zé Roberto. Vejo algumas federações mundo afora, e não vou citar nomes, que interrompem projetos que poderiam render bastante por causa de um resultado ruim. Não gosto disso, mas também não é problema meu.

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Perfil

Douglas Peter Beal
Nasceu no dia 4 de março de 1947
Cidade natal: Cleveland

1957 – Beal começou a jogar voleibol na escola primária
1970-1976 – Jogou pela seleção dos EUA
1978 – Ajudou a implantar o primeiro centro de treinamento de voleibol masculino dos EUA, em Dayton, Ohio
1977-1984 – Treinou a seleção masculina dos EUA, conduzindo-a ao ouro nos Jogos Olímpicos de 1984
1985-1987 – Diretor de Seleções da USAV
1988-1989 – Diretor da USAV
1989 – Entrou para o Hall of Fame
1990-1992 – Treinou o Mediolanum Gonzaga, equipe profissional da Liga Italiana
1995 – Primeiro treinador a receber o USAV All-Time Great Coach Award
1993-1997 – Assistente especial da Diretoria Executiva da USAV
2000 – Finalista na eleição da FIVB do “Treinador do Século XX”
1997-2004 – Voltou a treinar a seleção masculina dos EUA
2005-2017 – Diretor executivo da USAV


Ricardinho exalta seleção campeã de 2006: “Ganhava já no aquecimento”
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Sidrônio Henrique

No topo do mundo: Ricardinho celebra o bicampeonato mundial, conquistado no Japão (fotos: FIVB)

Naquela constelação brasileira que encantou o mundo na década passada, e que provavelmente chegou a seu ápice em 2006, sobravam estrelas. São poucos os que se arriscam a dizer quem era o melhor ali – sempre que era perguntado a respeito, o técnico Bernardinho insistia que havia 12 titulares. Mas para Doug Beal, treinador americano que revolucionou o vôlei ao introduzir a especialização nos anos 1980 e que desde 2005 comanda a USA Volleyball, organização que administra a modalidade nos EUA, alguém brilhava mais forte numa equipe com pesos-pesados como Giba e Dante, entre outros: era o levantador Ricardo Garcia. “O Brasil tem um time excepcional, mas Ricardo faz a diferença. Ele consegue sempre, mais do que qualquer outro levantador no mundo, deixar o time em condição de matar a jogada, distribui a bola como ninguém, numa velocidade incrível”, afirmava o americano há dez anos.

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Para diversos técnicos ao redor do mundo, Ricardinho foi o maior levantador de todos os tempos. Sorte a do Brasil, que contou ainda com virtuoses na posição como William Carvalho e Maurício Lima, ter tido alguém como ele. Dez anos depois da conquista do bicampeonato mundial pela seleção brasileira, o capitão da equipe lembra-se de detalhes e exalta o conjunto: “Aquela geração estava voando realmente no Mundial 2006, parecia uma máquina”, diz Ricardo ao Saída de Rede.

Rejeitado por ser gay, atleta do vôlei luta contra preconceito no esporte

O nível de excelência do time realmente impressionava. “Os jogadores já não precisavam mais se olhar em quadra para saber o que fazer”, conta Ricardinho. Ele destaca que o Brasil fazia os adversários tremerem, sentirem o peso da camisa verde-amarela. “A gente se impunha, ganhava já no aquecimento”, afirma o veterano, hoje com 41 anos, acumulando funções na quadra e nos bastidores do esporte. Atualmente, ele é capitão e também presidente do Copel Telecom Maringá Vôlei.

Neste sábado (3), o SdR relembrou os dez anos da conquista. Agora é a vez de trazer uma entrevista com Ricardinho sobre a seleção naquele torneio. Confira:

O capitão do Brasil ergue o troféu de campeão mundial

Saída de Rede – Você considera que, pelo nível de entrosamento dos atletas no final daquela temporada e pelo grau de sofisticação do jogo apresentado, a seleção brasileira que venceu o Mundial 2006 foi a melhor equipe que você viu?
Ricardo Garcia – Sem dúvida alguma, em 2006 a minha geração chegou a um nível de excelência absurdo. Os jogadores já não precisavam mais se olhar em quadra para saber o que fazer. Mesmo se viesse um passe ruim, eu já sabia onde estariam os caras, onde cada um se posicionava em diferentes situações. Acredito que naquele ano o time estava no seu melhor momento. Teve Atenas 2004 obviamente, a gente continuou crescendo até 2006, quando o time chegou a um nível em que a gente brincava em quadra. Claro que não vou comparar com outras gerações, isso aí fica a critério de quem acompanhou todas elas. Mas aquela geração estava voando realmente no Mundial 2006, parecia uma máquina.

Saída de Rede – Quais eram as principais características daquele time?
Ricardo Garcia – Muita velocidade. Não jogava tanto para pontuar no bloqueio ou no saque, mas sim numa virada de bola muito rápida e em contra-ataques também rapidíssimos. Nós contra-atacávamos praticamente na mesma velocidade do sideout.

Saída de Rede – De 0 a 10, que nota você daria para aquela seleção brasileira?
Ricardo Garcia – Sem dúvida alguma, nota 10. Se pudesse, dava 11. (risos)

O levantador no massacre sobre a seleção polonesa na final

Saída de Rede – Dando ao time a nota máxima, ainda é possível apontar alguma deficiência naquela equipe?
Ricardo Garcia – Havia uma luta constante por causa da nossa altura. Não éramos um time alto, tínhamos dificuldade contra algumas equipes no nosso bloqueio. E o Gustavo (Endres), que na época era quem comandava o time nesse aspecto dentro de quadra, às vezes me escondia. Havia tática diferente para cada jogo, para cada situação. Havia um responsável pelo treinamento da parte de bloqueio, na época era o Chico dos Santos, que comandava e articulava tudo isso aí, para a gente tentar brigar de igual para igual contra os gigantes. Era uma deficiência que nós tínhamos e que conseguimos suprir graças a um trabalho duríssimo do nosso treinador de bloqueio, o Chico dos Santos.

Saída de Rede – Quando o Brasil perdeu para a França na primeira fase por 1-3, você temeu que a conquista do torneio não fosse mais possível?
Ricardo Garcia – Esse jogo ficou marcado na minha memória porque era 19 de novembro, dia do meu aniversário. Lembro que antes do jogo eu havia chamado todo mundo para ir comemorar a data em um restaurante. A galera inteira foi para lá, a gente celebrou. Era como se tivesse sido uma vitória, mas era o meu aniversário. Aquilo ficou marcado, é até engraçado. Mas a equipe estava confiante. Em momento algum a gente achou que estava mal, tanto é que todos os jogadores foram ao restaurante. Em nenhum momento a gente sentiu que poderia perder o campeonato. Aquela foi uma daquelas derrotas que o grupo sabia assimilar muito bem, a gente acreditava muito no nosso potencial. Não era arrogância, não, tá. Tínhamos os pés no chão. Sabíamos que havia times que ofereciam perigo, sim, enfrentávamos isso com muita naturalidade, mas também com uma determinação muito grande.

Ricardo e o oposto André Nascimento celebram um ponto

Saída de Rede – A final contra a Polônia (um rápido 3-0) foi a partida mais perfeita que você viu a seleção fazer?
Ricardo Garcia – Aquele Mundial a gente jogava com os olhos fechados. A Polônia entrou para a final já derrotada… Tem uma situação que me lembro muito bem, antes do aquecimento o Serginho fazendo aquelas palhaçadas dele com a bola, jogando futebol. Nosso grupo estava bem tranquilo. Aliás, era característica daquele time, todo mundo era muito brincalhão. Cada um tinha um jeito de reagir, não havia um padrão e tudo isso era muito respeitado pela comissão técnica. Então a gente entrou para a quadra de aquecimento, antes da final, todo mundo chutando bola, brincando… Foi quando entrou a seleção polonesa já sentindo que não dava para eles, todos tensos, de cabeça baixa, enfileirados, um atrás do outro, em silêncio. A gente aproveitava esse momento, antes do jogo, e entrava forte contra os adversários, fazendo barulho para eles sentirem o peso da nossa camisa. A gente se impunha até mesmo antes, ganhava já no aquecimento. Você vai me perguntando as coisas e eu vou me lembrando de algumas situações… Mas foi realmente uma partida perfeita, uma das melhores que fizemos, assim como a final olímpica em 2004 contra a Itália, a semifinal olímpica diante dos Estados Unidos. A final do Mundial 2006 foi um momento em que a equipe estava muito tranquila, nem parecia uma final. Jogamos de uma forma muito sólida e conquistamos mais um título.

Saída de Rede – Aquele levantamento em velocidade para o oposto André Nascimento, feito após a linha de fundo, no quarto set da partida semifinal contra a Sérvia, foi o lance mais ousado que você já executou entre tantos na sua carreira?
Ricardo Garcia – Desde que eu comecei sempre tive essa característica de ousar, isso vem dos tempos de infantojuvenil. Agora brincam, dizem “ah, é gênio”, mas antes eu era considerado maluco. Quando eu tinha 14 anos ninguém falava que eu era gênio, todo mundo dizia que era maluquice o que eu fazia. Eu sempre gostei de forçar o jogo. Aquela bola já havia sido treinada e ocorreram vários erros durante os treinos. A diferença foi fazer num jogo como aquele, numa semifinal do Campeonato Mundial. O André Nascimento já esperava aquela bola, sabia que ia receber o levantamento. Fiz coisas assim depois, por exemplo, quando joguei pelo Vôlei Futuro… Quem gosta de mim fala que é genialidade, quem não gosta diz que é loucura, pois é uma bola forçada demais. (risos) É gostoso fazer aquilo, é uma característica minha, não vou mudar. Sem dúvida foi um dos lances mais impressionantes da minha carreira.


Lang Ping diz que só há duas opções para seu futuro
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Sidrônio Henrique

Lang Ping coach of China

Lang Ping conquistou o ouro olímpico como atleta e como treinadora, feito inédito no vôlei (foto: FIVB)

Aposentadoria ou seguir como técnica da seleção feminina da China. São essas as duas opções que Lang Ping, treinadora que levou as chinesas a conquista da medalha de ouro na Rio 2016, coloca para si mesma, reveladas esta semana numa entrevista à TV estatal CCTV, do seu país, e que teve seu conteúdo parcialmente reproduzido pelo site da Federação Internacional de Vôlei (FIVB).

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Ping, que completará 56 anos no dia 10 de dezembro, contou que recusou diversas ofertas de equipes no exterior, inclusive a seleção italiana. Ela já treinou times estrangeiros. Começou no voleibol universitário dos Estados Unidos, passou por clubes da Itália e comandou a seleção americana no ciclo 2005-2008.

Bernardinho recusa convite para dirigir seleção do Irã

Lang Ping havia conduzido a seleção feminina chinesa no período 1995-1999, quando levou o time ao bronze na Copa do Mundo 1995, à prata olímpica em Atlanta 1996, além do vice-campeonato mundial em 1998 – nas três competições o ouro ficou com Cuba. À frente dos EUA, outra prata nos Jogos Olímpicos, desta vez em Pequim 2008, perdendo a final para o Brasil, do técnico José Roberto Guimarães. Oito anos depois, agora novamente treinando a China, deu o troco em pleno Maracanãzinho, calando quase 12 mil torcedores que lotavam o ginásio, nas quartas de final da Rio 2016 – vitória asiática sobre as sul-americanas por 3-2, com 15-13 no tie break.

USA head coach Ping LANG (CHN)

No comando dos EUA em Pequim 2008 (foto: FIVB)

Primeiros grandes títulos
O ouro no Rio e a conquista da Copa do Mundo 2015 foram os únicos grandes títulos de Lang Ping como técnica de seleções. Ela persistiu e chegou lá. Em 2014, havia sido vice-campeã mundial com as chinesas mais uma vez, sendo derrotada na final pelos EUA, do treinador Karch Kiraly – a China quase caiu na terceira fase diante da República Dominicana, vencendo as caribenhas de virada por 3-2 para se manter viva.

A carreira de técnica de Ping começou logo depois de deixar as quadras como jogadora. No Mundial 1986, aos 25 anos, foi assistente da ex-colega no sexteto nacional Zhang Rongfang, que estava no comando quando a China conquistou seu segundo e último título do torneio. A partir do ano seguinte, foi auxiliar do time de vôlei feminino da Universidade do Novo México, nos EUA, onde estudou gestão esportiva. Dali foi para a Itália, assumindo a função de técnica da equipe da cidade de Modena. Voltou a jogar para tentar ajudar a seleção do seu país a conseguir, em casa, o tricampeonato mundial, em 1990, mas teve que se contentar com a prata, caindo na decisão contra a antiga União Soviética. Depois, retomou a carreira de treinadora, seguindo para a Universidade do Novo México.

Como atleta, MVP em Los Angeles 1984 (Reprodução/Internet)

Ícone chinês
Fez história como atleta, sendo considerada a maior jogadora do mundo nos anos 1980, uma ponteira completa, quase perfeita em todos os fundamentos, que esbanjava técnica, conhecida como Iron Hammer (Martelo de Ferro). Ícone em seu país, teve seu primeiro casamento transmitido ao vivo pela TV. O governo comunista a considerava um modelo para a juventude chinesa. Esses anos todos, nunca perdeu o status de ídolo, agora ainda mais forte após o ouro na Rio 2016.

Chegou à seleção adulta com apenas 17 anos, em 1978. Mas passou a brilhar mesmo a partir de 1981, quando a China começou um domínio absoluto que duraria até meados da década. Era a estrela principal de uma equipe repleta de grandes jogadoras. Seu currículo como atleta impressiona: venceu a Copa do Mundo 1981 e 1985, Mundial 1982 e a Olimpíada de Los Angeles 1984, onde foi a melhor jogadora da competição.

Mais uma vez escolhida MVP e prestes a completar 25 anos, anunciou aposentadoria precoce após a Copa do Mundo 1985, para desespero dos fãs, que só a veriam em ação num retorno sob encomenda para aquele Mundial 1990.

É a única, entre homens ou mulheres, a conquistar o ouro olímpico no voleibol como atleta e como treinadora. A seleção feminina chinesa tem três ouros olímpicos e Lang Ping só não participou da campanha de Atenas 2004. Ela entrou para o Hall da Fama do Vôlei em 2002.

Além da indecisão entre sair de cena ou continuar no comando do time que conta com Ting Zhu e cia, Ping precisa de um tempo para se recuperar de uma lesão no joelho que tem provocado fortes dores.


Corrida pelo cargo de técnico da Polônia tem ares de reality show
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Sidrônio Henrique

 

MontagemPolonia

Dezesseis concorrentes, muita exposição na mídia, intrigas, especulação, torcida, palpites e apenas um prêmio. Não, não é nenhum reality show, mas a corrida pela sucessão de Stéphane Antiga, demitido do cargo de técnico da seleção masculina da Polônia no dia 10 de outubro. Se dependesse da apaixonada torcida polonesa ou da imprensa local, haveria votação para decidir quem fica com o posto. A Federação Polonesa de Vôlei (PZPS) abriu inscrições para quem quisesse se candidatar a vaga aberta com a dispensa de Antiga, que não resistiu ao fiasco na Rio 2016 – a Polônia amargou sua quarta eliminação consecutiva nas quartas de final das Olimpíadas. O resultado será anunciado no final de novembro.

Até agora, 14 dos 16 nomes são conhecidos. Inicialmente, a PZPS revelou quem eram 11 candidatos, mantendo os outros cinco em sigilo a pedido deles. Nos últimos dias, a imprensa polonesa teve acesso a mais três nomes. Não faltam notas plantadas na mídia elevando um ou denegrindo outro, além de discussões acaloradas nas redes sociais. A lista é, digamos, eclética – tem gente talentosa e alguns na base do “vai que cola”, como o desempregado Yuri Marichev, aquele que dirigiu a seleção feminina da Rússia no ciclo recém-encerrado e ficou célebre pelos atabalhoados pedidos de desafio em vídeo, além de claramente perder o controle da equipe.

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Todos os nomes revelados têm experiência, a maioria deles italianos, e curiosamente nenhum polonês – o último a dirigir a seleção do país foi Stanislaw Gosciniak, na Olimpíada de Atenas, em 2004. Os 14 nomes revelados que estão concorrendo ao cargo são: Andrea Anastasi, Andrea Gardini, Andrea Giani, Ferdinando De Giorgi, Emanuele Zanini, Daniel Castellani, Radostin Stoychev, Yuri Marichev, Igor Kolakovic, Mauro Berutto, Daniele Bagnoli, Camillo Placi, Lorenzo Bernardi e Slobodan Kovac. Especula-se que os outros dois seriam o argentino Raul Lozano e o italiano Angelo Lorenzetti.

Jogadores poloneses desolados após eliminação na Rio 2016 (fotos: FIVB)

Favorito
Informações de bastidores apontam para o búlgaro Radostin Stoychev como o favorito do presidente da PZPS, Jacek Kasprzyk. Conhecido por seu estilo ortodoxo, Stoychev construiu sua reputação no comando do clube italiano Trentino, onde colecionou títulos – quatro mundiais e três da Liga dos Campeões da Europa. Ele dirigiu a seleção da Bulgária em 2011 e 2012, saindo antes dos Jogos de Londres por se desentender com a federação do seu país. Nos últimos meses, o búlgaro estava de olho mesmo era no cargo de técnico da seleção italiana, um velho sonho, mas viu tudo ir por água abaixo com o inesperado sucesso do novato Gianlorenzo Blengini, vice-campeão olímpico e da Copa do Mundo com a Azzurra. Quem não tem Itália, vai de Polônia… Isso se for ele o ganhador.

Ferdinando De Giorgi, atual campeão polonês com o Zaksa Kedzierzyn Kozle, Andrea Giani, que levou a Eslovênia ao surpreendente vice-campeonato europeu em 2015, e Angelo Lorenzetti, atualmente à frente do Trentino, estão bem cotados. Assim como Stoychev, são respeitados no mercado. Porém, a PZPS gosta de surpreender. Não estranhe se vir como o escolhido algum nome improvável como Igor Kolakovic ou Mauro Berutto, técnicos da Sérvia e da Itália, respectivamente, no ciclo passado.

Seleção polonesa enfrenta muita cobrança dos fãs e da imprensa

Tarefa ingrata
Ser técnico da seleção polonesa não é tarefa fácil. A pressão é mais intensa do que comandar, por exemplo, o Brasil, a Rússia ou a Itália. O voleibol é o segundo esporte do país, depois do futebol, mas a popularidade é bem maior do que a vista por aqui. A imprensa faz marcação cerrada. Alguns veículos da mídia polonesa não temem sequer cair no ridículo. Houve quem considerasse que Bernardinho estava na briga – imagine aí o multicampeão enviando currículo para a PZPS, cujo orçamento é bem menor do que o da CBV, disposto a dirigir um time com limitações óbvias. Se você considerar que não há tantos talentos por lá e os resultados não chegam a impressionar, estar à frente da seleção polonesa masculina de vôlei pode virar um tormento. Foi assim com os quatro últimos treinadores.

Gangorra da Superliga tem favoritos em alta e público carioca em baixa

Antiga que o diga… O francês levou a Polônia, em casa, ao título do Mundial 2014. Contou com inúmeras contusões de brasileiros e russos, favoritos à época, além de manobras de bastidores e o providencial empurrão dos apaixonados fãs poloneses. Mesmo com a conquista, ninguém de fora exaltava a Polônia. O time tem problemas na execução do jogo, seu oposto titular, Bartosz Kurek, desaparece da partida nos momentos cruciais, e a equipe não é grande coisa sem seu saque. Naturalmente, não ganharam nada depois do surpreendente Campeonato Mundial, mas as cobranças dos fãs, dos jornalistas e da federação não cessam – ao contrário, é exigida da seleção polonesa uma grandeza que ela definitivamente não tem. A eliminação na Rio 2016 foi o estopim. Stéphane Antiga caiu.

Suelle fala sobre desentendimento no Pinheiros e futuro na carreira

O último treinador a durar um ciclo olímpico inteiro foi o argentino Raul Lozano, de 2005 a 2008, que mesmo assim saiu às turras com a PZPS. Desde então, ninguém ficou além de três temporadas. Não vai ser fácil conduzir a Polônia ao topo. O voleibol masculino atual é mais equilibrado do que na década passada, período em que o Brasil dava as cartas, mas os poloneses estão em clara desvantagem quando se pensa, por exemplo, nos quatro semifinalistas da Rio 2016, ou ainda em outras equipes como a também eliminada França, além de terem em seus calcanhares times como a ascendente Argentina. É bom que o vencedor dessa corrida para o cargo de técnico mantenha seu currículo atualizado, só por precaução.


Giba e Nalbert no jogo das estrelas na Polônia
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Sidrônio Henrique

Giba e Nalbert com Zagumny (de cinza) e autoridades polonesas durante evento nesta quarta-feira em Varsóvia (foto: Reprodução/Facebook)

Uma comemoração um pouco tardia pelos serviços prestados à seleção, mas antes tarde do que nunca, afinal o homenageado é um dos maiores jogadores poloneses de todos os tempos, o levantador Pawel Zagumny, que em outubro completa 39 anos. Nesta sexta-feira (9) em Gdynia, norte da Polônia, e no domingo (11) em Katowice, sul do país, um combinado de astros do voleibol polonês enfrenta os astros do mundo, equipe que inclui dois brasileiros campeões mundiais e olímpicos, os ex-ponteiros Giba e Nalbert.

O time dos astros poloneses inclui jogadores da atualidade e do passado, e será dirigido pelo técnico argentino Raul Lozano, que levou a Polônia ao vice-campeonato mundial em 2006 (derrotada na final pelo Brasil por 3-0). Entre as estrelas polonesas estão os opostos Mariusz Wlazły e Bartosz Kurek, o central Piotr Nowakowski, o líbero Krzysztof Ignaczak, os pontas Michal Winiarski, Michal Kubiak, Sebastian Swiderski e o também ponta cubano naturalizado polonês Wilfredo Leon. A ponteira Malgorzata Glinka será a representante feminina na equipe da casa.

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Exclusivo: FIVB vai alterar classificação para Tóquio 2020

Sob a orientação do técnico russo Vladimir Alekno, ouro em Londres 2012 e bronze em Pequim 2012, os astros do mundo terão entre jogadores aposentados e em atividade os italianos Andrea Gardini (central), Andrea Giani (universal), Andrea Zorzi (oposto), o levantador sérvio Nikola Grbic e seu irmão ponteiro Vlad Grbic, o ponta francês Stephane Antiga (técnico da Polônia de 2014 a 2016), os russos Sergei Tetyukhin (ponta) e Dmitriy Muserskiy (central), o ponta francês Earvin N’Gapeth e o ponta americano Karch Kiraly, além dos dois brasileiros já mencionados. A representante feminina será a oposta russa Ekaterina Gamova.

Pawel Zagumny em ação na final do Mundial 2014 (foto: FIVB)

Carreira
Zagumny jogou pela seleção polonesa de 1995 a 2014, ano em que conseguiu o maior título da sua carreira, o de campeão mundial, justamente jogando em seu país – disputou a decisão diante do Brasil na mesma Spodek Arena onde jogará este domingo. Embora reserva no Mundial 2014 devido a vários problemas físicos, o veterano foi essencial na decisão do torneio. Após substituir o titular Fabian Drzyzga a partir do segundo set, permaneceu até o final, sendo peça-chave ao lado do ponta Mateusz Mika para a vitória da Polônia por 3-1. Conquistou ainda a Liga Mundial 2012, o Europeu 2009, foi vice-campeão mundial em 2006 e vice da Copa do Mundo 2011.

Depois de cinco temporadas no Zaksa Kedzierzyn-Kozle, um dos principais clubes da Polônia, tendo ainda passagens pelas ligas italiana e grega, Zagumny joga desde o ano passado no razoável Politechnika Warszawska, mesmo clube onde jogou no começo da sua carreira. Tinha apenas 17 anos quando chegou à seleção adulta. Disputou quatro Olimpíadas: Atlanta 1996, Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012 – jamais passou das quartas de final.


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